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   Chapter 5 No.5

A Relíquia By E?a de Queirós Characters: 77203

Updated: 2017-12-06 00:02


Duas semanas depois, rolando na tipoia do Pingalho pelo campo de Sant'Anna, com a portinhola entreaberta e a bota estendida para o estribo, avistei entre as arvores sem folhas o port?o negro da casa da titi! E, dentro d'esse duro calhambeque, eu resplandecia mais que um gordo Cesar, coroado de folhagens d'ouro, sobre o seu vasto carro, voltando de domar povos e deuses.

Era decerto em mim o deleite de revêr, sob aquelle céo de janeiro t?o azul e t?o fino, a minha Lisboa, com as suas quietas ruas c?r de cali?a suja, e aqui e além as taboinhas verdes descidas nas janellas como palpebras pesadas de langor e de somno. Mas era sobretudo a certeza da gloriosa mudan?a que se fizera na minha fortuna domestica e na minha influencia social.

Até ahi, que f?ra eu em casa da snr.^a D. Patrocinio? O menino Theodorico que, apesar da sua carta de Doutor e das suas barbas de Rapos?o, n?o podia mandar sellar a egoa para ir espontar o cabello á Baixa, sem implorar licen?a á titi… E agora? O nosso dr. Theodorico, que ganhára no contacto santo com os lugares do Evangelho uma auctoridade quasi pontifical! Que f?ra eu até ahi, no Chiado, entre os meus concidad?os? O Raposito, que tinha um cavallo. E agora? O grande Raposo, que peregrinára poeticamente na Terra Santa, como Chateaubriand, e que pelas remotas estalagens em que pousára, pelas roli?as Circassianas que beijocára, podia parolar com superioridade na Sociedade de Geographia ou em casa da Benta Bexigosa…

O Pingalho estacou as pilecas. Saltei, com o caixote da Reliquia estreitado ao cora??o… E, ao fundo do pateo triste, lageado de pedrinha, vi a snr.^a D. Patrocinio das Neves, vestida de sêdas negras, toucada de rendas negras, arreganhando no car?o livido, sob os oculos defumados, as dentu?as risonhas para mim!

-Oh, titi!

-Oh, menino!

Larguei o caixote santo, cahi no seu peito sêcco; e o cheirinho que vinha d'ella a rapé, a capella e a formiga, era como a alma esparsa das coisas domesticas que me envolvia, para me fazer reentrar na piedosa rotina do lar.

-Ai filho, que queimadinho que vens!…

-Titi, trago-lhe muitas saudades do Senhor…

-Da-m'as todas, dá-m'as todas!…

E retendo-me, cingido á dura táboa do seu peito, ro?ou os bei?os frios pelas minhas barbas-t?o respeitosamente como se fossem as barbas de pau da imagem de S. Theodorico.

Ao lado, a Vicencia limpava o olho com a ponta do avental novo. O Pingalho descarregára a minha mala de couro. Ent?o, erguendo o precioso caixote de pinho de Flandres benzido, murmurei, com uma modestia cheia de un??o:

-Aqui está ella, titi, aqui está ella! Aqui a tem, ahi lh'a dou, a sua divina Reliquia, que pertenceu ao Senhor!

As emaciadas, lividas m?os da hedionda senhora tremeram ao tocar aquellas táboas que continham o principio miraculoso da sua saude e o amparo das suas afflic??es. Muda, têsa, estreitando s?fregamente o caixote, galgou os degraus de pedra, atravessou a sala de Nossa Senhora das Sete-D?res, enfiou para o oratorio. Eu atraz, magnifico, de capacete, ia rosnando: ?ora vivam! ora vivam!?-á cozinheira, á desdentada Eusebia, que se curvavam no corredor como á passagem do Santissimo.

Depois, no oratorio, diante do altar juncado de camelias brancas, fui perfeito. N?o ajoelhei, n?o me persignei: de longe, com dois dedos, fiz ao Jesus d'ouro, pregado na sua cruz, um aceno familiar-e atirei-lhe um olhar, muito risonho e muito fino, como a um velho amigo com quem se têm velhos segredos. A titi surprehendeu esta intimidade com o Senhor:-e quando se rojou sobre o tapete (deixando-me a almofada de velludo verde) foi tanto para o seu Salvador como para o seu sobrinho que levantou as m?os adorabundas.

Findos os Padre-nossos de gra?as pelo meu regresso, ella, ainda prostrada, lembrou com humildade:

-Filho, seria bom que eu soubesse que reliquia é, para as velas, para o respeito…

Acudi, sacudindo os joelhos:

-Logo se verá. á noite é que se desencaixotam as reliquias… Foi o que me recommendou o patriarcha de Jerusalem… Em todo o caso accenda a titi mais quatro luzes, que até a madeirinha é santa!

Accendeu-as, submissa: collocou, com beato cuidado, o caixote sobre o altar: dep?z-lhe um beijo chilreado e longo: estendeu-lhe por cima uma esplendida toalha de rendas… Eu ent?o, episcopalmente, tracei sobre a toalha com dois dedos uma ben??o em cruz.

Ella esperava, com os oculos negros postos em mim, embaciados de ternura:

-E agora, filho, agora?

-Agora o jantarinho, titi, que tenho a tripa a tinir…

A snr.^a D. Patrocinio logo, apanhando as saias, correu a apressar a Vicencia. Eu fui desafivelar a maleta para o meu quarto-que a titi esteirára de novo: as cortinas de cassa tufavam, têsas de gomma; um ramo de violetas perfumava a commoda.

Longas horas nos detivemos á mesa-onde a travessa d'arroz d?ce ostentava as minhas iniciaes, debaixo d'um cora??o e d'uma cruz, desenhadas a canella pela titi. E, inesgotavelmente, narrei a minha santa jornada. Disse os devotos dias do Egypto, passados a beijar uma por uma as pégadas que lá deixára a Santa Familia na sua fuga; disse o desembarque em Jaffa com o meu amigo Topsius, um sabio allem?o, doutor em theologia, e a deliciosa missa que lá saboreáramos; disse as collinas de Judá cobertas de Presepes onde eu, com a minha egoa pela redea, ia ajoelhar, transmittindo ás Imagens e ás Custodias os recados da tia Patrocinio… Disse Jerusalem, pedra a pedra! E a titi, sem comer, apertando as m?os, suspirava com devotissimo pasmo:

-Ai que santo! ai que santo ouvir estas coisas! Jesus! até dá uns gostinhos por dentro!…

Eu sorria, humilde. E cada vez que a considerava de soslaio, ella me parecia outra Patrocinio das Neves. Os seus fundos oculos negros, que outr'ora reluziam t?o asperamente, conservavam um contínuo embaciamento de ternura humida. Na voz, que perdera a rispidez silvante, errava, amollecendo-a, um suspiro acariciador e fanhoso. Emmagrecera: mas nos seus sêccos ossos parecia correr emfim um calor de medulla humana! Eu pensava-?Ainda a hei de p?r como um velludo.?

E, sem modera??o, prodigalisava as provas da minha intimidade com o Céo.

Dizia:-?Uma tarde, no Monte das Oliveiras, estando a rezar, passou de repente um anjo…? Dizia:-?Tirei-me dos meus cuidados, fui ao tumulo de Nosso Senhor, abri a tampa, gritei para dentro…?

Ella pendia a cabe?a, esmagada, ante estes privilegios prodigiosos, só comparaveis aos de Santo Ant?o ou de S. Braz.

Depois enumerava as minhas tremendas rezas, os meus terrificos jejuns. Em Nazareth, ao pé da fonte onde Nossa Senhora enchia o cantaro, rezára mil Ave-Marias, de joelhos á chuva… No deserto, onde vivera S. Jo?o, sustentára-me como elle de gafanhotos…

E a titi, com baba no queixo:

-Ai que ternura, ai que ternura, os gafanhotinhos!… E que gosto para o nosso rico S. Jo?o!… Como elle havia de ficar! E olha, filho, n?o te fizeram mal?

-Se até engordei, titi! Nada, era o que eu dizia ao, meu amigo allem?o: ?Já que a gente veio a uma pechincha d'estas, é aproveitar, e salvar a nossa alminha…?

Ella virava-se para a Vicencia-que sorria, pasmada, no seu pouso tradicional entre as duas janellas, sob o retrato de Pio IX e o velho oculo do commendador G. Godinho:

-Ai Vicencia, que elle vem cheiinho de virtude! Ai que vem mesmo atochadinho d'ella!

-Parece-me que Nosso Senhor Jesus Christo n?o ficou descontente commigo! murmurava eu, estendendo a colhér para o d?ce de marmelo.

E todos os meus movimentos (até o lamber da calda) os contemplava a odiosa senhora, venerandamente, como preciosas ac??es de santidade.

Depois, com um suspiro:

-E outra coisa, filho… Trazes de lá algumas ora??es, das boas, das que te ensinassem por lá os patriarchas, os fradesinhos?…

-Trago-as de chupeta, titi!

E numerosas, copiadas das carteiras dos santos, efficazes para todos os achaques! Tinha-as para tosses, para quando os gavet?es das commodas emperram, para vesperas de loteria…

-E terás alguma para caimbras? Que eu ás vezes, de noite, filho…

-Trago uma que n?o falha em caimbras. Deu-m'a um monge meu amigo a quem costuma apparecer o Menino Jesus…

Disse-e accendi um cigarro.

Nunca eu ousára fumar diante da titi! Ella detestára sempre o tabaco, mais que nenhuma outra emana??o do peccado. Mas agora arrastou gulosamente a sua cadeira para mim-como para um milagroso cofre, repleto d'essas rezas que dominam a hostilidade das coisas, vencem toda a enfermidade, eternisam as velhas sobre a terra.

-Has de m'a dar, filho… é uma caridade que fazes!

-Oh, titi, ora essa! Todas! E diga, diga lá… Como vai a titi dos seus padecimentos?

Ella deu um ai, d'infinito desalento. Ia mal, ia mal… Cada dia se sentia mais fraca, como se se fosse a desfazer… Emfim já n?o morria sem aquelle gostinho de me ter mandado a Jerusalem visitar o Senhor; e esperava que elle lh'o levasse em conta, e as despezas que fizera, e o que lhe custára a separa??o… Mas ia mal, ia mal!

Eu desviára a face, a esconder o vivo e escandaloso lampejo de jubilo que a illuminára. Depois animei-a, com generosidade. Que podia a titi recear? N?o tinha ella agora, ?para se apegar?, vencer as leis da decomposi??o natural, aquella reliquia de Nosso Senhor?…

-E outra coisa, titi… Os amiguinhos, como v?o?

Ella annunciou-me a desconsoladora nova. O melhor e mais grato, o delicioso Casimiro, recolhera á cama no domingo com as ?perninhas inchadas…? Os doutores affirmavam que era uma anasarca… Ella desconfiava d'uma praga que lhe rogára um gallego…

-Seja como f?r, o santinho lá está! Tem-me feito uma falta, uma falta… Ai filho, nem tu imaginas!… O que me tem valido é o sobrinho, o padre Negr?o…

-O Negr?o? murmurei, estranho ao nome.

