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   Chapter 10 10

A Cidade e as Serras By Eca de Queiros Characters: 19386

Updated: 2017-11-30 00:02


N'uma dessas manh?s-justamente na vespera do meu regresso a Gui?es-, o tempo, que andára pela serra t?o alegre, n'um inalterado riso de luz rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e alegrando toda a natureza, desde os passaros até os regatos, subitamente, com uma d'aquellas mudan?as que tornam o seu temperamento t?o semelhante ao do homem, appareceu triste, carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza t?o pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E n?o houve mais passaro que cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com um lento murmurio de ch?ro.

Quando Jacintho entrou no meu quarto, n?o resisti á malicia de o aterrar:

-Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita agua, Snr. D. Jacintho! Talvez duas semanas d'agua! E agora é se vae saber quem é aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com vendaval, com a serra toda a escorrer!

O meu Principe caminhou para a janella com as m?os nas algibeiras:

-Com effeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das malas de Paris e tirar um casac?o impermeavel... N?o importa! Fica o arvoredo mais verde. E é bom que eu conhe?a Tormes nos seus habitos d'inverno.

Mas como o Melchior lhe affian?ára que a ?chuvinha só viria para a tarde?, Jacintho decidiu ir antes d'almo?o á Corujeira, onde o Silverio o esperava para decidirem da sorte d'uns castanheiros, muito velhos, muito pittorescos, inteiramente interessantes, mas já roidos, e amea?ando desabar. E, confiando nas previs?es do Melchior, partimos sem que Jacintho se vestisse á prova d'agoa. N?o andaramos porém meio caminho, quando, depois d'um arrepio nas arvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa chuva obliqua, vergastada pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapeus, enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esgani?ava no vento, avistamos n'um campo mais alto, á beira d'um alpendre, o Silverio, debaixo d'um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para lá rompemos, com a chuva a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval, que n'um instante alagára os campos, inchára os ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lan?ára n'um desespero todo o arvoredo, tornára a serra negra, bravamente agreste, hostil, inhabitavel.

Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos esperava á beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Principe, enxugando a face, enxugando o pesco?o, murmurou, desfallecido:

-Apre! que ferocidade!

Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra t?o amavel e accolhedora, que em dous mezes, inalteradamente, só lhe offerecera do?ura e sombra, e suaves ceus, e quietas ramagens, e murmurios discretos de ribeirinhos mansos.

-Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?

Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe:

-Isto agora s?o brincadeiras de ver?o, meu senhor! Mas ha de V. Ex.a vêr no inverno, se V. Ex.a se aguentar por cá! Ent?o é cada temporal, que até parece que os montes estremecem!

E contou como f?ra tambem apanhado, quando ia para a Corujeira. Felizmente, logo pela manh?, quando sentiu o ar carrancudo e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelára com o chapeu de chuva e cal?ára as suas grandes botas.

-Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um caseiro de cá. Aquella casa, ali abaixo, onde está a figueira... Mas a mulher tem estado doente, já ha dias... E como póde ser obra que se pegue, bexigas ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! Metti para o alpendre... E n?o passára um credo quando lobriguei a V. Ex.a... Coisa assim!... E o Snr. D. Jacintho é voltar para casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa.

Mas, justamente, a chuva come?ára a cahir perpendicular, d'um ceu ainda negro, onde o vento se calára; e para além do rio e dos montes havia uma claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.

Jacintho repousava. Eu n?o cessára de me sacudir, de bater os pés encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silverio, passando a m?o pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus prognosticos:

-Pois, n?o senhor... Ainda estía! Nunca pensei. é que tornejou o vento.

O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio fazendo cunhal. N'esse momento só abrigava madeira, um cuculo de cestos vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se sentára, enrolando um cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella contempla??o inerte e sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre immobilisa e retem olhos e almas.

-ó Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que é que o senhor esteve ahi a dizer de bexigas?

O procurador voltou a face surprehendido:

-Eu, Ex.mo Snr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! é que póde ser, póde ser... N?o imagine V. Ex.a que faltam por cá doen?as. O ar é bom. N?o digo que n?o! Arsinho s?o, agoasinha leve. Mas ás vezes, se V. Ex.a me dá licen?a, vae por ahi muita maleita.

-Mas n?o ha medico, n?o ha botica?

O Silverio teve o riso superior de quem habita regi?es civilisadas e bem providas...

