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   Chapter 2 No.2

A Relíquia By E?a de Queirós Characters: 101253

Updated: 2017-12-06 00:02


Foi n'um domingo e dia de S. Jeronymo que meus pés latinos pisaram emfim, no caes de Alexandria, a terra do Oriente, sensual e religiosa. Agradeci ao Senhor da Boa Viagem. E o meu companheiro, o illustre Topsius, Doutor allem?o pela Universidade de Bonn, socio do Instituto imperial de Excava??es historicas, murmurou, grave como n'uma invoca??o, desdobrando o seu vastissimo guardasol verde:

-Egypto! Egypto! Eu te saúdo, negro Egypto! E que me seja em ti propicio o teu Deus Phtah, Deus das Letras, Deus da Historia, inspirador da obra de Arte e da obra de Verdade!…

Através d'este zumbido scientifico eu sentia-me envolvido n'um bafo morno como o d'uma estufa, amollecedormente tocado d'aromas de sandalo e rosa. No caes faiscante, entre fardos de l?, estirava-se, banal e sujo, o barrac?o da Alfandega. Mas além as pombas brancas voavam em torno aos minaretes brancos; o ceu deslumbrava. Cercado de severas palmeiras, um languido palacio dormia á beira d'agua; e ao longe perdiam-se os areaes da antiga Lybia, esbatidos n'uma poeirada quente, livre, e da c?r d'um le?o.

Amei logo esta terra de indolencia, de sonho e de luz. E saltando para a caleche forrada de chita, que nos ia levar ao Hotel das Pyramides, invoquei as Divindades, como o illustrado Doutor de Bonn:

-Egypto, Egypto! Eu te saúdo, negro Egypto! E que me seja propicio…

-N?o! que vos seja propicia, D. Raposo, Isis, a vacca amorosa! acudiu o eruditissimo homem, risonho, e abra?ado á minha chapeleira.

N?o comprehendi, mas venerei. Eu conhecêra Topsius em Malta, uma fresca manh?, estando a comprar violetas a uma ramalheteira que tinha já nos olhos grandes um langor musulmano: elle andava medindo consideradamente com o seu guardasol as paredes marciaes e monasticas do palacio do Gr?o-Mestre.

Persuadido que era um dever espiritual e doutoral, n'estas terras do Levante, cheias de historia, medir os monumentos da antiguidade, tirei o meu len?o e fui-o gravemente passeando, esticado como um covado, sobre as austeras cantarias. Topsius dardejou-me logo, por cima dos oculos d'ouro, um olhar desconfiado e ciumento. Mas tranquillisado, de certo, pela minha face jucunda e material, pelas minhas luvas almiscaradas, pelo meu futil raminho de violetas-ergueu cortezmente de sobre o longo cabello, corredio e c?r de milho, o seu bonésinho de sêda preta. Eu saudei com o meu capacete de corti?a; e communicamos. Disse-lhe o meu nome, a minha patria, os santos motivos que me levavam a Jerusalem. Elle contou-me que nascêra na gloriosa Allemanha; e ia tambem á Judêa, depois á Galilêa, n'uma peregrina??o scientifica, colhêr notas para a sua formidavel obra, a Historia dos Herodes. Mas demorava-se em Alexandria a amontoar os pesados materiaes de outro livro monumental, a Historia dos Lagidas… Porque estas duas turbulentas familias, os Herodes e os Lagidas, eram propriedade historica do doutissimo Topsius.

-Ent?o, ambos com o mesmo roteiro, podiamos acamaradar, Doutor Topsius!

Elle espigado, magrissimo e pernudo, com uma rabona curta de lustrina enchuma?ada de manuscriptos, cortejou gostosamente:

-Pois acamarademos, D. Raposo! Será uma deleitosa economia!

Encovado na gola, de guedelha cahida, o nariz agudo e pensativo, a cal?a esguia,-o meu erudito amigo parecia-me uma cegonha, risivel e cheia de letras, com oculos d'ouro na ponta do bico. Mas já a minha animalidade reverenciava a sua intellectualidade: e f?mos beber cerveja.

A sabedoria n'este mo?o era dom hereditario. Seu av? materno, o naturalista Shlock, escreveu um famoso tratado em oito volumes sobre a Express?o physionomica dos Lagartos, que assombrou a Allemanha. E seu tio, o decrepito Topsius, o memoravel egyptologo, aos setenta e sete annos dictou da poltrona, onde o prendia a gota, esse livro genial e facil-a Synthese monotheista da Theogonia egypcia, considerada nas rela??es do Deus Phtah e do Deus Imhotep com as Triadas dos Nómos.