Ah! eu n?o conhecia… Padre Negr?o vivia ao pé de Torres. Nunca vinha a Lisboa, que lhe fazia nojo, com tanta relaxa??o… Só por ella, e para a ajudar nos seus negocios, é que o santinho condescendera em deixar a sua aldeia. E t?o delicado, t?o servi?al… Ai! era uma perfei??o!

-Tem-me feito uma virtude que nem calculas, filho… Só o que elle tem rezado por ti, para que Deus te protegesse n'essas terras de turcos… E a companhia que me faz! Que todos os dias o tenho cá a jantar… Hoje n?o quiz elle vir. Até me disse uma coisa muito linda: ?n?o quero, minha senhora, atalhar expans?es.? Que lá isso, fallar bem, e assim coisas que tocam… Ai, n?o ha outro… Nem imaginas, até regala… é de appetite!

Sacudi o cigarro, seccado. Porque vinha aquelle padre de Torres, contra os costumes domesticos, comer todos os dias o cozido da titi? Resmunguei com auctoridade:

-Lá em Jerusalem os padres e os patriarchas só vêm jantar aos domingos… Faz mais virtude.

Escurecera. A Vicencia accendeu o gaz no corredor: e como breve chegariam os dilectos amigos, avisados pela titi para saudar o Peregrino, recolhi ao meu quarto a enfiar a sobrecasaca preta.

Ahi, considerando ao espelho a face requeimada, sorri gloriosamente e pensei:-?Ah Theodorico, venceste!?

Sim, vencera! Como a titi me tinha acolhido! com que venera??o! com que devo??o!…-E ia mal, ia mal!… Bem depressa eu sentiria, com o cora??o suffocado de gozo, as martelladas sobre o seu caix?o. E nada podia desalojar-me do testamento da snr.^a D. Patrocinio! Eu tornára-me para ella S. Theodorico! A hedionda velha estava emfim convencida que deixar-me o seu ouro-era como doal-o a Jesus e aos Apostolos e a toda a Santa Madre Egreja!

Mas a porta rangeu-a titi entrou, com o seu antigo chale de Tonkin pelos hombros. E, caso estranho, pareceu-me ser a D. Patrocinio das Neves d'outro tempo, hirta, agreste, esverdeada, odiando o amor como coisa suja, e sacudindo de si para sempre os homens que se tinham mettido com saias! Com effeito! Os seus oculos, outra vez sêccos, reluziam, cravavam-se desconfiadamente na minha mala… Justos céos! Era a antiga D. Patrocinio. Lá vinham, as suas lividas, aduncas m?os, cruzadas sobre o chale, arrepanhando-lhe as franjas, s?fregas de esquadrinhar a minha roupa branca! Lá se cavava, aos cantos dos seus labios sumidos, um rigido sulco d'azedume!… Tremi: mas visitou-me logo uma inspira??o do Senhor. Diante da mala, abri os bra?os, com candura:

-Pois é verdade!… Aqui tem a titi a maleta que lá andou por Jerusalem… Aqui está, bem aberta, para todo o mundo vêr que é a mala d'um homem de religi?o! Que é o que dizia o meu amigo allem?o, pessoa que sabia tudo: ?Lá isso, Raposo, meu santinho, quando n'uma viagem se peccou, e se fizeram relaxa??es, e se andou atraz de saias, trazem-se sempre provas na mala. Por mais que se escondam, que se deitem fóra, sempre lá esquece coisa que cheire a peccado!…? Assim m'o disse muitas vezes, até uma occasi?o diante d'um Patriarcha… E o Patriarcha approvou. Por isso, eu cá, é malinha aberta, sem receio… Póde-se esquadrinhar, póde-se cheirar… A que cheira é a religi?o! Olhe, titi, olhe… Aqui est?o as ceroulinhas e as piuguinhas. Isso n?o póde deixar de ser, porque é peccado andar nú… Mas o resto, tudo santo! O meu rosario, o livrinho de missa, os bentinhos, tudo do melhor, tudo do Santo Sepulchro…

-Tens alli uns embrulhos! rosnou a asquerosa senhora, estendendo um grande dedo descarnado.

Abri-os logo, com alacridade. Eram dois frascos lacrados d'agua do Jord?o! E muito sério, muito digno, fiquei diante da snr.^a D. Patrocinio com uma garrafinha do liquido divino na palma de cada m?o… Ent?o ella, com os oculos de novo embaciados, beijou penitentemente os frascos: uma pouca da baba do beijo escorreu nas minhas unhas. Depois, á porta, suspirando, já rendida:

-Olha, filho, até estou a tremer… E é d'estes gostinhos todos!

Sahiu. Eu fiquei co?ando o queixo. Sim, ainda havia uma circumstancia que me escorra?aria do testamento da titi! Seria apparecer diante d'ella, material e tangivel, uma evidencia das minhas relaxa??es… Mas como surgiria ella jámais n'este logico Universo? Todas as passadas fragilidades da minha carne eram como os fumos esparsos d'uma fogueira apagada que nenhum esfor?o póde novamente condensar. E o meu derradeiro peccado-saboreado t?o longe, no velho Egypto, como chegaria jámais á noticia da titi? Nenhuma combina??o humana lograria trazer ao campo de Sant'Anna as duas unicas testemunhas d'elle-uma luveira occupada agora a encostar as papoilas do seu chapéo aos granitos de Raméses em Thebas, e um Doutor encafuado n'uma rua escolastica, á sombra d'uma vetusta Universidade da Allemanha, escarafunchando o cisco historico dos Herodes… E, a n?o ser essa fl?r de deboche e essa columna de sciencia, ninguem mais na terra conhecia os meus culpados delirios na cidade amorosa dos Lagidas.

Demais, o terrvel documento da minha junc??o com a sordida Mary, a camisa de dormir aromatisada de violeta, lá cobria agora em Si?o uma languida cinta de circassiana ou os seios c?r de bronze d'uma nubia de Koskoro: a compromettedora offerta ?ao meu portuguezinho valente? f?ra despregada, queimada no brazeiro: já as rendas se iriam esga?ando no servi?o forte do amor; e r?ta, suja, gasta, ella bem depressa seria arremessada ao lixo secular de Jerusalem! Sim, nada se poderia interp?r entre a minha justa sofreguid?o e a bolsa verde da titi. Nada, a n?o ser a carne mesma da velha, a sua carcassa rangente, habitada por uma teimosa chamma vital, que se n?o quizesse extinguir!… Oh fado horrivel! Se a titi, obstinada, renitente, vivesse ainda quando abrissem os cravos do outro anno! E ent?o n?o me contive. Atirei a alma para as alturas, gritei desesperadamente, em toda a ancia do meu desejo:

-Oh Santa Virgem Maria, faze que ella rebente depressa!

N'esse momento soou a grossa sineta do pateo. E foi-me grato reconhecer, depois da longa separa??o, as duas badaladas curtas e timidas do nosso modesto Justino: mais grato ainda sentir, logo após, o repique magestoso do dr. Margaride. Immediatamente a titi escancarou a porta do meu quarto, n'uma penosa ataranta??o:

-Theodorico, filho, ouve! Tem-me estado a lembrar… Parece-me que para destapar a reliquia é melhor esperar até que se v?o logo embora o Justino e o Margaride! Ai, eu sou muito amiga d'elles, s?o pessoas de muita virtude… Mas acho que para uma ceremonia d'estas é melhor que estejam só pessoas d'egreja…

Ella, pela sua devo??o, considerava-se pessoa d'egreja. Eu, pela minha jornada, era quasi pessoa do céo.

-N?o, titi… O Patriarcha de Jerusalem recommendou-me que fosse diante de todos os amigos da casa, na capella, com velas… é mais efficaz… E olhe, diga á Vicencia que me venha buscar as botas para limpar.

-Ai eu lh'as dou!… S?o estas? Est?o sujinhas, est?o! Já cá te vêm, filho, já cá te vêm!

E a snr.^a D. Patrocinio das Neves agarrou as botas! E a snr.^a D.

Patrocinio das Neves levou as botas!

Ah, estava mudada, estava bem mudada!… E ao espelho, cravando no setim da gravata uma cruz de coral de Malta, eu pensava que desde esse dia ia reinar alli, no campo de Sant'Anna, de cima da minha santidade, e que para apressar a obra lenta da morte-talvez viesse a espancar aquella velha.

Foi-me d?ce, ao penetrar na sala, encontrar os dilectos amigos, com casacos sérios, de pé, alargando para mim os bra?os extremosos. A titi pousava no sofá, têsa, desvanecida, com setins de festa e com joias. E ao lado, um padre muito magro vergava a espinha com os dedos enclavinhados no peito-mostrando n'uma face chupada dentes afiados e famintos. Era o Negr?o. Dei-lhe dois dedos, sêccamente:

-Estimo vê-lo por cá…

-Grandissima honra para este seu servo! ciciou elle, puxando os meus dedos para o cora??o.

E, mais vergado o dorso servil, correu a erguer o abat-jour do candieiro-para que a luz me banhasse, e se pudesse vêr na madureza do meu semblante a efficacia da minha peregrina??o.

Padre Pinheiro decidiu, com um sorriso de doente:

-Mais magro!

Justino hesitou, fez estalar os dedos:

-Mais queimado!

E o Margaride, carinhosamente:

-Mais homem!

O onduloso padre Negr?o revirou-se, arqueado para a titi como para um

Sacramento entre os seus mólhos de luzes:

-E com um todo d'inspirar respeito! Inteiramente digno de ser o sobrinho da virtuosissima D. Patrocinio!…

No emtanto em torno tumultuavam as curiosidades amigas: ?E a saudinha??

?Ent?o, Jerusalem?? ?Que tal, as comidas?…?

Mas a titi bateu com o leque no joelho, n'um receio que t?o familiar alvoro?o importunasse S. Theodorico. E o Negr?o acudiu, com um zelo mellifluo:

-Methodo, meus senhores, methodo!… Assim todos á uma n?o se goza… é melhor deixarmos fallar o nosso interessante Theodorico!…

Detestei aquelle nosso, odiei aquelle padre. Porque corria tanto mel no seu fallar? Porque se privilegiava elle no sofá, ro?ando a sordida joelheira da cal?a pelos castos setins da titi?

Mas o dr. Margaride, abrindo a caixa de rapé, concordou que o methodo seria mais proficuo…

-Aqui nos sentamos todos, fazemos roda, e o nosso Theodorico conta por ordem todas as maravilhas que viu!

