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   Chapter 12 12

A Cidade e as Serras By Eca de Queiros Characters: 9326

Updated: 2017-11-30 00:02


Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um Domingo. Toda essa semana a passára eu em Gui?es, nos preparos da vindima,-e de manh? cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debru?ar da varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Zé Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe ?o pessoal? da serra, convidára para jantar algumas familias amigas, dos arredores, as que tinham carruagens ou carro??es, e podiam, pelas estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre, no pateo, já enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo ás dez horas me desesperei, ao receber, por um mo?o da Fl?r da Malva, uma carta da prima Joanninha, em que dizia ?a pena de n?o poder vir porque o Papá estava desde a vespera com um leicen?o, e ella n?o o queria abandonar.? Corri indignado á cosinha, onde a tia Vicencia presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa terrina.

-A Joanninha n?o vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leicen?o... Aquelle tio Adri?o escolhe sempre os grandes dias para ter leicen?os, ou para ter a pontada...

A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se.

-Coitado! será em sitio que n?o se pudesse sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho de folhas d'alecrim. é com que teu tio se dava bem.

Eu gritei simplesmente para o mo?o, que dava de beber ao burro no pateo:

-Dize á Snr.a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu lá appare?a ámanh?.

E voltei á janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito atrazado, já cantára a meia hora depois das dez e o Principe tardava para o almo?o. Mas, mal eu me chegára á varanda, appareceu justamente na volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo, seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albard?o da velha egoa do Melchior. Atraz, um mo?o com uma maleta á cabe?a. E eu, na alegria de avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civiliza??o, nós bebemos tristemente ad manes, aos nossos mortos!

-Salvè! gritei da varanda. Salvè, domine Jacinthi!

E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta!

-Isto por aqui tambem é lindo!-gritou elle de baixo. E o teu palacio tem um soberbo ar... Por onde é a porta?

Mas eu já me precipitava para o pateo-onde Jacintho, apeando, contou alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montára a cavallo, e n?o cessára de berrar ante os perigos d'aquella aventura.

E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor da sua negrura, exclamava, apontando com a m?o tremula para a pobre egoa, que solta, de cabe?a pensativa, parecia de pedra, sobre as patas mais immoveis que marcos:

-Pois se o si? Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me sacudir! Só para me sacudir!

E n?o resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa contra a egoa, sobre o albard?o.

Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a commoda, e adornára a cama com uma das nossas colxas da India mais ricas, c?r de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido. Ent?o estreitamos os ossos n'um grande abra?o, pelo natalicio... ?Trinta e oito, hein, Zé Fernandes??-?Trinta e quatro, animal!? E o meu Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os ?nobres presentes, que s?o devidos?, como diz sempre o astuto Ulysses na Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a prodigalidade.

-é tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem á noite. E tomei a liberdade de trazer esta lembran?a á tua tia Vicencia. N?o vale nada... é só por ter pertencido á princeza de Lamballe.

Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto flor

ido e quasi galante.

-A tia Vicencia n?o sabe quem é a princeza de Lamballe, mas ficará encantada! E é uma garantia, por que ella suspeita da tua religi?o, como homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao almo?o!

A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado pedido ?para se lembrar d'elle nas suas ora??es?, duas largas rosas, mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces redondas da boa senhora, que nunca recebera t?o piedoso presente, com t?o linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo appetite de Jacintho, a enthusiasmada convic??o com que elle, accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha, jurava nunca ter provado nada t?o sublime. Ella resplandecia:

-Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas recheadas...

-Com certesa, minha senhora! até duas! As minhas ra??es, em mesas d'estas, t?o perfeitas, s?o sempre as de Gargantua.

-N?o cites Rabelais, que a tia Vicencia n?o conhece os auctores profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco cá da nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.

E o almo?o foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia Vicencia, e as esperan?as da vindima, e a minha prima Joanninha, que tinha o papá doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o enternecimento maior foi quando, ao servir o café, o creado poz ao lado de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado pau de canella. N?o o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho de canella!-Queria que elle, em Gui?es, continuasse os seus habitos como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adop??o do meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia.

Ella em breve recolheu á cosinha, aos preparativos do banquete. Nós fumamos um pregui?oso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario, mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um pé de vinha. Só quando a sua face come?ou a opar e a empallidecer, de can?a?o, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um vago-?muito bonito! bella terra!?-é que voltei os passos para casa, tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma planta??o d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. Jo?o I por Fern?o Lopes, a primeira edi??o do Imperador Clarimundo, uma Henriada, com a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o arrastei á adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei ?que iriamos agora vêr a tulha.? Mas ent?o, com as m?os nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de crean?a:

-N?o se me dava de me sentar um poucochinho!

Tive ent?o piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descal?ou as botas, se atirou para um fresco canapé forrado de ganga, murmurando n'um abatimento profundo:-?Bella propriedade!?

Consenti generosamente que elle adormecesse,-e eu mesmo desci a verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as m?os, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha ru?a. Espreitando da janella descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob o guarda-pó, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava á pressa as suas pulseiras ricas de topazios.

-Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... N?o se demore, os outros n?o tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de gravata bem teza!... Vamos a vêr como corre a festa!

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