O pai de Topsius, desgra?adamente, através d'esta alta sciencia domestica, permanecia figle n'um a charanga, em Munich: mas o meu camarada, reatando a tradi??o, logo aos vinte e dois annos tinha esclarecido, radiantemente, em dezenove artigos publicados no Boletim hebdomadario de Excava??es historicas, a quest?o, vital para a Civilisa??o, d'uma parede de tijolo erguida pelo rei Pi-Sibkmé, da vigesima primeira dynastia, em torno do templo de Ramèses II, na lendaria cidade de Tanis. Em toda a Allemanha scientifica, hoje, a opini?o de Topsius ácerca d'esta parede brilha com a irrefutabilidade do sol.

Só conservo de Topsius recorda??es suaves ou elevadas. Já sobre as aguas bravias do mar de Tyro; já nas ruas fuscas de Jerusalem; já dormindo lado a lado, sob a tenda, junto aos destro?os de Jerichó; já pelas estradas verdes de Galilêa-encontrei-o sempre instructivo, servi?al, paciente e discreto. Raramente comprehendia as suas senten?as, sonoras e bem cunhadas, tendo a preciosidade de medalhas d'ouro; mas, como diante da porta impenetravel d'um santuario, eu reverenciava, por saber que lá dentro, na sombra, refulgia a essencia pura da Idéa. Por vezes tambem o Doutor Topsius rosnava uma praga immunda; e ent?o uma grata communh?o se estabelecia entre elle e o meu singelo intellecto de bacharel em leis. Ficou-me a dever seis moedas;-mas esta diminuta migalha de pecunia desapparece na copiosa onda de saber historico com que fecundou o meu espirito. Uma coisa apenas, além do seu pigarro d'erudito, me desagradava n'elle-o habito de se servir da minha escova de dentes.

Era tambem intoleravelmente vaidoso da sua patria. Sem cessar, erguendo o bico, sublimava a Allemanha, m?i espiritual dos povos; depois amea?ava-me com a irresistibilidade das suas armas. A omnisciencia da Allemanha! A omnipotencia da Allemanha! Ella imperava, vasto acampamento entrincheirado d'in-folios, onde ronda e falla d'alto a Metaphysica armada! Eu, brioso, n?o gostava d'estas jactancias. Assim, quando no Hotel das Pyramides nos apresentaram um livro para n'elle registarmos nossos nomes e nossas terras, o meu douto amigo tra?ou o seu ?Topsius?, ajuntando por baixo, altivamente, em letras tesas e disciplinadas como galuchos:-?Da Imperial Allemanha.? Arrebatei a penna; e recordando o barbudo Jo?o de Castro, Ormuz em chammas, Adamastor, a capella de S. Roque, o Tejo e outras glorias, escrevi largamente em curvas mais enfunadas que velas de gale?es:-?Raposo, Portuguez, d'áquem e d'álém-mar.? E logo, do canto, um mo?o magro e murcho, murmurou, suspirando e a desfallecer:

-Em o cavalheiro necessitando alguma coisa, chame pelo Alpedrinha.

Um patricio! Elle contou-me a sua sombria historia, desafivelando a minha maleta. Era de Trancoso e desgra?ado. Tivera estudos, compuzera um negrologio, sabia ainda mesmo de cór os versos mais doloridos ?do nosso Soares de Passos.? Mas apenas sua mam?sinha morrêra, tendo herdado terras, correra á fatal Lisboa, a gozar; conheceu logo na travessa da Concei??o uma hespanhola deleitosissima, do adocicado nome de Dulce; e largou com ella para Madrid, n'um idyllio. Ahi o jogo empobreceu-o, a Dulce trahiu-o, um chulo esfaqueou-o. Curado e macilento passou a Marselha; e durante annos arrastou como um frangalho social, através de miserias inenarraveis. Foi sacrist?o em Roma. Foi barbeiro em Athenas. Na Morêa, habitando uma cho?a junto a um pantano, empregára-se na pavorosa pesca das sanguesugas; e de turbante, com ?dres negros ao hombro, apregoou agua pelas viellas de Smyrna. O fecundo Egypto attrahira-o sempre, irresistivelmente… E alli estava no Hotel das Pyramides, mo?o de bagagens e triste.

