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   Chapter 3 No.3

A Relíquia By E?a de Queirós Characters: 171451

Updated: 2017-12-06 00:02


Havia certamente duas horas que assim dormia, denso e estirado no catre, quando me pareceu que uma claridade trémula, como a d'uma tocha fumegante, penetrava na tenda-e através d'ella uma voz me chamava, lamentosa e dolente:

-Theodorico, Theodorico, ergue-te, e parte para Jerusalem!

Arrojei a manta, assustado:-e vi o doutissimo Topsius, que, á luz mortal de uma vela, bruxoleando sobre a mesa onde jaziam as garrafas de Champagne, afivelava no pé rapidamente uma velha espora de ferro. Era elle que me despertava, a?odado, fervoroso:

-A pé, Theodorico, a pé! As egoas est?o selladas! Amanh? é Paschoa! Ao alvorecer devemos chegar ás portas de Jerusalem!

Arredando os cabellos, considerei com pasmo o sisudo, ponderado Doutor:

-Oh Topsius! Pois nós partimos assim, bruscamente, sem os nossos alforges, e deixando as tendas adormecidas, como quem foge espavorido?

O erudito homem al?ou os seus oculos d'ouro que resplandeciam com uma desusada, irresistivel intellectualidade. Uma capa branca, que eu nunca lhe vira, envolvia-lhe a douta magreza em prégas graves e puras de toga latina: e lento, esguio, abrindo os bra?os, disse, com labios que pareciam classicos e de marmore:

-D. Raposo! Esta aurora que vae nascer, e em pouco tocar os cimos do Hebron, é a de 15 do mez de Nizam; e n?o houve em toda a historia d'Israel, desde que as tribus voltaram de Babylonia, nem haverá, até que Tito venha p?r o ultimo cêrco ao Templo, um dia mais interessante! Eu preciso estar em Jerusalem para vêr, viva e rumorejando, esta pagina do Evangelho! Vamos pois fazer a santa Paschoa a casa de Gamaliel, que é um amigo d'Hillel, e um amigo meu, um conhecedor das letras gregas, patriota forte e membro do Sanhedrin. Foi elle que disse: ?para te livrares do tormento da duvida, imp?e-te uma auctoridade.? Portanto, a pé, D. Raposo!

Assim murmurou o meu amigo, erecto e lento. E eu, submissamente, como perante um mandamento celeste, comecei a enfiar em silencio as minhas grossas botas de montar. Depois, apenas me agasalhei no albornoz, elle empurrou-me com impaciencia para fóra da tenda-sem mesmo me deixar recolher o relogio e a faca sevilhana, que todas as noites, cauteloso, eu guardava debaixo do travesseiro. A luz da vela esmorecia, fumarenta e vermelha…

Devia ser meia noite. Dois c?es ladravam ao longe, surdamente, como entre frondosos muros de quintas. O ar macio e ermo cheirava a rosas de vergel e á fl?r da laranjeira. O ceu d'Israel faiscava com desacostumado esplendor: e em cima do monte Nebo, um bello astro mais branco, d'uma refulgencia divina, olhava para mim, palpitando anciosamente, como se procurasse, captivo na sua mudez, dizer um segredo á minha alma!

As egoas esperavam, immoveis sob as longas clinas. Montei. E ent?o, emquanto Topsius arranjava laboriosamente os loros, avistei para os lados da fonte d'Elyseo-uma fórma maravilhosa que me arripiou de terror transcendente.

Era, ao clar?o diamantino das estrellas da Syria, como a branca muralha d'uma cidade nova! Front?es de templos alvejavam pallidamente entre a espessura de bosques sagrados; para as collinas distantes fugiam esbatidos os arcos ligeiros d'um aqueducto. Uma chamma fumegava no alto d'uma torre; mais baixo, movendo-se, faiscavam pontas de lan?as; um som longo de bozina morria na sombra… E abrigada junto aos basti?es uma aldêa dormia entre palmeiras.

Topsius, na sella, prompto a marchar, embrulhára a m?o nas clinas da egoa.

-Aquillo, branco, além? murmurei, suffocado.

Elle disse simplesmente:

-Jericó.

Rompeu, galopando. N?o sei quanto tempo segui, emmudecido, o nobre historiador dos Herodos: era por uma estrada direita, feita de lages negras de basalto. Ah! que differente do aspero caminho por onde tinhamos descido a Canaan, faiscante e c?r de cal, através de collinas onde o tojo escasso semelhava, na irradia??o da luz, um bolor de velhice e de abandono! E tudo em redor me parecia differente tambem, a fórma das rochas, o cheiro da terra quente, até a palpita??o das estrellas… Que mudan?a se fizera em mim, que mudan?a se fizera no Universo? Por vezes uma faisca dura saltava das ferraduras das egoas. E sem descontinuar Topsius galopava, agarrado ás clinas, com as duas bandas da capa branca batendo como os dois panos de uma bandeira…

Mas subitamente parou. Era junto d'uma casa quadrada, entre arvores, toda apagada e muda, tendo no t?po uma haste sobre que pousava estranhamente, como recortada n'uma lamina de ferro, a figura d'uma cegonha. á entrada esmorecia uma fogueira: remexi as achas: e á curta chamma que resaltou comprehendi que era uma antiga estalagem á beira d'uma antiga estrada. Por baixo da cegonha, encimando a porta estreita e erri?ada de pregos, brilhava em negro, n'uma lapide branca, a taboleta latina-Ad Gruem Majorem: e ao lado, enchendo parte da fachada, desenrolava-se uma inscrip??o rudemente entalhada na pedra, que eu decifrei a custo, e em que Apollo promettia a saude ao hospede, e Septimanus, o hospedeiro, lhe garantia risonha acolhida, o banho reparador, vinho forte da Campania, frescos palhetes d'Engaddi, e ?todas as commodidades á maneira de Roma.?

Murmurei, desconfiado:

-á maneira de Roma!

Que estranhos caminhos ia eu ent?o trilhando? Que outros homens, dissemelhantes de mim, no fallar e no traje, bebiam alli, sob a protec??o d'outros deuses, o vinho em amphoras do tempo de Horacio?…

Mas de novo Topsius marchou, esguio e vago na noite. Agora findára a estrada de basalto sonoro: e subiamos a passo um brusco caminho, cavado entre rochas, onde grossos pedregulhos resoavam, rolavam sob as patas das egoas, como no leito d'uma torrente que um lento Agosto seccou. O erudito Doutor, sacudido na sella, praguejava roucamente contra o Sanhedrin, contra a hirta Lei judaica, opposta indobravelmente a toda a obra culta que quer fazer o Proconsul… Sempre o Phariseu via com rancor o aqueducto romano que lhe trazia a agua, a estrada romana que o levava ás cidades, a therma romana que lhe curava as pustulas…

-Maldito seja o Phariseu!

Somnolento, rememorando velhas impreca??es do Evangelho, eu rosnava, encolhido no meu albornoz:

-Phariseu, sepulchro caiado… Maldito seja!

Era a hora calada em que os lobos dos montes v?o beber. Cerrei os olhos; as estrellas desmaiavam.

Breves faz o Senhor as noites macias do mez de Nizam, quando se come em Jerusalem o anho branco de Paschoa: e bem cedo o céo se vestiu d'alvo do lado do paiz de Moab.

Despertei. Já os gados balavam nos cerros. O ar fresco cheirava a rosmaninho.

E ent?o avistei, errando por cima dos penedos sobranceiros ao caminho, um homem estranho, bravio, coberto com uma pelle de carneiro, que me recordou Elias e todas as cóleras da Escriptura; o peito, as pernas pareciam de granito vermelho; por entre a grenha e a barba, rudes, emmaranhadas, fazendo-lhe como uma juba feroz, os olhos refulgiam-lhe desvairadamente… Descobriu-nos; e logo, sacudindo os bra?os como quem arremessa pedras, despediu sobre nós todas as maldi??es do Senhor! Chamou-nos ?pag?os?, chamou-nos ?c?es?: gritava ?malditas sejam as vossas m?es, sêccos sejam os peitos que vos crearam!? Crueis e cheios de presagios cahiam os seus brados do alto das rochas: e, retardado pelos passos lentos da egoa, Topsius encolhia-se na capa como sob uma saraiva inclemente. Até que me enfureci; voltei-me na anca da cavalgadura, chamei-lhe bebedo, atirei-lhe obscenidades; e via no emtanto, sob a chamma selvagem dos seus olhos, a bocca clamorosa e negra torcer-se-lhe, babar-se de furor devoto…

Mas, desembocando da ravina, encontrámos, larga e lageada, a estrada romana que vai a Sichem: e trotando por ella, sentiamos o allivio de penetrar emfim n'uma regi?o culta, piedosa, humana e legal. A agua abundava: sobre as collinas erguiam-se fortalezas novas: pedras sagradas delimitavam os campos. Nas eiras brancas, os bois enfeitados d'anemonas pisavam o trigo da colheita de Paschoa; e em vergeis onde a figueira já tinha enfolhado, o servo na sua torre caiada, cantando com uma vara na m?o, afugentava os pombos bravos. Por vezes avistavamos um homem, de pé, junto da sua vinha, ou á beira dos canaes de rega, direito, com a ponta do manto atirada por cima da cabe?a, e os olhos baixos, dizendo a santa ora??o do Schema. Um oleiro, que espica?ava o seu burro, carregado de cantaros de barro amarello, gritou-nos: ?Bemditas sejam as vossas m?es, boa vos seja a Paschoa!? E um leproso, que descan?ava á sombra, nos olivedos, perguntou-nos, gemendo e mostrando as chagas, qual era em Jerusalem o Rabbi que curava, e aonde se apanhava a raiz do baraz.

Já nos aproximavamos de Bethania. Para dar de beber ás egoas parámos n'uma linda fonte que um cedro assombreava. E o douto Topsius, arranjando um loro, admirava-se de n?o termos encontrado a caravana que vem de Galilêa celebrar a Paschoa a Jerusalem-quando soou, adiante, na estrada, um rumor lento d'armas em marcha… E eu vi, assombrado, apparecerem soldados romanos, d'esses que tantas vezes amaldi?oára em estampas da Paix?o!

Barbudos, tostados pelo sol da Syria, marchavam solidamente, em cadencia, com um passo bovino, fazendo resoar sobre as lages as sandalias ferradas: todos traziam ás costas os escudos envoltos em saccos de lona: e cada um erguia ao hombro uma alta forquilha, d'onde pendiam trouxas encordelada, pratos de bronze, ferramentas e cachos de tamaras. Algumas filas, descobertas, seguravam o capacete como um balde: outras, nas m?os cabelludas balan?avam um dardo curto. O Decuri?o gordo e loiro, seguido de uma gazella familiar, enfeitada com coraes, dormitava, ao passo miudo da egoa, embrulhado n'um manto escarlate. E atraz, ao lado das mulas carregadas de saccos de trigo e mólhos de lenha, os arrieiros cantavam ao som d'uma flauta de barro, tocada por um negro quasi nú que tinha no peito, em tra?os vermelhos, o numero da Legi?o.

Eu recuára para o escuro do cedro. Mas Topsius, logo, como um Germano servil, desmontára, ajoelhando quasi no pó, ante as Armas de Roma: e n?o se conteve, berrou, agitando os bra?os e a capa:

-Longa vida a Caio Tiberio, tres vezes Consul, Illyrico, Panonico,

Germanico, Imperador, Pacificador e Augusto!…

Alguns legionarios riram, crassamente. E passaram, cerrados, com um rumor do ferro-emquanto um pegureiro, ao longe, arrebanhando as cabras aos brados, fugia para o cimo dos cêrros.

De novo galopámos. A estrada de basalto findou; e penetrámos entre arvoredos, n'um aroma de pomares, através de abundancia e frescura.

Oh, que differentes se mostravam estes caminhos, estas collinas, que eu vira dias antes, em torno á Cidade Santa, deseccadas por um vento d'abstrac??o, e brancas, da c?r das ossadas… Agora tudo era verde, regado, murmuroso, e com sombras. A mesma luz perdêra o tom magoado, a c?r dorida, com que eu sempre a vira, cobrindo Jerusalem: as folhas dos ramos d'abril desabrochavam n'um azul, mo?o, tenro, cheio de esperan?a como ellas. E a cada instante se me iam os olhos longamente n'esses vergeis da Escriptura, que s?o feitos da oliveira, da figueira e da vinha, e onde crescem silvestres, e mais esplendidos que o rei Salom?o, os lirios vermelhos dos campos!

Enlevado e cantarolando, eu trotava ao comprido d'uma sebe toda entrela?ada de rosas. Mas Topsius deteve-me, mostrou-me no alto d'um outeiro, sobre um fundo sombrio de cyprestes e cedros, uma casa abrindo para o lado do oriente e da luz o seu portico branco. Pertencia, disse elle, a um romano, parente de Valerius Gratus, antigo Legado imperial da Syria: e tudo alli parecia penetrado de paz amavel e de gra?a latina. Um tapete vi?oso de relva bem lisa estendia-se em declive até a uma alea de alfazema, tendo ao meio, sobre o verde, desenhadas com linhas de fl?res escarlates, as iniciaes de Valerius Gratus: em redor, entre canteiros de rosas, de a?ucenas, orlados de myrto, resplandeciam nobres vasos de marmore carynthico, onde se enrolavam folhas de acantho: um servo, de capuz cinzento, talhava um teixo em fórma d'urna, ao lado d'um buxo alto já talhado sabiamente em feitio de lyra; aves domesticas picavam o ch?o, coberto d'arêa escarlate, n'uma rua de platanos onde os bra?os d'hera faziam de tronco a tronco fest?es como os que ornam um templo: a rama dos loureiros velava de sombras a nudez das estatuas. E sob um caramanch?o de vinha, ao rumor d'agua lenta cantando n'uma bacia de bronze, um velho de toga, sereno, risonho, ditoso, lia junto a uma imagem d'Esculapio um longo r?lo de papyro-emquanto uma rapariga, com uma flecha d'ouro nas tran?as, toda vestida de linho alvo, fazia uma grinalda com as fl?res que lhe enchiam o rega?o… Ao passo dos nossos cavallos ella ergueu os olhos claros. Topsius gritou-O, salvè, pulcherrima! Eu gritei-Viva la gracia! Os melros cantavam nas romanzeiras em fl?r.

Mas adiante o facundo Topsius deteve-me ainda, apontando-me outra vivenda de campo, escura e severa entre cyprestes: e disse-me baixo que era d'Osanias, um rico sadduceu de Jerusalem, da familia pontifical de Boethos, e membro do Sanhedrin. Nenhum ornato pag?o lhe profanava os muros. Quadrada, fechada, hirta, ella reproduzia a austeridade da Lei. Mas os largos celleiros, cobertos de colmo, os lagares, os vinhedos, diziam as riquezas feitas de duros tributos: no pateo dez escravos n?o bastavam a guardar os saccos de trigo, ?dres, carneiros marcados de vermelho, recolhidos em pagamento do dizimo n'esse dia de Paschoa. Junto á estrada, com uma piedade ostentosa, caiada de fresco, reluzia, ao sol, entre roseiras, a sepultura domestica.

Assim caminhando chegámos aos palmares onde se aninha Betphagé. E por um atalho virente que Topsius conhecia, come?ámos a subir o Monte das Oliveiras, até o Lagar da Moabita-que é uma paragem de caravanas n'essa infinita, vetusta Via Real que vem do Egypto, seguindo até Damasco a bem-regada.

E foi como um deslumbramento, ao encontrarmos sobre todo o Monte, por entre os olivedos da encosta até ao Cedron, por entre os pomares do valle até Siloeh, em meio dos tumulos novos dos Sacrificadores, e mesmo para os lados onde se empoeira a estrada de Hebron-o despertar rumoroso de todo um povo acampado! Tendas negras do deserto, feitas de pelles de carneiro e rodeadas de pedras: barracas de lona, da gente da Idumêa, alvejando ao sol entre as verduras; cabanas armadas com ramos, onde se abrigam os pastores d'Ascalon; toldos de tapetes que os peregrinos de Nephtali suspendem em varas de cedro;-era toda a Judêa, ás portas de Jerusalem, a celebrar a Paschoa Sagrada! E havia ainda, em volta ao casal onde velava um posto de Legionarios, os mercadores gregos da Decapola, tecel?es phenicios de Tiberiade, e a gente pag? que, através da Samaria, vem dos lados de Cesarêa e do mar.

Fomos marchando, lentos e cautelosos. á sombra das oliveiras os camêlos descarregados ruminavam placidamente; e as egoas da Perea, com as patas entravadas, pendiam a cabe?a sob a espessura das longas clinas. Junto ás tendas, cujos panos meio levantados nos deixavam entrevêr brilhos d'armas penduradas ou o esmalte d'um grande prato, raparigas, com os bra?os reluzindo de braceletes, pisavam entre duas pedras o gr?o do centeio; outras, mugiam as cabras; por toda a parte se accendiam fogos claros; e com os filhos pela m?o, o cantaro esguio ao hombro, uma fila de mulheres descia cantando para a fonte de Siloeh.

As patas dos nossos cavallos prendiam-se nas cordas retesadas das barracas dos Idumeus. Depois estacavamos diante de tapetes alastrados, onde um mercador de Cesarêa, com um manto á carthagineza, vistoso e bordado de fl?res, expunha pe?as de linho do Egypto, estendia sêdas de Cós, fazia reluzir armas marchetadas; ou com um frasco na palma de cada m?o, celebrava as perfei??es do nardo da Assyria e dos oleos d?ces da Parthia… Os homens em redor, arredando-se, demoravam em nós os seus olhos languidos e altivos; por vezes murmuravam uma injuria surda; ou por causa dos oculos do douto Topsius, um riso d'escarneo mostrava dentes agudos de fera, entre rudes barbas negras.

Sob as arvores, encostados aos muros, filas de mendidos ganiam, mostrando o caco com que rapavam as chagas. Diante d'uma cabana feita de ramos de loureiro, um velho obeso, rubro como um Sileno, apregoava o vinho fresco de Sichem, as favas novas de abril. Os homens fuscos do deserto apinhavam-se em torno dos gigos de fruta. Um pastor d'Ascalon, em andas, no meio d'um rebanho de cordeiros brancos, tocava bozina, chamando os devotos a comprar o anho puro da Paschoa. E por entre a multid?o onde constantemente se erguiam paus, em rixas bruscas, soldados romanos rondavam aos pares com um ramo d'oliveira no capacete, benignos e paternaes.

Assim chegámos junto de dois altos, frondosos cedros,-t?o cobertos de pombas brancas voando, que eram como duas grandes macieiras, na primavera, que um vento estivesse destoucando das fl?res. Subitamente, Topsius parára, abria os bra?os; eu tambem: e com o cora??o suspenso alli ficámos immoveis, deslumbrados, vendo lá em baixo, na luz, resplandecer Jerusalem.

O sol banhava-a, sumptuosamente! Uma severa, altiva muralha, guarnecida de torres novas, com portas onde as cantarias se entremeavam de lavores d'ouro, erguia-se sobre a ribanceira escarpada do Cedron, já sêcco pelos calores de Nizam, e ia correndo, cingindo Si?o, para o lado do Hinnon e até aos cerros de Gareb. E, dentro, em face aos cedros que nos assombreavam, o Templo, sobre os seus alicerces eternos, parecia dominar toda a Judêa, soberbo em esplendor, murado de granitos polidos, armado de basti?es de marmore, como a refulgente cidadella d'um Deus!…

Debru?ado sobre as clinas, o sapiente Topsius apontava-me o adro primordial, chamado ?o Pateo dos Gentilicos?, vasto bastante para receber todas as multid?es de Israel, todas as da terra pag?: o ch?o liso rebrilhava como a agua limpida d'uma piscina: e as columnas de marmore de Paros que o ladeavam, formando os Porticos de Salom?o, profundos e cheios de frescura, eram mais bastas que os troncos nos cerrados palmares de Jerichó. Em meio d'esta área, cheia de ar e de luz, elevava-se, em escadarias lustrosas como se fossem d'alabastro, com portas chapeadas de prata, arcarias, torre?es d'onde voavam pombas, um nobre terra?o, só accessivel aos fieis da Lei, ao Povo eleito de Deus, o orgulhoso ?Adro de Israel?. D'ahi erguia-se ainda, com outras claras escadarias, outro branco terra?o, o ?Atrio dos Sacerdotes?: no brilho diffuso que o enchia negrejava um enorme altar de pedras brutas, enristando a cada angulo um sombrio corno de bronze: aos lados dois longos fumos direitos, subiam devagar, mergulhavam no azul com a serenidade d'uma prece perennal. E ao fundo, mais alto, offuscante, com os seus recamos d'ouro sobre a alvura dos marmores, niveo e fulvo, como feito de ouro puro e neve pura, refulgia maravilhosamente, lan?ando o seu clar?o aos montes em redor, o Hieron, o Santuario dos Santuarios, a morada de Jehovah: sobre a porta pendia o Véo Mystico, tecido em Babylonia, c?r do Fogo e c?r dos Mares: pelas paredes trepava a folhagem d'uma vinha d'esmeralda com cachos d'outras pedrarias: da cupula irradiavam longas lan?as de ouro que o aureolavam de raios como um sol: e assim, resplandecente, triumphante, augusto, precioso, elle elevava-se para aquelle céo de festa Paschal, offertando-se todo, como o dom mais bello, o dom mais raro da Terra!

Mas ao lado do Templo, mais alto que elle, dominando-o com a severidade d'um amo orgulhoso, Topsius mostrou-me a Torre Antonia, negra, macissa, impenetravel, cidadella de for?as romanas… Na plataforma, entre as ameias, movia-se gente armada: sobre um basti?o, uma figura forte, envolta n'um manto vermelho de Centuri?o, estendia o bra?o; e toques lentos de bozina pareciam fallar, dar ordens, para outras torres que ao longe se azulavam no ar limpido, algemando a Cidade Santa. Cesar pareceu-me mais forte que Jehovah!

E mostrou-me ainda, para além da Antonia, o velho burgo de David. Era um tropel de casas cerradas, caiadas de fresco sobre o azul, descendo como um rebanho de cabras brancas para um valle ainda em sombra, onde uma pra?a monumental se abria entre arcarias: depois trepava, fendido em ruas tortuosas, a espalhar-se sobre a collina fronteira d'Acra, rica, com palacios, e cisternas redondas que luziam á luz semelhantes a broqueis d'a?o. Mais longe ainda, para além de velhos muros derrocados era o bairro novo de Bezetha, em construc??o; o Circo de Herodes arredondava ahi as suas arcarias; e os jardins d'Antipas estiravam-se por um ultimo outeiro, até junto ao tumulo de Helena, assoalhados, frescos, regados pelas aguas d?ces de Enrogel.

-Ah Topsius, que cidade! murmurei maravilhado.

-Rabbi Eliezer diz que n?o viu jámais cidade bella quem n?o viu

Jerusalem!

Mas ao nosso lado passava gente alegre, correndo, para os lados da verde estrada que sobe de Bethania: e um velho que puxava á pressa a arreata do seu burro, carregado de mólhos de palmas, gritou-nos que se avistára e vinha chegando a caravana da Galilêa! Ent?o, curiosos, trotámos até um comoro, junto a uma sebe de cactos, onde já se apinhavam mulheres com os filhos ao collo, sacudindo véos claros, soltando palavras de ben??o e de boa acolhida:-e logo vimos, n'uma poeirada lenta que o sol dourava, a densa fila dos peregrinos que s?o os derradeiros a chegar a Jerusalem, vindos de longe, da alta Galilêa, desde Gescala e dos montes. Um rumor de canticos enchia a estrada festiva: em torno a um estandarte verde agitavam-se palmas e ramos floridos de amendoeira; e os grandes fardos, carregando o dorso dos camêlos, balanceavam em cadencia por entre os turbantes brancos cerrados e movendo-se em marcha.