O esgalgado Negr?o, com uma escandalosa privan?a, correu dentro a colhêr um copo d'agua e assacar para me lubrificar as vias. Estendi o len?o sobre o joelho. Tossi-e comecei a esbo?ar a soberba jornada. Disse o luxo do Malaga; Gibraltar e o seu m?rro encarapu?ado de nuvens; a abundancia das ?mesas redondas? com puddings e aguas-gazosas…

-Tudo á grande, á franceza! suspirou padre Pinheiro, com um brilho de gula no olho amortecido. Mas naturalmente, tudo muito indigesto…

-Eu lhe digo, padre Pinheiro… Sim, tudo á grande, tudo á franceza: mas coisas saudaveis, que n?o esquentavam os intestinos… Bello rosbeef, bello carneiro…

-Que n?o valiam decerto o seu franguinho de cabidella, excellentissima senhora! atalhou unctuosamente o Negr?o, junto do hombro agudo da titi.

Execrei aquelle padre! E, remexendo a agua com assucar, decidi em meu espirito que, mal eu come?asse a governar ferreamente o campo de Sant'Anna-n?o mais a cabidella da minha familia escorregaria na guela aduladora d'aquelle servo de Deus.

No emtanto o bom Justino, repuxando o collarinho, sorria para mim, embevecido. E como passava eu as noites em Alexandria? Havia uma assembléa, onde espairecesse? Conhecia eu alguma familia considerada, com quem tomasse uma chavena de chá?…

-Eu lhe digo, Justino… Conhecia. Mas, a fallar verdade, tinha repugnancia em frequentar casas de turcos… Sempre é gente que n?o acredita sen?o em Mafoma!… Olhe, sabe o que fazia á noite? Depois de jantar ia a uma egrejinha cá da nossa bella religi?o, sem estrangeirices, onde havia sempre um Santissimo d'appetite… Fazia as minhas devo??es: depois ia-me encontrar com o allem?o, o meu amigo, o lente, n'uma grande pra?a que dizem lá os de Alexandria que é muito melhor que o Rocio… Maior e mais abrutada talvez seja. Mas n?o é esta lindeza do nosso Rocio, o ladrilhinho, as arvores, a estatua, o theatro… Emfim, para meu gosto, e para um regalinho de ver?o prefiro o Rocio… E lá o disse aos turcos!

-E fica-lhe bem ter levantado assim as coisas portuguezas! observou o dr. Margaride, contente e rufando na tabaqueira. Direi mais… é acto de patriota… Nem d'outra maneira procediam os Gamas e os Albuquerques!

-Pois é verdade… Ia-me encontrar com o allem?o; e ent?o para espairecer um bocado, porque emfim uma distrac??o sempre é necessaria quando se anda a viajar, iamos tomar um café… Que lá isso, sim! Lá café fazem-n'o os turcos que é uma perfei??o!

-Bom cafésinho, hein? acudiu padre Pinheiro, chegando a cadeira para mim com interesse s?frego. E forte, forte? Bom aroma?

-Sim, padre Pinheiro, de consolar!… Pois tomavamos o nosso cafésinho, depois vinhamos para o hotel, e ahi no quarto, com os santos Evangelhos, punhamo-nos a estudar todos aquelles divinos lugares na Judêa onde tinhamos d'ir rezar… E como o allem?o era lente e sabia tudo, eu era instruir-me, instruir-me!… Até elle ás vezes dizia: ?Vossê, Raposo, com estas noitadas, vai d'aqui um chav?o…? E lá isso, o que é de coisas santas e de Christo, sei tudo… Pois, senhores, assim passavamos á luz do candieiro até às dez, onze horas… Depois chásinho, ter?o, e cama.

-Sim senhor, noites muito bem gozadas, noites muito fructuosas! declarou, sorrindo para a titi, o estimavel dr. Margaride.

-Ai, isso fez-lhe muita virtude! suspirava a horrenda senhora. Foi como se subisse um bocadinho ao céo… Até o que elle diz cheira bem… Cheira a santo.

Modestissimamente, baixei a palpebra lenta.

Mas Negr?o, com sinuosa perfidia, notou que mais proveitoso seria, e de maior un??o repassaria as almas-escutar coisas de festas, de milagres, de penitencias…

-Estou seguindo o meu itinerario, snr. padre Negr?o, repliquei asperamente.

-Como fez Chateaubriand, como fazem todos os famosos auctores! confirmou Margaride, approvando.

E foi com os olhos n'elle, como no mais douto, que eu disse a partida de Alexandria n'uma tarde de tormenta: o tocante momento em que uma santa irm? da Caridade (que estivera já em Lisboa e que ouvira fallar da virtude da titi) me salvára das aguas salgadas um embrulho em que eu trazia terra do Egypto, da que pisára a Santa Familia: a nossa chegada a Jaffa, que, por um prodigio, apenas eu subira ao tombadilho, de chapéo alto e pensando na titi, se coroára de raios de sol…

-Magnifico! exclamou o dr. Margaride. E diga, meu Theodorico… N?o tinham comsigo um sabio guia, que lhes fosse apontando as ruinas, lhes fosse commentando…

-Ora essa, dr. Margaride! Tinhamos um grande latinista, o padre Potte!

Remolhei o labio. E disse as emo??es da gloriosa noite em que acampáramos junto a Ramleh, com a lua no céo alumiando coisas da religi?o, beduinos velando de lan?a ao hombro, e em redor le?es a rugir…

-Que scena! bradou o dr. Margaride, erguendo-se arrebatadamente. Que enorme scena! N?o estar eu lá! Parece uma d'estas coisas grandiosas da Biblia, do Eurico! é d'inspirar! Eu por mim, se tal visse, n?o me continha!… N?o me continha, fazia uma ode sublime!

O Negr?o puxou a aba do casaco ao facundo magistrado:

-é melhor deixar fallar o nosso Theodorico, para podermos todos saborear…

Margaride, abespinhado, franziu as sobrancelhas temerosas e mais negras que o ebano:

-Ninguem n'esta sala, melhor que eu, snr. padre Negr?o, saboreia o grandioso!

E a titi, insaciavel, batendo com o leque:

-Está bem, está bem… Conta, filho, n?o te fartes! Olha, conta assim uma coisa que te acontecesse com Nosso Senhor, que nos fa?a ternura…

Todos emmudeceram, reverentes. Eu ent?o disse a marcha para Jerusalem com duas estrellas na frente a guiar-nos, como acontece sempre aos peregrinos mais finos e de boa familia: as lagrimas que derramára, ao avistar, n'uma manh? de chuva, as muralhas de Jerusalem: e na minha visita ao Santo Sepulchro, de casaca, com padre Potte, as palavras que balbuciára diante do Tumulo, por entre solu?os e no meio d'acolytos-?Oh meu Jesus, oh meu Senhor, aqui estou, aqui venho da parte da titi!…?

E a medonha senhora, suffocada:

-Que ternura que faz!… Diante do tumulosinho!…

Ent?o passei o len?o pela face excitada, e disse:

-N'essa noite recolhi ao hotel para rezar… E agora, meus senhores, ha aqui um pontosinho desagradavel…

E contritamente confessei que, for?ado pela Religi?o, pelo nome honrado de Raposo, e pela dignidade de Portugal-tivera um conflicto no hotel com um grande inglez de barbas.

-Uma bulha! acudiu com perversidade o vil Negr?o, ancioso por empanar o brilho de santidade com que eu deslumbrava a titi. Uma bulha, na cidade de Jesus Christo! Ora essa! Que desacato!

Com os dentes cerrados encarei o torpissimo padre:

-Sim senhor! um chinfrim!… Mas fique v. s.^a sabendo que o snr. patriarcha de Jerusalem me deu toda a raz?o, até me bateu no hombro e me disse: ?Pois Theodorico, parabens, vossê portou-se como um pimp?o!? Que tem agora v. s.^a a piar?

Negr?o curvou a cabe?a, onde a cor?a punha uma lividez azulada de lua em tempo de peste:

-Se Sua Eminencia approvou…

-Sim senhor! E aqui tem a titi porque foi a bulha!… No quarto ao lado do meu havia uma ingleza, uma hereje, que mal eu me punha a rezar, ahi come?ava ella a tocar piano, e a cantar fados e tolices e coisas immoraes do Barba-Azul, dos theatros… Ora imagine a titi, estar uma pessoa a dizer com todo o fervor e de joelhos: ?Oh Santa Maria do Patrocinio, faze que a minha boa titi tenha muitos annos de vida?-e vir lá de traz do tabique uma voz d'excommungada a ganir: ?Sou o Barba-Azul, olê! ser viuvo é o meu filé!…? é d'encavacar!… De modo que uma noite, desesperado, n?o me tenho em mim, sáio do corredor, atiro-lhe um murro á porta, e grito-lhe para dentro: ?Faz favor d'estar calada, que está aqui um christ?o que quer rezar!…?

-E com todo o direito, affirmou o dr. Margaride. Vossê tinha por si a lei!

-Assim, me disse o Patriarcha! Pois senhores, como ia contando, grito isto para dentro á mulher, e ia recolher muito sério ao meu quarto, quando me sae de lá o pai, um grande barba?as, de bengalorio na m?o… Eu fui muito prudente: cruzei os bra?os e, com bons modos, disse-lhe que n?o queria alli escandalos ao pé do tumulo de Nosso Senhor, e o que desejava era rezar em socego… E vai que me ha de elle responder? Que se estava a… Emfim, nem eu posso repetir! Uma coisa indecente contra o tumulo de Nosso Senhor… E eu, titi, passa-me uma oura pela cabe?a, agarro-o pelo cacha?o…

-E magoaste-o, filho?

-Escavaquei-o, titi!

Todos acclamaram a minha ferocidade. Padre Pinheiro citou leis canonicas auctorisando a Fé a desancar a Impiedade. Justino, aos pulos, celebrou esse John Bull desmantelado a sólida murra?a lusitana. E eu, excitado pelos louvores como por clarins d'ataque, bradava de pé, medonho:

-Lá impiedades diante de mim, n?o! Arrombo tudo, esborracho tudo… Em coisas de religi?o sou uma fera!

E aproveitei esta santa cólera para brandir, como um aviso, diante do queixo sumido do Negr?o, o meu punho cabelludo e pavoroso. O macilento e esgrouviado servo de Deus encolheu. Mas n'esse instante a Vicencia entrava com o chá, nas pratas ricas de G. Godinho.

Ent?o os dilectos amigos, com a torrada na m?o, romperam em ardentes encomios:

-Que instructiva viagem! é como ter um curso!

-E que bello bocadinho de noite aqui se tem passado!… Qual S. Carlos!

Isto é que é gozar!

-E como elle conta! Que fervor! que memoria!…

Lentamente o bom Justino, com a sua chavena fornecida de bolos, acercára-se da janella, como a espreitar o céo estrellado: e d'entre as franjas das cortinas os seus olhinhos luzidios e gulosos chamavam-me confidencialmente. Fui, trauteando o Bem-dito; ambos mergulhámos na sombra dos damascos; e o virtuoso tabelli?o, ro?ando o labio pelas minhas barbas:

-Oh amiguinho, e de mulheres?

Eu confiava no Justino. Segredei para dentro do seu collarinho:

-De se deixarem lá os miolos, Justininho!

As suas pupillas faiscaram como as de um gato em janeiro; a chicara ficou-lhe tremelicando na m?o.