-E se o cavalheiro trouxesse por ahi algum jornal da nossa Lisboa, eu gostava de saber como vai a Politica.

Concedi-lhe generosamente todos os Jornaes de Noticias que embrulhavam os meus botins.

O dono do hotel era um grego de Lacedemonia, de bigodes ferozes, e que hablaba un poquitito el castellano. Respeitosamente elle proprio, têso na sua sobrecasaca preta ornada d'uma condecora??o, nos conduziu á sala do almo?o-la más preciosa, sin duda, de todo el Oriente, caballeros!

Sobre a mesa murchava um ramo grosso de fl?res escarlates: no frasco do azeite fluctuavam familiarmente cadaveres de moscas; as chinelas do criado topavam a cada instante um velho Jornal dos Debates, manchado de vinho, rojando alli desde a vespera, pisado por outras chinelas indolentes: e no tecto, a fumara?a fetida dos candieiros de lat?o juntára nuvens pretas ás nuvens c?r de rosa onde esvoa?avam anjos e andorinhas. Por baixo da varanda uma rebeca e uma harpa tocavam a Mandolinata. E emquanto Topsius se alagava de cerveja, eu sentia estranhamente crescer o meu amor por esta terra de pregui?a e de luz.

Depois do café, o meu sapientissimo amigo, com o lapis dos apontamentos na algibeira da rabona, abalou a rebuscar antigualhas e pedras do tempo dos Ptolomeus. Eu, accendendo um charuto, reclamei Alpedrinha; e confiei-lhe que desejava, sem tardan?a, ir rezar e ir amar. Rezar era por inten??o da tia Patrocinio, que me recommendára uma jaculatoria a S. José, apenas pisasse esse sólo do Egypto, tornado, desde a fuga da Santa Familia em cima do seu burrinho, ch?o devoto como o d'uma Sé. Amar era por necessidade do meu cora??o, ancioso e ardido. Alpedrinha, em silencio, ergueu as persianas, e mostrou-me uma clara pra?a, ornamentada ao centro por um heroe de bronze, cavalgando um corcel de bronze: uma aragem quente levantava poeiradas lentas por sobre dois tanques seccos; e em redor perfilavam-se no azul altos predios, hasteando cada um a bandeira da sua patria como cidadellas rivaes sobre um sólo vencido. Depois o triste Alpedrinha indicou-me, a uma esquina, onde uma velha vendia canas d'assucar, a tranquilla rua das Duas Irm?s. Ahi (murmurou elle) eu veria, pendurada sobre a porta d'uma lojinha discreta, uma pesada m?o de pau, tosca e r?xa-e por cima, em taboleta negra, estes dizeres convidativos a ouro: ?Miss Mary, Luvas e Flores de Cera.? Era esse o refugio que elle aconselhava ao meu cora??o. Ao fundo da rua, junto d'uma fonte chorando entre arvores, havia uma capella nova onde a minha alma acharia consola??o e frescura.

-E diga o cavalheiro a miss Mary que vai de mandado do Hotel das

Pyramides.

Puz uma rosa ao peito-e sahi, ovante. Logo da entrada das Duas Irm?s avistei a ermidinha virginal, dormindo castamente sob os platanos, ao rumor meigo da agua. Mas o amantissimo patriarcha S. José estava certamente, a essa hora, occupado em receber jaculatorias mais instantes, e evoladas de labios mais nobres: n?o quiz importunar o bondosissimo santo;-e parei diante da m?o de pau, pintada de r?xo, que parecia estar alli esperando, alongada e aberta, para empolgar o meu cora??o.

Entrei, commovido. Por traz do balc?o envernizado, junto a um vaso de rosas e magnolias, ella estava lendo o seu Times, com um gato branco no collo. O que me prendeu logo foram os seus olhos azues-claros, d'um azul que só ha nas porcelanas, simples, celestes, como eu nunca vira na morena Lisboa. Mas encanto maior ainda tinham os seus cabellos, crespos, frisadinhos como uma carapinha d'ouro, t?o d?ces e finos que appetecia ficar eternamente e devotamente a mexer-lhes com os dedos tremulos; e era irresistivel o profano nimbo luminoso que elles punham em torno da sua face gordinha, d'uma brancura de leite onde se desfez carmezim, toda tenra e succulenta. Sorrindo, e baixando com sentimento as pestanas escuras, perguntou-me se eu queria pellica ou Suecia.