Seis cavalleiros da guarda Babylonica d'Antipas Herodes, tetrarca de Galilêa, escoltavam a caravana desde Tiberiade: traziam mitras de felpo, as longas barbas separadas em tran?as, as pernas ligadas em tiras de couro amarello: e caracolavam á frente, fazendo estalar n'uma das m?os a?oites de corda, com a outra atirando ao ar e aparando alfanges que faiscavam. Logo atraz era uma collegiada de Levitas, em c?ro, a passos largos, apoiados a bord?es enfeitados de fl?res, com os r?los da Lei apertados sobre o peito, psalmodiando rijo os louvores de Si?o. E em torno mo?os robustos, com as faces infladas e rubras, sopravam para o céo furiosamente em trompas recurvas de bronze.

Mas, d'entre a gente apertada á beira da estrada, rompeu uma acclama??o. Era um velho, sem turbante, de cabellos soltos, recuando e dan?ando freneticamente: das m?os cabelludas que elle agitava no ar sahia um repique de castanholas: ora arremessava uma perna, ora outra: e toda a sua face barbuda de Rei David ardia com um fulg?r inspirado. Atraz d'elle, raparigas, pulando compassadamente sobre a ponta ligeira das sandalias, feriam com dolencia harpas leves; outras, rodando sobre si, batiam d'alto os tamborinos-e as suas manilhas de prata brilhavam no pó que os seus pés levantavam, sob a roda das tunicas enfunadas… Ent?o, arrebatada, a turba entoou o velho canto das jornadas rituaes e os psalmos de Peregrina??o.

-Meus passos v?o todos para ti, ó Jerusalem! Tu és perfeita! Quem te ama conhece a abundancia!

E eu bradava tambem, transportado:

-Tu és o palacio do Senhor, ó Jerusalem, e o repouso do meu cora??o!

Lenta e rumorosa a caravana passava. As mulheres dos levitas, em burros, veladas e rebu?adas, semelhavam grandes saccos molles: as mais pobres, a pé, traziam nas pontas dobradas do manto frutas e o gr?o da aveia. Os previdentes, já com a sua offrenda ao Senhor, arrastavam preso do cinto um cordeiro branco; os mais fortes seguravam ás costas, presos pelos bra?os, os doentes-cujos olhos dilatados, nas faces maceradas, procuravam anciosamente as muralhas da Cidade Santa, onde todo o mal se cura.

Entre os peregrinos e a alegre multid?o que os acolhia, as ben??os cruzavam-se, ruidosas e ardentes; alguns perguntavam pelos visinhos, pelas searas ou pelos avós que tinham ficado na aldêa á sombra da sua vinha: e ouvindo que lhe f?ra roubada a pedra do seu moinho, um velho, ao meu lado, com as barbas d'um Abrah?o, arremessou-se a terra a arrepellar-se e a esfarrapar a tunica. Mas já, fechando a marcha, passavam as mulas com guisos carregadas de lenha e de ?dres d'azeite: e atraz uma turba de fanaticos que nos arredores, em Betphagé e em Rephrain, se tinham juntado á caravana, appareceu, atirando para os lados caba?as de vinho já vazias, brandindo facas, pedindo a morte dos Samaritanos e amea?ando a gente pag?…

Ent?o seguindo Topsius trotei de novo através do monte para junto dos cedros cobertos do v?o alvo das pombas: e n'esse instante tambem os peregrinos, emergindo da estrada, avistavam emfim Jerusalem que resplandecia lá em baixo formosa, toda branca na luz… Ent?o foi um santo, tumultuoso, inflammado delirio! Prostrada, a turba batia as faces na terra dura: um clamor de ora??es subia ao céo puro por entre o estridor das tubas: as mulheres erguiam os filhos nos bra?os offertando-os arrebatadamente ao Senhor! Alguns permaneciam immoveis, como assombrados, ante os esplendores de Si?o: e quentes lagrimas de fé, de amor piedoso, rolavam sobre barbas incultas e feras. Os velhos mostravam com o dedo os terra?os do Templo, as ruas antigas, os sacros lugares da historia de Israel: ?alli é a porta d'Ephrain, acolá era a torre das Fornalhas; aquellas pedras brancas, além, s?o do tumulo de Rachel…? E os que escutavam em redor, apinhados, batiam as m?os, gritavam: ?Bemdita sejas, Si?o!? Outros, estonteados, com o cinto desapertado, corriam trope?ando nas cordas das tendas, nos gigos de fruta, a trocar a moeda romana, a comprar o anho da offerta. Por vezes, d'entre as arvores, um canto subia, claro, fino, candido, e que ficava tremendo no ar: a terra um momento parecia escutar, como o céo: serenamente, Si?o rebrilhava, do Templo os dois fumos lentos ascendiam, com uma continuidade de prece eterna… Depois o canto morria: de novo as ben??os rompiam, clamorosas: a alma inteira de Judá abysmava-se no resplendor do santuario: e bra?os magros erguiam-se phreneticamente para estreitar Jehovah.

De repente Topsius colheu-me as redeas da egoa: e quasi ao meu lado um homem com uma tunica c?r d'a?afr?o, surgindo esgazeado de traz de uma oliveira e brandindo uma espada, saltou para cima d'uma pedra e gritou desesperadamente:

-Homens de Galilêa, acudi, e vós, homens de Nephtali!…

Peregrinos correram, erguendo os bast?es: e as mulheres sahiam das tendas, pallidas, apertando os filhos ao collo. O homem fazia tremer a espada no ar, todo elle tremia tambem: e outra vez bradou, desoladamente:

-Homens de Galilêa, Rabbi Jeschoua foi preso! Rabbi Jeschoua foi levado a casa de Hannan, homens de Nephtali!

-D. Raposo, disse Topsius ent?o, com os olhos faiscantes, o Homem foi preso, e compareceu já diante do Sanhedrin!… Depressa, depressa, amigo, a Jerusalem, a casa de Gamaliel!

* * * * *

E á hora em que no Templo se fazia a offerta do Perfume, quando o sol já ia alto sobre o Hebron, Topsius e eu penetrámos, pela porta do Pescado, a passo, n'uma rua da antiga Jerusalem. Era ingreme, tortuosa, poeirenta, com casas baixas e pobres de tijolo; sobre as portas, fechadas por uma corrêa, sobre as janellas esguias como fendas gradeadas, havia verduras e palmas entretecidas, fazendo ornatos de Paschoa. Nos terra?os, rodeados de balaustradas, mulheres diligentes sacudiam os tapetes, joeiravam o trigo; outras, chalrando, penduravam lampadas de barro em fest?es para as illumina??es rituaes.

Ao nosso lado ia marchando fatigado um harpista egypcio, com uma pluma escarlate presa na peruca frisada, um pano branco envolvendo-lhe a cinta fina, os bra?os pesados de braceletes, e a harpa ás costas, recurva como uma foice e lavrada em fl?res de lotus. Topsius perguntou-lhe se elle vinha d'Alexandria. E ainda se cantavam nas tabernas do Eunotos as cantigas da batalha d'Accio? O homem logo, mostrando n'um riso triste os dentes longos, pousou a harpa, ia ferir os bord?es… Picámos as egoas: e assustámos duas mulheres cobertas de véos amarellos, com casaes de pombas enroladas na ponta do manto, que se apressavam decerto para o Templo, airosas, ligeiras, fazendo retinir os guisos das suas sandalias.

Aqui e além um lume caseiro ardia no meio da rua, com trempes, ca?arolas, d'onde sahia um cheiro acre d'alho: crian?as de ventre enorme que rolavam núas pela poeira, roendo vorazmente cascas d'abobora crua, ficavam pasmadas para nós, com grandes olhos ramellosos onde fervilhavam moscas. Diante d'uma forja um bando hirsuto de pastores de Moab esperavam emquanto dentro, martellando n'um nimbo de chispas, os ferreiros lhes batiam ferros novos para as lan?as. Um negro, com um pente em fórma de sol toucando-lhe a carapinha, apregoava, n'um grito lugubre, bolos de centeio de feitios obscenos.

Calados, atravessámos uma pra?a, clara e lageada, que andava em obras. Ao fundo uma casa de banhos, moderna, uma Therma romana, estendia com ar de luxo e de ociosidade a longa arcada do seu portico de granito: no pateo interior, por entre os platanos que o refrescavam, cujos ramos suspendiam velarios de linho alvo, corriam escravos nús, reluzentes de suor, levando vasos d'essencias e bra?adas de fl?res; das aberturas gradeadas, ao rez das lages, sahia um bafo molle d'estufa que cheirava a rosa. E sob uma das columnas vestibulares, onde uma lapide d'onyx indicava a entrada das mulheres, estava de pé, immovel, offertando-se aos votos como um idolo, uma creatura maravilhosa: sobre a sua face redonda, d'uma brancura de lua cheia, com labios grossos, rubros de sangue, erguia-se a mitra amarella das prostitutas de Babylonia; dos hombros fortes, por cima da tumida rijeza dos seios direitos, cahia em pregas duras de brocado uma dalmatica negra radiantemente recamada de ramagens c?r de ouro. Na m?o tinha uma fl?r de cactus; e as suas palpebras pesadas, as pestanas densas, abriam-se e fechavam-se em rythmo, ao mover onduloso d'um leque que uma escrava preta, agachada a seus pés, balan?ava cantando. Quando os seus olhos se cerravam, tudo em redor parecia escurecer; e quando se levantava a negra cortina das suas pestanas, vinha d'essa larga pupilla um clar?o, uma influencia, como a do sol do meio dia no deserto que abraza e vagamente entristece. E assim se offertava, magnifica, com os seus grandes membros de marmore, a sua mitra fulva, lembrando os ritos de Astarté e d'Adonis, lasciva e pontifical…

Toquei no bra?o de Topsius, murmurei, pallido:

-Caramba! Vou aos banhos!

Sêcco, impertigado na sua capa branca, elle volveu asperamente:

-Espera-nos Gamaliel, filho de Simeon. E a sabedoria dos Rabbis lá disse que a mulher é o caminho da iniquidade!

E bruscamente penetrou n'uma lobrega viella, toda abobadada: as patas das egoas, ferindo as lages, acirraram contra nós uivos de c?es, maldi??es de mendigos, amontoados juntos no escuro. Depois saltámos por uma brecha da antiga muralha de Ezekiah, passámos uma velha cisterna sêcca onde os lagartos dormiam: e trotando pela poeira solta d'uma longa rua, entre muros caiados que reluziam e portas besuntadas de alcatr?o, parámos no alto diante d'uma entrada mais nobre, em arco, com uma grade baixa d'arame que a defendia dos escorpi?es. Era a casa de Gamaliel.

No meio d'um vasto pateo ladrilhado, escaldando ao sol, um limoeiro toldava a agua clara d'um tanque. Em volta, sobre pilastras de marmore verde, corria uma varanda, silenciosa e fresca, d'onde pendia aqui e além um tapete da Assyria com fl?res bordadas. Um puro azul brilhava no alto;-e ao canto, sob um alpendre, um negro atrellado por cordas como uma alimaria a uma barra de pau, cal?ado de ferraduras, vincado de cicatrizes, ia fazendo gemer e girar lentamente a grande mó de pedra do moinho domestico.

No escuro d'uma porta appareceu um homem obeso, sem barba, quasi t?o amarello como a tunica lassa que o envolvia todo: tinha na m?o uma vara de marfim e mal podia erguer as palpebras molles.

-Teu amo? gritou-lhe Topsius, desmontando.

-Entra, disse o homem n'uma voz fugidia e fina como um silvo de cobra.

Por uma escadaria rica de granito negro chegámos a um patamar-onde pousavam dois candelabros, espigados como os arbustos de que reproduziam, em bronze, o tronco sem folhas: e entre elles estava de pé, diante de nós, Gamaliel, filho de Simeon. Era muito alto, muito magro; e a barba solta, lustrosa, perfumada, enchia-lhe o peito, onde brilhava um sinete de coral pendurado d'uma fita escarlate. O seu turbante branco, entremeado de fios de perolas, descobria uma tira de pergaminho collada sobre a testa e cheia de textos sagrados: sob aquella alvura, os seus olhos encovados tinham um fulgor frio e duro. Uma longa tunica azul cobria-o até ás sandalias, orlada de compridas franjas que arrastavam: e cosidas ás mangas, enroladas nos pulsos, tinha ainda outras tiras de pergaminho onde negrejavam outras escripturas rituaes.

Topsius saudou-o á moda do Egypto, deixando cahir lentamente a m?o até á joelheira da sua cal?a de lustrina. Gamaliel alargou os bra?os e murmurou, como psalmodiando:

-Entrai, sêde bem vindos, comei e regosijai-vos…

E atraz de Gamaliel, pisando um ch?o sonoro de mosaico, penetrámos n'uma sala onde se achavam tres homens. Um, que se afastou da janella para nos acolher, era magnificamente bello, com longos cabellos castanhos, pendendo em anneis d?ces em torno d'um pesco?o forte, macio e branco como um marmore corinthio: na faxa negra que lhe apertava a tunica brilhava, com pedrarias, o punho d'ouro d'uma espada curta. O outro, calvo, gordo, com uma face balofa sem sobrancelhas, e t?o livida que parecia coberta de farinha, ficára encruzado, embrulhado no seu manto c?r de vinho, sobre um divan feito de correias-tendo uma almofada de purpura debaixo de cada bra?o; e o seu gesto d'acolhida foi mais distrahido e desdenhoso, do que a esmola que se atira ao estrangeiro. Mas Topsius quasi se prostrára, a beijar os seus sapatos redondos de couro amarello, atados por fios de ouro-porque aquelle era o venerando Osanias, da familia pontifical de Beothos, ainda do sangue real de Aristobolus! O outro homem n?o o saudámos, nem elle tambem nos viu; estava agachado a um canto, com a face sumida no capuz d'uma tunica de linho mais alvo que a neve fresca, como mergulhado n'uma ora??o: e só de vez em quando se movia, para limpar as m?os lentamente a uma toalha da fina brancura da tunica, que lhe pendia d'uma corda, apertada á cintura, grossa e cheia de nós, como as que cingem os monges.

No emtanto, descal?ando as luvas, eu examinava o tecto da sala, todo de cedro, com lavores retocados d'escarlate. O azul liso e lustroso das paredes era como a continua??o d'aquelle céo d'Oriente, quente e puro, que resplandecia através da janella, onde se destacava, pendido do muro, na plena luz, um ramo solitario de madresilva. Sobre uma tripe?a, incrustada de nacar, n'um incensador de bronze, fumegava uma resina aromatica.

Mas Gamaliel aproximára-se-e depois de ter olhado duramente as minhas botas de montar disse com lentid?o:

-A jornada do Jord?o é longa, deveis vir esfomeados…

Murmurei polidamente uma recusa… E elle, grave como se recitasse um texto:

-A hora do meio dia é a mais grata ao Senhor. Joseph disse a Benjamim: ?tu comerás commigo ao meio dia.? Mas a alegria do hospede é tambem doce ao Muito-Alto, ao Muito-Forte… Estaes fracos, ides comer, para que a vossa alma me aben??e.

Bateu as palmas-um servo, com os cabellos apertados n'um diadema de metal, entrou trazendo um jarro cheio d'agua tepida que cheirava a rosa, onde eu purifiquei as m?os; outro offereceu bolos de mel sobre vi?osas folhas de parra; outro verteu em ta?as de lou?a brilhante um vinho forte e negro d'Emaús. E para que o hospede n?o comesse só, Gamaliel partiu um gomo de rom?, e com as palpebras cerradas levou á beira dos labios uma malga, onde boiavam peda?os de gêlo entre fl?res de laranjeira.

-Pois agora, disse eu lambendo os dedos, tenho lastro até ao meio dia…

-Que a tua alma se regosije!

Accendi um cigarro, debrucei-me na janella. A casa de Gamaliel ficava n'um alto, decerto por traz do Templo, sobre a collina d'Ophel: alli o ar era t?o d?ce e macio, que só o sentir a sua caricia enchia de paz o cora??o. Por baixo corria a muralha nova erguida por Herodes o Grande; e para além floriam jardins e pomares dando sombra ao Valle da Fonte, e subindo até á collina, em que branquejava, calada e fresca, a aldeia de Siloé. Por uma fenda, entre o monte do Escandalo e a collina dos Tumulos, eu via resplandecer o mar Morto como uma chapa de prata: as montanhas de Moab ondulavam depois, suaves, d'um azul apenas mais denso que o do céo: e uma fórma branca, que parecia tremer na vibra??o da luz, devia ser a cidadella de Makeros sobre o seu rochedo, nos confins da Idumêa. No terra?o relvoso d'uma casa, ao pé das muralhas, uma figura immovel, abrigada sob um alto guarda-sol franjado de guisos, olhava como eu para esses longes da Arabia: e ao lado uma rapariga, ligeira e delgada, com os bra?os nús erguidos, chamava um bando de pombas que esvoa?avam em redor. A tunica aberta descobria-lhe o seiosinho cheio de seiva: e era t?o linda, morena e dourada pelo sol, que eu ia, no silencio do ar, atirar-lhe um beijo… Mas recolhi, ouvindo Gamaliel que dizia, como o homem do manto c?r d'a?afr?o no Monte das Oliveiras: ?Sim, esta noite, em Bethania, Rabbi Jeschoua foi preso…?

Depois ajuntou, lento, com os olhos semi-cerrados, erguendo por entre os dedos os longos fios da barba:

-Mas Poncius teve um escrupulo… N?o quiz julgar um homem de Galilêa que é subdito de Antipas Herodes… E como o Tetrarcha veio á Paschoa a Jerusalem, Poncius mandou o Rabbi á sua morada, a Bezetha…

Os doutos oculos de Topsius rebrilharam d'espanto.

-Coisa estranha! exclamou, abrindo os bra?os magros. Poncius escrupuloso, Poncius formalista! E desde quando respeita Poncius a judicatura do Tetrarcha? Quantos pobres galileus n?o fez elle matar sem licen?a do Tetrarcha, quando foi da revolta do aqueducto, quando espadas romanas, por ordem de Poncius, misturaram nos pateos do Templo o sangue dos homens de Nephtali ao sangue dos bois do Sacrificio!

Gamaliel murmurou sombriamente:

-O Romano é cruel, mas escravo da legalidade.

Ent?o Osanias, filho de Beothos, disse com um sorriso molle e sem dentes, agitando de leve, sobre a purpura das almofadas, as m?os resplandecentes de anneis:

-Ou talvez seja que a mulher de Poncius proteja o Rabbi.

Gamaliel, surdamente, amaldi?oou o impudor da Romana. E como os oculos de Topsius interrogavam o venerando Osanias elle admirou-se que o Doutor ignorasse coisas t?o conversadas no Templo, até pelos pastores que vem da Idumêa vender os cordeiros da Offrenda. Sempre que o Rabbi prégava no Portico de Salom?o, do lado da porta de Suza, Claudia vinha vêl-o do alto do terra?o da Torre Antonia, só, envolta n'um véo negro… Menahem, que guardava no mez de Tebeth a escadaria dos Gentis, vira a mulher de Poncius acenar com o véo ao Rabbi. E talvez Claudia, saciada de Capreia, de todos os cocheiros do Circo, de todos os histri?es de Suburra, e dos brinquedos d'Atalanta que fizeram perder a voz ao cantor Accius, quizesse provar, vindo á Syria, a que sabiam os beijos d'um propheta de Galilêa…

O homem vestido de linho alvo ergueu bruscamente a face, sacudindo o capuz de sobre os cabellos revoltos: o seu largo olhar azul fulgurou por toda a sala, n'um relampago, e apagou-se logo, sob a humildade grave das pestanas que se baixaram… Depois murmurou, lento e severo:

-Osanias, o Rabbi é casto!

O velho riu, pesadamente. Casto, o Rabbi! E ent?o essa galilêa de Magdala, que vivera no bairro de Bezetha, e nas festas do Prurim se misturava com as prostitutas gregas ás portas do theatro d'Herodes?… E Joanna, a mulher de Khosna, um dos cozinheiros d'Antipas? E outra d'Ephrain, Suzanna, que uma noite, a um gesto do Rabbi, a um aceno do seu desejo, deixára o tear, deixára os filhos, e com o peculio domestico, escondido na ponta do manto, o seguira até Cesarêa…?

-Oh Osanias! gritou, batendo palmas folgaz?s, o homem formoso que tinha uma espada com pedrarias. Oh filho de Beothos, como tu conheces, uma a uma, as incontinencias d'um Rabbi galileu, filho das hervas do ch?o e mais miseravel que ellas! Nem que se tratasse d'Elius Lamma, nosso Legado Imperial, que o Senhor cubra de males!

Os olhos d'Osanias, miudinhos como duas contas de vidro negro, reluziram d'agudeza e malicia.

-Oh Manassés! é para que vós outros, os patriotas, os puros herdeiros de Judas de Galaunitida, n?o nos accuseis sempre, a nós sadduceus, de saber só o que se passa no Atrio dos Sacerdotes e nos eirados da casa d'Hannan…

Uma tosse rouca reteve-o um espa?o, suffocando, sob a ponta do manto em que vivamente se embu?ára. Depois, mais quebrado, com laivos r?xos na face farinhenta:

-Que em verdade foi justamente na casa d'Hannan que ouvimos isto a Menahem, passeando todos debaixo da vinha… E mesmo nos contou elle que esse Rabbi de Galilêa chegava, no seu impudor, a tocar fêmeas pag?s, e outras mais impuras que o porco… Um levita viu-o, na estrada de Sichem, erguer-se afogueado, de traz da borda d'um po?o, com uma mulher da Samaria!

O homem coberto d'alvo linho ergueu-se d'um salto, todo direito e tremulo; e no grito que lhe escapou havia o horror de quem surprehende a profana??o d'um altar!

Mas Gamaliel, com uma sêcca authoridade, cravou n'elle os olhos duros:

-Oh Gad, aos trinta annos o Rabbi n?o é casado! Qual é o seu trabalho? Onde está o campo que lavra? Alguem jámais conheceu a sua vinha? Vagabundeia pelos caminhos, e vive do que lhe offertam essas mulheres dissolutas! E que outra coisa fazem esses mo?os sem barba de Sybaris e de Lesbos, que passeiam todo o dia na via Judiciaria, e que vós outros, Essenios, abominaes de tal sorte, que correis a lavar as vestes n'uma cisterna se um d'elles ro?a por vós?… Tu ouviste Osanias, filho de Beothos… Só Jehovah é grande! e em verdade te digo que quando Rabbi Jeschoua, desprezando a Lei, dá á mulher adultera um perd?o que tanto captiva os simples, cede á frouxid?o da sua moral e n?o á abundancia da sua misericordia!

Com a face abrazada, e atirando os bra?os ao ar, Gad bradou:

-Mas o Rabbi faz milagres!

E foi o formoso Manassés, com um sereno desdem, que respondeu ao

Essenio:

-Socega, Gad, outros têm feito milagres! Sim?o de Samaria fez milagres. Fêl-os Apollonius, e fêl-os Gabienus… E que s?o os prodigios do teu galileu comparados aos das filhas do Gr?o Sacerdote Anius, e aos do sabio Rabbi Chekiná?