E eu, pensativo, repenetrando na luz:

-Sim, bonita noite… Mas n?o s?o aquellas estrellinhas santinhas que nós viamos lá no Jord?o!…

Ent?o padre Pinheiro, tomando aos goles cautelosos a sua chalada, veio timidamente bater-me no hombro… Lembrára-me eu, n'essas Santas Terras, com tantas distrac??es, do seu frasquinho d'agua do Jord?o?…

-Oh padre Pinheiro, pois está claro!… Trago tudo! E o raminho do

Monte Olivete para o nosso Justino… E a photographia para o nosso

Margaride… Tudo!

Corri ao quarto, a buscar essas d?ces ?lembrancinhas? da Palestina. E ao regressar sustentando pelas pontas um len?o repleto de devotas preciosidades, estaquei por traz do reposteiro ao sentir dentro o meu nome… Suave gozo! Era o inestimavel dr. Margaride que afian?ava á titi, com a sua tremenda auctoridade:

-D. Patrocinio, eu n?o lh'o quiz dizer diante d'elle… Mas isto agora é mais do que ter um sobrinho e um cavalheiro! Isto é ter, de casa e pucarinho, um amigo intimo de Nosso Senhor Jesus Christo!…

Tossi, entrei. Mas a snr.^a D. Patrocinio ruminava um escrupulo ciumento. N?o lhe parecia delicado para Nosso Senhor (nem para ella) que se repartissem estas Reliquias minimas antes de lhe ser entregue a ella, como senhora e como tia, na capella, a Grande Reliquia…

-Porque saibam os meus amigos, annunciou ella com o seu chatissimo peito impando de satisfa??o, que o meu Theodorico trouxe-me uma Santa Reliquia, com que eu me vou apegar nas minhas afflic??es, e que me vai curar dos meus males!

-Bravissimo! gritou o impetuoso dr. Margaride. Com quê, Theodorico, seguiu-se o meu conselho? Esgaravataram-se esses sepulchros?… Bravissimo! é de generoso romeiro!

-é de sobrinho, como já o n?o ha no nosso Portugal! acudiu padre

Pinheiro junto ao espelho, onde estudava a lingua saburrenta…

-é de filho, é de filho! proclamava o Justino, al?ado na ponta dos botins.

Ent?o o Negr?o, mostrando os dentes famintos, babujou esta coisa vilissima:

-Resta saber, cavalheiros, de que Reliquia se trata.

Tive sêde, ardente sêde do sangue d'aquelle padre! Trespassei-o com dois olhares mais agudos e faiscantes do que espetos em braza:

-Talvez v. s.^a, se é um verdadeiro sacerdote, se atire de focinho para baixo a rezar, quando apparecer aquella maravilha!…

E voltei-me para a snr.^a D. Patrocinio, com a impaciencia de uma nobre alma offendida que carece de repara??o:

-é já, titi! Vamos ao Oratorio! Quero que fique tudo aqui assombrado! Foi o que disse o meu amigo allem?o: ?Essa reliquia, ao destapar-se, é de ficar uma familia inteira azabumbada!…?

Deslumbrada, a titi ergueu-se de m?os postas. Eu corri a prover-me d'um martello. Quando voltei, o dr. Margaride, grave, cal?ava as suas luvas pretas… E atraz da snr.^a D. Patrocinio, cujos setins faziam no sobrado um ruge-ruge de vestes de prelado, penetrámos no corredor onde o grande bico de gaz silvava dentro do seu vidro f?sco. Ao fundo a Vicencia e a cozinheira espreitavam com os seus rosarios na m?o.

O Oratorio resplandecia. As velhas salvas de prata, batidas pelas chammas das velas de cera, punham no fundo do altar um brilho branco de Gloria. Sobre a candidez das rendas lavadas, entre a neve fresca das camelias-as tunicas dos Santos, azues e vermelhas, com o seu lustre de sêda, pareciam novas, especialmente talhadas nos guarda-roupas do céo para aquella rara noite de festa… Por vezes o raio d'uma aureola tremia, despedia um fulgor, como se na madeira das imagens corressem estremecimentos de jubilo. E na sua cruz de pau preto, o Christo, riquissimo, macisso, todo d'ouro, suando ouro, sangrando ouro, reluzia preciosamente.

-Tudo com muito gosto! Que divina scena! murmurou o dr. Margaride, deliciado na sua paix?o de grandioso.

Com piedosos cuidados colloquei o caixote na almofada de velludo: vergado, rosnei sobre elle uma Ave; depois, ergui a toalha que o cobria, e com ella no bra?o, tendo escarrado solemnemente, fallei:

-Titi, meus senhores… Eu n?o quiz revelar ainda a Reliquia que vem aqui no caixotinho, porque assim m'o recommendou o snr. Patriarcha de Jerusalem… Agora é que vou dizer… Mas antes de tudo, parece-me bem a pêllo explicar que tudo cá n'esta Reliquia, papel, nastro, caixotinho, prégos, tudo é santo! Assim por exemplo os préguinhos… s?o da Arca de Noé… Póde vêr, snr. padre Negr?o, póde apalpar! s?o os da Arca, até ainda enferrujados… é tudo do melhor, tudo a escorrer virtude! Além d'isso quero declarar diante de todos que esta Reliquia pertence aqui á titi, e que lh'a trago para lhe provar que em Jerusalem n?o pensei sen?o n'ella, e no que Nosso Senhor padeceu, e em lhe arranjar esta pechincha…

-Commigo te has de vêr sempre, filho! tartamudeou a horrenda senhora, enlevada.

Beijei-lhe a m?o, sellando este pacto de que a Magistratura e a Egreja eram veridicas testemunhas. Depois, retomando o martello:

-E agora, para que cada um esteja prevenido e possa fazer as ora??es que mais lhe calharem, devo dizer o que é a Reliquia…

Tossi, cerrei os olhos:

-é a Cor?a d'Espinhos!

Esmagada, com um rouco gemido, a titi aluiu sobre o caixote, enla?ando-o nos bra?os tremulos… Mas o Margaride co?ava pensativamente o queixo austero; Justino sumira-se na profundidade dos seus collarinhos; e o ladino Negr?o escancarava para mim uma boca?a negra, d'onde sahia assombro e indigna??o! Justos céos! Magistrados e Sacerdotes evidenciavam uma incredulidade-terrivel para a minha fortuna!

Eu tremia, com suores-quando padre Pinheiro, muito sério, convicto, se debru?ou, apertou a m?o da titi a felicital-a pela posi??o religiosa a que a elevava a posse d'aquella Reliquia. Ent?o, cedendo á forte auctoridade liturgica de padre Pinheiro, todos, em fila, n'uma muda congratula??o, estreitaram os dedos da babosa senhora.

Estava salvo! Rapidamente, ajoelhei á beira do caixote, cravei o form?o na fenda da tampa, alcei o martello em triumpho…

-Theodorico! Filho! berrou a titi, arripiada, como se eu fosse martellar a carne viva do Senhor.

-N?o ha receio, titi! Aprendi em Jerusalem, a manejar estas coisinhas de Deus!…

Despregada a táboa fina, alvejou a camada d'algod?o. Ergui-a com terna reverencia: e ante os olhos extaticos surgiu o sacratissimo embrulho de papel pardo, com o seu nastrinho vermelho.

-Ai que perfume! Ai! ai, que eu morro! suspirou a titi a esvaír-se de gosto beato, com o branco do olho apparecendo por sobre o negro dos oculos.

Ergui-me, rubro de orgulho:

-é á minha querida titi, só a ella, que compete, pela sua muita virtude, desembrulhar o pacotinho!…

Acordando do seu langor, trémula e pallida, mas com a gravidade d'um pontifice, a titi tomou o embrulho, fez mesura aos santos, collocou-o sobre o altar; devotamente desatou o nó do nastro vermelho; depois, com o cuidado de quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma as dobras do papel pardo… Uma brancura de linho appareceu… A titi segurou-a nas pontas dos dedos, repuxou-a bruscamente-e sobre a ara, por entre os santos, em cima das camelias, aos pés da Cruz-espalhou-se, com la?os e rendas, a camisa de dormir da Mary!

A camisa de dormir da Mary! Em todo o seu luxo, todo o seu impudor, enxovalhada pelos meus abra?os, com cada préga fedendo a peccado! A camisa de dormir da Mary! E pregado n'ella por um alfinete, bem evidente ao clar?o das velas, o cart?o com a offerta em letra encorpada:-?Ao meu Theodorico, meu portuguezinho possante, em lembran?a do muito que gozámos!? Assignado, M. M.… A camisa de dormir da Mary!

Mal sei o que occorreu no florido Oratorio! Achei-me á porta, enrodilhado na cortina verde, com as pernas a vergar, n'um desmaio. Estalando, como achas atiradas a uma fogueira, eu sentia as accusa??es do Negr?o bradadas contra mim junto á touca da titi:-?Deboche! escarneo! camisa de prostituta! achincalho á snr.^a D. Patrocinio! profana??o do Oratorio!? Distingui a sua bota arrojando furiosamente para o corredor o trapo branco. Um a um, entrevi os amigos perpassarem, como longas sombras levadas por um vento de terror. As luzes das velas arquejavam, afflictas. E, ensopado em suor, entre as prégas da cortina, percebi a titi caminhando para mim, lenta, livida, hirta, medonha… Estacou. Os seus frios e ferozes oculos trespassaram-me. E através dos dentes cerrados cuspiu esta palavra:

-Porcalh?o!

E sahiu.

Rolei para o quarto, tombei no leito, esbarrondado. Um rumor d'escandalo acordára o casar?o severo. E a Vicencia surgiu diante de mim, enfiada, com o seu avental branco na m?o:

-Menino! Menino! A senhora manda dizer que sáia immediatamente para o meio da rua, que o n?o quer nem mais um instante em casa… E diz que póde levar a sua roupa branca e todas as suas porcarias!

Despedido!

Ergui a face molle da travesseira de rendas. E a Vicencia, atontada, torcendo o avental:

-Ai, menino! Ai, menino! se n?o sae já para a rua, a senhora diz que manda chamar um policia!

Escorra?ado!

Atirei os pés incertos para o soalho. Mergulhei na algibeira uma escova de dentes: topando nos moveis, procurei as chinelas que embrulhei n'um numero da Na??o. Sem reparo, agarrei d'entre as malas um caixote com bandas de ferro:-e em ponta de botins desci a escada da titi, encolhido e rasteiro, como um c?o tinhoso vexado da sua tinha.

Mal transpuz o pateo, a Vicencia, cumprindo as ordens sanhudas da titi, bateu-me nas costas com o port?o chapeado de ferro-desprezivelmente e para sempre!

