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   Chapter 7 7

A Cidade e as Serras By Eca de Queiros Characters: 29463

Updated: 2017-11-30 00:02


Julho findára com uma chuva refrescante e consoladora:-e eu pensava em realisar finalmente a minha romagem ás cidades da Europa, sempre retardada, através da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne. Mas, de repente, Jacintho come?ou a rogar e a reclamar que o seu Zé Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E eu comprehendi que o meu Principe (á maneira do divino Achilles, que, sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presen?a, o conf?rto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manh? combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quieta??o e do?ura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal cabiamos, suffocavamos na confus?o, entre os cestos de fl?res, e os ouros rocalhados, e os monstros do Jap?o, e a galante fragilidade dos Saxes, e as pelles de feras estiradas aos pés de sophás adormecedores, e os biombos de Aubusson formando alc?vas favoraveis e languidas... Aninhada n'uma cadeira de bambú lacada de branco, entre almofadas aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no rega?o, ella esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes can?ada do grande seculo; ou ent?o, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intrus?o, na intimidade d'aquellas tardes, n?o a contrariava-antes lhe trazia um vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu cher Fernandez!

E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma ferida fresca, e come?ava a chalrar-logo nos envolvia o burburinho e a murmura??o de Paris. Ella só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu Paris:-e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfei??o n'uma sala e irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de cêra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a vaidade esfalfada; percorrer de manh?, tomando chocolate, os ?Echos? e as ?Festas? do Figaro; e de vez em quando murmurar para o marido-?Ah, és tu?...? Além d'isso, ao lusco-fusco, n'um sophá, alguns certos suspiros, entre os bra?os d'alguem a quem era constante. Ao meu Principe, n'esse anno, pertencia o sophá. E todos estes deveres de Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que já duas prégas lhe vincavam os cantos dos bei?os, indelevelmente. Mas nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario. Através, porém, desta fulgurante sociabilidade arranjára no cerebro (onde de certo penetrára o pó d'arroz que desde o collegio acamava na testa) algumas Idéas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os outros ?horrores?, a Republica, o Socialismo, a Democracia que se n?o lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa juntava ás rendas do chapeu a Cor?a amarga de espinhos-por serem esses, para a gente bem-nascida, dias de penitencia e d?r. E, deante de todo o Livro ou de todo o Quadro, sentia a emo??o e formulava finamente o juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, f?sse elegante formular e sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embara?ára nos tormentos d'uma paix?o. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religi?o intíma (e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos á missa de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel cidade come?avam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem abrigo-ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de patinagem. E preparava tambem os de Caridade-porque era boa, e concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados pelas Duquezas do seu ?rancho?. Depois, na primavera, muito methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de inverno. Paris admirava n'ella uma suprema fl?r de Parisianismo.

Pois respirando esta macia e fina fl?r passamos nós as tardes d'esse julho em quanto as outras fl?res pendiam e murchavam na calma e no pó. Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho n?o parecia encontrar esse contentamento d'alma, que entre tudo que can?a jámais can?a. Era já com a paciente lentid?o com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, t?o suave e orlada de t?o frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com dedica??o, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pav?o desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pêllos do bigode murcho, na murcha postura de quem, por uma manh? de Maio, em quanto os melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a m?o da sua d?ce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio.

Mas ao outro dia, ao come?ar da tarde, depois de errar através da Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho, atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, já com a pregui?a triste da fa?anha a que se impellia:

-Vamos a casa de Madame d'Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para hoje seis ou sete coisas, mas n?o posso, é uma secca! Vamos a casa de Madame d'Oriol... Ao menos lá, ás vezes, ha um bocado de frescura e paz.

E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava desesperadamente um ?bocado de frescura e paz?, que encontramos, ao meio da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu já o conhecia-porque Jacintho m'o mostrára uma noite, no Grand Café, ceiando com dan?arinas do Moulin Rouge. Era um mo?o gordalhufo, indolente, de uma brancura crúa de toucinho, com uma calvice já séria e já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos carregados de anneis. N'essa tarde, porém, vinha vermelho, todo emocionado, cal?ando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho-e sem mesmo lhe apertar a m?o, atirando um gesto para o patamar:

-Visita lá acima? Vai achar a Joanna em pessima disposi??o... Tivemos uma scena, e tremenda.

Deu outro pux?o desesperado á luva c?r de palha, já esga?ada:

-Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, é excellente! Mas em tudo ha medida e fórma... Ella tem o meu nome, n?o posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do trintanario. Amantes na nossa roda, vá! Um lacaio, n?o!... Se quer dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua casa de Corbelle. E lá até com os animaes!... Foi o que eu lhe disse! Ficou como uma fera.