E Osanias escarnecia a simplez de Gad:

-Em verdade, que aprendeis vós outros, Essenios, no vosso oasis d'Engaddi? Milagres! Milagres até os pag?os os fazem! Vai a Alexandria, ao porto do Eunotos, para a direita, onde est?o as fabricas de papyros, e vês lá Magos fazendo milagres por um drachma, que é o pre?o d'um dia de trabalho. Se o milagre prova a divindade, ent?o é divino o peixe Oannes, que tem barbatanas de nacar e préga nas margens do Euphrates, em noites de lua cheia!

Gad sorria com altivez e do?ura. A sua indigna??o expirára sob a immensid?o do seu desdem. Deu um passo vagaroso, depois outro,-e considerando, apiedadamente, aquelles homens enfatuados, endurecidos e cheios d'irris?o:

-Vós dizeis, vós dizeis, v?os á maneira de moscardos que zumbem! Vós dizeis, e vós n?o o ouvistes! Em Galilêa, que é bem fertil, bem verde, quando elle fallava era como se corresse uma fonte de leite em terra de fome e seccura: até a luz parecia um bem maior! As aguas, no lago de Tiberiade, amansavam para o escutar; e aos olhos das crian?as que o rodeavam subia a gravidade d'uma fé já madura… Elle fallava: e como pombas que desdobram as azas e v?am da porta d'um santuario, nós viamos desprender-se dos seus labios, irem voar por sobre as na??es do mundo toda a sorte de cousas nobres e santas, a Caridade, a Fraternidade, a Justi?a, a Misericordia, e as fórmas novas, bellas, divinamente bellas, do Amor!

A sua face resplandecia, enlevada para os céos, como seguindo o v?o d'essas novas divinas. Mas já do lado, Gamaliel, Doutor da Lei, o rebatia com uma dura auctoridade:

-Que ha d'original e d'individual em todas essas idéas, homem? Pensas que o Rabbi as tirou da abundancia do seu cora??o? Está cheia d'ellas a nossa doutrina!… Queres ouvir fallar de Amor, de Caridade, de Igualdade? Lê o livro de Jesus, filho de Sidrah… Tudo isso o prégou Hillel, tudo isso o disse Schemaia! Cousas t?o justas se encontram nos livros pag?os, que s?o, ao pé dos nossos, como o l?do ao pé da agua pura de Siloeh!… Vós mesmos os Essenios tendes preceitos melhores!… Os Rabbis de Babylonia, d'Alexandria, ensinaram sempre leis puras de Justi?a e de Igualdade! E ensinou-as o teu amigo Iokanan, a quem chamaes o Baptista, que lá acabou t?o miseravelmente n'um ergastulo de Makeros…

-Iokanan! exclamou Gad, estremecendo, como rudemente acordado da suavidade d'um sonho.

Os seus olhos brilhantes humedeceram. Tres vezes, curvado para o ch?o, com os bra?os abertos, repetiu o nome de Iokanan, como chamando alguem d'entre os mortos. Depois, com duas lagrimas rolando pela barba, murmurou muito baixo, n'uma confidencia que o enchia de terror e de fé:

-Fui eu que subi a Makeros a buscar a cabe?a do Baptista! E quando descia o caminho, com ella embrulhada no meu manto, ainda a outra, Herodiade, estirada por sobre a muralha como a femea lasciva do tigre, rugia e me gritava injurias!… Tres dias e tres noites segui pelas estradas de Galilêa, levando a cabe?a do justo pendurada pelos cabellos… ás vezes, detraz d'um rochedo, um anjo surgia todo coberto de negro, abria as azas e punha-se a caminhar ao meu lado…

De novo a cabe?a lhe pendeu, os seus duros joelhos resoaram nas lages: e ficou prostrado, orando anciosamente, com os bra?os estendidos em cruz.

Ent?o Gamaliel adiantou-se para o sabio Topsius; e, mais direito que uma columna do Templo, com os cotovêlos collados á cinta, as m?os magras espalmadas para fóra:

-Nós temos uma Lei, a nossa Lei é clara. Ella é a palavra do Senhor; e o Senhor disse: ?Eu sou Jehovah, o eterno, o primeiro e o ultimo, o que n?o transmitte a outros nem o seu nome, nem a sua gloria: antes de mim n?o houve Deus algum, n?o existe Deus algum ao meu lado, n?o haverá Deus algum depois de mim…? Esta é a voz do Senhor. E o Senhor disse ainda: ?Se pois entre vós apparecer um propheta, um visionario que fa?a milagres e queira introdizir outro Deus e chame os simples ao culto d'esse Deus,-esse propheta e visionario morrerá!? Esta é a Lei, esta é a voz do Senhor. Ora o Rabbi de Nazareth proclamou-se Deus em Galilêa, nas synagogas, nas ruas de Jerusalem, nos pateos santos do Templo… O Rabbi deve morrer.

Mas o formoso Manassés, cujo languido olhar entenebrecia como um céo onde vai trovejar, interpoz-se entre o Doutor da Lei e o historiador dos Herodes. E nobremente repelliu a letra cruel da Doutrina:

-N?o, n?o! Que importa que a lampada d'um sepulchro diga que é o sol? Que importa que um homem abra os bra?os e grite que é um Deus? As nossas leis s?o suaves: por t?o pouco n?o se vai buscar o carrasco ao seu covil a Gareb…

Eu, caridosso, ia louvar Manassés. Mas já elle bradava com violencia e fervor:

-Todavia esse Rabbi de Galilêa deve decerto morrer, porque é um mau cidad?o e um mau judeu! N?o o ouvimos nós aconselhar que se pague o tributo a Cesar? O Rabbi estende a m?o a Roma, o romano n?o é o seu inimigo. Ha tres annos que préga, e ninguem jámais lhe ouviu proclamar a necessidade santa de expulsar o Estrangeiro. Nós esperamos um Messias que traga uma espada e liberte Israel, e este, nescio e verboso, declara que traz só o p?o da verdade! Quando ha um pretor romano em Jerusalem, quando s?o lan?as romanas que velam ás portas do nosso Deus, a que vem esse visionario fallar do p?o do céo e do vinho da verdade? A unica verdade util é que n?o deve haver romanos em Jerusalem!…

Osanias, inquieto, olhou a janella cheia de luz, por onde as amea?as de Manassés se evolavam, vibrantes e livres. Gamaliel sorria friamente. E o discipulo ardente de Judas de Gamala clamava, arrebatado na sua paix?o:

-Oh! Em verdade vos digo, embalar as almas na esperan?a do reino do céo é fazer-lhes esquecer o dever forte para com o reino da terra, para esta terra d'Israel que está em ferros, e chora e n?o quer ser consolada! O Rabbi é traidor á patria! O Rabbi deve morrer!

Tremulo, agarrára a espada: e o seu olhar alargava-se, com uma fulgura??o de revolta, como chamando avidamente os combates e a gloria dos supplicios.

Ent?o Osanias ergueu-se apoiado a um bast?o que rematava n'uma pinha d'ouro. Um penoso cuidado parecia agora anuvear a sua velhice leviana. E come?ou a dizer, de manso e tristemente, como quem através do Enthusiasmo e da Doutrina aponta o mandado inilludivel da Necessidade:

-Decerto, decerto, pouco importa que um visionario se diga Messias e filho de Deus, ameace destruir a Lei e destruir o Templo. O Templo e a Lei podem bem sorrir e perdoar, certos da sua eternidade… Mas, oh Manassés, as nossas leis s?o suaves; e n?o creio que se deva ir acordar o carrasco a Gareb, porque um Rabbi de Galilêa, que se lembra dos filhos de Judas de Gamala pregados na cruz, aconselha prudencia e malicia nas rela??es com o romano! ó Manassés, robustas s?o as tuas m?os: mas pódes tu com ellas desviar a corrente do Jord?o da terra de Canaan para a terra da Trakaunitida? N?o. Nem pódes tambem impedir que as legi?es de Cesar, que cobriram as cidades da Grecia, venham cobrir o paiz de Judá! Sabio e forte era Judas Macchabeo, e fez amizade com Roma… Porque Roma é sobre a terra como um grande vento da natureza; quando elle vem, o insensato offerece-lhe o peito e é derrubado; mas o homem prudente recolhe á sua morada e está quieto. Indomavel era a Galacia; Filippe e Perseu tinham exercitos na planicie; Antiochus o Grande commandava cento e vinte elephantes e carros de guerra innumeraveis… Roma passou; d'elles que resta? Escravos, pagando tributos…

Curvára-se, pesadamente, como um boi sob o jugo. Depois, fixando sobre nós os olhos miudos que dardejavam um brilho inexoravel e frio, proseguiu, sempre de manso e subtil:

-Mas em verdade vos digo, que esse Rabbi de Galilêa deve morrer! Porque é o dever do homem que tem bens na terra e searas apagar depressa com a sandalia, sobre as lages da eira, a fagulha que amea?a inflammar-lhe a mêda… Com o romano em Jerusalem, todo aquelle que venha e se proclame Messias, como o de Galilêa, é nocivo e perigoso para Israel. O romano n?o comprehende o Reino do céo que elle promette: mas vê que essas prédicas, essas exalta??es divinas agitam sombriamente o povo dentro dos porticos do Templo… E ent?o diz: ?na verdade este Templo, com o seu ouro, as suas multid?es, e tanto zelo, é um perigo para a auctoridade de Cesar na Judêa…? E logo, lentamente, annulla a for?a do Templo diminuindo a riqueza, os privilegios do seu sacerdocio. Já para nossa humilha??o, as vestes pontificaes s?o guardadas no erario da Torre Antonia: ámanh? será o Candelabro d'ouro! Já o Pretor usou, para nos empobrecer, o dinheiro do Corban! ámanh? os dizimos da colheita, o dos gados, o dinheiro da offrenda, o óbolo das trombetas, os tributos rituaes, todos os haveres do sacerdocio, até as viandas dos sacrificios, nada será nosso, tudo será do romano! E só nos ficará o bord?o para irmos mendigar nas estradas de Samaria, á espera dos mercadores ricos da Decapola… Em verdade vos digo, se quizermos conservar as honras e os thesouros, que s?o nossos pela antiga Lei, e que fazem o esplendor d'Israel, devemos mostrar ao romano, que nos vigia, um Templo quieto, policiado, submisso, contente, sem fervores e sem Messias!… O Rabbi deve morrer!

Assim diante de mim fallou Osanias, filho de Beothos, e membro do

Sanhedrin.

Ent?o o magro historiador dos Herodes, cruzando com reverencia as m?os sobre o peito, saudou tres vezes aquelles homens facundos. Gad, immovel, orava. No azul da janella uma abelha c?r d'ouro zumbia em torno da fl?r de madresilva. E Topsius dizia com pompa:

-Homens que me haveis acolhido, a verdade abunda nos vossos espiritos como a uva abunda nas videiras! Vós sois tres torres que guardaes Israel entre as na??es: uma defende a unidade da Religi?o, outra mantem o enthusiasmo da Patria: e a terceira, que és tu, venerando filho de Beothos, cauto e ondeante como a serpente que amava Salom?o, protege uma cousa mais preciosa que é a Ordem!… Vós sois tres torres: e contra cada uma o Rabbi de Galilêa ergue o bra?o e lan?a a primeira pedrada! Mas vós guardaes Israel e o seu Deus e os seus bens, e n?o vos deveis deixar derrocar!… Em verdade, agora o reconhe?o, Jesus e o Judaismo nunca poderiam viver juntos.

E Gamaliel, com o gesto de quem quebra uma vara fragil, disse, mostrando os dentes brancos:

-Por isso o crucificamos!

Foi como uma faca acerada que, lampejando e silvando, se viesse cravar no meu peito! Arrebatei, suffocado, a manga do douto historiador:

-Topsius! Thopsius! quem é esse Rabbi que prégava em Galilêa, e faz milagres e vai ser crucificado?

O sabio doutor arregalou os olhos com tanto pasmo, como se eu lhe perguntasse qual era o astro que d'além dos montes traz a luz da manh?. Depois, seccamente:

-Rabbi Jeschoua bar Joseph, que veio de Nazareth em Galilêa, a quem alguns chamam Jesus e outros tambem chamam o Christo.

-O nosso! gritei, vacillando, como um homem atordoado.

E os meus joelhos catholicos quasi bateram as lages, n'um impulso de ficar alli cahido, enrodilhado no meu pavor, rezando desesperadamente e para sempre. Mas logo como uma labareda chammejou por todo o meu sêr o desejo de correr ao seu encontro e p?r os meus olhos mortaes no corpo do meu Senhor, no seu corpo humano e real, vestido do linho de que os homens se vestem, coberto com o pó que levantam os caminhos humanos!… E ao mesmo tempo, mais do que treme a folha n'um aspero vento, tremia a minha alma n'um terror sombrio:-o terror do servo negligente diante do amo justo! Estava eu bastante purificado com jejuns e ter?os para affrontar a face fulgurante do meu Deus? N?o! Oh mesquinha e amarga deficiencia da minha devo??o! Eu n?o beijára jámais, com sufficiente amor, o seu pé dorido e r?xo na sua igreja da Gra?a! Ai de mim! Quantos domingos, n'esses tempos carnaes em que a Adelia, sol da minha vida, me esperava na travessa dos Caldas, fumando e em camisa-n?o maldissera eu a lentid?o das Missas e a monotonia dos Septenarios! E sendo assim do craneo á sola dos pés uma crosta de peccado, como poderia meu corpo n?o tombar, já reprobo, já tisnado, quando os dois globos dos olhos do Senhor, como duas metades do céo, se voltassem vagarosamente para mim?

Mas vêr Jesus! Vêr como eram os seus cabellos, que pregas fazia a sua tunica, e o que acontecia na terra quando os seus labios se abriam!… Para além d'esses eirados onde as mulheres atiravam gr?o ás pombas; n'uma d'essas ruas d'onde me chegava claro e cantado o preg?o dos vendedores de p?es azymos-ia passando talvez n'esse temeroso instante, entre barbudos, graves soldados romanos, Jesus, meu Salvador, com uma corda amarrada nas m?os. A lenta aragem que balan?ava na janella o ramo de madresilva, e lhe avivava o aroma, acabava talvez de ro?ar a fronte do meu Deus, já ensanguentada d'espinhos! Era só empurrar aquella porta de cedro, atravessar o pateo onde gemia a mó do moinho domestico,-e logo, na rua, eu poderia vêr presente e corporeo o meu Senhor Jesus t?o realmente e t?o bem como o viram S. Jo?o e S. Matheus. Seguiria a sua sacra sombra no muro branco-onde cahiria tambem a minha sombra. Na mesma poeira que as minhas solas pisassem-beijaria a pégada ainda quente dos seus pés! E abafando com ambas as m?os o barulho do meu cora??o,-eu poderia surprehender, sahido da sua bocca ineffavel, um ai, um solu?o, um queixume, uma promessa! Eu saberia ent?o uma palavra nova do Christo, n?o escripta no Evangelho;-e só eu teria o direito pontifical de a repetir ás multid?es prostradas. A minha auctoridade surgia, na Igreja, como a d'um Testamento novissimo. Eu era uma testemunha inedita da Paix?o. Tornava-me S. Theodorico Evangelista!

Ent?o, com uma desesperada anciedade que espantou aquelles Orientaes de maneiras mesuradas, eu gritei:

-Onde o posso vêr? Onde está Jesus de Nazareth, meu Senhor?

N'esse momento um escravo, correndo na ponta leve das sandalias, veio cahir de bru?os nas lages, diante de Gamaliel; beijava-lhe as franjas da tunica, as suas costellas magras arquejavam; por fim murmurou, exhausto:

-Amo, o Rabbi está no Pretorio!

Gad emergiu da sua ora??o com um salto de fera, apertou em t?rno dos rins a corda de nós, e correu arrebatadamente, com o capuz solto, espalhando em redor o sulco louro dos seus cabellos revoltos. Topsius tra?ára a sua capa branca, com essas pregas de toga latina que lhe davam a solemnidade d'um marmore; e tendo comparado a hospitalidade de Gamaliel á d'Abrah?o, bradou-me triumphantemente:

-Ao Pretorio!

* * * * *

Muito tempo segui Topsius através da antiga Jerusalem, n'uma caminhada offegante, todo perdido no tumulto dos meus pensamentos. Passámos junto a um jardim de rosas, do tempo dos Prophetas, esplendido e silencioso, que dois levitas guardavam com lan?as douradas. Depois foi uma rua fresca, toda aromatisada pelas lojas dos perfumistas, ornadas de taboletas em fórma de fl?res e d'almofarizes: um toldo de esteiras finas assombreava as portas, o ch?o estava regado e juncado d'herva d?ce e de folhas d'anemonas: e pela sombra pregui?avam mo?os languidos, de cabellos frisados em cachos, de olheiras pintadas, mal podendo erguer, nas m?os pesadas d'anneis, as sêdas ro?agantes das tunicas c?r de cereja e c?r d'ouro. Além d'essa rua indolente abria-se uma pra?a, que escaldava ao sol, com uma poeira grossa e branca, onde os pés se enterravam: solitaria, no meio, uma vetusta palmeira arqueava o seu penacho, immovel e como de bronze: e ao fundo, negrejavam na luz as columnatas de granito do velho palacio de Herodes. Ahi era o Pretorio.

Defronte do arco d'entrada, onde rondavam, com plumas pretas no elmo reluzente, dois legionarios da Syria-um bando de raparigas, tendo detraz da orelha uma rosa e no rega?o coifas d'esparto, apregoavam os p?es azymos. Sob um enorme guardasol de pennas, cravado no ch?o, homens de mitra de feltro, com taboas sobre os joelhos e balan?as trocavam a moeda romana. E os vendedores d'agua, com os seus ?dres felpudos, lan?avam um grito tremulo. Entrámos: e logo um terror me envolveu.

Era um claro pateo, aberto sob o azul, ladeado de marmore, tendo de cada lado uma arcada, elevada em terra?o, com parapeito, fresca e sonora como um claustro de mosteiro. Da arcaria ao fundo, encimada pela frontaria austera do Palacio, estendia-se um velario, d'um estofo escarlate franjado d'ouro, fazendo uma sombra quadrada e dura: dois mastros de pau de sycomoro sustentavam-n'o, rematados por uma fl?r de lotus.

Ahi apertava-se um magote de gente-onde se confundiam as tunicas dos Phariseus orladas d'azul, o rude sai?o d'estamenha dos obreiros apertado com um cinto de couro, os vastos albornozes listrados de cinzento e branco dos homens de Galilêa, e a capa carmezim de grande capuz dos mercadores de Tiberiade; algumas mulheres já fóra do abrigo do velario, al?avam-se na ponta das chinelas amarellas, estendendo por cima do rosto contra o sol, uma dobra do manto ligeiro: e d'aquella multid?o sahia um cheiro morno de suor e de myrrha. Para além, por cima dos turbantes alvos apinhados, brilhavam pontas de lan?a. E ao fundo, sobre um sólio, um homem, um magistrado, envolto nas pregas nobres d'uma toga pretexta, e mais immovel que um marmore, apoiava sobre o punho forte a barba densa e grisalha: os seus olhos encovados pareciam indolentemente adormecidos: uma fita escarlate prendia-lhe os cabellos: e por traz, sobre um pedestal que fazia espaldar á sua cadeira curul, a figura de bronze da Loba Romana abria de travez a guela voraz. Perguntei a Topsius quem era aquelle magistrado melancolico.

-Um certo Poncius, chamado Pilatus, que foi Prefeito em Batavia.

Lentamente caminhei pelo pateo, procurando, como n'um templo, fazer mais subtil e respeitoso o ruido das minhas solas. Um grave silencio cahia do céo rutilante: só, por vezes, rompia do lado dos jardins, aspero e triste, o gritar dos pav?es. Estendidos no ch?o, junto á balaustrada do claustro, negros dormitavam com a barriga ao sol. Uma velha contava moedas de cobre, acocorada diante do seu gigo de fruta. Em andaimes, postos contra uma columna, havia trabalhadores compondo o telhado. E crian?as, a um canto, jogavam com discos de ferro que tiniam de leve nas lages.

Subitamente, alguem familiar tocou no hombro do historiador dos Herodes. Era o formoso Manassés; e com elle vinha um velho magnifico, d'uma nobreza de Pontifice, a quem Topsius beijou filialmente a manga da simarra branca, bordada de verdes folhas de parra. Uma barba de neve, lustrosa d'oleo, cahia-lhe até á faxa que o cingia; e os hombros largos desappareciam sob a esparsa abundancia dos cabellos alvos, sahindo do turbante como uma pura romeira de arminhos reaes. Uma das m?os, cheia de anneis, apoiava-se a um forte bast?o de marfim; e a outra conduzia uma crian?a pallida, que tinha os olhos mais bellos que estrellas, e semelhava junto ao anci?o um lirio á sombra d'um cedro.

-Subi á galeria, disse-nos Manassés. Tereis lá repouso e frescura…

Seguimos o Patriota; e eu perguntei cautelosamente a Topsius quem era o outro t?o velho, t?o augusto.

-Rabbi Robam, murmurou com venera??o o meu douto amigo. Uma luz do

Sanhedrin, facundo e subtil entre todos, e confidente de Kaipha…

Reverente, saudei tres vezes Rabbi Robam-que se sentára n'um banco de marmore, pensativo, aconchegando sobre o seu vasto peito ancestral a cabe?a da crian?a mais loura que os milhos de Joppé. Depois continuámos devagar pela galeria sonora e clara: na sua extremidade brilhava uma porta sumptuosa de cedro com chapas de prata lavradas: um Pretoriano de Cesarêa guardava-a, somnolento, encostado ao seu alto escudo de vime. Ahi, commovido, caminhei para o parapeito: e logo meus olhos mortaes encontraram lá em baixo-a fórma encarnada do meu Deus!

Mas, oh rara surpreza da alma variavel, n?o senti extasis nem terror! Era como se de repente me tivessem fugido da memoria longos, laboriosos seculos de Historia e de Religi?o. Nem pensei que aquelle homem sêcco e moreno fosse o Remidor da Humanidade… Achei-me inexplicavelmente anterior nos tempos. Eu já n?o era Theodorico Raposo, christ?o e bacharel: a minha individualidade como que a perdera, á maneira d'um manto que escorrega, n'essa carreira anciosa desde a casa de Gamaliel. Toda a antiguidade das coisas ambientes me penetrára, me refizera um sêr; eu era tambem um antigo. Era Theodoricus, um Lusitano, que viera n'uma galera das praias resoantes do Promontorio Magno, e viajava, sendo Tiberio imperador, em terras tributarias de Roma. E aquelle homem n?o era Jesus, nem Christo, nem Messias,-mas apenas um mo?o de Galilêa que, cheio d'um grande sonho, desce da sua verde aldeia para transfigurar todo um mundo e renovar todo um céo, e encontra a uma esquina um Nethenim do Templo que o amarra e o traz ao Pretor, n'uma manh? d'audiencia, entre um ladr?o que roubára na estrada de Sichem e outro que atirára facadas n'uma rixa em Emath!

N'um espa?o ladrilhado de mosaico, em face do sólio onde se erguia o assento curul do Pretor sob a Loba Romana-Jesus estava de pé, com as m?os cruzadas e frouxamente ligadas por uma corda que rojava no ch?o. Um largo albornoz de l? grossa, em riscas pardas, orlado de franjas azues, cobria-o até aos pés, cal?ados de sandalias já gastas pelos caminhos do deserto e atadas com correias. N?o lhe ensanguentava a cabe?a essa cor?a inhumana de espinhos, de que eu lêra nos Evangelhos; tinha um turbante branco, feito d'uma longa faxa de linho enrolada, cujas pontas lhe pendiam de cada lado sobre os hombros; um cordel amarrava-lh'o por baixo da barba encaracolada e aguda. Os cabellos sêccos, passados por traz das orelhas, cahiam-lhe em anneis pelas costas; e no rosto magro, requeimado, sob sobrancelhas densas, unidas n'um só tra?o, negrejava com uma profundidade infinita o resplendor dos seus olhos. N?o se movia, forte e sereno diante do Pretor. Só algum estremecimento das m?os presas trahia o tumulto do seu cora??o; e ás vezes respirava longamente, como se o seu peito, acostumado aos livres e claros ares dos montes e dos lagos de Galilêa, suffocasse entre aquelles marmores, sob o pesado velario romano, na estreiteza formalista da Lei.