Estava só na rua e na vida! á luz dos frios astros contei na palma o meu dinheiro. Tinha duas libras, dezoito tost?es, um duro hespanhol e cobres… E ent?o descobri que a caixa, apanhada tontamente entre as malas, era a das Reliquias menores. Complicado sarcasmo do Destino! Para cobrir meu corpo desabrigado-nada mais tinha que taboinhas aplainadas

por S. José, e cacos de barro do cantaro da Virgem! Metti no bolso o embrulho das chinelas; e, sem voltar os olhos turvos á casa de minha tia, marchei a pé, com o caixote ás costas, na noite cheia de silencio e d'estrellas, para a Baixa, para o Hotel da Pomba d'Ouro.

* * * * *

Ao outro dia, descórado e miserrimo á mesa da Pomba, remexia uma sombria s?pa de gr?o e nabo-quando um cavalheiro, de collete de velludo negro, veio occupar o talher fronteiro, junto d'uma garrafa d'agua de Vidago, d'uma caixa de pilulas e d'um numero da Na??o. Na sua testa, immensa e arqueada como um front?o de capella, torciam-se duas veias grossas: e sob as ventas largas, ennegrecidas de rapé, o bigode era um tufo curto de pêllos grisalhos, duros como cêrdas d'escova. O gallego, ao servir-lhe o nabo e gr?o, rosnou com estima: ?Ora seja bem apparecidinho o snr. Lino!?

Ao cozido este cavalheiro, abandonando a Na??o onde percorrêra miudamente os annuncios, pousou em mim os olhos amarellentos de bilis e ba?os, e observou que estavamos gozando desde os Reis um tempinho d'appetite…

-De rosas, murmurei com reserva.

O snr. Lino entalou mais o guardanapo para dentro do collarinho lasso:

-E v. s.^a, se n?o é curiosidade, vem das provincias do Norte?

Passei vagarosamente a m?o pelos cabellos:

-N?o, senhor… Venho de Jerusalem!

D'assombrado o snr. Lino perdeu a garfada de arroz. E, depois de ter ruminado mudamente a sua emo??o, confessou que lhe interessavam muito todos esses lugares santos porque tinha religi?o, gra?as a Deus! E tinha um emprego, gra?as tambem a Deus, na Camara Patriarchal…

-Ah, na Camara Patriarchal! acudi eu. Sim, muito respeitavel… Eu conheci muito um Patriarcha… Conheci muito o snr. Patriarcha de Jerusalem. Cavalheiro muito santo, muito catita… Até nos ficamos tratando de tu!

O snr. Lino offereceu-me da sua agua de Vidago-e conversámos das terras da Escriptura.

-Que tal Jerusalem, como lojas?…

-Como lojas?… Lojas de modas?

-N?o, n?o! atalhou o snr. Lino. Quero dizer lojas de santidade, de reliquiarias, de coisinhas divinas…

-Sim… Menos mau. Ha o Damiani na Via Dolorosa que tem tudo, até ossos de Martyres… Mas o melhor é cada um esquadrinhar, escavar… Eu n'essas coisas trouxe maravilhas!

Uma chamma de singular cubi?a avivou as pupillas amarelladas do snr.

Lino, da Camara Patriarchal. E de repente, com uma decis?o d'inspirado:

-Andrésinho, a pinguinha de Porto… Hoje é brodio!

Quando o gallego pousou a garrafa, com a sua data tra?ada á m?o n'um velho rotulo de papel almasso-o snr. Lino offertou-me um calice cheio.

-á sua!

-Com a ajuda do Senhor!… á sua!

Por cortezia, rilhado o queijo, convidei aquelle homem que gra?as a Deus tinha religi?o, a entrar no meu quarto e admirar as photographias de Jerusalem. Elle aceitou, com alvoro?o: mas, apenas transp?z a porta, correu sem etiqueta e gulosamente ao meu leito-onde jaziam espalhadas algumas das Reliquias que eu desencaixotára essa manh?.

-O cavalheiro aprecia? indaguei, desenrolando uma vista do monte

Olivete, e pensando em lhe offertar um rosario.

Elle revirava em silencio, nas m?os gordas e de unhas roidas, um frasco d'agua do Jord?o. Cheirou-o, pesou-o, chocalhou-o. Depois, muito sério, com as veias entumecidas na vastissima fronte:

-Tem attestado?

Estendi-lhe a certid?o do frade Franciscano, garantindo como authentica e sem mistura a agua do rio baptismal. Elle saboreou o venerando papel. E enthusiasmado:

-Dou quinze tost?es pelo frasquinho!

Foi, no meu intellecto de Bacharel, como se uma janella se abrisse e por ella entrasse o sol! Vi inesperadamente, ao seu clar?o forte, a natureza real d'essas medalhas, bentinhos, aguas, lascas, pedrinhas, palhas, que eu considerára até ent?o um lixo ecclesiastico esquecido pela vassoura da Philosophia! As Reliquias eram valores! Tinham a qualidade omnipotente de valores! Dava-se um caco de barro-e recebia-se uma rodella d'ouro!… E, illuminado, comecei insensivelmente a sorrir, com as m?os encostadas á mesa como a um balc?o de armazem:

-Quinze tost?es por agua pura do Jord?o! Boa! Em pouca conta tem v. s.^a o nosso S. Jo?o Baptista… Quinze tost?es! Chega a ser impiedade!… V. s.^a imagina que a agua do Jord?o é como agua do Arsenal? Ora essa!… Tres mil reis recusei eu a um padre de Santa Justa, esta manh?, ahi, ao pé d'essa cama…

Elle fez saltar o frasco na palma gorda, considerou, calculou:

-Dou quatro mil reis.

-Vá lá, por sermos companheiros na Pomba!

E quando o snr. Lino sahiu do meu quarto, com o frasco do Jord?o embrulhado na Na??o, eu, Theodorico Raposo, achava-me fatalmente, providencialmente, estabelecido vendilh?o de reliquias!

D'ellas comi, d'ellas fumei, d'ellas amei, durante dois mezes, quieto e aprazido na Pomba d'Ouro. Quasi sempre o snr. Lino surdia de manh? no meu quarto, de chinelos, escolhia um caco do cantaro da Virgem ou uma palhinha do Presepio, empacotava na Na??o, largava a pecunia e abalava assobiando o De Profundis. E evidentemente o digno homem revendia as minhas preciosidades com gordo provento-porque bem depressa, sobre o seu collete de velludo preto, rebrilhou uma corrente d'ouro.

No emtanto, muito habil e fino, eu n?o tentára (nem com supplicas, nem com explica??es, nem com patrocinios) amansar as beatas iras da titi e repenetrar na sua estima. Contentava-me em ir á egreja de Sant'Anna, todo de negro, com um ripan?o. N?o encontrava a titi, que tinha agora de manh? no Oratorio missa do torpissimo Negr?o. Mas lá me prostrava, batendo contritamente no peito, suspirando para o Sacrario-certo que, pelo Melchior sacrist?o, as novas da minha devo??o inalteravel chegariam á hedionda senhora.

Muito manhoso, tambem n?o procurára os amigos da titi-que deviam prudentemente partilhar as paix?es da sua alma para lograrem os favores do seu testamento: assim poupava embara?os angustiosos a esses benemeritos da Magistratura e da Egreja. Sempre que encontrava padre Pinheiro ou dr. Margaride, cruzava as m?os dentro das mangas, baixava os olhos, evidenciando humildade e compun??o. E este retrahimento era decerto grato aos amigos, porque uma noite, topando o Justino perto da casa da Benta Bexigosa, o digno homem segredou junto da minha barba, depois de se ter assegurado da solid?o da rua:

-Ande-me assim, amiguinho!… Tudo se ha de arranjar… Que ella por ora está uma fera… Oh diabo, ahi vem gente!

E abalou.

No emtanto, por intermédio do Lino, eu vendilhava reliquias. Bem depressa porém recordado dos compendios de Economia Politica, reflecti que os meus proventos engordariam se, eliminando o Lino, eu mesmo me dirigisse ousadamente ao consumidor pio.

Escrevi ent?o a fidalgas, servas do Senhor dos Passos da Gra?a, cartas com listas e pre?os de Reliquias. Mandei propostas d'ossos de Martyres a egrejas de provincia. Paguei copinhos d'aguardente a sacrist?es para que elles segredassem a velhas com achaques-?P'ra coisas de Santidade n?o ha como o snr. dr. Raposo, que vem fresquinho de Jerusalem!…? E bafejou-me a sorte. A minha especialidade foi a agua do Jord?o, em frascos de zinco, lacrados e carimbados com um cora??o em chammas: vendi d'esta agua para baptisados, para comidas, para banhos: e durante um momento houve um outro Jord?o, mais caudaloso e limpido que o da Palestina, correndo por Lisboa, com a sua nascente n'um quarto da Pomba d'Ouro. Imaginativo, introduzi novidades rendosas e poeticas: lancei no commercio com efficacia ?o pedacinho da bilha com que Nossa Senhora ia á fonte?: fui eu que acreditei na piedade nacional ?uma das ferraduras do burrinho em que fugira a Santa Familia.? Agora quando o Lino de chinelos batia á porta do meu quarto, onde as medas de palhinhas do Presepio alternavam com as pilhas de taboinhas de S. José, eu entreabria uma fenda avara e ciciava:

-Foi-se… Esgotadinho!… Só para a semana… Vem-me ahi um caixotinho da Terra Santa…

As veias frontaes do capacissimo homem inchavam n'uma indigna??o de intermediario espoliado.

Todas as minhas Reliquias eram acolhidas com o mais forte fervor-porque provinham ?do Raposo, fresquinho de Jerusalem.? Os outros Reliquistas n?o tinham esta esplendida garantia d'uma jornada á Terra Santa. Só eu, Raposo, percorrêra esse vastissimo deposito de santidade. Só eu de resto sabia lan?ar na folha sebacea de papel que authenticava a reliquia-a firma floreada do snr. Patriarcha de Jerusalem.

Mas bem cedo reconheci que esta profus?o de Reliquilharia saturára a devo??o do meu paiz! Atochado, empanturrado de Reliquias, este catholico Portugal já n?o tinha capacidade-nem para receber um d'esses raminhos seccos de fl?res de Nazareth, que eu cedia a cinco tost?es!

Inquieto, baixei melancolicamente os pre?os. Prodigalisei, no Diario de Noticias, annuncios tentadores-?Preciosidades da Terra Santa, em conta, na tabacaria Rego, se diz…? Muitas manh?s, com um casac?o ecclesiatico e um cache-nez de sêda disfar?ando a minha barba, assaltei á porta das egrejas velhas beatas: offerecia peda?os da tunica da Virgem Maria, cordeis das sandalias de S. Pedro: e rosnava com ancia, ro?ando-me pelos manteletes e pelas toucas: ?Baratinhos, minha senhora, baratinhos… Excellentes para catarrhos!…?

Já devia uma carregada conta na Pomba d'Ouro; descia as escadas sorrateiramente, para n?o encontrar o patr?o; chamava com sabujice ao gallego-?meu André, meu catitinha…?