Eu murmurei, ro?ando-me s?fregamente pelo balc?o:

-Trago-lhe recadinhos do Alpedrinha.

Ella escolheu entre o ramo um timido bot?o de rosa, e deu-m'o na ponta dos dedos. Eu trinquei-o, com furor. E a voracidade d'esta caricia pareceu agradar-lhe, porque um sangue mais quente veio afoguear-lhe a face-e chamou-me baixo ?mausinho!? Esqueci S. José e a sua jaculatoria-e as nossas m?os, um momento unidas para ella me cal?ar a luva clara, n?o se desenla?aram mais, n'essas semanas que passei, na cidade dos Lagidas, em festivas delicias musulmanas!

Ella era d'York, esse heroico condado da velha Inglaterra, onde as mulheres crescem fortes e bem desabrochadas, como as rosas dos seus jardins reaes. Por causa da sua meiguice e do seu riso d'ouro quando lhe fazia cocegas, eu puzera-lhe o nome galante e cacarejante de Maricoquinhas. Topsius, que a apreciava, chamava-lhe ?a nossa symbolica Cleopatra.? Ella amava a minha barba negra e potente: e, só para n?o me afastar do calor das suas saias, eu renunciei a vêr o Cairo, o Nilo, e a eterna Esphinge, deitada á porta do deserto, sorrindo da Humanidade v?…

Vestido de branco como um lirio, eu gozava manh?s ineffaveis, encostado ao balc?o da Mary, amaciando respeitosamente a espinha do gato. Ella era silenciosa: mas o seu simples sorrir com os bra?os cruzados, ou o seu modo gentil de dobrar o Times, saturava o meu cora??o de luminosa alegria. Nem precisava chamar-me ?seu portuguezinho valente, seu bibichinho.? Bastava que o seu peito arfasse:-só para vêr aquella d?ce onda languida, e saber que a levantava assim a saudade dos meus beijos, eu teria vindo de t?o longe a Alexandria, iria mais longe, a pé, sem repouso, até onde as aguas do Nilo s?o brancas!

De tarde, na caleche de chita com o nosso doutissimo Topsius, davamos lentos, amorosos passeios á beira do canal Mamoudieh. Sob as frondosas arvores, rente aos muros de jardins de serralho, eu sentia o aroma perturbador de magnolias, e outros calidos perfumes que n?o conhecia. Por vezes uma leve fl?r r?xa ou branca cahia-me sobre o rega?o: com um suspiro eu ro?ava a barba pelo rosto macio da minha Maricoquinhas; ella, sensivel, estremecia. Na agua jaziam as barcas pesadas que sobem o Nilo, sagrado e bemfazejo, ancorando junto ás ruinas dos templos, costeando as ilhas verdes onde dormem os crocodilos. Pouco a pouco a tarde cahia. Vagarosamente rolavamos na sombra olorosa. Topsius murmurava versos de Goethe. E as palmeiras da margem fronteira recortavam-se no poente amarello-como feitas em relevo de bronze sobre uma lamina d'ouro.

Maricocas jantava sempre comnosco no Hotel das Pyramides; e diante d'ella Topsius desabrochava todo em fl?res d'erudi??o amavel. Contava-nos as tardes de festa da velha Alexandria dos Ptolomeus, no canal que levava a Canopia: ambas as margens resplandeciam de palacios e de jardins; as barcas, com toldos de sêda, vogavam ao som dos alaúdes; os sacerdotes d'Osiris, cobertos de pelles de leopardo, dan?avam sob os laranjaes; e nos terra?os abrindo os véos, as damas d'Alexandria bebiam á Venus Assyria, pelo calice da fl?r do lotus. Uma voluptuosidade esparsa amollecia as almas. Os philosophos mesmo eram frascarios.

-E, dizia Topsius requebrando o olho, em toda a Alexandria só havia uma dama honesta que commentava Homero e era tia de Seneca. Só uma!

Maricoquinhas suspirava. Que encanto, viver n'essa Alexandria, e navegar para Canopia, n'uma barca toldada de sêda!

-Sem mim? gritava eu, ciumento.

Ella jurava que sem o seu portuguezinho valente n?o queria habitar nem o céo!