A um lado, Sarêas, o vogal do Sanhedrin, tendo deposto no ch?o o seu manto e o seu baculo dourado, ia desenrolando e lendo uma tira escura de pergaminho, n'um murmurio cantado e dormente. Sentado n'um escabello, o Assessor romano, suffocado pelo calor já aspero do mez de Nizam, refrescava com um leque de folhas d'heras sêccas a face rapada e branca como um gesso: um escriba, velho e nedio, n'uma mesa de pedra cheia de tabularios e de regras de chumbo, agu?ava miudamente os seus calamos: e entre ambos o interprete, um phenicio imberbe, sorria com a face no ar, com as m?os na cinta, arqueando o peito onde trazia pintado sobre a jaqueta de linho um papagaio vermelho. Em torno ao velario, constantemente voavam pombas. E foi assim que eu vi Jesus de Galilêa preso, diante do Pretor de Roma…

No emtanto Sarêas, tendo enrolado em torno á haste de ferro o pergaminho escuro, saudou Pilatos, beijou um sinete sobre o dedo para marcar nos seus labios o sêllo da verdade,-e immediatamente encetou uma arenga em grego, com textos, verbosa e aduladora. Fallava do Tetrarca de Galilêa, o nobre Antipas; louvava a sua prudencia; celebrava seu pai Herodes o Grande, restaurador do Templo… A gloria d'Herodes enchia a terra; f?ra terrivel, sempre fiel aos Cesares; seu filho Antipas era engenhoso e forte!… Mas reconhecendo a sua sabedoria elle estranhava que o Tetrarca se recusasse a confirmar a senten?a do Sanhedrin que condemnava Jesus á morte… N?o f?ra essa senten?a fundada nas Leis que dera o Senhor? O justo Hanan interrogára o Rabbi, que emmudecera, n'um silencio ultrajante. Era essa a maneira de responder ao sabio, ao puro, ao piedoso Hanan? Por isso um zeloso, sem se conter, atirára a m?o violenta á face do Rabbi… Onde estava o respeito dos antigos tempos, e a venera??o do Pontificado?

A sua voz cava e larga rolava, infindavelmente. Eu, cansado, bocejava. Por baixo de nós dois homens encruzados nas lages comiam tamaras de Bethabara que traziam no sai?o, bebendo d'uma caba?a. Pilatos, com o punho sob a barba, olhava somnolentamente os seus borzeguins escarlates picados de estrellas d'ouro.

E Sarêas agora proclamava os direitos do Templo. Elle era o orgulho da na??o, a morada eleita do Senhor! Cesar Augusto offertára-lhe escudos e vasos de ouro… E esse Templo, como o respeitára o Rabbi? Amea?ando destruil-o! ?Eu derrocarei o templo de Jehovah e edifical-o-hei em tres dias!? Testemunhas puras ouvindo esta rude impiedade tinham coberto a cabe?a de cinza para afastar a cólera do Senhor… Ora a blasphemia atirada ao santuario resaltava até ao seio de Deus!…

Sob o velario, os Phariseus, os Escribas, os Nethenins do Templo, escravos sordidos, susurravam como arbustos agrestes que um vento come?a a agitar. E Jesus permanecia immovel, abstrahidamente indifferente, com os olhos cerrados, como para isolar melhor o seu sonho contínuo e formoso, longe das coisas duras e v?s que o maculavam. Ent?o o Assessor romano ergueu-se, dep?z no escabello o seu leque de folhas, tra?ou com arte o manto forense, orlado de azul, saudou tres vezes o Pretor,-e a sua m?o delicada come?ou a ondear no ar, fazendo scintillar uma joia.

-Que diz elle?…

-Coisas infinitamente habeis, murmurou Topsius. é um pedante, mas tem raz?o. Diz que o Pretor n?o é um judeu; que nada sabe de Jehovah, nem lhe importam os prophetas que se erguem contra Jehovah; e que a espada de Cesar n?o vinga deuses que n?o protegem Cesar!… O romano é engenhoso!

Offegando, o Assessor recahiu languidamente no escabello. E logo Sarêas volveu a arengar, sacudindo os bra?os para a multid?o dos Phariseus, como a evocar os seus protestos, e refugiando-se na sua for?a. Agora, mais retumbante, accusava Jesus, n?o da sua revolta contra Jehovah e o Templo, mas das suas preten??es como principe da casa de David! Toda a gente em Jerusalem o tinha visto, havia quatro dias, entrar pela Porta d'Ouro, n'um falso triumpho, entre palmas verdes, cercado d'uma multid?o de galileus, que gritavam-?Hossana ao filho de David, Hossana ao rei d'Israel!…?

-Elle é o filho de David, que vem para nos tornar melhores! gritou ao longe a voz de Gad, cheia de persuas?o e d'amor.

Mas de repente Sarêas collou ao corpo as mangas franjadas, mudo e mais teso que um conto de lan?a: o escriba romano, de pé, com os punhos fincados na mesa, vergava o cacha?o reverente e nedio: o Assessor sorria, attento. Era o Pretor que ia interrogar o Rabbi: e eu, tremendo, vi um Legionario empurrar Jesus que ergueu a face…

Debru?ado de leve para o Rabbi, com as m?os abertas que pareciam soltar, deixar cahir todo o interesse por esse pleito ritual de sectarios arguciosos, Poncius murmurou, enfastiado e incerto:

-és tu ent?o o rei dos judeus?… Os da tua na??o trazem-te aqui!…

Que fizeste tu?… Onde é o teu reino?

O interprete, enfatuado, perfilado junto ao sólio de marmore, repetiu muito alto estas coisas na antiga lingua hebraica dos Livros Santos: e, como o Rabbi permanecia silencioso, gritou-as na falla chaldaica que se usa em Galilêa.

Ent?o Jesus deu um passo. Eu ouvi a sua voz. Era clara, segura, dominadora e serena:

-O meu reino n?o é d'aqui! Se por vontade de meu Pai eu fosse rei de Israel, n?o estaria diante de ti com esta corda nas m?os… Mas o meu reino n?o é d'este mundo!

Um grito estrugiu, desesperado:

-Tirai-o ent?o d'este mundo!

E logo, como lenha preparada que uma faisca inflamma, o furor dos Phariseus e dos serventes do Templo irrompeu, crepitando, em clamores impacientes:

-Crucificai-o! crucificai-o!

Pomposamente o interprete redizia em grego ao Pretor os brados tumultuosos, lan?ados na lingua syriaca que falla o povo em Judêa… Poncius bateu o borzeguim sobre o marmore. Os dois lictores ergueram ao ar as varas rematadas n'uma figura d'aguia: o escriba gritou o nome de Caio Tiberio: e logo os bra?os frementes se abaixaram, e foi como um terror diante da magestade do Povo Romano.

De novo Poncius fallou, lento e vago:

-Dizes ent?o que és rei… E que vens tu fazer aqui?

Jesus deu outro passo para o Pretor. A sua sandalia pousou fortemente sobre as lages como se tomasse posse suprema da terra. E o que sahiu dos seus labios tremulos pareceu-me fulgurar, vivo no ar, como o resplendor que dos seus olhos negros sahiu.

-Eu vim a este mundo testemunhar a verdade! Quem desejar a verdade, quem quizer pertencer á verdade tem de escutar a minha voz!

Pilatos considerou-o um momento, pensativo; depois encolhendo os hombros:

-Mas, homem, o que é a verdade?

Jesus de Nazareth emmudeceu-e no Pretorio espalhou-se um silencio como se todos os cora??es tivessem parado, cheios subitamente de incerteza…

Ent?o, apanhando devagar a sua vasta toga, Pilatos desceu os quatro degraus de bronze;-e precedido dos lictores, seguido do Assessor, penetrou no Palacio, por entre, o rumor d'armas dos legionarios que o saudavam batendo o ferro das lan?as sobre o bronze dos escudos.

Immediatamente elevou-se por todo o pateo um aspero e ardente susurro como de abelhas irritadas. Sarêas perorava, brandindo o baculo, entre os Phariseus que apertavam as m?os n'um terror. Outros, afastados, cochichavam sombriamente. Um grande velho, com um manto negro que esvoa?ava, corria n'uma ancia o Pretorio, por entre os que dormiam, ao sol, por entre os vendedores de p?es azymos, gritando: ?Israel está perdido!? E eu vi Levitas fanaticos arrancarem as borlas das tunicas, como n'uma calamidade publica.

Gad surgiu diante de nós, erguendo os bra?os triumphantes:

-O Pretor é justo e liberta o Rabbi!…

E, com a face cheia de brilho, revelava-nos a do?ura da sua esperan?a! O Rabbi, apenas solto, deixaria Jerusalem-onde as pedras eram menos duras que os cora??es. Os seus amigos armados esperavam-no em Bethania: e partiriam ao romper da lua para o oasis d'Engaddi! Lá estavam aquelles que o amavam. N?o era Jesus o irm?o dos Essenios? Como elles o Rabbi prégava o desprezo dos bens terrestres, a ternura pelos que s?o pobres, a incomparavel belleza do reino de Deus…

Eu, credulo, regosijava-me-quando um tumulto invadiu a galeria que um escravo viera regar. Era o bando escuro dos Phariseus, em marcha para o banco de pedra, onde Rabbi Robam conversava com Manassés, enrolando d?cemente nos dedos os cabellos da crian?a, mais louros que os minhos. Topsius e eu corremos para a turba intolerante. Já Sarêas, no meio, curvado, mas com a firmeza de quem intíma, dizia:

-Rabbi Robam, é necessário que vás fallar ao Pretor e salvar a nossa lei!

E logo, de todos os lados, foi um supplicar ancioso:

-Rabbi, falla ao Pretor! Rabbi, salva Israel!

Lentamente o velho erguia-se, magestoso como um grande Moysés. E diante d'elle um Levita, muito pallido, vergava os joelhos, murmurava a tremer:

-Rabbi, tu és justo, sabio, perfeito e forte diante do Senhor!

Rabbi Robam levantou as duas m?os abertas para o céo: e todos se curvaram como se o espirito de Jehovah, obedecendo á muda invoca??o, tivesse descido para encher aquelle cora??o justo. Depois, com a m?o da crian?a na sua, poz-se a caminhar em silencio; atraz a turba fazia um rumor de sandalias lassas sobre as lages de marmore.

Parámos, amontoados, diante da porta de cedro-onde o pretoriano cruzára a lan?a, depois de bater as argolas de prata. Os pesados gonzos rangeram; um tribuno do Palacio acudiu tendo na m?o um longo galho de vide. Dentro era uma fria sala, mal alumiada, severa, com os muros forrados de estuques escuros. Ao centro erguia-se pallidamente uma estatua de Augusto, com o pedestal juncado de cor?as de louro e de ramos votivos: dois grandes tocheiros de bronze dourado reluziam aos cantos, na sombra.

Nenhum dos judeus entrou-porque pisar em dia paschal um sólo pag?o era coisa impura diante do Senhor. Sarêas annunciou altivamente ao Tribuno que ?alguns da na??o d'Israel, á porta do Palacio de seus paes, estavam esperando o Pretor.? Depois pesou um silencio, cheio d'anciedade…

Mas dois lictores avan?aram: e logo atraz, caminhando a passos largos, com a vasta toga apanhada contra o peito, Pilatos appareceu.

Todos os turbantes se curvaram, saudando o Procurador da Judêa. Elle parára junto á estatua de Augusto. E, como repetindo o gesto nobre da figura de marmore, estendeu a m?o que segurava um pergaminho enrolado, e disse:

-Que a paz seja comvosco e com as vossas palavras… Fallai!

Sarêas, vogal do Sanhedrin, adiantando-se, declarou que os seus cora??es vinham em verdade cheios de paz… Mas, tendo o Pretor deixado o Pretorio sem confirmar nem annullar a senten?a do Sanhedrin que condemnava Jesus-ben-José-elles se achavam como o homem que vê a uva na vinha, suspensa, sem seccar e sem amadurecer!

Poncius pareceu-me penetrado d'equidade e clemencia.

-Eu interroguei o vosso preso, disse elle; e n?o lhe achei culpa que deva punir o Procurador da Judêa… Antipas Herodes, que é prudente e forte, que pratíca a vossa Lei e ora no vosso Templo, interrogou-o tambem e nenhuma culpa n'elle encontrou… Esse homem diz apenas coisas incoherentes como os que fallam em sonhos… Mas as suas m?os est?o puras de sangue; nem ouvi que elle escalasse o muro do seu visinho… Cesar n?o é um amo inexoravel… Esse homem é apenas um visionario.

Ent?o, com um sombrio murmurio, todos recuaram, deixando Rabbi Robam só no limiar da sala romana. Um brilho de joia tremia na ponta da sua tiára: as suas cans cahindo sobre os vastos hombros coroavam-no de magestade como a neve faz aos montes: as franjas azues do seu manto solto rojavam nas lages, em redor. Devagar, sereno, como se explicasse a Lei aos seus discipulos, ergueu a m?o e disse:

-Official de Cesar, Poncius, muito justo e muito sabio! O homem que tu chamas visionario, ha annos que offende todas as nossas leis e blasphema o nosso Deus. Mas quando o prendemos nós, quando t'o trouxemos nós? Sómente quando o vimos entrar em triumpho pela Porta d'Ouro, acclamado como rei da Judêa. Porque a Judêa n?o tem outro rei sen?o Tiberio: e apenas um sedicioso se proclama em revolta contra Cesar, apressamo-nos a castigal-o. Assim fazemos nós, que n?o temos mandado de Cesar, nem cobramos do seu erario: e tu, official de Cesar, n?o queres que seja castigado o rebelde a teu amo?…

A face larga de Poncius, que uma somnolencia amollecia, relampeou, raiada vivamente de sangue. Aquella tortuosidade de judeus que, execrando Roma, apregoavam agora um zêlo ruidoso por Cesar para poderem, em nome da sua auctoridade, saciar um odio sacerdotal-revoltou a rectid?o do Romano: e a audaciosa admoesta??o foi intoleravel ao seu orgulho. Desabridamente exclamou, com um gesto que os sacudia:

-Cessai! Os procuradores de Cesar n?o vêm aprender a uma colonia barbara da Asia os seus deveres para com Cesar!

Manassés que ao meu lado, já impaciente, puxava a barba, afastou-se com indigna??o. Eu tremi. Mas o soberbo Rabbi proseguiu, mais indifferente á ira de Poncius do que ao balar d'um anho que arrastasse ás aras:

-Que faria o procurador de Cesar em Alexandria se um visionario descesse de Bubastes proclamando-se rei do Egypto? O que tu n?o queres fazer n'esta terra barbara da Asia! Teu amo dá-te a guardar uma vinha, e tu deixas que entrem n'ella e que a vindimem? Para que estás ent?o na Judêa, para que está a sexta legi?o na torre Antonia? Mas o nosso espirito é claro, e a nossa voz é clara e alta bastante, Poncius, para que Cesar a ou?a!…

Poncius deu um passo lento para a porta. E com os olhos faiscantes, cravados n'aquelles judeus que astutamente o iam enla?ando na trama subtil dos seus rancores religiosos:

-Eu n?o receio as vossas intrigas! murmurou surdamente. Elius Lamma é meu amigo!… E Cesar conhece-me bem!

-Tu vês o que n?o está nos nossos cora??es! disse Rabbi Robam, calmo como se conversasse á sombra do seu vergel. Mas nós vemos bem o que está no teu, Poncius! Que te importa a ti a vida ou a morte de um vagabundo de Galilêa?… Se tu n?o queres, como dizes, vingar deuses cuja divindade n?o respeitas, como pódes querer salvar um propheta cujas prophecias n?o crês?… A tua malicia é outra, romano! Tu queres a destrui??o de Judá!

Um estremecimento de cólera, de paix?o devota, passou entre os

Phariseus: alguns palpavam o seio da tunica como procurando uma arma. E

Rabbi Robam continuava, denunciando o Pretor, com serenidade e lentid?o:

-Tu queres deixar impune o homem que prégou a insurrei??o, declarando-se rei n'uma provincia de Cesar, para tentar, pela impunidade, outras ambi??es mais fortes e levar outro Judas de Gamala a atacar as guarni??es de Samaria! Assim preparas um pretexto para abater sobre nós a espada imperial, e inteiramente apagar a vida nacional da Judêa. Tu queres uma revolta para a afogares em sangue, e apresentar-te depois a Cesar como soldado victorioso, administrador sabio, digno d'um proconsulado ou d'um governo na Italia! é a isso que chamaes a fé romana? Eu n?o estive em Roma, mas sei que a isso se chama lá a fé punica… N?o nos supponhas porém t?o simples como um pastor d'Idumêa! Nós estamos em paz com Cesar, e cumprimos o nosso dever condemnando o homem que se revoltou contra Cesar… Tu n?o queres cumprir o teu, confirmando essa condemna??o? Bem! Mandaremos emissarios a Roma, levando a nossa senten?a e a tua recusa, e tendo salvaguardado perante Cesar a nossa responsabilidade, mostraremos a Cesar como procede na Judêa aquelle que representa a lei do Imperio!… E agora, Pretor, pódes voltar ao Pretorio.

-E lembra-te dos Escudos Votivos, gritou Sarêas. Talvez novamente vejas a quem Cesar dá raz?o!

Poncius baixára a face, perturbado. Decerto imaginava já vêr além, n'um claro terra?o junto ao mar de Capreia, Sejanus, Cesonius, todos os seus inimigos, fallando ao ouvido de Tiberio e mostrando-lhe os emissarios do Templo… Cesar, desconfiado e sempre inquieto, suspeitaria logo um pacto d'elle com esse ?rei dos Judeus? para sublevarem uma rica provincia imperial… E assim a sua justi?a e o orgulho em a manter podiam custar-lhe o proconsulado da Judêa! Orgulho e justi?a foram ent?o na sua alma frouxa como ondas um momento altas que uma sobre outra se abatem, se desfazem. Veio até ao limiar da porta, devagar, abrindo os bra?os, como trazido por um impulso magnanimo de concilia??o-e come?ou a dizer, mais branco que a sua toga:

-Ha sete annos que governo a Judêa. Encontrastes-me jámais injusto, ou infiel ás promessas juradas?… Decerto as vossas amea?as n?o me movem… Cesar conhece-me bem… Mas entre nós, para proveito de Cesar, n?o deve haver desaccordo. Sempre vos fiz concess?es! Mais que nenhum outro Procurador desde Coponius tenho respeitado as vossas leis… Quando vieram os dois homens de Samaria polluir o vosso Templo, n?o os fiz eu suppliciar? Entre nós n?o deve haver dissen??es, nem palavras amargas…

Um momento hesitou; depois, esfregando lentamente as m?os, e sacudindo-as, como molhadas n'uma agua impura:

-Quereis a vida d'esse visionario? Que me importa? Tomai-a… N?o vos basta a flagella??o? Quereis a cruz? Crucificai-o… Mas n?o sou eu que derramo esse sangue!

O levita macilento bradou com paix?o:

-Somos nós, e que esse sangue cáia sobre as nossas cabe?as!

E alguns estremeceram-crentes de que todas as palavras têm um poder sobrenatural e tornam vivas as coisas pensadas.

Poncius deixára a sala: o Decuri?o, saudando, cerrou a porta de cedro. Ent?o Rabbi Robam voltou-se, sereno, resplandecente como um justo: e adiantando-se por entre os Phariseus, que se baixavam a beijar-lhe as franjas da tunica-murmurava com uma grave do?ura:

-Antes soffra um só homem do que soffra um povo inteiro!

Limpando as bagas de suor de que a emo??o me alagára a testa, cahi, tremulo, sobre um banco. E, através da minha lassid?o, confusamente distinguia no Pretorio dois legionarios, de cintur?o desapertado, bebendo n'uma grande malga de ferro que um negro ia enchendo com o ?dre suspenso aos hombros; adiante uma mulher bella e forte, sentada ao sol, com os filhos pendurados dos dois peitos nús; mais longe um pegureiro envolto em pelles, rindo e mostrando o bra?o manchado de sangue. Depois cerrei os olhos; um momento pensei na vela que deixára na tenda, ardendo junto ao meu catre, fumarenta e vermelha; por fim ro?ou-me um somno ligeiro… Quando despertei a cadeira curul permanecia vazia-com a almofada de purpura em frente, sobre o marmore, gasta, cavada pelos pés do Pretor; e uma multid?o mais densa enchia, n'um longo rumor de arraial, o velho atrio de Herodes. Eram homens rudes, com capas curtas d'estamenha, sujas de pó, como se tivessem servido de tapetes sobre as lages d'uma pra?a. Alguns traziam balan?as na m?o, gaiolas de rolas; e as mulheres que os seguiam, sordidas e macilentas, atiravam de longe com o bra?o fremente maldi??es ao Rabbi. Outros no emtanto, caminhando na ponta das sandalias, apregoavam baixo coisas infimas e ricas, mettidas no seio entre as dobras dos sai?es-gr?os d'aveia torrada, potes de unguentos, coraes, braceletes de filigrana de Sidon. Interroguei Topsius: e o meu douto amigo, limpando os oculos, explicou-me que eram decerto os mercadores contra quem Jesus, na vespera de Paschoa, erguendo um bast?o, reclamára a estreita applica??o da Lei que interdiz traficos profanos no Templo, fóra dos porticos de Salom?o…

-Outra imprudencia do Rabbi, D. Raposo! murmurou com ironia o fino historiador.

Entretanto, como cahira a sexta hora judaica e findára o trabalho, vinham entrando obreiros das tinturarias visinhas, ennodoados de escarlate ou azul; escribas das synagogas apertando debaixo dos bra?os os seus tabularios; jardineiros com a fouce a tiracollo, o ramo de murta no turbante; alfaiates com uma longa agulha de ferro pendendo da orelha… Tocadores phenicios a um canto afinavam as harpas, tiravam suspiros das flautas de barro: e diante de nós rondavam duas prostitutas gregas de Tiberiade, com perucas amarellas, mostrando a ponta da lingua e sacudindo a roda da tunica d'onde voava um cheiro de mangerona. Os legionarios, com as lan?as atravessadas no peito, apertavam uma cercadura de ferro em torno de Jesus: e eu, agora, mal podia distinguir o Rabbi através d'essa multid?o susurrante, em que as consoantes asperas de Moab e do deserto se chocavam por sobre a molleza grave da falla chaldaica…

Por baixo da galeria veio tilintando uma sineta triste. Era um hortel?o que offerecia n'um cabaz d'esparto, acamados sobre folhas de parra, figos rachados de Bephtagé. Debilitado pelas emo??es, perguntei-lhe, debru?ado no parapeito, o pre?o d'aquelle mimo dos vergeis que os Evangelhos tanto louvam. E o homem, rindo, alargou os bra?os como se encontrasse o esperado do seu cora??o:

-Entre mim e ti, ó creatura d'abundancia que vens d'além do mar, que s?o estes poucos figos? Jehovah manda que os irm?os troquem presentes e ben??os! Estes fructos colhi-os no horto, um a um, á hora em que o dia nasce no Hebron; s?o succulentos e consoladores; poderiam ser postos na mesa de Hannan!… Mas que valem v?s palavras entre mim e ti se os nossos peitos se entendem? Toma estes figos, os melhores da Syria, e que o Senhor cubra de bens aquella que te creou!

