MoboReader > Literature > A Cidade e as Serras

   Chapter 11 11

A Cidade e as Serras By Eca de Queiros Characters: 11173

Updated: 2017-11-30 00:02


No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Gui?es. E, desde ent?o, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa estrada familiar, conduzindo a uma cavallari?a familiar, (onde ella privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. Até a tia Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. Já um dia com um gr?o de sal e ironia,-o unico que cabia n'um cora??o todo cheio d'innocencia,-ella me dissera, movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia:

-Olha que te podes gabar! Até me tens feito curiosidade de conhecer esse Jacintho... Traze cá essa maravilha, menino!

Eu rira:

-Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos, a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico no pateo, e vem ahi toda essa senhorama dos arredores. Talvez até se arranje uma noiva para o Jacintho.

Eu, com effeito, já convidára o meu Principe para este ?natalicio?. E de resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solid?o muito monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solid?o.

-E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconcilia??o com a Natureza, e o renunciamento ás mentiras da Civilisa??o é uma linda historia... Mas, caramba, faltam mulheres!

Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:

-Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas senhoras ahi das casas dos arredores... N?o sei, estou pensando que se devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a panella-mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam ás Flores s?o sempre as mulheres das C?rtes, das Capitaes, ás quaes, invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E evidentemente n?o ha perfume, nem gra?a, nem elegancia, nem requinte, n'uma cenoura ou n'uma couve... N?o devem ser interessantes as senhoras da minha serra.

-Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com effeito, salvo o respeito que se deve á casa illustre dos Barbedos, é um mostrengo! A irm? dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem n?o tentaria nem mesmo o precisado Santo Ant?o. Sobretudo se se despisse, por que é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e n?o dos nutritivos.

-Tu o disseste: espinafre!

-Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa é bonita... Mas, menino, que horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te n?o sei descrever, o tom com que se falla em D. Maria, em pe?as de sentimento. Tu tambem nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas pavorosas. ?V. Ex.a. Snr. Doutor, n?o se delicia com Lamartine?? Já me disse esta, a indecente!

-E tu?

-Eu! Arregalei os olhos... ?Oh Lamartine!?. Mas, coitada, é uma excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Roj?es, as filhas de Jo?o Roj?o, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas. Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que é uma belleza. Oh! uma creatura esplendida! Mas, emfim, é a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos deveres da Civilisa??o... Além disso, mulher muito séria, toda absorvida nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a Mello Rebello, de Sandofim, muito engra?ada, com cabello lindo... Borda na perfei??o, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora n?o me lembro mais. Mas falta a fl?r da Serra, que é a minha prima Joanninha, da Fl?r da Malva! Essa é uma perfei??o de rapariga.

-E tu, primo Zé, como tens tu resistido?

-Somos como irm?os, creados de pequeninos, mais acostumados e familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A m?e d'ella era a unica irm? da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha, quasi desde o ber?o que se creou em nossa casa, em Gui?es. O pae é bom homem, o tio Adri?o. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes, fivellas... Tem uma collec??o curiosa. Elle ha muito que deseja vir a Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, n?o póde montar a cavallo. E a estrada da Fl?r da Malva aqui é impossivel para carruagens...

O meu Principe espregui?ára longamente os bra?os:

-N?o, está claro! eu é que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia... Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora ando todo occupado com o meu povo.

E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes.

Na taberna do Pedro, á entrada da freguezia, ia um desusado movimento, de pedreir

os e carpinteiros contractados para as obras;-e o Pedro, com as mangas arrega?adas, por traz do balc?o, n?o cessava de encher os decilitros com uma vasta enfusa.

Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manh?s cedo percorria as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisa??o! O plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfei?oado. Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume da serra, decidira p?r vidra?as, apezar do mestre d'obras lhe dizer honradamente, que depois d'habitadas um mez, n?o haveria casa com um só vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;-e eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do Bom-senso, para n?o dotar cada casa com campainhas electricas. Nem sequer me espantei, quando elle uma manh? me declarou que a porcaria da gente do campo provinha de elles n?o terem onde commodamente se lavar, pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos n'esse momento, com os cavallos á redea, por uma azinhaga precipitada e escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava ruidosamente entre as pedras. Eu n?o me espantei-mas realmente me pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam alegremente do meu Principe. E além d'estes confortos, a que o Jo?o, mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava ?as grandezas?, Jacintho meditava o bem das almas. Já encommendára ao seu architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria erguer, n'aquelle campo da Carri?a, junto á capellinha que abrigava ?os ossos?. Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem já n?o era possivel ensinar a lêr. Eu vergava os hombros, pensando:-?Ahi vem a terrivel accumula??o das No??es! Eis o livro invadindo a Serra!? Mas outras idéas de Jacintho eram tocantes,-e eu mesmo me enthusiasmei, e excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde elle esperava ter manh?s muito divertidas vendo as creancinhas a gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso boticario de Gui?es estava já apalavrado para estabelecer uma pequena pharmacia em Tormes, sob a direc??o do seu praticante, um afilhado da tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do Douro no Almanach de Lembran?as. E já f?ra offerecido o partido medico de Tormes, com ordenado de 600$000 réis.

-N?o te falta sen?o um Theatro! dizia eu, rindo.

-Um theatro n?o. Mas tenho a idéa d'uma sala, com projec??es de lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia.

E tambem me ensoberbeci com esta innova??o!-E quando a contei ao tio Adri?o, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada tremenda na c?xa. ?Sim, senhor! Bella idéa! Assim se podia ensinar áquella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a Historia Romana, até a Historia de Portugal!...? E voltado para a prima Joanninha, o tio Adri?o declarou Jacintho um ?homem de cora??o!?

E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe. N'aquelle, ?guarde-o Deus, meu senhor!? com que as mulheres ao passar o saudavam, se voltavam para o vêr ainda, havia uma seriedade d'ora??o, o bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As crean?as a quem elle distribuia tost?es, farejavam de longe a sua passagem,-e era em torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, já n?o tinham medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapára, ao desembocar da alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por dedica??o ensaibrar e alisar aquelle peda?o perigoso de caminho, aterrados com o risco que correra o bom senhor. Já pela serra se espalhava esse nome de ?bom senhor?. Os mais edosos da freguezia n?o o encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos desdentados:-Este é o nosso bemfeitor! Por vezes, alguma velha corria do fundo do eido, ou vinha á porta do casebre, ao avistal-o no caminho, para gritar, com grandes gestos dos bra?os magros: ?Ai que Deus o cubra de ben??os! Que Deus o cubra de ben??os!?

Aos domingos, o padre José Maria, (bom amigo meu e grande ca?ador) vinha de Sandofim, na sua egoa ru?a, a Tormes, para celebrar a missa na Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o n?o suppuzessem estranho a Deus. Quasi sempre ent?o elle recebia presentes, que as filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe á varanda, e eram vasos de manjaric?o, ou um grosso ramalhete de cravos, e por vezes um gordo pato. Havia ent?o uma distribui??o de cavacas e merengues de Gui?es, ás raparigas e ás crean?as,-e, no pateo, para os homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio já sustentava com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve disporia de mais votos nas elei??es que o Dr. Alypio. E eu proprio me impressionei, quando o Melchior me contou que o Jo?o Torrado, um velho singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario, vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D. Sebasti?o, que voltára!

(← Keyboard shortcut) Previous Contents (Keyboard shortcut →)
 Novels To Read Online Free

Scan the QR code to download MoboReader app.

Back to Top

shares