Eu, regalado, pagava o champagne.

E os dias assim foram passando, leves, flaccidos, gostosos, repicados de beijos-até que chegou a vespera sombria de partirmos para Jerusalem.

-O cavalheiro, dizia-me n'essa manh? Alpedrinha engraxando os meus botins, o que devia era ficar aqui na Alexandriasinha, a refocilar…

Ah! se pudesse! Mas irrecusaveis eram os mandados da titi! E, por amor do seu ouro, lá tinha d'ir á negra Jerusalem, ajoelhar diante de oliveiras seccas, desfiar rosarios piedosos ao pé de frios sepulchros…

-Tu já estiveste em Jerusalem, Alpedrinha? perguntei, enfiando desconsoladamente as ceroulas.

-N?o senhor, mas sei… Peor que Braga!

-Irra!

A nossa cêa com Maricocas, á noite, no meu quarto, foi cortada de silencios, de suspiros: as velas tinham a melancolia de tochas: o vinho anuviava-nos como aquelle que se bebe nos funeraes. Topsius offertava consola??es generosas.

-Bella dama, bella dama, o nosso Raposo ha de voltar… Estou mesmo certo que trará da ardente terra da Syria, da terra da Venus e da Esposa dos Cantares, uma chamma no seu cora??o mais fogosa e mais mo?a…

Eu mordia o bei?o, suffocado:

-Pois está visto! Ainda havemos d'andar de caleche pelo Mamoudieh…

Isto é só ir rezar uns padre-nossos ao Calvario… Até me faz bem…

Volto como um touro.

Depois do café fomos encostar-nos á varanda a olhar, calados, aquella sumptuosa noite do Egypto. As estrellas eram como uma grossa poeirada de luz que o bom Deus levantava lá em cima, passeando sósinho pelas estradas do céo. O silencio tinha uma solemnidade de sacrario. Nos escuros terra?os, em baixo, uma fórma branca movendo-se por vezes, de leve, mostrava que outras creaturas estavam alli, como nós, deixando a alma embeber-se mudamente no esplendor sideral: e n'esta diffusa religiosidade, igual á d'uma multid?o pasmando para os lumes d'um altar-mór, eu sentia subir aos labios irresistivelmente a do?ura d'uma Ave-Maria…

Ao longe o mar dormia. E, á quente irradia??o dos astros, eu podia distinguir, n'um pontal de arêa, mergulhando quasi n'agua, uma casa deserta, pequenina, toda branca e poetica entre duas palmeiras… Ent?o comecei a pensar que, mal a titi morresse e fosse meu o seu ouro, eu poderia comprar esse d?ce retiro, forral-o de lindas sêdas, e viver ao lado da minha luveira, vestido de turco, fresco, sereno, livre de todas as inquieta??es da civilisa??o. Desaggravos ao Sagrado Cora??o de Jesus ser-me-hiam t?o indifferentes como as guerras que entre si travassem os Reis. Do céo só me importaria a luz anilada que banhasse a minha vidra?a; da terra só me importariam as fl?res abertas no meu jardim para aromatisar a minha alegria. E passaria os dias n'uma f?fa pregui?a oriental, fumando o puro Latakié, tocando viola franceza, e recebendo perpetuamente essa impress?o de felicidade perfeita que a Mary me dava só com deixar arfar o seio e chamar-me ?seu portuguezinho valente.?

Apertei-a contra mim n'um desejo de a sorver. Junto á sua orelha, d'uma brancura de concha branca, balbuciei nomes ineffaveis: disse-lhe rechonchudinha, disse-lhe riquiquitinha. Ella estremeceu, ergueu os olhos magoados para a poeirada d'ouro.

-Que d'estrellas! Deus queira que ámanh? o mar esteja manso!

Ent?o, á idéa d'essas longas ondas que me iam levar á rispida terra do Evangelho, t?o longe da minha Mary, um pezar infinito afogou-me o peito-e irrepressivelmente se me escapou dos labios, em gemidos entoados, queixosos e requebrados… Cantei. Por sobre os terra?os adormecidos da musulmana Alexandria soltei a voz dolorida, voltado para as estrellas; e ro?ando os dedos pelo peito do jaquet?o onde deviam estar os bord?es da viola, fazendo os meus ais bem chorosos-suspirei o fado mais sentido da saudade portugueza:

Co'a minh'alma aqui te ficas,

Eu parto só com os meus ais,

E tudo me diz, Maricas,

Que n?o te verei nunca mais.