Eu sabia que esta offerta era uma cortezia consagrada, em compras e vendas, desde o tempo dos Patriarchas. Cumpri tambem o ceremonial: declarei que Jehovah, o muito forte, me ordenava que com o dinheiro cunhado pelos Principes eu pagasse os fructos da Terra… Ent?o o hortel?o abaixou a cabe?a, cedeu ao mandamento divino; e pousando o cesto nas lages, tomando um figo em cada uma das m?os negras e cheias de terra:

-Em verdade, exclamou, Jehovah é o mais forte! Se elle o manda, eu devo p?r um pre?o a estes fructos da sua bondade, mais d?ces que os labios da esposa! Justo é pois, ó homem abundante, que por estes dois que me enchem as palmas, t?o perfumados e frescos, tu me dês um bom traphik.

Oh Deus magnifico de Judá! O facundo hebreu reclamava por cada figo um tost?o da moeda real da minha patria! Bradei-lhe:-?Irra, ladr?o!? Depois, guloso e tentado, offereci-lhe um drachma por todos os figos que coubessem no forro largo d'um turbante. O homem levou as m?os ao seio da tunica, para a despeda?ar na immensidade da sua humilha??o. E ia invocar Jehovah, Elias, todos os Prophetas seus patronos-quando o sapiente Topsius, enojado, interveio seccamente, mostrando-lhe uma miuda rodella de ferro que tinha por cunho um lirio aberto:

-Na verdade Jehovah é grande! E tu és ruidoso e vazio como o ?dre cheio de vento! Pois pelos figos do cesto inteiro te dou eu este meah. E se n?o queres, conhe?o o caminho dos hortos t?o bem como o do Templo, e sei onde as aguas d?ces de Enrogel banham os melhores pomares… Vai-te!

O homem logo, trepando anciosamente até ao parapeito de marmore, atulhou de figos a ponta do albornoz que eu lhe estendera, carrancudo e digno. Depois, descobrindo os dentes brancos, murmurou risonhamente que nós eramos mais beneficos que o orvalho do Carmello!

Saborosa e rara me parecia aquella merenda de figos de Bephtagé, no palacio de Herodes. Mas apenas nos accommodáramos com a fruta no rega?o, reparei em baixo n'um velhito magro, que cravava em nós humildemente uns olhos ennevoados, queixosos, cheios de cansa?o. Compadecido ia arremessar-lhe figos e uma moeda de prata dos Ptolomeus-quando elle, mergulhando a m?o tremula nos farrapos que mal lhe velavam o peito cabelludo, estendeu-me, com um sorriso macerado, uma pedra que reluzia. Era uma placa oval d'alabastro tendo gravada uma imagem do Templo. E emquanto Topsius doutamente a examinava, o velho foi tirando do seio outras pedras de marmore, d'onyx, de jaspe, com representa??es do Tabernaculo no deserto, os nomes das tribus entalhados, e figuras confusas em relevo simulando as batalhas dos Machabeus… Depois ficou com os bra?os cruzados; e no seu pobre rosto escavado pelos cuidados luzia uma anciedade, como se de nós sómente esperasse misericordia e descanso.

Topsius deduziu que elle era um d'esses Guebros, adoradores do fogo e habeis nas artes, que v?o descal?os até ao Egypto, com fachos accesos, salpicar sobre a Esphinge o sangue d'um gallo negro. Mas o velho negou, horrorisado-e tristemente murmurou a sua historia. Era um pedreiro de Naim, que trabalhára no Templo e nas construc??es que Antipas Herodes erguia em Bezetha. O a?oite dos intendentes rasgára-lhe a carne; depois a doen?a levára-lhe a for?a como a geada sécca a macieira. E agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras nos montes-e gravava n'ellas nomes santos, sitios santos, para as vender no Templo aos fieis. Em vespera de Paschoa, porém, viera um Rabbi de Galilêa cheio de cólera que lhe arrancára o seu p?o!…

-Aquelle! balbuciou suffocado, sacudindo a m?o para o lado de Jesus.

Eu protestei. Como lhe poderia ter vindo a injusti?a e a d?r d'esse

Rabbi, de cora??o divino, que era o melhor amigo dos pobres?

-Ent?o vendias no Templo? perguntou o terso historiador dos Herodes.

-Sim, suspirou o velho, era lá, pelas festas, que eu ganhava o p?o do longo anno! N'esses dias subia ao Templo, offertava a minha prece ao Senhor, e junto á porta de Suza, diante do Portico do Rei, estendia a minha esteira e dispunha as minhas pedras que brilhavam ao sol… Decerto, eu n?o tinha direito de p?r alli tenda: mas como poderia eu pagar ao Templo o aluguer de um covado de lagedo para vender o trabalho das minhas m?os! Todos os que apreg?am á sombra, debaixo do portico, sobre taboleiros de cedro, s?o mercadores ricos que podem satisfazer a licen?a: alguns pagam um siclo d'ouro. Eu n?o podia com crian?as em casa sem p?o… Por isso ficava a um canto, fóra do portico, no peor sitio. Alli estava bem encolhido, bem calado; nem mesmo me queixava quando homens duros me empurravam ou me davam com os bast?es na cabe?a. E ao pé de mim havia outros, pobres como eu: Eboim, de Joppé, que offerecia um oleo para fazer crescer os cabellos, e Osêas, de Ramah, que vendia flautas de barro… Os soldados da Torre Antonia que fazem a ronda passavam por nós e desviavam os olhos. Até Menahem, que estava quasi sempre de guarda pela Paschoa, nos dizia:-?está bem, ficai, comtanto que n?o apregoeis alto.? Porque todos sabiam que eramos pobres, n?o podiamos pagar o covado de lage, e tinhamos nas nossas moradas crian?as com fome… Na Paschoa e nos Tabernaculos vêm da terra distante peregrinos a Jerusalem; e todos me compravam uma imagem do Templo para mostrar na sua aldeia, ou uma das pedras da lua que afugentam o demonio… ás vezes, ao fim do dia, tinha feito tres drachmas; enchia o sai?o de lentilha e descia ao meu casebre, alegre, cantando os louvores do Senhor!…

Eu, d'enternecido, esquecera a merenda. E o velho desafogava o seu longo queixume:

-Mas eis que ha dias esse Rabbi de Galilêa apparece no Templo, cheio de palavras de cólera, ergue o bast?o e arremessa-se sobre nós, bradando que aquella ?era a casa de seu pai, e que nós a polluiamos!…? E dispersou todas as minhas pedras, que nunca mais vi, que eram o meu p?o! Quebrou nas lages os vasos d'oleo d'Eboim, de Joppé, que nem gritava, espantado. Acudiram os guardas do Templo. Menahem acudiu tambem; até, indignado, disse ao Rabbi:-?és bem duro com os pobres. Que auctoridade tens tu?? E o Rabbi fallou ?de seu pai?, e reclamou contra nós a lei severa do Templo. Menahem baixou a cabe?a… E nós tivemos de fugir, apupados pelos mercadores ricos, que bem encruzados nos seus tapetes de Babylonia, e com o seu lagedo bem pago, batiam palmas ao Rabbi… Ah! contra esses o Rabbi nada podia dizer: eram ricos, tinham pago!… E agora aqui ando! Minha filha, viuva e doente, n?o póde trabalhar, embrulhada a um canto nos seus trapos: e os filhos de minha filha, pequeninos, têm fome, olham para mim, vêem-me t?o triste e nem choram. E que fiz eu? Sempre fui humilde, cumpro o Sabbat, vou á synagoga de Naim que é a minha, e as raras migalhas que sobravam do meu p?o juntava-as para aquelles que nem migalhas têm na terra… Que mal fazia eu vendendo? Em que offendia o Senhor? Sempre, antes de estender a esteira, beijava as lages do Templo: cada pedra era purificada pelas aguas lustraes… Em verdade Jehovah é grande, e sabe… Mas eu fui expulso pelo Rabbi, sómente porque sou pobre!

Calou-se-e as suas m?os magras, tatuadas de linhas magicas, tremiam, limpando as longas lagrimas que o alagavam.

Bati no peito, desesperado. E a minha angustia toda era por Jesus ignorar esta desgra?a, que, na violencia do seu espiritualismo, suas m?os misericordiosas tinham involuntariamente creado, como a chuva benefica por vezes, fazendo nascer a sementeira, quebra e mata uma fl?r isolada. Ent?o para que n?o houvesse nada imperfeito na sua vida, nem d'ella ficasse uma queixa na terra-paguei a divida de Jesus (assim seu Pai perd?e a minha!) atirando para o sai?o do velho moedas consideraveis, drachmas, crysos gregos de Philippe, aureos romanos d'Augusto, até uma grossa pe?a da Cyrenaica que eu estimava por ter uma cabe?a de Zeus Amnon que parecia a minha imagem. Topsius juntou a este thesouro um lepta de cobre-que tem em Judêa o valor d'um gr?o de milho…

O velho pedreiro de Naim empallidecia, suffocado. Depois, com o dinheiro n'uma dobra do sai?o, bem apertado contra o peito, murmurou timida e religiosamente, erguendo os olhos ainda molhados para as alturas:

-Pai, que estás nos céos, lembra-te da face d'este homem, que me deu o p?o de longos dias!…

E solu?ando sumiu-se entre a turba-que agora de todo o atrio rumorosamente affluia, se apinhava em torno aos mastros altos do velario. O escriba apparecera, mais vermelho e limpando os bei?os. Ao lado do Rabbi e dos guardas do Templo, Sarêas viera perfilar-se encostado ao seu baculo. Depois, entre um brilho d'armas, surgiram as varas brancas dos lictores: e novamente Poncius, pallido e pesado, na sua vasta toga, subiu os degraus de bronze, retomou o o Assento Curul.

Um silencio cahiu, t?o attento, que se ouviam as bozinas tocando ao longe na Torre Marianna. Sarêas desenrolou o seu escuro pergaminho, estendeu-o sobre a mesa de pedra entre os tabularios: e eu vi as m?os gordas e morosas do escriba tra?arem uma rubrica, estamparem um sêllo sob as linhas vermelhas que condemnavam á morte Jesus de Galilêa, meu Senhor… Depois Poncius Pilatus, com uma dignidade indolente, erguendo apenas de leve o bra?o nú, confirmou em nome de Cesar a ?senten?a do Sanhedrin, que julga em Jerusalem…?

Immediatamente Sarêas atirou sobre o turbante uma ponta do manto, ficou orando, com as m?os abertas para o céo. E os Phariseus triumphavam: junto a nós, dois muito velhos beijavam-se em silencio nas barbas brancas: outros sacudiam no ar os bast?es, ou lan?avam sarcasticamente a acclama??o forense dos romanos: ?Bene et belle! Non potest melius!?

Mas de subito o Interprete appareceu em cima d'um escabello, alteando sobre o peito o seu papagaio flammante. A turba emmudecera, surprehendida. E o phenicio, depois de ter consultado com o escriba, sorriu, gritou em chaldaico, alargando os bra?os cercados de manilhas de coral:

-Escutai! N'esta vossa festa de Paschoa, o Pretor de Jerusalem costuma, desde que Valerius Gratus assim o determinou, e com assenso de Cesar, perdoar a um criminoso… O Pretor prop?e-vos o perd?o d'este… Escutai ainda! Vós tendes tambem o direito de escolher, vós mesmos, entre os condemnados… O Pretor tem em seu poder, nos ergastulos de Herodes, outro sentenciado á morte…

Hesitou,-e debru?ado do escabello interrogava de novo o escriba que remexia n'uma ataranta??o os papyros e os tabularios. Sarêas, sacudindo a ponta do manto que escondia a sua ora??o, ficára assombrado para o Pretor, com as m?os abertas no ar. Mas já o Interprete bradava, erguendo mais a face risonha:

-Um dos condemnados é Rabbi Jeschoua, que ahi tendes, e que se disse filho de David… é esse que prop?e o Pretor. O outro, endurecido no mal, foi preso por ter morto um legionario trai?oeiramente, n'uma rixa, ao pé do Xistus. O seu nome é Bar-Abbás… Escolhei!

Um grito brusco e roufenho partiu d'entre os Phariseus:

-Bar-Abbás!

Aqui e além, pelo atrio, confusamente resoou o nome de Bar-Abbás. E um escravo do Templo, de sai?o amarello, pulando até aos degraus do sólio, rompeu a berrar, em face de Poncius, com palmadas furiosas nas c?xas:

-Bar-Abbás! Ouve bem! Bar-Abbás! O povo só quer Bar-Abbás!

A haste d'um legionario fel-o rolar nas lages. Mas já toda a multid?o, mais leve e facil d'inflammar do que a palha na meda, clamava por Bar-Abbás: uns com furor, batendo as sandalias e os cajados ferrados como para aluir o Pretorio; outros de longe, encruzados ao sol, indolentes e erguendo um dedo. Os vendilh?es do Templo, rancorosos, sacudindo as balan?as de ferro e repicando sinetas, berravam, por entre maldi??es ao Rabbi: ?Bar-Abbás é o melhor!? E até as prostitutas de Tiberiade, pintadas de vermelh?o como idolos, feriam o ar de gritos silvantes:

-Bar-Abbás! Bar-Abbás!

Raros alli conheciam Bar-Abbás; muitos, de certo, n?o odiavam o Rabbi-mas todos engrossavam o tumulto promptamente, sentindo, n'essa reclama??o do preso que atacára Legionarios, um ultraje ao Pretor romano, togado e augusto no seu tribunal. Poncius no entanto, indifferente, tra?ava letras n'uma vasta lauda de pergaminho pousada sobre os joelhos. E em torno os clamores disciplinados retumbavam em cadencia, como malhos n'uma eira:

-Bar-Abbás! Bar-Abbás! Bar-Abbás!

Ent?o Jesus, vagarosamente, voltou-se para aquelle mundo duro e revoltoso que o condemnava: e nos seus refulgentes olhos humedecidos, no fugitivo tremor dos seus labios, só transpareceu n'esse instante uma mágua misericordiosa pela opaca inconsciencia dos homens, que assim empurravam para a morte o melhor amigo dos homens… Com os pulsos presos, limpou uma gotta de suor: depois ficou diante do Pretor, t?o imperturbado e quêdo, como se já n?o pertencesse á terra.

O escriba, batendo com uma regra de ferro na pedra da mesa, tres vezes bradára o nome de Cesar. O tumulto ardente esmorecia. Poncius ergueu-se: e grave, sem trahir impaciencia ou cólera, lan?ou, sacudindo a m?o, o mandado final:

-Ide e crucificai-o!

Desceu o estrado; a turba batia ferozmente as palmas.

Oito soldados da cohorte Syriaca appareceram, apetrechados em marcha, com os escudos revestidos de lona, as ferramentas entrouxadas, e o largo cantil da posca. Sarêas, vogal do Sanhedrin, tocando no hombro de Jesus, entregou-o ao decuri?o: um soldado desapertou-lhe as cordas, outro tirou-lhe o albornoz de l?: e eu vi o d?ce Rabbi de Galilêa dar o seu primeiro passo para a morte.

Apressados, enrolando o cigarro, deixámos logo o palacio de Herodes por uma passagem que o douto Topsius conhecia, lobrega e humida, com fendas gradeadas d'onde vinha um canto triste de escravos encarcerados… Sahimos a um terreiro, abrigado pelo muro d'um jardim todo plantado de cyprestes. Dois dromedarios deitados no pó ruminavam, junto d'um mont?o d'hervas cortadas. E o alto historiador tomava já o caminho do Templo, quando, sob as ruinas d'um arco que a hera cobria, vimos povo apinhado em torno d'um Essenio, cujas mangas d'alvo linho batiam o ar como as azas d'um passaro irritado.

Era Gad, rouco d'indigna??o, clamando contra um homem esgrouviado, de barba rala e ruiva, com grossas argolas de ouro nas orelhas, que tremia e balbuciava:

-N?o fui eu, n?o fui eu…

-Foste tu! bradava o Essenio, estampando a sandalia na terra. Conhe?o-te bem. Tua m?i é cardadeira em Capárnaum, e maldita seja pelo leite que te deu!…

O homem recuava, baixando a cabe?a, como um animal encurralado á for?a:

-N?o fui eu! Eu sou Rephrahim, filho de Eliesar, de Ramah! Sempre todos me conheceram s?o e forte como a palmeira nova!

-Torto e inutil eras tu como um sarmento velho de vide, c?o e filho d'um c?o! gritou Gad. Vi-te bem… Foi em Capárnaum, na viella onde está a fonte, ao pé da Synagoga, que tu appareceste a Jesus, Rabbi de Nazareth! Beijavas-lhe as sandalias, dizias ?Rabbi, cura-me! Rabbi, vê esta m?o que n?o póde trabalhar!? E mostravas-lhe a m?o, essa, a direita, secca, mirrada e negra, como o ramo que definhou sobre o tronco! Era no Sabbath: estavam os tres chefes da Synagoga, e Elzear, e Simeon. E todos olhavam Jesus para vêr se elle ousaria curar no dia do Senhor… Tu choravas, de rojo no ch?o. E por acaso o Rabbi repelliu-te? Mandou-te procurar a raiz do baraz? Ah c?o, filho d'um c?o! O Rabbi, indifferente ás accusa??es da Synagoga, e só escutando a sua misericordia, disse-te: ?estende a m?o!? Tocou-a, e ella reverdeceu logo como a planta regada pelo orvalho do céo! Estava s?, forte, firme; e tu movias ora um dedo, ora outro, espantado e tremendo.

Um murmurio d'enlevo correu entre a multid?o, maravilhada pelo d?ce milagre. E o Essenio exclamava, com os bra?os tremulos no ar:

-Assim foi a caridade do Rabbi! E estendeu-te elle a ponta do manto, como fazem os Rabbis de Jerusalem, para que lhe deitasses dentro um siclo de prata? N?o. Disse aos seus amigos que te dessem da provis?o de lentilha… E tu largaste a correr pelo caminho, refeito e agil, gritando para o lado da tua casa: ?Oh m?i, oh m?i, estou curado!…? E foste tu, porco e filho de porco, que ha pouco no Pretorio pedias a cruz para o Rabbi e gritavas por Bar-Abbás! N?o negues, bocca immunda; eu ouvi-te; estava por traz de ti, e via incharem-te as cordoveias do pesco?o com o furor da tua ingratid?o!

Alguns, escandalisados, gritavam: ?maldito! maldito!? Um velho, com justiceira gravidade, apanhára duas grossas pedras. E o homem de Capárnaum, encolhido, esmagado, ainda rosnou surdamente:

-N?o fui eu, n?o fui eu… Eu sou de Ramah!

Gad, furioso, agarrou-o pelas barbas:

-N'esse bra?o, quando o arrega?aste diante do Rabbi, todos te viram duas cicatrizes curvas como de dois golpes de foice!… E tu vaes mostral-as agora, c?o e filho d'um c?o!

Despeda?ou-lhe a manga da tunica nova; arrastou-o em redor, apertado nas suas m?os de bronze, como um bode teimoso; mostrou bem as duas cicatrizes, lividas no pêllo ruivo; e assim o arremessou desprezivelmente para entre o povo-que, levantando o pó do caminho, perseguiu o homem de Capárnaum com apupos e com pedradas…

Acercamo-nos de Gad sorrindo, louvando a sua fidelidade a Jesus. Elle, acalmado, estendera as m?os a um vendedor d'agua, que lh'as purificava com um largo jorro do seu ?dre felpudo: depois limpando-as á toalha de linho que lhe pendia do cinto:

-Escutai! José de Ramatha reclamou o corpo do Rabbi, o Pretor concedeu-lh'o… Esperai-me á nona hora romana no pateo de Gamaliel… Onde ides?

Topsius confessou que iamos ao Templo, por motivos intellectuaes d'arte, d'archeologia…

-V?o é aquelle que admira pedras! rosnou o altivo idealista.

E afastou-se puxando o capuz sobre a face, por entre as ben??os do povo que crê e ama os Essenios.

* * * * *

Para poupar, até ao Templo, a rude caminhada pelo Tyropêo e pela ponte do Xistus, tomámos duas liteiras-das que um liberto de Poncius ultimamente alugava, junto ao Pretorio, ?á moda de Roma?.

Can?ado, estirei-me, com as m?os sob a nuca, no colch?o de folhas seccas que cheirava a murta: e lentamente come?ou a invadir-me a alma uma inquieta??o estranha, temerosa, que já no Pretorio me ro?ára de leve como a aza arripiada d'uma ave agourenta… Ia eu ficar para sempre n'esta cidade forte dos Judeus? Perdera eu irremediavelmente a minha individualidade de Raposo, de catholico, de bacharel, contemporaneo do Times e do Gaz-para me tornar um homem da Antiguidade classica, coevo de Tiberio? E, dado este mirifico retrogresso nos tempos, se voltasse á minha patria, que iria eu encontrar á beira do rio claro?…

Decerto encontraria uma colonia romana: na encosta da collina mais fresca uma edifica??o de pedra onde vive o proconsul; ao lado um templo pequeno de Apollo ou de Marte coberto de lousa; nos altos um campo entrincheirado onde est?o os legionarios; e em redor a villa lusitana, esparsa, com os seus caminhos agrestes, cabanas de pedra solta, alpendres para recolher o gado, e estacadas no lodo onde se amarram jangadas… Assim encontraria a minha patria. E que faria lá, pobre, solitario? Seria pastor nos montes? Varreria as escadarias do Templo, racharia a lenha das cohortes para ganhar um salario romano?… Miseria incomparavel!

Mas se ficasse em Jerusalem? Que carreira tomaria n'esta sombria, devota cidade da Asia? Tornar-me-hia um Judeu, resando o Schema, cumprindo o Sabbath, perfumando a barba de nardo, indo pregui?ar nos atrios do Templo, seguindo as li??es d'um Rabbi, e passeando ás tardes, com um bast?o dourado, nos jardins de Gareb entre os tumulos?… E esta existencia igualmente me parecia pavorosa!… N?o! a ficar encarcerado no mundo antigo com o doutissimo Topsius, ent?o deveriamos galopar n'essa mesma noite, ao erguer da lua, para Joppé; de lá embarcar em qualquer trirema phenicia que partisse para Italia; e ir habitar Roma, ainda que fosse n'uma das escuras viellas do Velabro, n'uma d'essas altas, fumarentas trapeiras, com duzentas escadas a subir, empestadas pelos guisados d'alho e tripa, que escassamente atravessam duas calendas sem desabar ou arder.

Assim me inquietava quando a liteira parou; descerrei as cortinas; vi ante mim os vastos granitos da muralha do Templo. Penetrámos sob a abobada da porta de Huldah; e f?mos logo detidos emquanto os guardas do Templo arrancavam a um pegureiro, teimoso e rude, a clava armada de prégos com que elle queria atravessar o Santuario. O rolante rumor que vinha de longe, dos Atrios, já me atemorisava, semelhante ao d'uma selva ou d'um grande mar irritado…

E ao emergir emfim da abobada estreita agarrei o bra?o magro do Historiador dos Herodes, no deslumbramento que me tornou, intenso e repassado de terror! Um brilho de neve e ouro vibrava profusamente no ar molle, irradiado dos claros marmores, dos granitos brunidos, dos recamos preciosos banhados pelo divino sol de Nizam. Os lisos pateos que eu de manh? vira desertos, alvejando como a agua quieta d'um lago, desappareciam agora sob o povo que os atulhava, adornado e festivo. Os cheiros estonteavam, acres, emanados dos estofos tingidos, das resinas aromaticas, da gordura frigindo em brazas. Sobre o denso ruido passavam roucos mugidos de bois. E perennemente os fumos votivos se sumiam na refulgencia do céo…

-Caramba! murmurei, enfiado. Isto s?o magnificencias de entupir!