E punha toda a minha esperan?a n'um renovamento da Fé! A menor noticia de festa de egreja me regosijava como um acrescimo de devo??o no povo. Odiava ferozmente os republicanos e os philosophos que abalam o Catholicismo-e portanto diminuem o valor das reliquias que elle instituiu. Escrevi artigos para a Na??o, em que bradava: ?Se vos n?o apegaes aos ossos dos Martyres, como quereis que prospere este paiz?? No café do Montanha dava murros sobre as mesas: ?é necessario Religi?o, caramba! Sem Religi?o nem o bifezinho sabe!? Em casa da Benta Bexigosa amea?ava as raparigas, se ellas n?o usassem os seus bentinhos e os seus escapularios, de n?o voltar alli, de ir a casa da D. Adelaide!… A minha inquieta??o pelo ?p?o de cada dia? foi mesmo t?o aspera que de novo solicitei a interven??o do Lino-homem de vastas rela??es ecclesiasticas, parente de capell?es de convento. Outra vez lhe mostrei o meu leito juncado de reliquias. Outra vez lhe disse, esfregando as m?os: ?Vamos a mais negocio, amiguinho! Aqui tenho sortimento fresco, chegadinho de Si?o!?

Mas, do digno homem da Camara Patriarcal, só colhi recrimina??es acerbas…

-Essa léria n?o péga, senhor! gritou elle, com as veias a estalar de cólera na fronte esbrazeada. Foi v. s.^a que estragou o commercio!… Está o mercado abarrotado, já n?o ha maneira de vender nem um cueirinho do menino Jesus, uma reliquia que se vendia t?o bem! O seu negocio com as ferraduras é perfeitamente indecente… Perfeitamente indecente! é o que me dizia n'outro dia um capell?o, primo meu: ?S?o ferraduras de mais para um paiz t?o pequeno!…? Quatorze ferraduras, senhor! é abusar! Sabe v. s.^a quantos prégos, dos que pregaram Christo na cruz, v. s.^a tem impingido, todos com documentos? Setenta e cinco, senhor!… N?o lhe digo mais nada… Setenta e cinco!

E sahiu, atirando a porta com furor, deixando-me aniquilado.

Venturosamente, n'essa noite, encontrei o Rinch?o em casa da Benta Bexigosa, e recebi d'elle uma consideravel encommenda de reliquias. O Rinch?o ia desposar uma menina Nogueira, filha da snr.^a Nogueira, rica beata de Beja e rica proprietaria de porcos: e elle ?queria dar um presente catita á carola da velha, tudo coisinhas da Cartilha e do Santo Sepulchro.? Arranjei-lhe um lindo cofre de reliquias (ahi colloquei o meu septuagesimo sexto prégo) ornado das minhas graciosas fl?res seccas de Galilêa. Com a generosa pecunia que me deu o Rinch?o paguei á Pomba d'Ouro; e tomei prudentemente um quarto na casa d'hospedes do Pitta, á travessa da Palha.

Assim, diminuia a minha prosperidade. O meu quarto agora era nos altos, no quinto andar, com um catre de ferro, e uma poltrona vetusta cujo mi?lo de estopa fetida rompia entre a chita esga?ada. Como unico ornato pendia sobre a commoda, n'um caixilho enfeitado de borlas, uma lithographia de Christo crucificado, a c?res; nuvens negras de tormenta rolavam-lhe aos pés; e os seus olhos claros, arregalados, seguiam e miravam todos os meus actos, os mais intimos, mesmo o delicado aparar dos callos.

Havia uma semana que, assim installado, farejava Lisboa á busca do p?o incerto, com botas a que se come?ava a romper a sola, quando uma manh? o André da Pomba d'Ouro me trouxe uma carta que lá f?ra deixada na vespera, com a marca ?urgente?. O papel tinha tarja preta: o sinete era de lacre negro. Abri, tremendo. E vi a assignatura do Justino.

?Meu querido amigo. é meu penoso dever, que cumpro com lagrimas, participar-lhe que sua respeitavel tia e minha senhora inesperadamente succumbiu…?

Caramba! A velha rebentára!

Anciosamente saltei através das linhas trope?ando sobre os detalhes-?congest?o dos pulm?es… Sacramentos recebidos… Todos a chorar… O nosso Negr?o!…? E empallidecendo, n'um suor que me alagava, avistei, ao fim da lauda, a nova medonha:-?do testamento da virtuosa senhora, consta que deixa a seu sobrinho Theodorico o oculo que se acha pendurado na sala de jantar…?

Desherdado!

Agarrei o chapéo, corri aos encontr?es pelas ruas até ao cartorio do

Justino, a S. Paulo. Achei-o á banca, com uma gravata de lucto e a penna

atraz da orelha, comendo fatias de vitella sobre um velho Diario de

Noticias.

-Com que, o oculo…?-balbuciei, esfalfado, arrimado á esquina d'uma estante.

-é verdade. O oculo!-murmurou elle, com a b?ca atulhada.

Fui tombar, quasi desmaiado, sobre o canapé de couro. Elle offereceu-me vinho de Bucellas. Bebi um calice. E passando a m?o tremula sobre a face livida:

-Ent?o dize lá, conta lá tudo, Justininho…

O Justino suspirou. A santa senhora, coitadinha, deixára-lhe duas inscrip??es de conto… E de resto dispersára no seu testamento as riquezas de G. Godinho do modo mais incoherente e mais perverso. O predio do campo de Sant'Anna e quarenta contos de inscrip??es para o Senhor dos Passos da Gra?a. As ac??es da Companhia do Gaz, as melhores pratas, a casa de Linda-a-Pastora para o Casimiro, que já se n?o mexia, moribundo. Padre Pinheiro recebia um predio na rua do Arsenal. A deliciosa quinta do Mosteiro, com o seu pittoresco port?o d'entrada onde se viam ainda as armas dos condes de Landoso, as inscrip??es de Credito Publico, a mobilia do campo de Sant'Anna, o Christo d'ouro-para o padre Negr?o. Tres contos de reis e o relogio para o Margaride. A Vicencia tivera as roupas de cama. Eu-o oculo!

-Para vêr o resto de longe! considerou philosophicamente o Justino, dando estalinhos nos dedos.

Recolhi á travessa da Palha. E durante horas, em chinelas, com os olhos chammejantes, revolvi o desejo desesperado de ultrajar o cadaver da titi-cuspindo-lhe sobre o car?o livido, esfuracando com uma bengala a podrid?o do seu ventre. Chamei contra ella todas as cóleras da Natureza. Pedi ás arvores que recusassem sombra á sua sepultura! Pedi aos ventos que sobre ella soprassem todos os lixos da terra! Invoquei o Demonio: ?Dou-te a minha alma se torturares incansavelmente a velha!? Gritei com os bra?os para as alturas: ?Deus, se tens um céo, escorra?a-a de lá!? Planeei quebrar a pedradas o mausoleu que lhe erguessem… E decidi escrever communicados nos jornaes contando que ella se prostituia a um gallego, todas as tardes, no sót?o, d'oculos negros e em fralda!

Esfalfado de a odiar-adormeci densamente.

Foi o Pitta que me acordou, ao anoitecer, entrando com um longo embrulho. Era o oculo. Mandava-m'o o Justino, com estas palavras amigas: ?Ahi vai a modesta heran?a!?

Accendi uma vela. Com aspera amargura tomei o oculo, abri a vidra?a-e olhei por elle, como da borda d'uma nau que vai perdida nas aguas. Sim, muito sagazmente o affirmára Justino, a asquerosa Patrocinio deixava-me o oculo com rancoroso sarcasmo-para eu vêr através d'elle o resto da heran?a! E eu via, apesar da escura noite, nitidamente via o Senhor dos Passos sumindo os ma?os de inscrip??es dentro da sua tunica r?xa; o Casimiro tocando com as m?os moribundas os lavores das pratas, espalhadas sobre o seu leito; e o vilissimo Negr?o, de casaco de cotim e galochas, passeando regalado á beira d'agua, sob os olmos do Mosteiro! E eu alli, com o oculo!

Eu alli para sempre, na travessa da Palha, possuindo na algibeira d'umas cal?as com fundilhos setecentos e vinte-para me debater através da cidade e da vida! Com um urro atirei o oculo, que foi rolando até junto da chapeleira onde eu guardava o capacete de corti?a da minha jornada em Terra Santa. Alli estavam, esse capacete e esse oculo, emblemas das minhas duas existencias-a de esplendor e a de penuria! Havia mezes, com aquelle capacete na nuca, eu era o triumphante Raposo, herdeiro da snr.^a D. Patrocinio das Neves, remexendo ouro nas algibeiras, e sentindo em torno, perfumadas e á espera de que eu as colhesse, todas as fl?res da Civilisa??o! E agora, com o oculo, eu era o pelintrissimo Raposo de botas cambadas, sentindo em roda, negros e promptos a ferirem-me, todos os cardos da Vida… E tudo isto, porque? Porque um dia, na estalagem d'uma cidade da Asia, se tinham trocado dois embrulhos de papel pardo!

N?o houvera jámais zombaria igual da Sorte! A uma tia beata, que odiava o amor como coisa suja e só esperava, para me deixar predios e pratas, que eu, desdenhando saias, lhe rebuscasse em Jerusalem uma reliquia-trazia a camisa de dormir d'uma luveira! E n'um impulso de caridade, destinado a captivar o céo, atirava como pingue esmola a uma pobre em farrapos, com o filho faminto chorando ao collo-um galho cheio d'espinhos!… Oh Deus, dize-me tu! Dize-me tu, oh Demonio! como se fez, como se fez esta troca de embrulhos-que é a tragedia da minha vida?

Elles eram semelhantes no papel, no formato, no nastro!… O da camisa jazia no fundo escuro do guarda-fato; o da reliquia campeava sobre a commoda, glorioso, entre dois casti?aes. E ninguem lhes tocára: nem o jocundo Potte; nem o erudito Topsius; nem eu! Ninguém com m?os humanas, m?os mortaes, ousára mover os dois embrulhos. Quem os movera ent?o? Só alguem, com m?os invisiveis!

Sim, havia alguem, incorporeo, todo poderoso-que por odio trocára miraculosamente os espinhos em rendas, para que a titi me desherdasse e eu fosse precipitado para sempre nas Profundas Sociaes!

E quando assim esbravejava, esguedelhado-encontrei frigidamente cravados em mim e mais abertos, como gozando a derrota da minha vida, os olhos claros do Christo crucificado, dentro do seu caixilho com borlas…

-Foste tu! gritei, de repente illuminado e comprehendendo o prodigio.

Foste tu! Foste tu!

E, com os punhos fechados para elle, desafoguei fartamente os queixumes, os aggravos do meu cora??o:

-Sim, foste tu, que transformaste ante os olhos devotos da titi a cor?a de d?r da tua Lenda-na camisa suja da Mary!… E porque? Que te fiz eu? Deus ingrato e variavel! Onde, quando, gozaste tu devo??o mais perfeita? N?o acudia eu todos os domingos, vestido de preto, a ouvir as missas melhores que te offerta Lisboa? N?o me atochava eu todas as sextas-feiras, para te agradar, de bacalhau e de azeite? N?o gastava eu dias, no oratorio da titi, com os joelhos doridos, rosnando os ter?os da tua predilec??o? Em que cartilhas houve rezas que eu n?o decorasse para ti? Em que jardins desabrocharam fl?res com que eu n?o enfeitasse os teus altares?