-Ent?o n?o havia d'haver? Pois ha um boticario, em Gui?es, lá quasi ao pé da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein, Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico é o Dr. Avelino, d'aqui a legoa e meia, nas Bolsas. Mas já V. Ex.a vê, esta gentinha é pobre!... Tomaram elles para p?o, quanto mais para remedios!

E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a friagem crescente da serra encharcada. Para além do rio, a promettedora claridade n?o se alargára entre as duas espessas cortinas pardacentas. No campo, em declive deante de nós, ia um longo correr de ribeiros barrentos. Eu terminára por me sentar na ponta d'um madeiro, enervado, já com a fome agu?ada pela manh? agreste. E Jacintho, na borda do carro, com os pés no ar, cofiava os bigodes humidos, palpava a face, onde, com espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!

E, ent?o, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, muito rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob a porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu.

-Como vae a tua m?e? Escusas de te chegar para cá, deixa-te estar ahi. Eu ou?o bem. Como vae a tua m?e?

N?o percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto, interessado:

-Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua m?e?

Foi o Silverio que informou respeitosamente:

-é a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... Filharada n?o lhe falta.

-Mas este pequeno tambem parece doente!-exclamou Jacintho. Coitadito, t?o amarello!... Tu tambem estás doente?

O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silverio sorria, com bondade:

-Nada! este é s?osinho... Coitado, é assim amarellado e enfezadito, por que... Que quer V. Ex.a? Mal comido! muita miseria... Quando ha o bocadito de p?o é para todo o rancho. Fomesinha, fomesinha!

Jacintho pulou bruscamente da borda do carro.

-Fome? Ent?o elle tem fome? Ha aqui gente com fome?

Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a mim, ora ao Silverio, a confirma??o d'esta miseria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu Principe:

-Homem! está claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o Paraiso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miseria... Em toda a parte ha pobres, até na Australia, nas minas d'ouro. Onde ha trabalho ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro...

O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia:

-Eu n?o quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes campos que s?o meus, ha gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha creancinhas, como esta, esfomeadas? é o que eu quero saber.

O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das realidades da Serra:

-Pois está bem de vêr, meu senhor, que ha para ahi caseiros que s?o muito pobres. Quasi todos... é uma miseria, que se n?o fosse algum soccorro que se lhes dá, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de filhos que tem, é uma desgra?a... Havia V. Ex.a de vêr as casitas em que elles vivem... S?o chiqueiros. A do Esgueira, acolá...

-Vamos vêl-a! atalhou Jacintho com uma decis?o exaltada.

E sahiu logo do alpendre, sem attender á chuva, que ainda cahia, mais leve e mais rala. Mas ent?o Silverio alargou os bra?os deante d'elle, com anciedade, como para o salvar d'um precipicio.

-N?o! V. Ex.a lá na casa do Esgueira é que n?o entra! N?o se sabe o que a mulher tem, e cautella e caldo de gallinha...

Jacintho n?o se alterou na sua polidez paciente:

-Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e ávante!

Ent?o o Procurador vergou os hombros, e, como S. Ex.a mandava, abriu com estrondo o immenso pára-agoas, abrigou respeitosamente Jacintho, através do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que o bom Deus mandava áquelle pobre casal por um remoto senhor das Cidades! Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso

pasmo.

Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, através d'annos, accumulado ali trepadeiras e fl?res silvestres, e cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roidos de musgo, e panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da Doen?a e da Tristeza.

Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a porta, chamando:

-Eh! tia Maria... Olá rapariga!

E na fenda entreaberta appareceu uma mo?a, muito alta, escura e suja, com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para nós, serenamente.

-Ent?o como vae a tua m?e?-Abre lá a porta, que est?o aqui estes senhores...

Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:

-Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha.

E dentro, n'um gemido que subia como do ch?o, d'entre abafos, amodorrado e lento, a m?e repetiu a desconsolada queixa:

-Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...

O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio aberto, como um escudo contra a infec??o, lan?ou uma consola??o vaga:

-N?o ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! N?o foi sen?o friagem!

E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido:

-Já V. Ex.a vê... Muita miseria! Até lhe chove lá dentro.

E, no peda?o de ch?o que viam, ch?o de terra batida, uma mancha humida reluzia, da chuva pingada de uma telha r?ta. A parede, coberta de fuligem, das longas fumara?as da lareira, era t?o negra como o ch?o. E aquella penumbra suja parecia atulhada, n'uma desordem escura, de trapos, de cacos, de restos de coisas, onde só mostravam fórma comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado d'um prego, entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.