F?mos penetrando sob os Porticos de Salom?o, onde resoava o profano tumulto d'um mercado. Por traz de grossas caixas gradeadas encruzavam-se os Cambistas, com uma moeda d'ouro pendente da orelha entre as melenas sordidas, trocando o dinheiro sacerdotal do Templo pelas moedas pag?s de todas as regi?es, de todas as idades, desde as macissas rodellas do velho Lacio mais pesadas que broqueis, até aos tijolos gravados que circulam, como ?notas? nas feiras da Assyria. Adiante, brilhava a frescura e abundancia d'um pomar: as rom?s, estaladas de maduras, trasbordavam dos gigos: hortel?es com um ramo d'amendoeira preso ao carapu?o apregoavam grinaldas d'anemonas ou hervas amargas de Paschoa: jarras de leite puro pousavam sobre saccos de lentilha; e os cordeiros, deitados nas lages, amarrados pelas patas ás columnas, balavam tristemente de sêde.

Mas a multid?o sobretudo apinhava-se, com suspiros de cubi?a, em torno aos tecidos e ás joias. Mercadores das colonias phenicias, das Ilhas gregas, de Tardis, da Mesopotamia, de Tadmor, uns com soberbas simarras de l? bordada, outros com toscos tabardos de couro pintado, desdobravam os panos azues de Tyro que reproduzem o brilho ardente dos céos do Oriente, as sêdas impudicas de Sheba d'uma transparencia verde que v?a na aragem, e esses estofos solemnes de Babylonia que sempre me extasiavam, negros com largas fl?res c?r de sangue… Dentro de cofres de cedro, espalhados sobre tapetes da Galacia, reluziam espelhos de prata simulando a lua e os seus raios, sinetes de turmalina que os hebreus usam ao peito, manilhas de pedrarias enfiadas em cornos d'antilopes, diademas de sal-gema com que se enfeitam os noivos; e, resguardadas mais preciosamente, talismans e amuletos que me pareciam pueris, peda?os de raizes, pedregulhos negros, couros tisnados e ossos com letras.

Topsius ainda parou entre as tendas dos perfumistas apre?ando um esplendido bast?o de Tylos, d'uma rara madeira mosqueada como a pelle do tigre, mas logo fugimos ao ardente cheiro que alli suffocava, vindo das resinas, das gommas dos paizes dos Negros, dos mólhos de plumas de abestruz, da mirrha d'Oronte, das ceras de Cirenaica, dos oleos rosados de Cysico, e das grandes coifas de pelle d'hyppopotamo cheias de violetas seccas e de folhas de baccaris…

Entrámos ent?o na galeria chamada Real, toda votada á Doutrina e á Lei. Ahi, cada dia, tumultuam rancorosamente as controversias entre Sadduceus, Escribas, Sophorins, Phariseus, sectarios de Schemaia, sectarios de Hillel, Juristas, Grammaticos, fanaticos de toda a terra judaica. Junto ás columnas de marmore installavam-se os Mestres da Lei, sobre altos escabellos, tendo ao lado um prato de metal onde cahiam os óbolos dos fieis: e em torno, encruzados no ch?o, com as sandalias ao pesco?o, as pellicas cobertas de letras vermelhas desdobradas nos joelhos, os discipulos, imberbes ou decrepitos, resmoneavam os dictames balan?ando os hombros lentos. Aqui e além, no meio de devotos embebidos, dois doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos pontos da Doutrina. ?Póde-se comer um ovo de gallinha posto no dia de Sabbath? Por que osso da espinha dorsal come?a a Resurrei??o?? O philosophico Topsius ria, disfar?ado n'uma préga da capa: mas eu tremia quando os doutores, escaveirados e barbudos, se amea?avam, gritavam racca! racca! mergulhando a m?o no seio da tunica á procura d'um ferro escondido.

A cada momento cruzavamos esses Phariseus, resoantes e vazios como tambores, que vêm ao Templo assoalhar a sua piedade-uns com as costas vergadas, esmagadas pela vastid?o do peccado humano; outros, trope?ando e apalpando o ar, d'olhos fechados, para n?o vêr as fórmas impuras das mulheres; alguns mascarrados de cinza, gemendo, com as m?os apertadas sobre o estomago-em testemunho dos seus duros jejuns! Depois Topsius mostrou-me um Rabbi, interpretador de sonhos: n'um car?o livido e chupado os seus olhos fundos luziam com a tristeza de lampadas de sepulchro: e, sentado sobre saccos de l?, estendia por cima de cada devoto, que vinha ajoelhar aos seus pés nús, a ponta d'um vasto manto negro com signos brancos pintados. Eu, curioso, pensava em o consultar-quando de repente gritos afflictos resoaram no atrio. Corremos. Eram levitas, com cordas e vergas, chibatando furiosamente um leproso que, em estado de impureza, penetrára no pateo de Israel. O sangue salpicava as lages. Em torno crian?as riam.

Ia cahindo a sexta hora judaica, a mais grata ao Senhor, quando o sol, na sua marcha para o mar, pára sobre Jerusalem a contemplal-a com paix?o: e, para nos acercarmos do ?atrio d'Israel?, fomos penosamente fendendo a multid?o que alli remoinhava vinda de toda a terra culta e barbara… O rude sai?o de pelles dos pegureiros das Idumêas ro?ava a chlamyde curta dos gregos de face rapada e mais brancos que marmores. Havia homens solemnes da planicie de Babylonia, com as barbas mettidas dentro de saccos azues que uma corrente de prata lhes prendia ás mitras de couro pintado: e havia gaulezes ruivos, de bigodes pendentes como as hervas das suas lag?as, que riam e parolavam, devorando com a casca os lim?es d?ces da Syria. Por vezes um romano togado passava, t?o grave como se descesse d'um pedestal. Gente da Dacia e da Mysia, com as pernas enfeixadas em ligaduras de feltro, trope?ava deslumbrada pelo claro esplendor dos marmores. E n?o era menos estranho ir eu, Theodorico Raposo, arrastando alli as minhas botas de montar, atraz d'um Sacerdote de Moloch, enorme e sensual na sua simarra de purpura, que, em meio d'um bando de mercadores de Serepta, desdenhava d'aquelle templo sem imagens, sem bosques, e mais ruidoso que uma feira phenicia.

Assim lentamente nos fomos chegando á porta chamada ?A Bella?, que dava accesso para o Atrio sagrado d'Israel. Bella em verdade, preciosa e triumphal, sobre os quatorze degraus de marmore verde de Numidia, mosqueado de amarello: os seus largos batentes, revestidos de chapas de prata, faiscavam como os d'um reliquario: e os dois humbraes, semelhantes a grossos mólhos de palmas, sustentavam uma torre, redonda e branca, guarnecida de escudos tomados aos inimigos de Judá, brilhantes no sol como um collar de gloria sobre o pesco?o forte d'um heroe! Mas diante d'este adito maravilhoso erguia-se severamente um pilar, encimado por uma placa negra com letras d'ouro, onde se desenrolava esta amea?a em grego, em latim, em aramaico, em chaldaico: que nenhum Estrangeiro aqui penetre sob pena de morrer!

Fortunadamente avistámos o magro Gamaliel que se encaminhava ao Santo Pateo, descal?o, apertando ao peito um mólho d'espigas votivas: com elle vinha um homem nedio e risonho, de face c?r de papoula, coroado por uma enorme mitra de l? negra enfeitada de fios de coral… Curvados até ás lages, saudámos o austero Doutor da Lei. Elle psalmodiou logo, de palpebras cerradas:

-Sêde bemvindos… Esta é a hora melhor para receber a ben??o do Senhor. O Senhor disse: ?sahi das vossas habita??es, vinde a mim com as primicias dos vossos fructos, eu vos aben?oarei em todas as obras das vossas m?os…? Vós hoje pertenceis miraculosamente a Israel. Subi á morada do Eterno! Este que vem a meu lado é Eliezer de Silo, benefico e sabio entre todos nas coisas da natureza.

Deu-nos duas espigas de milho: e atraz d'elle pisámos com as nossas solas gentilicas o Adro interdicto de Judá.

Caminhando ao meu lado, Eliezer de Silo, cortez e suave, perguntou-me se era remota a minha patria e perigosos os seus caminhos…

Eu rosnei, vaga e recatadamente:

-Sim… Chegamos de Jerichó.

-Boa, por lá, a colheita do balsamo?

-Rica! afiancei, com calor. Louvado seja o Eterno, que n'este seu anno de gra?a estamos lá abarrotadinhos de balsamo!

Elle pareceu regosijado. E revelou-me ent?o que era um dos Medicos que residem no Templo-onde os Sacerdotes e os Sacrificadores soffrem perennemente ?dissabores intestinaes?, por pisarem suados e descal?os as lages frias dos Adros.

-Por isso, murmurou elle com uma faisca alegre no olho benigno, o povo em Si?o nos chama Doutores da Tripa!

Torci-me de riso, de gozo, com aquella jocosidade assim susurrada na austera morada do Eterno… Depois, recordando os meus dissabores intestinaes em Jerichó, por muito amar os divinos e perfidos mel?es da Syria-perguntei ao amavel Physico se n'essas occorrencias elle preconisava o bismutho…

O homem magistral abanou cautamente a sua mitra bojuda. Depois, espetando um dedo no ar, segredou-me esta receita incomparavel:

-Tomai gomma de Alexandria, a?afr?o de jardim, uma cebola da Persia e vinho negro de Emmaus… Misturai, cozei… Deixai esfriar n'um vaso de prata… Collocai-vos n'uma encruzilhada, ao nascer do sol…

Mas emmudeceu subitamente, com os bra?os abertos e a face pendida para as lages. Penetráramos no soberbo adro, chamado ?Pateo das Mulheres?: e n'esse instante terminavam as Ben??os que á sexta hora um sacerdote vem alli derramar do alto da porta de Nicanor.

Severa, toda de bronze-ella deixava entrevêr, lá ao fundo, os ouros, a neve, as pedrarias do Santuario refulgindo com serenidade… Nos largos degraus, mais lustrosos que alabastro, desenrolavam-se duas collegiadas de levitas, ajoelhados e vestidos de branco-uns com uma trompa recurva, outros pousando os dedos sobre as cordas mudas de lyras. E, por entre estas alas de homens prostrados, um grande velho emmaciado vinha descendo devagar os degraus, com um incensador de ouro na m?o…

A sua tunica justa de byssus tinha a fimbria orlada de pinhas d'esmeralda, alternando com guizos que tiniam finamente; os pés sem sandalias e tingidos d'heneh pareciam de coral; e ao meio da facha que lhe cingia as costellas magras brilhava, bordado a ouro, um grande sol. Os fieis ajoelhados, quedos, sem um murmurio, quasi pousavam nas lages a cabe?a escondida sob os mantos e sob os véos: e com as c?res festivas, onde dominava o vermelho da anemona e o verde da figueira, era como se o adro estivesse juncado de fl?res e folhagens, n'uma manh? de triumpho, para passar Salom?o!

Com a barba aguda e dura levantada aos céos-o velho incensou o lado do Oriente e das areias, depois o lado do Occidente e dos mares; e o recolhimento era t?o enlevado que se ouviam no fundo do Santuario os mugidos lentos dos bois. Desceu ainda, al?ou mais a mitra salpicada de joias, atirou o incensador que rangeu faiscando ao sol-e com o fumo branco veio rolando tenue e cheirosa, sobre Israel, a ben??o do Muito-Forte. Ent?o os levitas, unisonamente, feriram as cordas das lyras: das trombetas curvas subiu um grito de bronze: e todo o povo erguido, com os bra?os ao céo, entoou um psalmo celebrando a eternidade de Judá… E subitamente tudo cessou: os Levitas recolhiam pela escadaria de marmore sem um rumor dos pés nús: Eliezer de Silo e o rigido Gamaliel tinham desapparecido sob os Porticos: e o claro pateo em redor resplandecia sumptuoso e cheio de mulheres.

Os revestimentos de alabastro eram t?o lustrosos que Topsius mirava n'elles como n'um espelho as pregas nobres da sua capa: todos os fructos da Asia e as fl?res dos vergeis se entrela?avam, em copiosos lavores de prata, nas portas das camaras rituaes onde se perfuma o oleo, se consagra a lenha, se purifica a lepra: entre as columnas pendiam em fest?es fios grossos de perolas e de contas d'onyx, mais numerosos que no peito de uma noiva: e nos mealheiros de bronze, semelhantes a trombetas de guerra colossaes, pousadas nas lages, enrolavam-se, scintillando e reclamando as dadivas, inscrip??es em relevo de ouro, graciosas como versos de canticos-Queimai Incensos e Nardos, Offertai Pombas e R?las…

Mas o santo adro resplandecia de mulheres: e meus olhos bem depressa deixaram metaes e marmores, para captivadamente se prenderem áquellas filhas de Jerusalem, cheias de gra?a e morenas como as tendas do Cedar! Todas traziam no Templo o rosto descoberto: ou apenas um f?fo véo, d'uma musselina leve como o ar, á moda romana, enrodilhado finamente no turbante, punha em torno das faces uma alvura d'espuma, onde os olhos negros tomavam um quebranto mais humido, enlanguecidos pelas densas pestanas, alongados pela tintura de cypro. A abundancia barbara dos ouros, das pedrarias, envolvia-as n'uma radiancia tremula desde os peitos fortes até aos cabellos mais crespos que a l? das cabras de Galaad. As sandalias, ornadas de guizos e de correntes, arrastavam sobre as lages uma melodia argentina, tanta era a gra?a concertada dos seus movimentos ondulados e graves: e os tecidos bordados, os algod?es de Galacia, os finos linhos de c?res que as cingiam, ensopados nas escencias ardentes d'ambar, de malobathro e de baccaris, enchiam o ar de fragancia e de molleza a alma dos homens. As mais ricas caminhavam solemnemente entre escravas vestidas de panos amarellos, que lhes traziam o párasol de pennas de pav?o, os rolos devotos em que está escripta a Lei, saccos de tamaras d?ces, espelhos ligeiros de prata. As mais pobres, com uma simples camisa de algod?o de riscadinho multic?r, e sem mais joias que um rude talisman de coral, corriam, chalravam, mostrando nús os bra?os e o collo c?r de medronho mal maduro… E sobre todas o meu desejo zumbia-como uma abelha que hesita entre fl?res de igual do?ura!

-Ai Topsius, Topsius! rosnava eu. Que mulheres! Que mulheres! Eu estoiro, esclarecido amigo!

O sabio affirmava com desdem que ellas n?o tinham mais intellectualidade que os pav?es dos jardins d'Antipas; e que nenhuma decerto alli lêra Aristoteles ou Sophocles!… Eu encolhia os hombros. Oh esplendor dos céos! por qual d'estas mulheres que n?o lêra Sophocles n?o daria eu, se fosse Cesar, uma cidade de Italia e toda a Iberia! Umas entonteciam-me pela sua gra?a dolente e macerada de virgens de devo??o, vivendo na penumbra constante dos quartos de cedro, com o corpo saturado de perfumes, a alma esmagada de ora??es. Outras deslumbravam-me pela sumptuosidade solida e succulenta da sua belleza. Que largos, escuros olhos d'idolos! Que claros, macios membros de marmore! Que sombria molleza! Que nudezes magnificas, quando á beira do leito baixo se lhes desenrolassem os cabellos pesados, e fossem d?cemente escorregando os véos e os linhos de Galacia!…

Foi necessario que Topsius me arrastasse pelo albornoz para a escadaria de Nicanor. E ainda estacava a cada degrau, alongando para traz os olhos esbrazeados, resfolgando como um touro em maio nas lezirias.

-Ai, filhinhas de Si?o! Que sois de vos deixar aqui os miolos!

Ao voltar-me, puxado pelo douto Historiador, bati no focinho d'um cordeiro branco que um velho conduzia ás costas, amarrado pelas patas e enfeitado de rosas. Em frente corria uma longa balaustrada de cédro lavrado-onde uma cancella toda de prata, aberta e lassa nos seus gonzos, se movia em silencio, faiscando.

-é aqui, disse o erudito Topsius, que se d?o a beber as aguas amargas ás mulheres adulteras… E agora, D. Raposo, ahi tem Israel adorando o seu Deus.

Era emfim o Adro Sacerdotal! E eu estremeci diante d'aquelle Santuario entre todos monstruoso e deslumbrante. Ao meio do vasto e claro terrado erguia-se, feito de enormes pedras negras, o altar dos Holocaustos: aos seus cantos enristavam-se quatro cornos de bronze; d'um pendiam grinaldas de lirios; d'outros fios de coraes; o outro pingava sangue. Da immensa grelha do altar subia uma fuma?a avermelhada e lenta: e em redor apinhavam-se os Sacrificadores, descal?os, todos de branco-com forquilhas de bronze nas m?os pallidas, espetos de prata, facas passadas nos cintos c?r de céo… No afanoso, severo rum?r do ceremonial sacrosanto confundia-se o balar de cordeiros, o som argentino de pratos, o crepitar das lenhas, as pancadas surdas de malho, o cantar lento da agua em bacias de marmore, e o estridor das bozinas. Apesar dos aromaticos que ardiam em ca?oulas, das longas ventarolas de folhas de palmeira com que os serventes agitavam o ar, eu puz o len?o na face, enjoado com esse cheiro molle de carne crua, de sangue, de gordura frita e de a?afr?o, que o Senhor reclamou a Moysés como o dom melhor a receber da Terra…

Ao fundo, bois enfeitados de fl?res, vitellas brancas com os cornos dourados, sacudiam, mugindo e marrando, as cordas que os prendiam a fortes argolas de bronze: mais longe, sobre mesas de marmore, entre peda?os de gêlo, pousavam, vermelhas e sangrentas, grossas pe?as de carne, sobre que os levitas balan?avam leques de pennas para afugentar os moscardos. De columnas rematadas por faiscantes globos de crystal, pendiam cordeiros mortos, que os Netenins, resguardados por aventaes de couro cobertos de textos sagrados, esfolavam com cutelos de prata: emquanto os victimarios de sai?o azul, retesando os bra?os, conduziam baldes d'onde trasbordavam e iam arrastando entranhas. Coroados por uma mitra redonda de metal, escravos idumeos constantemente limpavam as lages com esponjas: alguns vergavam sob mólhos de lenha; outros, agachados, sopravam fogareiros de pedra.

A cada momento algum velho Sacrificador, descal?o, marchava para o altar, trazendo ao collo um anho tenro que n?o balava, contente e quente entre os dois bra?os nús: um tocador de lyra precedia-o: levitas atraz transportavam os jarros d'oleos aromaticos. Em frente á ara, rodeado de Acolytos, o Sacrificador lan?ava sobre o cordeiro um punhado de sal; depois, psalmodiando, cortava-lhe uma pouca de l? entre os cornos. As bozinas resoavam; um grito d'animal ferido perdia-se no tumulto sacro; por cima das tiáras brancas duas m?os vermelhas erguiam-se ao ar sacudindo sangue; da grelha do altar resaltava, avivada pelos oleos e pela gordura, uma chamma d'alegria e de offerta; e o fumo avermelhado e lento ascendia serenamente ao azul, levando nos seus rolos o cheiro que deleita o Eterno.

-é um talho! murmurei eu, aturdido. é um talho! Topsius, doutor, vamos outra vez lá baixo ás mulherinhas…

O sabio olhou para o sol. Depois, gravemente, pousando-me no hombro a m?o amiga:

-é quasi a nona hora, D. Raposo!… E temos de ir fóra da Porta Judiciaria, para além do Gareb, a um sitio agreste que se chama o Calvario.

Empallideci. E pareceu-me que nenhuma vantagem espiritual obteria minha alma, nenhuma inesperada acquisi??o enriqueceria o saber de Topsius-por irmos contemplar no alto d'um morro, entre urzes, Jesus atado a um madeiro e soffrendo: era apenas um tormento para a nossa sensibilidade! Mas, submisso, segui o meu sapiente amigo pela escadaria das Aguas, que leva ao largo lageado de basalto onde come?am as primeiras casas d'Acra. Visinhas do Santuario, habitadas por Sacerdotes, ellas ostentavam uma profusa devo??o Paschal, em palmas, lampadas, alcatifas penduradas dos eirados: e algumas tinham os hombraes salpicados com o sangue fresco d'um anho.

Antes de penetrar n'uma sordida, andrajosa rua que se ia torcendo sob velhos toldes de esparto, voltei-me para o Templo: agora só via a immensa muralha de granito, com basti?es no alto, sombria e inderrubavel: e a arrogancia da sua for?a e da sua eternidade encheu de cólera o meu cora??o. Emquanto sobre uma collina de morte, destinada aos escravos, o homem de Galilêa, incomparavel amigo dos homens, arrefecia na sua cruz, e para sempre se apagava aquella pura voz de amor e d'espiritualidade-alli ficava o Templo que o matava, rutilante e triumphal, com o balar dos seus gados, o estridor dos seus sophismas, a usura sob os Porticos, o sangue sobre as Aras, a iniquidade do seu duro orgulho, a importunidade do seu perenne incenso… Ent?o, com os dentes cerrados, mostrei o punho a Jehovah e á sua cidadella, e bradei:

-Arrasados sejaes!

* * * * *

N?o descerrei mais os labios sêccos até chegarmos á estreita porta nas muralhas de Ezekiah, que os Romanos denominavam a Judiciaria. E logo ahi estremeci, vendo collado n'um pilar de pedra um pergaminho com três senten?as transcriptas-?a d'um ladr?o de Bettebara, a d'um assassino de Emath, e a de Jesus de Galilêa!? O escriba do Sanhedrin, que conforme á Lei alli vigiára para recolher, até que os condemnados passassem, algum inesperado testemunho d'inculpabilidade, ia partir, com os seus tabularios debaixo do bra?o, depois de tra?ar sobre cada senten?a um grosso risco vermelho. E aquelle córte final, c?r de sangue, passado á pressa por um escripturario que recolhia contente á sua morada, a comer o seu anho, commoveu-me mais que a melancolia dos Livros Santos.

Sebes de cactos em fl?r bordavam a estrada; e para além eram verdes outeiros onde os muros baixos de pedra solta, vestidos de rosas bravas, delimitavam os hortos. Tudo alli resplandecia, festivo e pacifico. á sombra das figueiras, debaixo dos pilares das parreiras, as mulheres, encruzadas em tapetes, fiavam o linho ou atavam os ramos d'alfazema e manjerona que se offerecem na Paschoa: e crian?as em redor, com o pesco?o carregado d'amuletos de coral, balou?avam-se em cordas, atiravam á setta… Pela estrada descia uma fila de lentos dromedarios levando mercadorias para Joppé: dois homens robustos recolhiam da ca?a, com altos coturnos vermelhos cobertos de pó, a aljava batendo-lhe a c?xa, uma rede atirada para as costas, e os bra?os carregados de perdizes e d'abutres amarrados pelas patas: e diante de nós caminhava devagar, apoiado ao hombro d'uma crian?a que o conduzia, um velho pobre, de longas barbas, trazendo presa ao cinto como um bardo a lyra grega de cinco cordas, e sobre a fronte uma cor?a de louro…

Ao fundo d'um muro, coberto de ramos de amendoeiras, diante d'uma cancella pintada de vermelho, dois servos esperavam, sentados n'um tronco cahido, com os olhos baixos e as m?os sobre os joelhos. Topsius parou, puxou-me o albornoz:

-é este o horto de José de Ramatha, um amigo de Jesus, membro do

Sanhedrin, homem d'espirito inquieto, que se inclina para os Essenios…

E justamente, ahi vem Gad!