E arrebatado, arrepiando os cabellos, repuxando as barbas, eu clamava ainda, t?o perto da imagem que as baforadas da minha cólera lhe embaciavam o vidro:

-Olha bem para mim!… N?o te recordas de ter visto este rosto, estes pêllos, ha seculos, n'um atrio de marmore, sob um velario, onde julgava um Pretor de Roma? Talvez te n?o lembres! Tanto dista d'um Deus victorioso sobre o seu andor a um Rabbi de provincia amarrado com cordas!… Pois bem! N'esse dia de Nizam, em que n?o tinhas ainda confortaveis lugares no céo e na bemaventuran?a a distribuir aos teus fieis; n'esse dia, em que ainda te n?o tornáras para ninguem fonte de riqueza e esteio de poder; n'esse dia, em que a titi, e todos os que hoje se prostram a teus pés, te teriam apupado como os vendilh?es do Templo, os Phariseus e a popula?a d'Acra; n'esse dia, em que os Soldados que hoje te escoltam com charangas, os Magistrados que hoje encarceram quem te desacate ou te renegue, os Proprietarios que hoje te prodigalisam ouro e festas d'egreja-se teriam juntado com as suas armas e os seus codigos e as suas bolsas, para obterem a tua morte como revolucionario, inimigo da Ordem, terror da Propriedade: n'esse dia, em que tu eras apenas uma Intelligencia creadora e uma Bondade activa, e portanto considerado pelos homens sérios como um perigo social-houve em Jerusalem um cora??o que espontaneamente, sem engodo no céo, nem terror do inferno, estremeceu por ti. Foi o meu!… E agora persegues-me. Porque?…

Subitamente, oh maravilha! do tosco caixilho com borlas irradiaram tremulos raios, c?r de neve e c?r d'ouro. O vidro abriu-se ao meio com o fragor faiscante de uma porta do céo. E de dentro o Christo no seu madeiro, sem despregar os bra?os, deslisou para mim serenamente, crescendo até ao estuque do tecto, mais bello em magestade e brilho que o sol ao sahir dos montes.

Com um berro cahi sobre os joelhos; bati a fronte apavorada no soalho. E ent?o senti esparsamente pelo quarto, com um rumor manso de brisa entre jasmins, uma Voz repousada e suave:

-Quando tu ias ao alto da Gra?a beijar no pé uma imagem-era para contar servilmente á titi a piedade com que deras o beijo: porque jámais houve ora??o nos teus labios, humildade no teu olhar-que n?o fosse para que a titi ficasse agradada no seu fervor de beata. O Deus a que te prostravas era o dinheiro de G. Godinho; e o céo para que teus bra?os trementes se erguiam-o testamento da titi… Para lograres n'elle o lugar melhor fingiste-te devoto sendo incredulo; casto sendo devasso; caridoso sendo mesquinho; e simulaste a ternura de filho tendo só a rapacidade de herdeiro… Tu foste illimitadamente o Hypocrita! Tinhas duas existencias: uma ostentada diante dos olhos da titi, toda de rosarios, de jejuns, de novenas; e longe da titi, sorrateiramente, outra, toda de gula, cheia da Adelia e da Benta… Mentiste sempre:-e só eras verdadeiro para o céo, verdadeiro para o mundo, quando rogavas a Jesus e á Virgem que rebentassem depressa a titi. Depois resumiste esse laborioso dolo d'uma vida inteira n'um embrulho-onde accommodáras um galho, t?o falso como o teu cora??o; e com elle contavas empolgar definitivamente as pratas e predios de D. Patrocinio! Mas n'outro embrulho parecido trazias pela Palestina, com rendas e la?os, a irrecusavel evidencia do teu fingimento… Ora justiceiramente aconteceu que o embrulho que offertaste á titi e que a titi abriu-foi aquelle que lhe revelava a tua perversidade! E isto prova-te, Theodorico, a inutilidade da hypocrisia.

Eu gemia sobre as táboas. A Voz susurrou, mais larga, como o vento da tarde entre as ramas:

-Eu n?o sei quem fez essa troca dos teus embrulhos, picaresca e terrivel; talvez ninguem; talvez tu mesmo! Os teus tedios de desherdado n?o provêm d'essa mudan?a de espinhos em rendas:-mas de vivêres duas vidas, uma verdadeira e de iniquidade, outra fingida e de santidade. Desde que contradictoriamente eras do lado direito o devoto Raposo e do lado esquerdo o obsceno Raposo-n?o poderias seguir muito tempo, junto da titi, mostrando só o lado, vestido de casimiras de domingo, onde resplandecia a virtude; um dia fatalmente chegaria em que ella, espantada, visse o lado despido e natural onde negrejavam as maculas do vicio… E ahi está porque eu alludo, Theodorico, á inutilidade da hypocrisia.

De rojo eu estendia abjectamente os labios para os pés do Christo, transparentes, suspensos no ar, com prégos que despediam tremulas radiancias de joia. E a Voz passou sobre mim, cheia e rumorosa, como a rajada que curva os cyprestes:

-Tu dizes que eu te persigo! N?o. O oculo, isso a que chamas Profundas Sociaes, s?o obra das tuas m?os-n?o obra minha. Eu n?o construo os episodios da tua vida; assisto a elles e julgo-os placidamente… Sem que eu me mova, nem intervenha influencia sobrenatural-tu pódes ainda descer a miserias mais torvas, ou elevar-te aos rendosos paraisos da terra e ser director d'um Banco… Isso depende meramente de ti, e do teu esfor?o d'homem… Escuta ainda! Perguntavas-me, ha pouco, se eu me n?o lembrava do teu rosto… Eu pergunto-te agora se n?o te lembras da minha voz… Eu n?o sou Jesus de Nazareth, nem outro Deus creado pelos homens… Sou anterior aos deuses transitorios: elles dentro em mim nascem; dentro em mim duram; dentro em mim se transformam; dentro em mim se dissolvem: e eternamente permane?o em torno d'elles e superior a elles, concebendo-os e desfazendo-os, no perpetuo esfor?o de realisar fóra de mim o Deus absoluto que em mim sinto. Chamo-me a Consciencia; sou n'este instante a tua propria Consciencia reflectida fóra de ti, no ar e na luz, e tomando ante teus olhos a fórma familiar, sob a qual, tu mal educado e pouco philosophico, estás habituado a comprehender-me… Mas basta que te ergas e me fites, para que esta imagem resplandecente de todo se desvane?a.

E ainda eu n?o levantára os olhos-já tudo desapparecera!

Ent?o, transportado como perante uma evidencia do Sobrenatural, atirei as m?os ao céo e bradei:

-Oh meu Senhor Jesus, Deus e filho de Deus, que te encarnaste e padeceste por nós…

Mas emmudeci… Aquella ineffavel Voz resoava ainda em minha alma, mostrando-me a inutilidade da hypocrisia. Consultei a minha consciencia, que reentrára dentro de mim-e bem certo de n?o acreditar que Jesus fosse filho de Deus e d'uma mulher casada de Galilêa (como Hercules era filho de Jupiter e d'uma mulher casada da Argolida)-cuspi dos meus labios, tornados para sempre verdadeiros, o resto inutil da ora??o.

* * * * *

Ao outro dia, casualmente, entrei no jardim de S. Pedro d'Alcantara-sitio que n?o pizára desde os meus annos de latim. E mal dera alguns passos, entre os canteiros, encontrei o meu antigo Chrispim, filho de Telles Chrispim & C.^a, com fabrica de fia??o á Pampulha-camarada que n?o avistára desde o meu grau de bacharel. Era este o louro Chrispim, que outr'ora no collegio dos Isidoros me dava beijos vorazes no corredor, e me escrevia á noite bilhetinhos promettendo-me caixas com pennas d'a?o. Chrispim velho morrera: Telles, rico e obeso, passára a Visconde de S. Telles: e este meu Chrispim agora era a Firma.

Trocado um ruidoso abra?o, Chrispim & C.^a notou pensativamente que eu estava ?muitissimo feio.? Depois invejou a minha jornada á Terra Santa (que elle soubera pelo Jornal das Novidades) e alludiu, com amigavel regosijo, á ?grossa maquia que me devia ter deixado a snr.^a D. Patrocinio das Neves…?

Amargamente mostrei-lhe as minhas botas cambadas. Parámos n'um banco, junto d'uma trepadeira de rosas; e ahi, no silencio e no perfume, narrei a camisa funesta da Mary, a Reliquia no seu embrulho, o desastre no Oratorio, o oculo, o meu quarto miseravel na travessa da Palha…

-De modo, Chrispimzinho da minh'alma, que aqui me encontro sem p?o!

Chrispim & C.^a, impressionado, torcendo os bigodes louros, murmurou que em Portugal, gra?as á Carta e á Religi?o, todo o mundo tinha uma fatia de p?o: o que a alguns faltava era o queijo.

-Ora o queijo dou-t'o eu, meu velho! ajuntou alegremente a Firma, atirando-me uma palmada ao joelho. Um dos empregados do escriptorio lá na Pampulha come?ou a fazer versos, a metter-se com actrizes… E muito republicano, achincalhando as coisas santas… Emfim, um horror, desembaracei-me d'elle! Ora tu tinhas boa letra. Uma conta de sommar sempre saberás fazer… Lá está a carteira do homem, vai lá, s?o vinte e cinco mil reis, sempre é o queijo!…

Com duas lagrimas a tremerem-me nas pestanas abracei a Firma. Chrispim e

C.^a murmurou outra vez, com uma careta de quem, sente um gosto azêdo:

-Irra! que estás muitissimo feio!

Comecei ent?o a servir com desvelo a fabrica de fia??o á Pampulha: e todos os dias á carteira, com mangas de lustrina, copiava cartas na minha letra de bellas curvas e alinhava algarismos n'um vasto Livro de Caixa… A Firma ensinára-me a ?regra de tres?, e outras habilidades. E, como de sementes trazidas por um vento casual a um torr?o desaproveitado, rompem inesperadamente plantas uteis que prosperam-das li??es da Firma brotaram, na minha inculta natureza de bacharel em leis, aptid?es consideraveis para o negocio da fia??o. Já a Firma dizia, compenetrada, na Assembléa do Carmo:

-Lá o meu Raposo, apesar de Coimbra e dos compendios que lhe metteram no caco, tem dedo para as coisas sérias!

Ora n'um sabbado d'agosto, á tarde, quando eu ia fechar o Livro de Caixa, Chrispim & C.^a parou diante da minha carteira, risonho e accendendo o charuto:

-Ouve lá, ó Rapos?o, tu a que missa costumas ir?

Silenciosamente, tirei a minha manga de lustrina.