Sacudiu ent?o a m?o do Jacintho que ?era da sua roda?-rebolou pela escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando para mim, como um sèr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo póde caber:

-Já agora subamos, sim?

* * *

Parti ent?o, com muita alegria, para a minha appetecida romagem ás Cidades da Europa.

Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, á pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada esta??o para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a l?do. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze len?os, tres ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-a-la-mode, já frio, com m?lho coalhado-e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos marmores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei mollemente, com uma d?r surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e quarenta salas revestidas até aos tectos de Christos, heroes, santos, nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais d?ce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho inglez de penca flammejante que habitára o Porto, conhecêra o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista... Gastei seis mil francos. Tinha viajado.

Emfim, n'uma bemdita manh? d'outubro, na primeira friagem e nevoa d'outomno, avistei com enternecido alvoro?o as cortinas de seda ainda fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde encontrei o ar macio e tepido que deixára em Floren?a, apertei os ossos do Grillo excellente:

-E Jacintho?

O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos:

-S. Exc.a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de Loches... Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado... E disse a co?ar a cabe?a: ?Eh! que massada! Eh! que massada!?

Depois do banho e do chocolate, ás dez horas, consolado e quentinho dentro do roup?o de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de bra?os abertos e sedentos:

-Oh Jacintho!

-Oh viajante!...

Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a face-e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno c?r de malva orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo parecia já vergado sob o pezo e a oppress?o e o terror do seu dia. Eu sorri, para que elle sorrisse:

-Valente Jacintho... Ent?o como tens vivido?

Elle respondeu, muito serenamente:

-Como um morto.

Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal f?sse leve:

-Aborrecidote, hein?

O meu Principe lan?ou, n'um gesto t?o vencido, um oh t?o cansado-que eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus!

* * *

Desde essa manh?, Jacintho come?ou a mostrar claramente, escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o tédio de que a existencia o saturava. O seu cuidado realmente e o seu esf?r?o consistiram ent?o em sondar e formular esse tédio-na esperan?a de o vencer logo que lhe conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a sua Melancolia! N'esse raciocinío, elle partia sempre do facto irrecusavel e massi?o-que a sua vida especial de Jacintho continha todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX, n'uma vida de homem que n?o é um Genio, nem um Santo. Com effeito! Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e m?lhos ricos elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua intelligencia n?o apparecêra nem tremor nem morr?o; a boa terra de Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de conf?rtos; nenhuma amargura de cora??o o atormentava;-e todavia era um Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, á conclus?o de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava amortalhada, n?o provinham da sua individualidade de Jacintho-mas da Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel, intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombára no Pessimismo.

E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para ser t?o naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, até aos doze annos, emquanto f?ra um bicho superiormente amimado, com a sua pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena-e as lagrimas eram para elle t?o incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. Só quando crescêra, e da animalidade penetrára na humanidade, despontára n'elle esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das primeiras curiosidades, e que depois alastrára, o invadira todo, se lhe tornára consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos differentes da Vida. Na turba dos humanos é a angustiada lucta pelo p?o, pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas, é a amargura das desillus?es, o mal da imagina??o insatisfeita, o orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e desejos nenhuns, era o tédio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade, fastio da Intelligencia-eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a sua occupa??o era bocejar, correr com os dedos desalentados a face pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira.

Foi ent?o que o meu Principe come?ou a ler apaixonadamente, desde o Ecclesiastes até Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprova??o de que o seu mal n?o era mesquinhamente ?Jacinthico?-mas grandiosamente resultante d'uma Lei Universal. Já ha quatro mil annos, na remota Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia em Illus?o. Já o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor, summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle as fecundasse e no seu ventre depozésse um Deus! N?o ha nada novo sob o sol, e a eterna repeti??o das coisas é a eterna repeti??o dos males. Quant

o mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do pó, em pó se tornam. Tudo tende ao pó ephemero, em Jerusalém e em Paris! E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver-como no seu throno d'ouro, entre os seus quatro le?es d'ouro, o filho magnifico de David.

N?o se separava ent?o do Ecclesiastes. E circulava por Paris trazendo dentro do coupé Salom?o, como irm?o de d?r, com quem repetia o grito desolado que é a summa da verdade humana-Vanitas Vanitatum! Tudo é Vaidade! Outras vezes, logo de manh? o encontrava estendido no sophá, n'um roup?o de sêda, absorvendo Schopenhauer-emquanto o pedicuro, ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos pés. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse café de Moka enviado por emires do Deserto, que n?o o contentava nunca, nem pela for?a, nem pelo aroma. A espa?os pousava o livro no peito, resvalava um olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que d?r o torturaria-pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o remexer assim, perpetuamente, em pés alheios... E quando o pedicuro se erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade-com um ?adeus, meu amigo? que era ?um adeus, meu irm?o!?

Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tédio. Jacintho encontrára emfim na vida uma occupa??o grata-maldizer a Vida! E para que a podésse maldizer em todas as suas fórmas, as mais ricas, as mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de novo luxo, de interesses novos d'espirito, e até de fervores humanitarios, e até de curiosidades supernaturaes.

O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi ent?o que elle iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de C?r contados na Historia Augusta: e offereceu ás suas amigas esse sublime jantar c?r de rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as lou?as, os crystaes, os gelados, os Champagnes, e até (por uma inven??o da Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros serviam, empoados de pó rosado, com librés da c?r da rosa, em quanto do tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A Cidade, deslumbrada, clamou-?Bravo, Jacintho!? E o meu Principe, ao rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as m?os nas ilhargas e gritou triumphalmente:-?Hein? Que massada!...?

Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre jardins, para velhinhos desamparados, outro para crean?as debeis á beira do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindù de Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para verificar a mysteriosa exteriorisa??o da motilidade. Depois, desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do Times, para que no seu gabinete, como n'um cora??o, palpitasse toda a vida Social da Europa.

E a cada um d'estes esfor?os da elegancia, do humanitarismo, da sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de bra?os alegres, com um grito victorioso:-?Vês tu, Zé Fernandes? Uma massada!?-Arrebatava ent?o o seu Ecclesiastes, o seu Schopenhauer, e, estendido no sophá, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina e da Experiencia. Possuia uma Fé-o Pessimismo: era um apostolo rico e esfor?ado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da sua Fé! Muito gozou n'esse anno o meu desgra?ado Principe!

No come?o do inverno, porém, notei com inquieta??o que Jacintho já n?o folheava o Ecclesiastes, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do Times, pareciam interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstra??es gloriosas da sua Cren?a. E a sua abominavel func??o de novo se limitou a bocejar, a passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira. Incessantemente alludia á morte como a uma liberta??o. Uma tarde mesmo, no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes, consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes rapidas, sem d?r, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito elegante-atacára bruscamente a Vontade!

Todo o seu movimento ent?o foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a canga e o aguilh?o. Já n?o esperava da Vida contentamento-nem mesmo se lastimava que ella lhe trouxesse tédio ou pena. ?Tudo é indifferente, Zé Fernandes!? E t?o indifferentemente sahiria á sua janella para receber uma Cor?a Imperial offerecida por um Povo-como se estenderia n'uma poltrona r?ta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e n?o conduzindo sen?o a maior desillus?o, que podia importar a mais rutilante actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto, raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade t?o desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos até á alma, pelas voltas apertadas d'uma corda que se n?o via e que o travava.

* * *

Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de Janeiro. Cêdo, de manh?, recebèra, com uma carta de Madame de Trèves, um a?afate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo:

-Ent?o, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada?

E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o Champagne do ?Natalicio?-elle recusou, com o nariz enojado. Oh! N?o! Que horrivel sécca!... E bradou mesmo para o Grillo:

-Eu hoje n?o estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei para Marselha... Morri!

E a sua ironia n?o cessou até ao almo?o perante os bilhetes, os telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras fl?res que vieram, em vistosos cestos, com vistosos la?os, foram por elle comparadas ás que se dep?e sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava até ao tapete ou se alteava até ao tecto-para que, senhor Deus meu?

Depois do almo?o, como chovia sombriamente, n?o arredamos do 202, com os pés estendidos ao lume, em pregui?oso silencio. Eu terminára por adormecer beatificamente. Acordei aos passos a?odados do Grillo... Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel! E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que can?ára a mocidade a accumular todas as no??es formuladas desde Aristoteles e a juntar todos os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em que elle, cercado de Civilisa??o nas maximas propor??es para gozar nas maximas propor??es a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao seu lar, a recortar papeis com uma tesoura!

