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   Chapter 6 6

A Cidade e as Serras By Eca de Queiros Characters: 22875

Updated: 2017-11-30 00:02


Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que can?a jámais can?am, Jacintho, ás quatro horas, com regularidade devota, visitava Madame d'Oriol:-por que essa fl?r de Parisianismo permanecera em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da Cidade. N'uma d'essas tardes, porém, o Telephone, anciosamente repicado, avisou Jacintho de que a sua d?ce amiga jantava em Enghien com os Trèves. (Esses senhores gozavam o seu ver?o á beira do lago, n'uma casa toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain).

Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando ás voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri a Jacintho que subissemos á Basilica do Sacré-Coeur, em construc??o nos altos de Montmartre.

-é uma secca, Zé Fernandes...

-Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica...

-Bem, bem! Vamos á Basilica, homem fatal de Noronha e Sande!

E por fim logo que come?amos a penetrar, para além de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quieta??o de provincia, com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas cozendo á soleira das portas, carriolas desatreladas descan?ando diante das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando em canas-o meu fastidioso camarada sorriu áquella liberdade e singeleza das cousas.

A vittoria parou em frente á larga rua de escadarias que trepa, cortando viellasinhas campestres, até á esplanada, onde, envolta em andaimes, se ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto, forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, Crucifixos, Cora??es de Jesus bordados a retroz, claros molhos de Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Avè-Maria. Dois padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava na do?ura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado:

-é curioso!

Mas a Basilica em cima n?o nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda branca e sêcca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a borda do terra?o, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de cali?a e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo o vestigio visivel da sua vida magnifica.

Ent?o chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade, augusta crea??o da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta cinzenta da Terra-uma camada de cali?a, apenas mais cinzenta! No emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia d'um povo forte, com todos os seus poderosos org?os funccionando, abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Gra?a. E agora eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos, escutavamos-e de toda a estridente e radiante Civilisa??o da Cidade n?o percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus trinta mil livros? Sumido, esvaído na confus?o de telha e cinza! Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em t?o angustioso esfor?o? Hein, Jacintho?... Onde est?o os teus Armazens servidos por tres mil caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que elle suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada collina-a sublime edifica??o dos Tempos n?o é mais que um silencioso monturo da espessura e da c?r do pó final. O que será ent?o aos olhos de Deus!

E ante estes clamores, lan?ados com affavel malicia para espica?ar o meu Principe, elle murmurou, pensativo:

-Sim, é talvez tudo uma illus?o... E a Cidade a maior illus?o!

T?o facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu Principe, uma Illus?o! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só n'ella tem a fonte de toda a sua miseria. Vê, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a for?a e belleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem vi?o, torto, corcunda-esse ser em que Deus, espantado, mal póde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ad?o! Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada manh? ella lhe imp?e uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre e subalterno, a sua vida é um constante sollicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o enreda em tradi??es, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos, servi?os mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua tranquillidade (bem t?o alto que Deus com elle recompensa os Santos) onde está, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada pelo p?o, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo g?zo, ou pela fugidia rodella d'ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milh?es de seres que tumultuam na arquejante occupa??o de desejar-e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desillus?o, desesperan?a ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se deshumanisam! Vê, meu Jacintho! S?o como luzes que o aspero vento do viver social n?o deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allian?as que o interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho? Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paix?o a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Intelligencia, por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idéas e Formulas que constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as express?es já exprimidas:-ou ent?o, para se destacar na pardacente e chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um gemente esfor?o, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e que detenha a multid?o como um mostrengo n'uma Feira. Todos, intelectualmente, s?o carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pégadas pisadas;-e alguns s?o macacos, saltando no topo de mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade, n'esta crea??o t?o anti-natural onde o solo é de pau e feltro e alcatr?o, e o carv?o tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através d'arames-o homem apparece como uma creatura anti-humana, sem belleza, sem for?a, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espirito que é passivo como um escravo ou impudente como um histri?o... E aqui tem o bello Jacintho o que é a bella Cidade!

E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez dos seculos-o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revela??o superior, n'aquelles cimos de Montmartre:

-Sim, com effeito, a Cidade... é talvez uma illus?o perversa!

Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil philosophar. E se ao menos essa illus?o da Cidade tornasse feliz a totalidade dos sêres, que a manteem... Mas n?o! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O resto, a escura, immensa plebe, só n'ella soffre, e com soffrimentos especiaes que só n'ella existem! D'este terra?o, junto a esta rica Basilica consagrada ao Cora??o que amou o Pobre e por elle sangrou, bem avistamos nós o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo opprobrio de que nem Religi?es, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua propria for?a brutal a poder?o jámais libertar! Ahi jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles, através do longo dia, os homens labutar?o e as mulheres chorar?o. E com este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se n?o abrigam; armazenada de estofos, com que elles se n?o agasalham; abarrotada de alimentos, com que elles se n?o saciam! Para elles só a neve, quando a neve cáe, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas pelos bancos das pra?as ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve cáe, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a policia, em torno, ronda attenta para que n?o seja perturbado o tépido somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com pelli?as de tres mil francos. Mas quê, meu Jacintho! a tua Civilisa??o reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dér ao Trabalho, por cada arquejante esf?r?o, uma migalha ratinhada. Irremediavel é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe péne! A sua esfalfada miseria é a condi??o do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a justa ra??o de caldo-n?o poderia apparecer nas baixellas de prata a luxuosa por??o de foie-gras e tubaras que s?o o orgulho da Civilisa??o. Ha andrajos em trapeiras-para que as bellas Madamas d'Oriol, resplandecentes de sêdas e rendas, subam, em doce ondula??o, a escadaria da Opera. Ha m?os regeladas que se estendem, e bei?os sumidos que agradecem o dom magnanimo d'um sou-para que os Ephrains tenham dez milh?es no Banco de Fran?a, se aque?am á chamma rica da lenha aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos-para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio d'ether!

-E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu!

Elle murmurou, desolado:

-é horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illus?o!

Pensativamente deixou a borda do terra?o, como se a presen?a da Cidade, estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a molleza cinzenta da tarde, philosophando-considerando que para esta iniquidade n?o havia cura humana, trazida pelo esfor?o huma

no. Ah, os Ephrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubar?es do mar humano, só abandonar?o ou affrouxar?o a explora??o das Plebes, se uma influencia celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no peccado-e contra elle s?o impotentes os prantos dos Humanitarios, os raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer t?o duro granito só uma do?ura divina. Eis pois esperan?a da terra novamente posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e, para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi t?o curta! Um meigo serm?o n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehens?o moderada aos Phariseus que ent?o redigiam o Boulevard; algumas vergastadas nos Ephrains vendilh?es; e logo, através da porta da morte, a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle incumbira a continua??o da sua obra, envolvidos logo pelas influencias dos Ephrains, dos Trèves, da gente do Boulevard, bem depressa esqueceram a li??o da Montanha e do lago de Tiberiade-e eis que por seu turno revestem a purpura, e s?o Bispos, e s?o Papas, e se alliam á oppress?o, e reinam com ella, e edificam a dura??o do seu Reino sobre a miseria dos sem-p?o e dos sem-lar! Assim tem de ser recome?ada a obra da Redemp??o. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da Asia, deverá novamente descer á terra de servid?o. Virá elle, o desejado? Porventura já algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a estrella, e tomou a myrrha nas suas m?os reaes, e montou pensativamente sobre o seu dromedario? Já por esses arredores da dura Cidade, de noute, emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo, attento, n'um v?o lento, escolhendo um curral? Já de longe, sem mo?o que os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca, trotando o burrinho?

-Tu sabes, Jacintho?

N?o, Jacintho n?o sabia-e queria accender o charuto. Forneci um phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terra?o, espalhando pelo ar outras idéas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na Basilica-quando um Sachrist?o nedio, de barrete de velludo, cerrou fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um can?ado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario.

-Estou com uma sêde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia!

Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando alguem gritou rijamente, n'uma surpreza:

-Eh Jacintho!

O meu Principe abriu os bra?os, tambem espantado:

-Eh Mauricio!

E, n'um alvoro?o, atravessou a rua, para um café, onde, sob o toldo de riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho, com o chapéo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa de sêda, sem gravata, como se descan?asse n'um banco, entre as sombras do seu jardim.

E ambos, apertando as m?os, se admiravam d'aquelle encontro, n'um domingo de ver?o, sobre as alturas de Montmartre.

-Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas d'Israel!

O meu Principe mostrou o seu Zé Fernandes:

-Com este amigo, em peregrina??o á Basilica... O meu amigo Fernandes Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada.

Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava Francisco de Valois, Rei de Fran?a) ergueu o seu chapeu de palha. E empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho ou para um bock.

-Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com sêde!

Corri lentamente a lingua sobre os bei?os, mais sêcos que pergaminhos:

-Estou a guardar esta sêdesinha para logo, para o jantar, com um vinhosinho gelado!

Mauricio saudou, com silenciosa admira??o, esta minha avisada malicia. E immediatamente, para o meu Principe:

-Ha tres annos que te n?o vejo, Jacintho... Como tem sido possivel, n'este Paris que é uma aldeola e que tu atravancas?

-A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos, desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario?

Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:

-Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e á Parola do 37, e á Cerveja ideal, o que reinava?...

Jacintho catou lentamente as suas recorda??es por entre os pêllos do bigode:

-Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em moral, o Renanismo.

Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilára a sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'a?afr?o, já o Renanismo passára, t?o esquecido como o Cartesianismo...

-Tu ainda és do tempo do culto do Eu?

O meu Principe suspirou risonhamente:

-Ainda o cultivei.

-Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolsto?smo, um furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida, que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e que grunhia com o dedo espetado:-?Busquemos a luz, muito por baixo, no pó da terra!?-E á sobremeza bebemos á delicia da humildade e do trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde dava nos grandes dias em copos da fórma do San-Gral! Depois veio Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. Já havia uns desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada mystico-brejeira, prégada por aquelle pobre La Carte que depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo!

Eu, agarrado á bengala, bem fincada no ch?o, sentia como um vendaval que redemoinhava, me torcia o craneo! E até Jacintho balbuciou, esgazeado:

-O Ruskinismo?

-Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!

O meu ditoso Principe comprehendeu:

-Ah, Ruskin!... As sete lampadas da Architectura, A Cor?a de Oliveira Brava... é o culto da Belleza.

-Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu, enojado, já descera de todas essas nuvens v?s... Pisava um ch?o mais seguro, mais fertil.

Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Fl?r de Novidade que ia desabrochar:

-E ent?o? ent?o?...

Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se velava:

-Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarna??o de Guatama, e era portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... N?o s?o vis?es. Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de Christna...

Através d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos ritos, arredára a cadeira. E de pé, deixando cair sobre a mesa, distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de cobre, murmurava com os olhos descan?ados em Jacintho, mas perdidos n'outra vis?o:

-Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da suprema pureza da Vida. é toda a sciencia e for?a dos grandes mestres Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo! N?o basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, já obtivemos resultados bem extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibra??es do som, tocou quasi ás portas da verdade isoterica. Mas què! homem de sciencia, portanto homem d'estupidez, ficou áquem, entre as suas placas e as suas retortas! Nós f?mos além. Verificámos as ondula??es da Vontade! Deante de nós, pela expans?o da energia do meu companheiro, e em cadencia com o seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza morreu!

E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de bra?os abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno, accendendo de vagar um cigarro:

-Uma d'estas manh?s, Jacintho, appare?o no 202, para almo?ar comtigo, e levo o meu amigo. Elle só come arr?z, uma pouca de salada, e fructa. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do Sepher-Zerijah e outro do Targum d'Onkelus. Preciso folhear esses livros.

Apertou a m?o do meu Principe, saudou este assombrado Zé Fernandes, e serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca, as m?os enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas naturaes.

-Oh Jacintho! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é elle, santissimo nome de Deus?

Recostado na vittoria, ageitando o vinco das cal?as, o meu Principe contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques de Septimania... E murmurou, através do costumado bocejo:

-O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo isoterico... Aspira??es, decep??es... Já experimentei... Uma massada!

Atravessamos, callados, o rum?r de Paris, sob a molleza abafada do crepusculo de ver?o, para jantar no Bosque, no Pavilh?o d'Armenonville, onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o Hymno da Carta com paix?o, com langor, n'uma cadencia de czarda dolorosa e aspera.

E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:

-Pois venha agora para a minha rica sêde esse vinhosinho gelado! Grandemente o mere?o, caramba, que superiormente philosophei!... E creio que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar horror da cidade!

O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia:

-Mande gelar duas garrafas de champagne S.t Marceaux... Mas antes, um Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... N?o, de Bussang! Bem, d'Evian e de Bussang! E, para come?ar, um bock.

Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:

-Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre, com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descan?ar de tarde e dominar a Cidade...

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