-Eu pergunto isto, ajuntou logo a Firma, porque ámanh? vou com minha irm? á Outra Banda, a uma quinta nossa, á Ribeira. Ora se tu n?o estás muito apegado a outra missa, vinhas á de Santos, ás nove, iamos almo?ar ao Hotel Central, e embarcavamos de lá para Cacilhas. Estou com vontade que conhe?as minha irm?!…

Chrispim & C.^a era um cavalheiro religioso que considerava a Religi?o indispensavel á sua saude, á sua prosperidade commercial, e á boa ordem do paiz. Visitava com sinceridade o Senhor dos Passos da Gra?a, e pertencia á Irmandade de S. José. O empregado, cuja carteira eu occupava, tornára-se-lhe sobretudo intoleravel por escrever no Futuro, gazeta republicana, folhetins louvando Renan e ultrajando a Eucharistia. Eu ia dizer a Chrispim & C.^a que estava t?o apegado á missa da Concei??o Nova, que outra n?o me podia saber bem… Mas lembrei a Voz austera e salutar da travessa da Palha! Recalquei a mentira beata que já me sujava os labios-e disse, muito pallido e muito firme:

-Olha, Chrispim, eu nunca vou á missa… Tudo isso s?o patranhas… Eu n?o posso acreditar que o corpo de Deus esteja todos os domingos n'um peda?o d'hostia feita de farinha. Deus n?o tem corpo, nunca teve… Tudo isso s?o idolatrias, s?o carolices… Digo-te isto rasgadamente… Pódes fazer agora commigo o que quizeres. Paciencia!

A Firma considerou-me um momento mordendo o bei?o:

-Pois olha, Raposo, calha-me essa franqueza!… Eu gósto de gente lisa… O outro velhaco, que estava ahi a essa carteira, diante de mim dizia: ?Grande homem, o Papa!? E depois ia para os botequins e punha o Santo Padre de rastos… Pois acabou-se! N?o tens religi?o, mas tens cavalheirismo… Em todo o caso, ás dez no Central para o almocinho, e á vela depois para a Ribeira!

Assim eu conheci a irm? da Firma. Chamava-se D. Jesuina, tinha trinta e dois annos e era zar?lha. Mas, desde esse domingo de rio e de campo, a riqueza dos seus cabellos ruivos como os d'Eva, o seu peito solido e succulento, a sua pelle c?r de ma?? madura, o riso s?o dos seus dentes claros-tornavam-me pensativo, quando á tardinha, com o meu charuto, eu recolhia á Baixa pelo Aterro, olhando os mastros das falúas…

F?ra educada nas Selesias: sabia Geographia e todos os rios da China, sabia Historia e todos os reis de Fran?a; e chamava-me Theodorico-Cora??o-de-Le?o, por eu ter ido á Palestina. Aos domingos agora eu jantava na Pampulha: D. Jesuina fazia um prato d'ovos queimados: e o seu olho vesgo pousava, com incessante agrado, na minha face potente e barbuda de Rapos?o. Uma tarde ao café, Chrispim & C.^a louvou a Familia Real, a sua modera??o constitucional, a gra?a caridosa da Rainha. Depois descemos ao jardim: e andando D. Jesuina a regar, e eu ao lado enrolando um cigarro, suspirei e murmurei junto ao seu hombro:-?V. exc.^a, D. Jesuina, é que estava a calhar para Rainha, se cá o Raposinho fosse Rei!? Ella, córando, deu-me a ultima rosa do ver?o.

Em vesperas de Natal, Chrispim & C.^a chegou á minha carteira, pousou galhofeiramente o chapéo sobre a pagina do Livro de Caixa que eu ennegrecia de cifras, e cruzando os bra?os, com um riso de lealdade e estima:

-Ent?o com que, Rainha, se o Raposinho fosse Rei…? Ora diga lá o snr.

Raposo. Ha ahi dentro d'esse peito amor verdadeiro á mana Jesuina?

Chrispim & C.^a admirava a paix?o e o ideal. Eu ia já dizer que adorava a snr.^a D. Jesuina como a uma estrella remota… Mas recordei a Voz altiva e pura da travessa da Palha! Recalquei a mentira sentimental que já me enlanguecia o labio-e disse corajosamente:

-Amor, amor, n?o… Mas acho-a um bello mulher?o: gosto-lhe muito do dote; e havia de ser um bom marido.

-Dá cá essa m?o honrada! gritou a Firma.

* * * * *

Casei. Sou pai. Tenho carruagem, a considera??o do meu bairro, a commenda de Christo. E o Dr. Margaride, que janta commigo todos os domingos de casaca, affirma que o Estado, pela minha illustra??o, as minhas consideraveis viagens e o meu patriotismo-me deve o titulo de Bar?o do Mosteiro. Porque eu comprei o Mosteiro. O digno Magistrado uma tarde, á mesa, annunciou que o horrendo Negr?o, desejando arredondar as suas propriedades em Torres, decidira vender o velho solar dos condes de Landoso.

-Ora aquellas arvores, Theodorico-lembrou o benemerito homem-deram sombra á senhora sua mam?. Direi mais: as mesmas sombras cobriram seu respeitabilissimo pai, Theodorico!… Eu por mim, se tivesse a honra de ser um Raposo, n?o me continha, comprava o Mosteiro, erguia lá um torre?o com ameias!

Chrispim & C.^a disse, pousando o copo:

-Compra, é coisa de familia, fica-te bem.

E, n'uma vespera de Paschoa, assignei no cartorio do Justino, com o procurador do Negr?o, a escriptura que me tornava emfim, depois de tantas esperan?as e de tantos desalentos, o senhor do Mosteiro!

-Que faz agora esse maroto d'esse Negr?o? indaguei eu do bom Justino, apenas sahiu o agente do sordido sacerdote.

O dilecto e fiel amigo deu estalinhos nos dedos. O Negr?o pechinchava! Herdára tudo do padre Casimiro, que lá tinha o seu corpo no alto de S. Jo?o e a sua alma no seio de Deus. E agora era o intimo do padre Pinheiro que n?o tinha herdeiros, e que elle levára para Torres, ?para o curar?. O pobre Pinheiro lá andava, mais chupado, empanturrando-se com os tremendos jantares do Negr?o, deitando a lingua de fóra diante de cada espelho. E n?o durava, coitado! De sorte que o Negr?o vinha a reunir (com excep??o do que f?ra para o Senhor dos Passos, que n?o podia tornar a morrer, esse!) o melhor da fortuna de G. Godinho.

Eu rosnei, pallido:

-Que besta!

-Chame-lhe besta, amiguinho!… Tem carruagem, tem casa em Lisboa, tomou a Adelia por conta…

-Que Adelia?

-Uma de boas carnes, que esteve com o Eleuterio… Depois esteve muito era segredo com um basbaque, um bacharel, n?o sei quem…

-Sei eu.

-Pois essa! Tem-n'a por conta o Negr?o, com luxo, tapete na escada, cortinas de damasco, tudo… E está mais gordo. Vi-o hontem, vinha de prégar… Pelo menos disse-me que ?sahia de S. Roque esfalfado de dizer amabilidades a um diabo d'um Santo!? Que o Negr?o ás vezes é engra?ado. E tem bons amigos, lábia, influencia em Torres… Ainda o vemos Bispo!

Recolhi á minha familia, pensativo. Tudo o que eu esperára e amára (até á Adelia!) o possuia agora legitimamente o horrendo Negr?o!… Perda pavorosa! E que n?o proviera da troca dos meus embrulhos, nem dos erros da minha hyprocrisia.

Agora, pai, commendador, proprietario, eu tinha uma comprehens?o mais positiva da vida: e sentia bem que f?ra esbulhado dos contos de G. Godinho simplesmente por me ter faltado no Oratorio da titi-a coragem d'affirmar!

Sim! quando em vez d'uma Cor?a de Martyrio apparecera, sobre o altar da titi, uma camisa de peccado-eu deveria ter gritado, com seguran?a: ?Eis ahi a Reliquia! Quiz fazer a surpreza… N?o é a Cor?a de Espinhos. é melhor! é a camisa de Santa Maria Magdalena!… Deu-m'a ella no Deserto!…?

E logo o provava com esse papel, escripto em letra perfeita: Ao meu portuguezinho valente, pelo muito que gozámos… Era essa a carta em que a Santa me offertava a sua camisa. Lá brilhavam as suas iniciaes-M. M.! Lá destacava essa clara, evidente confiss?o-?o muito que gozámos?: o muito que eu gozára em mandar á Santa as minhas ora??es para o céo, o muito que a Santa gozára no céo em receber as minhas ora??es!

E quem o duvidaria? N?o mostram os santos Missionarios de Braga, nos seus serm?es, bilhetes remettidos do céo pela Virgem Maria, sem sêllo? E n?o garante a Na??o a divina authenticidade d'essas missivas, que têm nas dobras a fragrancia do paraiso? Os dois sacerdotes, Negr?o e Pinheiro, conscios do seu dever, e na sua natural sofreguid?o de procurar esteios para a Fé oscillante-acclamariam logo na camisa, na carta e nas iniciaes, um miraculoso triumpho da Egreja! A tia Patrocinio cahiria sobre o meu peito, chamando-me ?seu filho e seu herdeiro.? E eis-me rico! Eis-me beatificado! O meu retrato seria pendurado na sacristia da Sé. O Papa enviar-me-hia uma Ben??o Apostolica, pelos fios do telegrapho.

Assim ficavam saciadas as minhas ambi??es sociaes. E quem sabe? Bem poderiam ficar tambem satisfeitas as ambi??es intellectuaes que me pegára o douto Topsius. Porque talvez a Sciencia, invejosa do triumpho da Fé, reclamasse para si esta camisa de Maria de Magdala como documento archeologico… Ella poderia alumiar escuros pontos na Historia dos Costumes contemporaneos do Novo Testamento-o feitio das camisas na Judêa no primeiro seculo, o estado industrial das rendas da Syria sob a administra??o Romana, a maneira de abainhar entre as ra?as semiticas… Eu surgiria, na considera??o da Europa, igual aos Champollions, aos Topsius, aos Lepsius, e outros sagazes resuscitadores de Passado. A Academia logo gritaria-?A mim, o Raposo!? Renan, esse heresiarcha sentimental, murmuraria-?Que suave collega, o Raposo!? Sem demora se escreveriam sobre a camisa da Mary sabios, ponderosos livros em allem?o, com mappas da minha romagem em Galilêa… E eis-me ahi bemquisto pela Egreja, celebrado pelas Universidades, com o meu cantinho certo na Bemaventuran?a, a minha pagina retida na Historia, come?ando a engordar pacificamente dentro dos contos de G. Godinho!

E tudo isto perdera! Porquê? Porque houve um momento em que me faltou esse descarado heroismo d'affirmar, que, batendo na Terra com pé forte, ou pallidamente elevando os olhos ao Céo-cria através da universal illus?o, Sciencias e Religi?es.

Porto: 1887-Typ. de A. J. da Silva Teixeira

70, Rua da Cancella Velha, 70

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