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   Chapter 14 14

A Cidade e as Serras By Eca de Queiros Characters: 13715

Updated: 2017-11-30 00:02


Ao outro dia, depois d'almo?o, eu e Jacintho montamos a cavallo para um grande passeio até á Fl?r da Malva, a saber de meu tio Adri?o, e do seu furunculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de testemunhar a impress?o que daria ao meu Principe aquella nossa prima Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. Já n'essa manh?, andando todos no jardim a escolher uma bella rosa chá para a botoeira do meu Principe, a tia Vicencia celebrára com tanto fervor a belleza, a gra?a, a caridade, e a do?ura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:

-Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas á Virgem Maria! A tia Vicencia está a cahir em peccado de idolatria! O Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo!

E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, lembrava-me aquella manh?, no 202, em que Jacintho encontrára o retrato d'ella no meu quarto, e lhe chamára uma lavradeir?na. Com effeito, era grande e forte a Joanninha. Mas a photographia datava do seu tempo de vi?o rustico, quando ella era apenas uma bella forte e s? planta da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e sentia,-e a alma que n'ella se formára, afinára, amaciára, e espiritualisava o seu esplendor rubicundo.

A manh?, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia uma do?ura luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Euripedes ou o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma pregui?ar, sem pressa nem cuidados. A estrada n?o tinha sombra, mas o sol batia muito de leve, e ro?ava-nos com uma caricia quasi alada. O valle parecia a Jacintho, que nunca ali passára, uma pintura da Escola Franceza do seculo XVIII, t?o graciosamente n'elle ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e frescura corria o risonho Serp?o, e t?o affaveis e promettedores de fartura e contentamento alvejavam os casaes nas verduras tenras! Os nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, gosando tambem a paz da manh? adoravel. E n?o sei, nunca soube, que plantasinhas silvestres e escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, n'aquelle caminho, ao come?ar o outomno.

-Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a Fl?r da Malva é o caminho do ceu... Oh Zé Fernandes, de que é este cheirinho t?o doce, t?o bom?

Eu sorri, com certo pensamento:

-N?o sei... é talvez já o cheiro do ceu!

Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle:

-Olha, acolá, onde está aquella fila d'olmos, e ha o riacho, já s?o terras do tio Adri?o. Tem alli um pomar, que dá os pêcegos mais deliciosos de Portugal... Hei de pedir á prima Joanninha que te mande um cesto d'elles. E o d?ce que ella faz com esses pêcegos, menino, é alguma cousa de celeste. Tambem lhe hei de pedir que te mande o d?ce.

Elle ria:

-Será explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) recordei e atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio:

-Manda-lhe um servo querido,

Bem hajas dona formosa!

E que lhe entregue um annel

E com um annel uma rosa.

Jacintho rio alegremente:

-Zé Fernandes, seria excessivo, só por causa de meia duzia de pêcegos, e d'um boi?o de d?ce.

Assim riamos, quando appareceu, á volta da estrada, o longo muro da quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. José de Sandofim. E immediatamente piquei para o largo, para a taverna do T?rto, por causa d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado:

-Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois d'almo?o, vaes beber vinho branco?

-é um costumesinho antigo... Aqui á taverninha do T?rto... um decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede.

E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.

-Dous copos, T?rto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem aprecia.

Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia, e um estalinho de alto apre?o.

-Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes... é perfeito.

-Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, todo alma!... Encha lá outra vez os copos, amigo T?rto. Este cavalheiro aqui é o Snr. D. Jacintho, o fidalgo de Tormes.

Ent?o, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente, solemnemente:

-Bemdito seja o pae dos Pobres!

E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que lhe comiam a face c?r de tijolo, assomou no v?o da porta, apoiado a um bord?o, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacintho dous olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio Jo?o Torrado, o propheta da Serra... Logo lhe estendi a m?o, que elle apertou, sem despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir outro copo, apresentei Jacintho, que córára, embara?ado.

-Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem á pobreza.

O velho atirou para elle bruscamente o bra?o, que sahia cabelludo e quasi negro, d'uma manga muito curta.

-A m?o!

E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, Jo?o Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo, murmurando:

-M?o real, m?o de dar, m?o que vem de cima, m?o já rara!

Depois tomou o copo, que lhe offerecia o T?rto, bebeu com immensa lentid?o, limpou as barbas, deu um geito á correia que lhe prendia a caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no ch?o:

-Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe, que n?o o meu dia, e vi um homem!