Parei, abafado de paix?o. O erudito Topsius quiz saber se estes d?ces versos eram de Luiz de Cam?es. Eu, choramigando, disse-lhe que estes-ouvira-os no Dáfundo ao Calcinhas.

Topsius recolheu a tomar uma nota do grande poeta Calcinhas. Eu fechei a vidra?a: e depois d'ir ao corredor fazer ás escondidas um rapido signal da cruz, vim desapertar s?fregamente, e pela vez derradeira, os atacadores do collete da minha saborosa bem-amada.

Breve, avaramente breve, foi essa noite estrellada do Egypto!

Cedo, amargamente cedo, veio o grego de Lacedemonia avisar-me que já fumegava na bahia, aspera e cheia de vento, el paquete, ferozmente chamado o Caim?o, que me devia levar para as tristezas d'Israel.

El se?or D. Topsius, madrugador, já estava em baixo a almo?ar pachorrentamente os seus ovos com presunto, a sua vasta caneca de cerveja. Eu tomei apenas um gole de café, no quarto, a um canto da commoda, em mangas de camisa, com os olhos vermelhos sob a nevoa das lagrimas. A minha solida mala de couro atravancava o corredor, fechada e afivelada; mas Alpedrinha estava ainda accommodando, á pressa, a roupa suja dentro do sacco de lona. E Maricoquinhas, sentada desoladamente á borda do leito, com o seu gentil chapéo enfeitado de papoulas e as olheirinhas pisadas-contemplava aquelle enfardelar de flanellas, como se fossem bocados do seu cora??o atirados para o fundo do sacco, para partirem e n?o voltarem mais!

-Levas tanta roupa suja, Theodorico!

Balbuciei, dilacerado:

-Manda-se lavar em Jerusalem com a ajuda de Nosso Senhor!

Deitei os meus bentinhos ao pesco?o. N'esse instante Topsius assomava á porta, cachimbando, com a barraca do seu guardasol fechada sob o bra?o, de galochas anchas para a humidade do tombadilho-e um volume da Biblia enchuma?ando-lhe a rabona d'alpaca. Ao vêr-me sem collete, reprehendeu a minha amorosa pregui?a.

-Mas comprehendo, bella dama, comprehendo! acudiu elle, ás cortezias a Mary, esgrouviado e onduloso, d'oculos na ponta do bico. é doloroso deixar os bra?os de Cleopatra… Já Antonio por elles perdeu Roma e o mundo… Eu mesmo, todo absorvido na minha miss?o, com recantos crepusculares da Historia a alumiar, levo gratas memorias d'estes dias de Alexandria… Deliciosissimos os nossos passeios pelo Mamoudieh!… Permitta-me que apanhe a sua luva, bella dama!… E se voltar jámais a esta terra dos Ptolomeus, n?o me esquecerá a rua das Duas irm?s… ?Miss Mary, luvas e fl?res de cêra.? Perfeitamente. Consentirá que lhe mande, quando completa, a minha Historia dos Lagidas… Ha detalhes muito picantes… Quando Cleopatra se apaixonou por Herodes, o rei da Judêa…

Mas Alpedrinha, da beira do leito, gritava, alvoro?ado:

-Cavalheiro! Ainda ha aqui roupa suja!

Rebuscando, entre os cobertores revoltos, descobrira uma longa camisa de rendas, com la?os de sêda clara. Sacudia-a; e espalhava-se um aroma saudoso de violeta e d'amor… Ai! era a camisa de dormir da Mary, quente ainda dos meus abra?os!

-Pertence á snr.^a D. Mary! é a tua camisinha, amor! gemi eu, cruzando os suspensorios.

A minha luveirinha ergueu-se, tremula, descórada-e teve um poetico rasgo de paix?o. Enrolou a sua camisinha, atirou-m'a para os bra?os, t?o ardentemente, como se entre as dobras viesse tambem o seu cora??o.

-Dou-t'a, Theodorico! Leva-a, Theodorico! Ainda está amarrotada da nossa ternura!… Leva-a para dormires com ella ao teu lado, como se fosse commigo… Espera, espera ainda, amor! Quero p?r-lhe uma palavra, uma dedicatoria!