Ent?o Jacintho, muito embara?ado, murmurou abstrahidamente:

-Está bem, está bem...

E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o Silverio decerto revelava á rapariga, a presen?a augusta do ?fidalgo?, por que a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:

-Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!

Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos colheu, no meio do campo, Jacintho parára, olhava para mim, com os dedos tremulos a torturar o bigode, e murmurava:

-é horrivel, Zé Fernandes, é horrivel.

Ao lado, o vozeir?o do Silverio trovejou:

-Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua m?e, creatura!

Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, n'um immenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperan?a, talvez, que d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago ou proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade, embara?avam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu vago: ?Está bem, está bem...? Fui eu que dei ao pequenito um tost?o, para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como elle, com o seu tost?o bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa magnificencia, o Silverio teve de o espantar, como a um passaro, batendo as m?os, e de lhe gritar:

-Já para casa! E leve esse dinheiro á m?e. Roda, roda!...

-E nós vamos almo?ar, lembrei eu olhando o relogio. O dia ainda vae estar lindo.

Sobre o rio, com effeito, reluzia um peda?o d'azul lavado e lustroso; e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do vento, que as levava, despejadas e r?tas, para um canto escuso do ceu.

Ent?o recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ingreme, que ensinára o Silverio, e onde um leve enchurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura, que bebera largamente, reluzia consolada.

Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a cigarreira:

-Pois, Silverio, eu n?o quero mais estas horriveis miserias na quinta.

O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago eh! eh! d'obediencia e dúvida.

-Antes de tudo, continuava Jacintho, mande já hoje chamar esse Dr. Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os v?o buscar logo a Gui?es. E recommenda??o ao medico para voltar ámanh?, e em cada dia; até que ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil réis... Bastará?

O Procurador n?o conteve um riso respeitoso. Quinze mil réis! Uns tost?es bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza, aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam...

-Mas é que todos h?o-de ter, disse Jacintho simplesmente.

-V. Ex.a manda, murmurou o Silverio.

Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente:

-Vamos conversando e andando! é meio dia! Estou com uma fome de lobo!

Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do bra?o. E Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idéas bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do Silverio:

-E as casas tambem... Aquella casa é um covil!... Gostava de abrigar melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros s?o pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir casas novas a todos os rendeiros da quinta...

-A todos?...-O Silverio gaguejava,-emudeceu.

E Jacintho balbuciava aterrado:

-A todos... Emfim, quero dizer... Quantos ser?o elles?

Silverio atirou um gesto enorme:

-S?o vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e sete...

Ent?o Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a vastid?o do numero. Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha a irm? do Melchior, ao pé do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? Queria Sua Ex.a saber? E alijou a cifra, muito d'alto, como uma pedra immensa, para esmagar Jacintho:

-Duzentos mil réis, Exmo Senhor! E é para mais que n?o para menos!

Eu ria da tragica amea?a do excellente homem. E Jacintho, muito docemente, para conciliar o Silverio:

-Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, por que eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa.

Ent?o o Silverio teve um brado de terror:

-Mas ent?o, Ex.mo Senhor, é uma revolu??o!

E como nós, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de horror, dos seus immensos bra?os abertos para traz, como se visse o mundo desabar,-o bom Silverio encavacou:

-Ah! V. Ex.as riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez contos de réis! Ent?o tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella chala?a!... Está b?a a risota!

E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a responsabilidade n'aquelle disparate magnifico:

-Emfim, V. Ex.a é quem manda!

-Está mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que melhorar. Venha vossê almo?ar comnosco. E conversamos.

T?o saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto com essa ?melhoria de rendas?. Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licen?a a Sua Ex.a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e estava em seguida ás ordens de S. Ex.a.

Metteu a corta matto, saltando um cancello. E nós seguimos, com passos que eram ligeiros, pela hora do almo?o que se retardára, pello azul alegre que reapparecia, e por toda aquella justi?a feita á pobresa da serra.

-N?o perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma ternura que n?o disfarcei, no hombro do meu amigo.

-Que miseria, Zé Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi, á vista da minha casa, outras casas, onde crean?as teem fome! é horrivel...

Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casar?o, ao fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um fremito alegre e doce.

-Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella lenda de Santo Ambrosio... N?o, n?o era Santo Ambrosio... N?o me lembra o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se enamorára d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, só por a avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua belleza de ver?o. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua grande ulcera... é talvez a tua prepara??o para S. Jacintho.

Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete:

--é verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus, é das que eu posso curar!

N?o desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do casar?o.

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