O Grillo trazia um presente do Gran-Duque-uma caixa de prata, forrada de cedro, e cheia d'um chá precioso, colhido, fl?r a fl?r, nas veigas de Kiang-Sou por m?os puras de virgens, e conduzido através da Asia, em caravanas, com a venera??o d'uma reliquia. Ent?o, para despertar o nosso torp?r, lembrei que tomassemos o divino chá-occupa??o bem harmonica com a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma bailando no fog?o. Jacintho accedeu-e um escudeiro acercou logo a meza de Ephraim para que nós lhe estreassemos os servi?os destros. Mas o meu Principe, depois de a altear, para meu espanto, até aos crystaes do lustre, n?o conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica, unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do chá entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de alfaias de prata, que communicavam a essa occupa??o, t?o simples e d?ce em caza de minha tia, fazer chá, a magestade d'um rito. Prevenido pelo meu camarada da sublimidade d'aquelle chá de Kiang-Sou, ergui a chavena aos labios com reverencia. Era uma infus?o descorada que sabia a malva e a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... N?o tomamos chá.

Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no lume:

-E as obras de Tormes? A egreja... Já haverá egreja nova?

Jacintho retomára o papel e a thesoura:

-N?o sei... N?o tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde param os ossos... Que lugubre historia!

Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendára pelo Grillo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz d?ce, com as iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, á moda amavel da nossa meiga terra. E o meu Principe á meza, percorrendo a lamina de marfim onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com ferv?r a ideia patriarchal:

-Arr?z d?ce! Está escripto com dois ss, mas n?o tem dúvida... Excellente lembran?a! Ha que tempos n?o c?mo arr?z d?ce!... Desde a morte da avó.

Mas quando o arr?z d?ce appareceu triumphalmente, que vexame! Era um prato monumental, de grande arte! O arr?z, massi?o, moldado em fórma de pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os fructos seccos que o revestiam até ao cimo, onde se equilibrava uma cor?a de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciaes, a data, t?o lindas e graves na canella ingenua, vinham tra?adas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos, n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de Champagne, murmurou como n'um funeral pag?o:

-Ad Manes, aos nossos mortos!

Recolhemos á Bibliotheca, a tomar o café no conchego e alegria do lume. Fóra, o vento bramava como n'um êrmo serrano: e as vidra?as tremiam, alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez mil pobres que em Paris erram sem p?o e sem lar! Na minha aldeia, entre cêrro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob o abrigo da sua telha v?, com a sua panella atestada de couves, se agacha no seu mantéo ao calor da lareira. E para os que n?o tenham lenha ou couve, lá está o Jo?o das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade, que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no f?rno. Ah Portugal pequenino, que ainda és d?ce aos pequeninos!

Suspirei, Jacintho pregui?ava. E terminamos por remexer languidamente os jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de prata-jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines, Revistas, Illustra??es... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas espreitava o summario, logo farto; ás Illustra??es rasgava as folhas com o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais estirado para o lume:

-é uma sécca... N?o ha que lêr.

E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava, saltou da poltrona com um arranque de quem despeda?a algemas, e ficou erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se intimasse aquelle seu 202, t?o abarrotado de Civilisa??o, a que por um momento sequer fornecesse á sua alma um interesse vivo, á sua vida um fugitivo g?sto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o animar, avivou o seu brilho mudo: só as vidra?as tremeram sob o embate mais rude de agua e vento.

Ent?o o meu Principe, succumbido, arrastou os passos até ao seu gabinete, come?ou a percorrer todos os apparelhos completadores e facilitadores da Vida-o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina vibrasse, para entreter o seu Senhor.

Só o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu pêzo-diminuindo esse sombrio pêzo da Vida, sob que elle gemia, vergado. O Principe da Gran-Ventura, ent?o, decidiu recolher para a cama-com um livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca, considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e magestade como Doutores n'um Concilio-depois as pilhas tumultuarias dos livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a consagra??o das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou por fim para a regi?o dos Historiadores: espreitou seculos, farejou ra?as: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou na Revolu??o Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com m?o indeliberada toda a vasta Grecia desde a crea??o de Athenas até a aniquila??o de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas, que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. N?o appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas-e recuou, desconsolado, até aos Biologos... T?o massi?a e cerrada era a estante de Biologia que o meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel! Rolou a escada-e, fugindo, trepou, até ás alturas da Astronomia: destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com fragor. Aturdido, desceu, come?ou a procurar por sobre as rimas das obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religi?es: e relanceando uma linha, esgravatando além n'um indice, todos interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de encontrar um Livro! Parou ent?o no meio da immensa nave, de cocoras, sem coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle ch?o todo alastrado, os seus setenta mil volumes-e, sem lhes provar a substancia, já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opress?o da sua abundancia. Findou por voltar ao mont?o de jornaes amarrotados, ergueu melancholicamente um velho Diario de Noticias, e com elle debaixo do bra?o subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.

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