Do fundo do horto, com effeito, por uma rua de murta e rosas, Gad descia correndo com uma trouxa de linho e um cabaz de vime enfiados n'um pau. Parámos.

-O Rabbi? gritou-lhe o alto Historiador, transpondo a cancella.

O Essenio entregou a um dos escravos a trouxa, e o cesto que estava cheio de myrrha e d'hervas aromaticas; e ficou diante de nós um momento, tremulo, suffocado, com a m?o fortemente pousada sobre o cora??o para lhe serenar a anciedade.

-Soffreu muito! murmurou, por fim. Soffreu quando lhe trespassaram as m?os… Mais ainda ao erguer da cruz… E repelliu primeiro o vinho de Misericordia, que lhe daria a inconsciencia… O Rabbi queria entrar com a alma clara na morte por que chamára!… Mas José de Ramatha, Nicodemus, estavam lá vigiando. Ambos lhe lembraram as coisas promettidas uma noite em Bethania… O Rabbi ent?o tomou a malga das m?os da mulher de Rosmophin, e bebeu.

E o Essenio, pregados em Topsius os olhos reluzentes, como para cravar bem seguramente na sua alma uma recommenda??o suprema, recuou um passo e disse com uma grave lentid?o:

-á noite, depois da ceia, no eirado de Gamaliel…

E outra vez desappareceu na rua fresca do horto, entre a murta e as roseiras. Topsius deixou logo a estrada de Joppé: e estugando o passo por um atalho agreste, onde o meu largo albornoz se prendia aos espinhos das piteiras, explicava-me que a bebida de Misericordia-era um vinho forte de Tharses, com succo de papoulas e especiarias, fornecido por uma confraria de mulheres devotas para insensibilizar os suppliciados… Mas eu mal escutava aquelle copioso espirito. No alto d'um aspero outeiro, todo de rocha e urze, avistára, destacando duramente no claro azul do céo liso, um mont?o de gente parada: e em meio d'ella sobrelevavam-se tres pontas grossas de madeiros e moviam-se, faiscando ao sol, elmos polidos de Legionarios. Turbado, encostei-me á beira do caminho, n'um penedo branco que escaldava. Mas vendo Topsius marchar, com a sabia serenidade de quem considera a Morte uma purificadora liberta??o das fórmas imperfeitas-n?o quiz ser menos forte, nem menos espiritual: arranquei o albornoz que me abafava, galguei intrepidamente a collina temerosa.

D'um lado cavava-se o Valle de Hinom, abrazado e livido, sem uma herva, sem uma sombra, juncado d'ossos, de carcassas, de cinzas. E diante de nós o m?rro ascendia, com manchas leprosas de tojo negro, e a espa?os furado por uma ponta de rocha polida e branca como um osso. O corrego, onde os nossos passos espantavam os lagartos, ia perder-se entre as ruinas d'um casebre de adobe: duas amendoeiras, mais tristes que plantas crescidas na fenda d'um sepulchro, erguiam ao lado a sua rama rala e sem fl?r, onde cantavam asperamente cigarras. E na sombra tenue, quatro mulheres descal?as, desgrenhadas, com rasg?es de luto nas tunicas pobres, choravam como n'um funeral.

Uma, sem se mover, hirta contra um tronco, gemia surdamente sob a ponta do manto negro: outra, exhausta de lagrimas, jazia n'uma pedra, com a cabe?a cahida nos joelhos, e os esplendidos cabellos louros desmanchados, alastrados até ao ch?o. Mas as outras duas deliravam, arranhadas, ensanguentadas, batendo desesperadamente nos peitos, cobrindo a face de terra; depois, lan?ando ao céo os bra?os nús, abalavam o m?rro com gritos-?oh meu encanto, oh meu thesouro, oh meu sol!? E um c?o, que farejava entre as ruinas, abria a guela, uivava tambem, sinistramente.

Espavorido, puxei a capa do douto Topsius-e cortámos pelas urzes até ao alto, onde se apinhavam, olhando e galrando, obreiros das officinas de Gareb, serventes do Templo, vendilh?es, e alguns d'esses sacerdotes miseraveis e em farrapos, que vivem de negromancia e d'esmolas. Diante da branca capa em que Topsius se togava, dois cambistas, com moedas d'ouro pendentes das orelhas, arredaram-se, murmurando ben??os servis. Uma corda d'esparto deteve-nos, presa a postes cravados no ch?o para isolar o alto do m?rro, e, no sitio em que ficáramos, enrolada a uma velha oliveira que tinha pendurados dos ramos escudos de Legionarios e um manto vermelho.

Ent?o, ancioso, ergui os olhos… Ergui os olhos para a cruz mais alta, cravada com cunhas n'uma fenda de rocha. O Rabbi agonisava. E aquelle corpo que n?o era de marfim nem de prata, e que arquejava, vivo, quente, atado e pregado a um madeiro, com um pano velho na cinta, um travess?o passado entre as pernas-encheu-me de terror e d'espanto… O sangue que manchára a madeira nova, ennegrecia-lhe as m?os, coalhado em torno aos cravos: os pés quasi tocavam o ch?o, amarrados n'uma grossa corda, r?xos e torcidos de d?r. A cabe?a, ora escurecida por uma onda de sangue, ora mais livida que um marmore, rolava d'um hombro a outro d?cemente; e por entre os cabellos emmaranhados, que o suor empastára, os olhos esmoreciam, sumidos, apagados-parecendo levar com a sua luz para sempre toda a luz e toda a esperan?a da terra…

O centuri?o, sem manto, com os bra?os cruzados sobre a coura?a de escamas, rondava gravemente junto á cruz do Rabbi, cravando por vezes os olhos duros na gente do Templo, cheia de rumores e de risos. E Topsius mostrou-me defronte, rente á corda, um homem cuja face amarella e triste quasi desapparecia entre as duas longas mechas negras de cabello que lhe desciam sobre o peito-e que abria e enrolava com impaciencia um pergaminho, ora espiando a marcha lenta do sol, ora fallando baixo a um escravo ao seu lado.

-é Joseph de Ramatha, segredou-me o douto Historiador. Vamos ter com elle, ouvir as coisas que convém saber…

Mas n'esse instante, d'entre o bando sordido dos servos do Templo e dos sacerdotes miseraveis que s?o nutridos pelos sobejos dos holocaustos, rompeu um ruido mais forte como o grasnar de corvos n'um alto. E um d'elles, colossal, esqualido, com costuras de facadas através da barba rala, atirou os bra?os para a cruz do Rabbi, e gritou n'uma baforada de vinho:

-Tu que és forte, e querias destruir o Templo e as suas muralhas, porque n?o quebras ao menos o pau d'essa cruz?

Em torno estalaram risadas alvares. E outro, espalmando as m?os sobre o peito, curvado com infinito escarneo, saudava o Rabbi:

-Herdeiro de David, oh meu principe, que te parece esse throno?

-Filho de Deus! Chama teu pai, vê se teu pai te vem salvar! rouquejava a meu lado um magro velho, que tremia e sacudia a barba, apoiado ao seu bord?o.

Alguns vendilh?es bestiaes apanhavam torr?es seccos a que misturavam cuspo, para arremessar ao Rabbi: uma pedra por fim passou, resoou cavamente no madeiro. Ent?o o Centuri?o correu, indignado; a folha da sua larga espada lampejou no ar; e o bando recuou blasphemando-emquanto alguns embrulhavam na ponta do sai?o os dedos que escorriam sangue.

Nós acercámo-nos de José de Ramatha. Mas o sombrio homem abalou bruscamente, esquivando a importunidade do sabio Topsius. E, magoados com a sua rudeza alli ficámos junto d'um tronco de oliveira secca, defronte das outras cruzes.

Os dois condemnados tinham acordado do primeiro desmaio, sob a frescura da aragem da tarde. Um, grosso, pelludo, com os olhos esbugalhados, o peito atirado para diante e as costellas a estalar, como se n'um esfor?o desesperado quizesse arrancar-se do madeiro-urrava sem descontinuar, medonhamente: o sangue pingava-lhe em gottas lentas dos pés negros, das m?os esga?adas: e abandonado, sem affei??o ou piedade que o assistissem, era como um lobo ferido que uiva e morre n'um brejo. O outro, delgado e louro, pendia sem um gemido, como uma haste de planta meio quebrada. Defronte d'elle uma mulher macilenta e em farrapos, passando a cada instante o joelho sobre a corda, estendia-lhe nos bra?os uma criancinha núa, e gritava, já rouca: ?Olha ainda, olha ainda!? As palpebras lividas n?o se moviam: um negro, que entrouxava as ferramentas da crucifica??o, ia empurral-a com brandura: ella emmudecia, apertava desesperadamente o filho para que lh'o n?o levassem tambem, batendo os dentes, tremendo toda: e a criancinha entre os farrapos procurava o seio magro.

Soldados, sentados no ch?o, desdobravam as tunicas dos suppliciados: outros, com o elmo enfiado no bra?o, limpavam o suor-ou por uma malga de ferro, a goles lentos, bebiam a posca. E em baixo, na poeira da estrada, sob o sol mais d?ce, passava gente recolhendo pacificamente dos campos e dos hortos. Um velho picava as suas vaccas para o lado da porta de Genath: mulheres, cantando, carregavam lenha: um cavalleiro trotava, embrulhado n'um manto branco. ás vezes os que atravessavam o caminho ou voltavam dos pomares de Gareb avistavam as tres cruzes erguidas: arrega?avam a tunica, subiam a collina devagar através das urzes. O rotulo da cruz do Rabbi, escripto em grego e em latim, causava logo assombro. ?Rei dos Judeus?! Quem era esse? Dois mo?os, patricios e sadduceus, com brincos de perolas nas orelhas e bordaduras d'ouro nos borzeguins, interpellaram o Centuri?o, escandalisados. Porque escrevera o Pretor-?Rei dos Judeus?? Era aquelle, alli pregado na cruz, Caio Tiberio? Só Tiberio era rei da Judêa! O Pretor quizera offender Israel! Mas em verdade só ultrajava Cesar!…

Impassivel, o Centuri?o fallava a dois Legionarios que remexiam no ch?o em grossas barras de ferro. E a mulher que acompanhava os sadduceus, uma romana miudinha e morena, com fitas de purpura nos cabellos empoados d'azul, contemplava suavemente o Rabbi e aspirava o seu frasco de essencias-lamentando decerto aquelle mo?o, rei vencido, rei barbaro, que morria no poste dos escravos.

Cansado, fui sentar-me com Topsius n'uma pedra. Era perto da oitava hora judaica: o sol, sereno como um heroe que envelhece, descia para o mar por sobre as palmeiras de Bethania. Diante de nós o Gareb verdejava, coberto de jardins. Junto ás muralhas, no bairro novo de Bezetha, grandes panos vermelhos e azues seccavam em cordas ás portas das tinturarias; um lume vermelhejava no fundo d'uma forja; crian?as corriam, brincando sobre a borda d'uma piscina. Adiante, no alto da torre Hippica, que estendia já a sua sombra sobre o valle de Hinom, soldados de pé na amurada apontavam a setta aos abutres voando no azul. E para além, entre arvoredos, surgiam, frescos e rosados pela tarde, os eirados do palacio de Herodes.

Triste, com o espirito disperso, eu pensava no Egypto, nas nossas tendas, na vela que lá me esquecera ardendo, fumarenta e vermelha-quando avistei, subindo a collina devagar, apoiado ao hombro da crian?a que o conduzia, o velho que já cruzáramos na estrada de Joppé, com uma lyra presa á cintura. Os seus passos arrastavam-se mais incertos, na fadiga d'uma jornada penosa; uma tristeza abatia-lhe sobre o peito a clara barba ondeante; e debaixo do manto c?r de vinho, que lhe cobria a cabe?a, as folhas da cor?a de louro pendiam raras e murchas.

Topsius gritou-lhe: ?Eh, Rapsodo!? E quando elle, tenteando as urzes do caminho, se acercou-o douto Historiador perguntou-lhe se das d?ces Ilhas do mar trazia algum canto novo. O velho ergueu a face entristecida; e muito nobremente murmurou que uma mocidade imperecivel sorri nos mais antigos cantos da Hellenia. Depois, tendo assentado a sandalia sobre uma pedra, tomou a lyra entre as m?os vagarosas; a crian?a, direita, com as pestanas baixas, p?z á b?ca uma flauta de cana; e, no resplandor da tarde que envolvia e dourava Si?o, o Rapsodo soltou um canto já tremulo, mas glorioso e repassado de adora??o, como ante a ara d'um templo, n'uma praia da Ionia… E eu percebi que elle cantava os Deuses, a sua belleza, a sua actividade heroica. Dizia o Delphico, imberbe e c?r d'ouro, afinando os pensamentos humanos pelo rythmo da sua cythara; Atheneia, armada e industriosa, guiando as m?os dos homens sobre os teares; Zeus, ancestral e sereno, dando a belleza ás ra?as, a ordem ás cidades; e acima de todos, sem fórma e esparso, o Fado, mais forte que todos!

Mas subitamente um grito varou o céo no alto da collina, supremo e arrebatado como o de uma liberta??o! Os dedos frouxos do velho emmudeceram entre as cordas de metal: com a cabe?a descabida, a cor?a do louro épico meio desfolhada, parecia chorar sobre a lyra hellenica, d'ora em diante e para longas idades silenciosa e inutil. E ao lado a crian?a, tirando a flauta dos labios, erguia para as cruzes negras os olhos claros-onde subia a curiosidade e a paix?o d'um mundo novo.

Topsius pediu ao velho a sua historia. Elle contou-a, com amargura. Viera de Samnos a Cesarêa, e tocava o konnor junto ao Templo d'Hercules. Mas a gente abandonava o puro culto dos heroes; e só havia festas e offrendas para a Boa Deusa da Syria! Acompanhára depois uns mercadores a Tiberiade: os homens ahi n?o respeitavam a velhice, e tinham cora??es interesseiros como escravos. Seguira ent?o pelas longas estradas, parando nos postos romanos onde os soldados o escutavam; nas aldeias de Samaria batia ás portas dos lagares; e para ganhar o p?o duro tocára a cythara grega nos funeraes dos barbaros. Agora errava alli, n'essa cidade onde havia um grande Templo, e um Deus feroz e sem fórma que detestava as gentes. E o seu desejo era voltar a Mileto, sua patria, sentir o fino murmurio das aguas do Meandro, poder palpar os marmores santos do templo de Phebo Dydimeo-onde elle em crian?a levára n'um cesto e cantando os primeiros anneis dos seus cabellos…

As lagrimas rolavam pela sua face, tristes como a chuva por um muro em ruinas. E a minha piedade foi grande por aquelle Rapsodo das ilhas da Grecia, perdido tambem na dura cidade dos judeus, envolto pela influencia sinistra d'um Deus alheio! Dei-lhe a minha derradeira moeda de prata. Elle desceu a collina, apoiado ao hombro da crian?a, lento e curvado, com a orla esfarrapada do manto trapejando nas pernas núas, e muda e mal segura do cinto a lyra heroica de cinco cordas.

No emtanto, em torno ás cruzes, no alto, crescera um rumor de revolta. E f?mos encontrar a gente do Templo, com as m?os no ar, mostrando o sol que descia como um escudo d'ouro para o lado do mar de Tyro, intimando o Centuri?o a que baixasse os condemnados da cruz antes de soar a hora santa da Paschoa! Os mais devotos reclamavam que se applicasse aos crucificados, se ainda viviam, o crurifragio romano, quebrando-lhes os ossos com barras de ferro, arrojando-os ao despenhadeiro de Hinom. E a indifferen?a do Centuri?o exasperava o zelo piedoso. Ousaria elle macular o Sabbath, deixando um corpo morto no ar? Alguns enrolavam a ponta do manto para correr, e ir a Acra avisar o Pretor.

-O sol declina! O sol vai deixar o Hebron! gritou de cima d'uma pedra um levita, aterrado.

-Acabai-os, acabai-os!

E ao nosso lado, um formoso mo?o exclamava, requebrando os olhos languidos, movendo os bra?os cheios de manilhas d'ouro:

-Atirai o Rabbi aos corvos! Dai ás aves de rapina a sua Paschoa!

O Centuri?o, que espreitava o alto da torre Marianna onde os escudos suspensos luziam batidos pelo sol derradeiro-acenou devagar com a espada. Dois Legionarios, lan?ando pesadamente ao hombro as barras de ferro, marcharam com elle para as cruzes. Eu, arripiado, agarrei o bra?o de Topsius. Mas diante do madeiro de Jesus o Centuri?o parou, erguendo a m?o…

O corpo branco e forte do Rabbi tinha a serenidade d'um adormecimento: os pés empoeirados, que ha pouco a d?r torcia dentro das cordas, pendiam agora direitos para o ch?o como se o fossem em breve pisar: e a face n?o se via, tombada para traz mollemente por sobre um dos bra?os da cruz, toda voltada para o céo onde elle puzera o seu desejo e o seu reino… Eu olhei tambem o céo: rebrilhava, sem uma sombra, sem uma nuvem, liso, claro, mudo, muito alto, e cheio de impassibilidade…

-Quem reclamou o corpo d'este homem? gritou, procurando para os lados, o Centuri?o.

-Eu, que o amei em vida! acudiu Joseph de Ramatha, estendendo por cima da corda o seu pergaminho.

O escravo que esperava junto d'elle depoz logo no ch?o a trouxa de linho e correu para as ruinas do casebre onde as mulheres choravam entre as amendoeiras.

E por traz de nós, Phariseus e Sadduceus que se tinham juntado estranhavam com azedume que José de Ramatha, um membro do Sanhedrin, assim solicitasse o corpo do Rabbi para o perfumar e lhe fazer soar em torno as flautas e os prantos d'um funeral… Um d'elles, corcovado, com esfiadas melenas luzidias d'oleo, affirmava que sempre conhecera José de Ramatha inclinado para todos os innovadores, todos os sediciosos… Mais d'uma vez o vira fallar com esse Rabbi junto ao campo dos Tintureiros… E com elles estava Nicodemus, homem rico que tem gados, que tem vinhas, e todas as casas que est?o d'ambos os lados da Synagoga de Cyrenaica…

Outro, rubicundo e molle, gemeu:

-Que será da na??o, se os mais considerados se juntam aos que adulam o pobre, e lhe ensinam que os fructos da terra devem ser igualmente para todos!…

-Ra?a de Messias! bradou o mais mo?o com furor, atirando o bast?o contra as urzes. Ra?a de Messias, perdi??o d'Israel!

Mas o Sadduceu de melenas oleosas ergueu devagar a m?o, ligada em tiras sagradas:

-Socegai: Jehovah é grande: e tudo em verdade determina para melhor… No Templo e no Conselho n?o faltar?o jámais homens fortes que mantenham a velha Ordem; e em cima dos calvarios, felizmente, h?o de sempre erguer-se as cruzes!…

E todos susurraram:

-Amen!

No emtanto o Centuri?o, com os soldados atraz levando ao hombro as barras de ferro, marchava para os outros madeiros onde os condemnados, vivos e cheios d'agonia pediam agua-um pendido e gemendo, outro torcido, com as m?os rasgadas, rugindo terrivelmente. Topsius, que sorria friamente, murmurou: ?é tempo, vamos.?

Com os olhos alagados d'agua amarga, trope?ando nas pedras, desci ao lado do fecundo critico a collina de Immola??o. E sentia uma densa melancolia entenebrecer a minha alma pensando n'essas cruzes vindouras, annunciadas pelo conservador de guedelha oleosa… Assim seria, oh dura miseria! Sim! d'ora ávante, por todos os seculos a vir, iria sempre recome?ando em torno á lenha das fogueiras, sob a frialdade das masmorras, junto ás escadas das forcas-este affrontoso escandalo de se juntarem Sacerdotes, Patricios, Magistrados, Soldados, Doutores e Mercadores para matarem ferozmente no alto d'um morro o justo que penetrado do esplendor de Deus ensine a Adora??o em Espirito, ou cheio do amor dos homens proclame o Reino da Igualdade!

Com estes pensamentos recolhi a Jerusalem-emquanto as aves, mais felizes que os homens, cantavam nos cedros do Gareb…

* * * * *

Escurecera e era a hora da Ceia Paschal, quando chegámos a casa de Gamaliel: no pateo, preso a uma argola, estava o burro, albardado de panos pretos, que trouxera o amavel physico Eliezer de Silo.

Na sala azul, de tecto de cedro, perfumada de malobrathro, o austero Doutor já nos aguardava estendido no divan de correias brancas, com os pés nús, as largas mangas arrega?adas e pregadas no hombro-e ao lado um bord?o de viagem, uma caba?a d'agua e uma trouxa, emblemas rituaes da sahida do Egypto. Defronte d'elle, n'uma mesa incrustada de madreperola, entre vasos de barro com fl?res pintadas, a?afates de filigrana de prata transbordando de fruta e peda?os scintillantes de gelo, erguia-se um candelabro em fórma de arbusto, tendo na ponta de cada galho uma pallida chamma azul: e, com os olhos perdidos no seu brilho tremulo, as m?os cruzadas no ventre, Eliezer, o benigno ?Doutor da Tripa?, sorria beatificamente encostado a almofadas de couro vermelho. Junto d'elle dois escabellos, recobertos com tapetes da Assyria, esperavam por mim e pelo sagaz Historiador.

-Sêde bem vindos, rosnou Gamaliel. Grandes s?o as maravilhas de Si?o, deveis vir esfomeados…

Bateu de leve as palmas. Os escravos, caminhando sem ruido nas sandalias de feltro, e precedidos majestosamente pelo homem obeso de tunica amarella, entraram, erguendo muito alto largos pratos de cobre que fumegavam.

A um lado tinhamos, para limpar os dedos, um b?lo de farinha branco, fino e molle como um pano de linho; do outro um prato largo, com cercadura de perolas, onde negrejava entre ramos de salsa um mont?o de cigarras fritas; no ch?o jarros com agua de rosa. Cumprimos as ablu??es: e Gamaliel, tendo purificado a bocca com um peda?o de gêlo, murmurou a ora??o ritual sobre a vasta travessa de prata, onde o cabrito assado fazia transbordar o m?lho d'a?afr?o e saumura.

Topsius, bom sabedor das maneiras orientaes, arrotou fortemente, por cortezia, demonstrando fartura e deleite: depois, com uma febra de anho entre os dedos, affirmou sorrindo aos Doutores que Jerusalem lhe parecera magnifica, formosa de claridade, e bemdita entre as cidades…

Eliezer de Silo acudiu, com os olhos cerrados de gozo, como se o acariciassem:

-Ella é uma joia melhor que o diamante, e o Senhor engastou-a no centro da Terra para que irradiasse igualmente o seu brilho em redor…

-No centro da Terra!… murmurou o Historiador, com douto espanto.

Sim! E, ensopando um peda?o de b?lo no m?lho d'a?afr?o, o profundo Physico explicou a Terra. Ella é chata e mais redonda que um disco; no meio está Jerusalem a santa, como um cora??o cheio do amor do Altissimo; em redor a Judêa, rica em balsamos e palmeiras, cerca-a de sombra e de aromas; para além ficam os pag?os, em regi?es duras onde nem o mel nem o leite abundam; depois s?o os mares tenebrosos… E por cima o céo, sonoro e solido.

-Solido!… balbuciou o meu sapiente amigo, esgazeado.

Os escravos serviam em ta?as de prata cerveja amarella da Media. Com solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para lhe avivar o sab?r, trincasse uma cigarra frita. E Rabbi Eliezer, sabio entre todos nas coisas da Natureza, revelava a Topsius a divina construc??o do céo.