Eu ent?o debrucei-me para elle, mais em confidencia:

-Mas, ó tio Jo?o, ou?a cá! Sempre é certo você dizer por ahi, pelos sitios, que El-Rei D. Sebasti?o voltára?

O pittoresco velho apoiou as duas m?os sobre o cajado, o queixo d'espalhada barba sobre as m?os, e murmurava, sem nos olhar, como seguindo a percuss?o dos seus pensamentos:

-Talvez voltasse, talvez n?o voltasse... N?o se sabe quem vae, nem quem vem. A gente vê os corpos, mas n?o vê as almas que est?o dentro. Ha corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo é vestido, alma é pessoa... Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, quando se anda aos encontr?es entre os vaqueiros... Em ruim corpo se esconde bom senhor!

E como elle findára n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti:

-Mas, ó tio Jo?o, você realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei D. Sebasti?o n?o morreu na batalha?

O velho ergueu para mim a face, que se enrugára n'uma desconfian?a:

-Essas cousas s?o muito antigas. E n?o calham bem aqui á porta do T?rto. O vinho era bom, e V. S.a tem pressa, meu menino! A fl?r da Fl?r da Malva lá tem o paesinho doente... Mas o mal já vae pela serra abaixo com a incha??o ás costas. Dá gosto vêr quem dá gosto aos tristes. Por cima de Tormes ha uma estrella clara. E é trotar, trotar, que o dia está lindo!

Com a magra m?o lan?ou um gesto para que seguissemos. E já passavamos o cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade cava:

-Bemdito seja o Pae dos Pobres.

Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as acclama??es d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino um Sebastianista.

-Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada um espera o seu D. Sebasti?o. Até a loteria da Misericordia é uma forma do Sebastianismo. Eu todas as manh?s, mesmo sem ser de nevoeiro, espreito, a vêr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma D. Sebastiana... E tu, felizardo?

-Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... Sou o ultimo Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa é aquella com os dous torre?es?

-A Fl?r da Malva.

Jacintho tirou o relogio:

-S?o tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e instructivo. é lindo este sitio.

Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro cerrava, e dominando, a Fl?r da Malva voltava para Oriente e para o Sol a sua longa fachada com os dous torre?es quadrados, onde as janellas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande port?o de ferro, ladeado por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um burro pela arreata.

-Está por ahi o Manoel da Porta?

-Ainda agora subio pela alameda.

-Bem: empurra lá o port?o.

E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, até outro terreiro, com um alpendre, uma casa de mo?os, toda coberta d'heras, e uma casota de c?o, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o Trit?o, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Zé Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para nos segurar os cavallos.

-Como está o tio Adri?o?

Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado:

-E ent?o vossa excellencia, bem? A Snr.a D. Joanninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da Josepha.

Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado todo.

-Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma verdadeira filharada. E n?o é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as m?es. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paix?o d'este Josésinho.

Mas quando chegamos ao laranjal, á beira da larga rua da quinta que levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei:-Eh, prima Joanninha!...

-Talvez esteja lá para baixo, para o tanque...

Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura de ver?o. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com do?ura, todo amarello e branco, dos malmequeres e bot?es d'ouro.

O tanque, redondo, f?ra esvasiado para se lavar, e agora de novo o repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto cheio de dhalias cortadas. E um mo?o, que sobre uma escada podava as camelias, vira a Snr.a D. Joanna seguir para o lado da parreira.

Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes nogueiras. Gritei:-Eh lá? Vocês viram por ahi a Snr.a D. Joanna? Uma das mo?as esgani?ou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.

-Bem: vamos a casa! N?o podemos farejar assim, toda a tarde.

-é uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado.

-Magnifica! E bem tratada... O tio Adri?o tem um feitor excellente... N?o é o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle cebolinho!

Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhára o meu Principe, com os seus talh?es debruados d'alfazema, e madresilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de parra densa. E démos volta á capella, onde crescia aos dous lados da porta uma roseira chá, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos no terra?o em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidra?ada estava aberta: e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a Fl?r da Malva repousava, até á ante-camara, d'altos tectos apainelados, com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um canario.

-é curioso!-exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas cadeiras.

E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro lavrado tinham, como as que elle descobrira no sot?o, umas armas sob um chapéo de Cardeal.

-Oh senhores! exclamei. N?o haverá um creado?

Bati as m?os, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas.

-é o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi indignado. Dá um berro!

-N?o, caramba! Vou lá dentro!

Mas, á porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha, córada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pesco?o, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos cabellos,-lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos, luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e c?r de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes la?os azues.

E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Fl?r da Malva, vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o grande pé de roseira se cobrira todo de rosas.

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