Elle é feito de sete duras, maravilhosas, rutilantes camadas de crystal; por cima d'ellas constantemente rolam as grandes aguas; sobre as aguas fluctua n'um fulg?r o espirito de Jehovah… Estas laminas de crystal, furadas como um crivo, resvalam umas sobre as outras com uma musica d?ce e lenta que os prophetas mais queridos por vezes ouviam… Elle mesmo, uma noite que orava no eirado da sua casa em Silo, sentira por um raro favor do Altissimo essa harmonia, t?o penetrante e suave que as lagrimas uma a uma lhe cahiam nas m?os abertas… Ora nos mezes de Kisleu e de Tebeth os furos das laminas coincidem, e por elles cahem sobre a Terra as gotas das aguas eternas que fazem crescer as searas!

-A chuva? perguntou Topsius, com acatamento.

-A chuva! respondeu Eliezer, com serenidade.

Topsius, mordendo um sorriso, ergueu para Gamaliel os seus oculos d'ouro que faiscavam de sabia ironia: mas o piedoso filho de Simeon conservava sobre a face, emmagrecida no estudo da Lei, uma seriedade impenetravel. Ent?o o Historiador, remexendo as azeitonas, desejou saber do esclarecido Physico por que tinham os crystaes do céo essa c?r azul que enleva a alma…

Eliezer de Silo elucidou-o:

-Uma grande montanha azul, invisivel até hoje aos homens, ergue-se a occidente: ora, quando o sol a bate, a sua reverbera??o banha o crystal do céo e anila-o.

é talvez n'essa montanha que vivem as almas dos justos!…

Gamaliel tossiu brandamente e murmurou: ?Bebamos, louvando o Senhor!?.

Ergueu uma ta?a cheia de vinho de Sichem, pronunciou sobre ella uma ben??o-passou-m'a, chamando a paz sobre o meu cora??o. Eu rosnei: ?á sua, muitos e felizes!? E Topsius, recebendo a ta?a com venera??o, bebeu-?á prosperidade d'Israel, á sua for?a, ao seu saber!?

Depois os servos, precedidos pelo homem obeso de tunica amarella, que fazia resoar sobre as lages com pompa a sua vara de marfim, trouxeram a mais devota comida paschal-as hervas amargas.

Era uma travessa repleta de alface, agri?es, chicorea, macella, com vinagre e grossas pedras de sal. Gamaliel mastigava-as solemnemente, como cumprindo um rito. Ellas representavam as amarguras de Israel no captiveiro do Egypto. E Eliezer, chupando os dedos, declarou-as deliciosas, fortificadoras e repassadas de alta li??o espiritual.

Mas Topsius lembrou, fundado nos auctores gregos, que todos os legumes amollecem no homem a virilidade, lhe descoram a eloquencia, lhe enervam o heroismo: e com torrencial erudi??o citou logo Theophrasto, Eubulo, Nicandro na segunda parte do seu Diccionario, Phenias no seu Tratado das Plantas, Dephilo e Epicharmo!…

Gamaliel, seccamente, condemnou a inanidade d'essa sciencia-porque Hecateus de Mileto, só no primeiro livro da sua Descrip??o da Asia, encerra cincoenta e tres erros, quatorze blasphemias e cento e nove omiss?es… Assim dizia o leviano grego que a tamara, maravilhoso dom do Altissimo, enfraquece o intellecto!…

-Mas, exclamou Topsius com ardor, a mesma doutrina estabelece

Xenophonte no livro segundo do Anabasis! E Xenophonte…

Gamaliel rejeitou a auctoridade de Xenophonte. Ent?o Topsius, vermelho, batendo com uma colhér de ouro na borda da mesa, exaltou a eloquencia de Xenophonte, a forte nobreza do seu sentimento, a sua terna reverencia por Socrates!… E emquanto eu partia um empad?o de Commagenia, os dois facundos doutores, asperamente, romperam debatendo Socrates. Gamaliel affirmava que as vozes secretas ouvidas por Socrates, e que t?o divina e puramente o governavam, eram murmurios distantes que lhe chegavam da Judêa, repercuss?es miraculosas da voz do Senhor… Topsius pulava, encolhia os hombros, com desesperado sarcasmo. Socrates inspirado por Jehovah! Ora lérias!

No emtanto era certo (insistia Gamaliel, já livido) que os gentilicos iam emergindo da sua treva, attrahidos pela luz forte e pura que derramava Jerusalem:-porque a reverencia pelos Deuses apparecia em Eschylo profunda e cheia de terror; em Sophocles, amavel e cheia de serenidade; em Euripides, superficial e cheia de duvida… E cada um dos Tragicos dava assim, largamente, um passo para o Deus verdadeiro!

-Oh Gamaliel, filho de Simeon, murmurou Eliezer de Silo, tu, que possues a verdade, para que dás accesso no teu espirito aos pag?os?

Gamaliel respondeu:

-Para os desprezar melhor dentro em mim!

Farto de t?o classica controversia, acheguei a Eliezer um covilhete de mel do Hebron-e contei-lhe quanto me agradára o caminho do Gareb entre jardins. Elle concordou que Jerusalem, cercada de vergeis, era d?ce á vista como a fronte da noiva toucada d'anemonas. Depois estranhou que eu escolhesse, para me recrear, esses arredores de Gihon, cheios d'a?ougues, junto ao m?rro escalvado onde se erguem as cruzes. Mais suave me teria sido a fragrancia de Siloeh…

-Fui vêr Jesus, atalhei severamente. Fui vêr Jesus, crucificado esta tarde por mandado do Sanhedrin…

Eliezer, com oriental cortezia, bateu no peito demonstrando mágua. E quiz saber se pertencia ao meu sangue, ou partilhára commigo o p?o de allian?a, esse Jesus que eu f?ra assistir na sua morte d'escravo.

Eu considerei-o, assombrado:

-é o Messias!

E elle considerou-me mais assombrado ainda, com um fio de mel a escorrer-lhe na barba.

Oh raridade! Eliezer, doutor do Templo, Physico do Sanhedrin, n?o conhecia Jesus de Galilêa! Atarefado com os enfermos que pela Paschoa atulham Jerusalem (confessou elle) n?o f?ra ao Xistus, nem á loja do perfumista Cleos, nem aos eirados de Hannan, onde as novas voam mais numerosas que as pombas: por isso nada ouvira da appari??o d'um Messias…

De resto, acrescentou, n?o podia ser o Messias! Esse deveria chamar-se Manahem ?o consolador?, porque traria a consola??o a Israel. E haveria dois Messias: o primeiro, da tribu de José, seria vencido por Gog; o segundo, filho de David e cheio de for?a, venceria Magog. Antes d'elle nascer come?ariam sete annos de maravilhas: haveria mares evaporados, estrellas despregadas do céo, fomes e taes farturas que até as rochas dariam fructo: no ultimo anno correria sangue entre as na??es: emfim resoaria uma voz portentosa: e, sobre o Hebron, com uma espada de fogo, surgiria o Messias!…

Dizia estas coisas peregrinas fendendo a casca d'um figo. Depois com um suspiro:

-Ora ainda nenhuma d'essas maravilhas, meu filho, annunciou a consola??o!…

E atolou os dentes no figo.

Ent?o fui eu, Theodorico, Ibero, d'um remoto municipio romano, que contei a um Physico de Jerusalem, creado entre os marmores do Templo, a vida do Senhor! Disse as coisas d?ces e as coisas fortes: as tres claras estrellas sobre o seu ber?o; a sua palavra amansando as aguas de Galilêa; o cora??o dos simples palpitando por elle; o Reino do Céo que promettia; e a sua face augusta brilhando diante do Pretor de Roma…

-Depois os Padres, os Patricios e os Ricos crucificaram-no!

Doutor Eliezer, volvendo a remexer o a?afate de figos, murmurou pensativamente:

-Triste, triste!… Todavia, meu filho, o Sanhedrin é misericordioso. Em sete annos, desde que o sirvo, apenas tem lan?ado tres senten?as de morte… Sim, decerto o mundo necessita bem escutar uma palavra de amor e de justi?a: mas Israel tem soffrido tanto com innovadores, com prophetas!… Emfim, nunca se deveria derramar o sangue do homem… E a verdade é que estes figos de Bephtagé n?o valem os meus de Silo!

Calado, enrolei um cigarro. E n'esse instante o douto Topsius, debatendo ainda com Gamaliel o Hellenismo e as escólas Socraticas, empinado, d'oculos na ponta do bico, soltava este resumo forte:

-Socrates é a semente; Plat?o a fl?r; Aristoteles o fructo… E d'esta arvore, assim completa, se tem nutrido o espirito humano!

Mas Gamaliel subitamente ergueu-se: Doutor Eliezer tambem, arrotando com effus?o. Ambos tomaram os cajados, ambos gritaram:

-Alleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do Egypto!

Findára a ceia Paschal. O esclarecido Historiador, que limpava o suor da controversia, olhou logo vivamente o relogio e rogou a Gamaliel permiss?o de subir ao terra?o, a refrescar a sua emo??o no ar macio d'Ophel… O Doutor da Lei conduziu-nos á varanda alumiada pallidamente por lampadas de mica, mostrou-nos a ingreme escada de ebano que levava aos eirados; e chamando sobre nós a gra?a do Senhor, penetrou com Eliezer n'um aposento cerrado por cortinas de Mesopotamia-d'onde sahiu um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lyra.

Que d?ce ar no terra?o! E que alegre essa noite de Paschoa em Jerusalem! No céo, mudo e fechado como um palacio onde ha luto, nenhum astro brilhava: mas o burgo de David e a collina d'Acra, com as suas illumina??es rituaes, pareciam salpicadas d'ouro. Em cada eirado, vasos com estopa ardendo em oleo lan?avam uma chamma ondeante e vermelha. Aqui e além, n'alguma casa mais alta os fios de luzes, na parede escura, reluziam como um collar de joias no pesco?o d'uma negra. O ar estava d?cemente cortado dos gemidos de flauta, da dolente vibra??o das cordas do konnor: e em ruas alumiadas por grandes fogueiras de lenha, viamos esvoa?ar, claras e curtas, as tunicas de gregos dan?ando a callabida. Só as torres, mais vastas na noite, a Hippica, a Marianna, a Pharsala se conservavam escuras: e o mugido das suas bozinas passava por vezes, rouco e rude, como uma amea?a, sobre a santa cidade em festa.

Mas para além das muralhas recome?ava a alegria da noite paschal. Havia luzes em Siloeh. Nos acampamentos, sobre o monte das Oliveiras, ardiam fogos claros: e como as portas ficavam abertas, filas de tochas fumegavam pelos caminhos, por entre um rumor de cantares.

Só uma collina, além do Gareb, permanecera em treva. N'essa hora, por baixo d'ella, n'uma ravina entre rochas, alvejavam dois corpos despeda?ados, onde os bicos dos abutres com um ruido secco de ferros entrechocados faziam a sua ceia Paschal. Ao menos outro corpo, precioso envolucro d'um espirito perfeito, jazia resguardado n'um tumulo novo, envolto em linho fino, ungido, perfumado de canella e de nardo. Assim o tinham deixado n'essa noite, a mais santa d'Israel, aquelles que o amavam-e que desde ent?o para todo o sempre mais entranhadamente o amariam… Assim o tinham deixado com uma pedra lisa por cima: e agora entre as casas de Jerusalem, cheias de luzes e cheias de cantos-alguma havia, escura e fechada, onde corriam lagrimas sem consola??o. Ahi o lar esfriára, apagado: a lampada triste esmorecia sobre o alqueire: na bilha n?o havia agua, porque ninguem f?ra á fonte; e sentadas na esteira, com os cabellos cahidos, aquellas que o tinham seguido de Galilêa fallavam d'elle, das primeiras esperan?as, das parabolas contadas por entre os trigaes, dos tempos suaves á beira do lago…

Assim eu pensava, debru?ado sobre o muro, olhando Jerusalem-quando no terra?o surgiu, sem rumor, uma fórma envolta em linhos brancos, espalhando um aroma de canella e de nardo. Pareceu-me que d'ella irradiava um clar?o, que os seus pés n?o pisavam as lages-e o meu cora??o tremeu! Mas d'entre os pallidos panos uma ben??o sahiu, grave e familiar:

-Que a paz seja comvosco!

Ah! que allivio! Era Gad.

-Que a paz seja comtigo!

O Essenio parou diante de nós, calado; e eu sentia os seus olhos procurarem o fundo da minha alma, para lhe sondar bem a grandeza e a for?a. Por fim murmurou, immovel como uma imagem tumular nas suas grandes vestes brancas:

-A lua vai nascer… Todas as coisas esperadas se est?o cumprindo… Agora, dizei! Sentis o cora??o forte para acompanhar Jesus, e guardal-o até ao oasis d'Engaddi?

Ergui-me, atirando os bra?os ao ar, n'um terror!… Acompanhar o Rabbi! Elle n?o jazia pois morto, ligado e perfumado, sob uma pedra, n'uma horta do Qareb?… Vivia! Ao nascer da lua, entre os seus amigos, ia partir para Engaddi! Agarrei anciosamente o hombro de Topsius, amparando-me ao seu saber forte e á sua auctoridade…

O meu douto amigo parecia enleado n'uma pesada incerteza:

-Sim, talvez… O nosso cora??o é forte, mas… Além d'isso n?o temos armas!

-Vinde commigo! acudiu Gad, ardentemente. Passaremos por casa d'alguem que nos dirá as coisas que convém saber, e que vos dará armas!…

Ainda trémulo, sem me desamparar do sapiente Historiador, ousei balbuciar:

-E Jesus?… Onde está?

-Em casa de José de Ramatha, segredou o Essenio espreitando em roda como o avaro que falla d'um thesouro. Para que nada suspeitasse a gente do Templo, mesmo na presen?a d'elles depositámos o Rabbi no tumulo novo que está no horto de José. Tres vezes as mulheres choraram sobre a pedra que segundo os ritos, como sabeis, n?o fechava inteiramente o tumulo, deixando uma larga fenda por onde se via o rosto do Rabbi. Alguns serventes do Templo olharam, e disseram: ?Está bem.? Cada um recolheu á sua morada… Eu entrei pela porta de Genath, nada mais vi. Mas, apenas anoitecesse, José e outro, fiel inteiramente, deviam ir buscar o corpo de Jesus, e com as receitas que vem no livro de Salom?o fazel-o reviver do desmaio em que o deixou o vinho narcotisado e o soffrimento… Vinde pois, vós que o amaes tambem e crêdes n'elle!…

Impressionado, decidido, Topsius tra?ou a sua farta capa: e descemos, n'um cauto silencio, pela escada que do terra?o levava um caminho de pedra miuda collado á muralha nova d'Herodes.

Longo tempo marchámos na escurid?o, guiados pelas roupagens brancas do Essenio. D'entre casebres em ruinas, por vezes um c?o saltava uivando. Sobre as altas ameias passavam morti?as lanternas de ronda. Depois uma sombra que tossia ergueu-se de sob uma arvore, triste e molle como se sahisse da sua sepultura; e ro?ando o meu bra?o, puxando a capa de Topsius, rogava-nos através de gemidos e baforadas d'alho que f?ssemos dormir ao seu leito que ella perfumára de nardo.

Parámos finalmente diante d'um muro, a que uma esteira grossa d'esparto cerrava a entrada. Um corredor que ressumbrava agua levou-nos a um pateo rodeado por uma varanda, assente sobre rudes vigas de madeira: o ch?o molle como lodo abafava o rumor das nossas solas.

Gad, tres vezes espa?adas, soltou o grito dos chacaes. Nós esperavamos no meio do pateo, á borda d'um po?o, coberto com tábuas: o céo, por cima, guardava a escurid?o dura e impenetravel d'um bronze. A um canto, emfim, sob a varanda, um clar?o vivo de lampada surgiu-alumiando a barba negra do homem que a trazia e que lan?ára sobre a cabe?a a ponta d'um albornoz pardo de galileu. Mas a luz morreu sob um s?pro forte. E o homem, lentamente, na treva, caminhou para nós.

Gad cortou a desolada mudez:

-Que a paz seja comtigo, irm?o! Estamos promptos.

O homem pousou devagar a lampada sobre a tampa do po?o, e disse:

-Tudo está consummado.

Gad, estremecendo, gritou:

-O Rabbi?

O homem atirou a m?o para abafar o grito do Essenio. Depois, tendo sondado a sombra em redor com olhos inquietos que reluziam como os d'um animal do deserto:

-S?o coisas mais altas do que podemos entender. Tudo parecia certo. O vinho narcotisado f?ra bem preparado pela mulher de Rosmophim, que é habil e conhece os simples… Eu tinha fallado ao Centuri?o, um camarada a quem salvei a vida na Germania, na campanha de Publius. E, quando rolámos a pedra sobre o tumulo de José de Ramatha, o corpo do Rabbi estava quente!

Mas calou-se: e, como se o pateo fechado sob o céo negro n?o fosse bastante secreto e seguro, tocou no hombro de Gad, e sem um rumor dos pés nús recolheu á escurid?o mais densa sob a varanda, até ás pedras do muro. Nós, rente a elle e mudos, tremiamos de anciedade:-e eu senti que uma revela??o ia passar, suprema e prodigiosa, alumiando os Mysterios.

-Ao anoitecer, segredou o homem por fim com um murmurio triste d'agua correndo na sombra, voltámos ao tumulo. Olhámos pela fenda: a face do Rabbi estava serena e cheia de magestade. Levantámos a pedra, tirámos o corpo. Parecia adormecido, t?o bello, como divino, nos panos que o envolviam… José tinha uma lanterna: e levámol-o pelo Gareb, correndo através do arvoredo. Ao pé da fonte encontrámos uma ronda da Cohorte auxiliar. Dissemos: ?é um homem de Joppé que adoeceu, e que nós levamos á sua synagoga.? A ronda disse: ?passai?. Em casa de José estava Simeon o Essenio, que viveu em Alexandria e sabe a natureza das plantas: e tudo f?ra preparado, até a raiz do baraz… Estendemos Jesus na esteira. Démos-lhe a beber os cordiaes, chamámol-o, esperámos, orámos… Mas ai! sentiamos, sob as nossas m?os, arrefecer-lhe o corpo!… Um instante abriu lentamente os olhos, uma palavra sahiu-lhe dos labios. Era vaga, n?o a comprehendemos… Parecia que invocava seu pai, e que se queixava de um abandono… Depois estremeceu: um pouco de sangue appareceu-lhe ao canto da bocca… E, com a cabe?a sobre o peito de Nicodemus, o Rabbi ficou morto!

Gad cahiu pesadamente de joelhos, solu?ando: e o homem, como se todas as coisas tivessem sido ditas, deu um passo para buscar a sua lampada ao po?o. Topsius deteve-o, com avidez:

-Escuta! Preciso toda a verdade. Que fizestes depois?

O homem parou junto a um dos pilares de madeira. Depois, alargando os bra?os na escurid?o, e t?o perto das nossas faces que eu sentia o seu bafo quente:

-Era necessario, para bem da terra, que se cumprissem as prophecias! Durante duas horas José de Ramatha orou, prostrado. N?o sei se o Senhor lhe fallou em segredo; mas, quando se ergueu, resplandecia todo e gritou: ?Elias veio! Elias veio! Os tempos chegaram!? Depois, por sua ordem, enterrámos o Rabbi n'uma caverna que elle tem, talhada na rocha, por traz do moinho…

Atravessou o pateo, tomou a sua lampada. E recolhia lentamente, sem um rumor, quando Gad, erguendo a face, o chamou através dos seus solu?os:

-Escuta ainda! Grande é o Senhor, na verdade!… E o outro tumulo, onde as mulheres de Galilêa o deixaram, ligado e envolto em panos, com aloes e com nardo?

O homem, sem parar, murmurou, já sumido na treva:

-Lá ficou aberto, lá ficou vazio!…

Ent?o Topsius arrastou-me pelo bra?o t?o arrebatadamente que trope?avamos no escuro contra os pilares da varanda. Uma porta ao fundo abriu-se, com um brusco estrondo de ferros cahidos… E vi uma pra?a, rodeada de pallidos arcos, triste e fria, com herva entre as fendas das lages dessoldadas, como n'uma cidade abandonada. Topsius estacou, os seus oculos faiscavam:

-Theodorico, a noite termina, vamos partir de Jerusalem!… A nossa jornada ao Passado acabou… A lenda inicial do christianismo está feita, vai findar o mundo antigo!

Eu considerei, assombrado e arripiado, o douto Historiador. Os seus cabellos ondeavam agitados por um vento de inspira??o. E o que levemente sahia dos seus finos labios retumbava, terrivel e enorme, cahindo sobre o meu cora??o:

-Depois d'ámanh?, quando acabar o Sabbath, as mulheres de Galilêa voltar?o ao sepulchro de José de Ramatha onde deixaram Jesus sepultado… E encontram-no aberto, encontram-no vazio!… ?Desappareceu, n?o está aqui!…? Ent?o Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar por Jerusalém-?resuscitou, resuscitou!? E assim o amor d'uma mulher muda a face do mundo, e dá uma religi?o mais á humanidade!

E, atirando os bra?os ao ar, correu através da pra?a-onde os pilares de marmore come?avam a tombar, sem ruido e mollemente. Arquejando, parámos no port?o de Gamaliel. Um escravo, tendo ainda nos pulsos peda?os de cadêas partidas, segurava os nossos cavallos. Montámos. Com um fragor de pedras levadas n'uma torrente, varámos a Porta d'Ouro: e galopámos para Jerichó, pela estrada romana de Sichem, t?o vertiginosamente que n?o sentiamos as ferraduras ferir as lages negras de basalto. Adiante, a capa branca de Topsius torcia-se a?outada por uma rajada furiosa. Os montes corriam aos lados, como fardos sobre dorsos de camêlos na debandada d'um povo. As ventas da minha egoa dardejavam jactos de fumo avermelhado:-e eu agarrava-me ás clinas, tonto, como se rolasse entre nuvens…

De repente avistámos, alargada, cavada até ás serras de Moab, a planicie de Canaan. O nosso acampamento alvejava junto ás bragas dormentes da fogueira. Os cavallos estacaram, tremendo. Corremos ás tendas: sobre a mesa, a vela que Topsius accendera para se vestir, havia mil e oitocentos annos, morria n'um fogacho livido… E derreado da infinita jornada atirei-me para o catre, sem mesmo descal?ar as botas brancas de pó…

Immediatamente me pareceu que uma tocha fumegante penetrára na tenda, esparzindo um brilho d'ouro… Ergui-me, assustado. N'um largo raio de sol, vindo dos montes de Moab, o jocundo Potte entrava, em mangas de camisa, com as minhas botas na m?o!

Arrojei a manta, arredei os cabellos, para verificar melhor a mudan?a terrivel que desde a vespera se fizera no Universo! Sobre a mesa jaziam as garrafas do champagne com que brindaramos á Sciencia e á Religi?o. O embrulho da Cor?a d'Espinhos pousava á minha cabeceira. Topsius, no seu catre, em camisola e com um len?o amarrado na testa, bocejava, pondo os oculos de ouro no bico. E o risonho Potte, censurando a nossa pregui?a, queria saber se appeteciamos n'essa manh?-?tapioca ou café?.

Deixei sahir deliciosamente do peito um ruidoso, consolado suspiro. E no jubilo triumphal de me sentir reentrado na minha individualidade e no meu seculo pulei sobre o colx?o, com a fralda ao vento, bradei:

-Tapioca, meu Potte! Uma tapioca bem docinha e mollesinha, que saiba bem ao meu Portugal!…

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