Correu á mesa, onde jaziam restos do papel sisudo em que eu escrevia á titi a historia edificativa dos meus jejuns em Alexandria, das noites consumidas a embeber-me do Evangelho… E eu, com a camisinha perfumada nos bra?os, sentindo duas bagas de pranto rolarem-me pelas barbas, procurava angustiosamente em redor onde guardar aquella preciosa reliquia d'amor. As malas estavam fechadas. O sacco de lona estalava, repleto.

Topsius, impaciente, tirára das profundezas do seio o seu relogio de prata. O nosso Lacedemonio, á porta, rosnava:

-D. Theodorico, es tarde, es mui tarde…

Mas a minha bem-amada já sacudia o papel, coberto das letras que ella tra?ára, largas, impetuosas e francas como o seu amor: ?Ao meu Theodorico, meu portuguezinho possante, em lembran?a do muito que gozámos!?

-Oh, riquinha! E onde hei de eu metter isto? Eu n?o hei de levar a camisa nos bra?os, assim núa e ao léo!

Já Alpedrinha, de joelhos, desafivelava desesperadamente o sacco. Ent?o Maricoquinhas, com uma inspira??o delicada, agarrou uma folha de papel pardo, apanhou do ch?o um nastro vermelho; e as suas habilidosas m?os de luveira fizeram da camisinha um embrulho redondo, commodo e gracioso-que eu metti debaixo do bra?o, apertando-o com avara, inflammada paix?o.

Depois foi um murmurio arrebatado de solu?os, de beijos, de do?uras…

-Mary, anjo querido!

-Theodorico, amor!…

-Escreve-me para Jerusalem…

-Lembra-te da tua bichaninha bonita…

Rolei pela escada, tonto. E a caleche que tantas vezes me passeára, enla?ado com Mary, por sob os arvoredos aromaticos do Mamoudieh-lá partiu, ao trote da parelha branca, arrancando-me a uma felicidade onde o meu cora??o deitára raizes, agora despeda?adas e gottejando sangue no silencio do meu peito. O douto Topsius, abarracado sob o seu guardasol verde, recome?ára, impassivel, a murmurar coisas de velha erudi??o. Sabia eu por onde iamos rodando? Por sobre a nobre cal?ada dos Sete-Stados, que o primeiro dos Lagidas construira para communicar com a ilha de Pharos, louvada nos versos de Homero! Nem o escutava, debru?ado para traz, na caleche, agitando o len?o molhado da minha saudade. A d?ce Maricoquinhas, á porta do Hotel, ao lado d'Alpedrinha, linda sob o chapéo florido de papoulas, fazia esvoa?ar tambem o seu len?o amoroso e acariciador: e um momento estas duas cambraias brancas sacudiram uma para a outra, no ar quente, o ardor dos nossos cora??es. Depois eu cahi sobre a almofada de chita como cae um corpo morto…

Apenas embarcado no Caim?o, corri a esconder no beliche a minha d?r. Topsius ainda me agarrou pela manga para me mostrar sitios das grandezas dos Ptolomeus, o porto do Eunotos, a enseada de marmore onde ancoravam as galeras de Cleopatra. Fugi; na escada esbarrei, quasi rolei sobre uma Irm? da Caridade, que subia timidamente com as suas contas na m?o. Rosnei um ?desculpe, minha santinha.? E tombando emfim no catre, deixei escapar o pranto á larga, por cima do embrulho de papel pardo: elle era tudo que me restava d'essa paix?o de incomparavel esplendor, passada na terra do Egypto.

Dois dias e duas noites o Caim?o arquejou e rolou nos vagalh?es do mar de Tyro. Enrodilhado n'um cobertor, sem largar do peito o embrulhinho da Mary, eu recusava com odio as bolachas que de vez em quando me trazia o humanissimo Topsius; e desattento ás coisas eruditas que elle imperturbavelmente me contava d'estas aguas chamadas pelos egypcios o Grande Verde, rebuscava debalde na memoria bocados soltos de uma ora??o que ouvira á titi para amansar as vagas iradas.

Mas uma tarde, ao escurecer, tendo cerrado os olhos, pareceu-me sentir sob as chinelas um ch?o firme, ch?o de rocha, onde cheirava a rosmaninho: e achei-me incomprehensivelmente a subir uma collina agreste de companhia com a Adelia, e com a minha loura Mary-que sahira de dentro do embrulho, fresca, nitida, sem ter sequer amarrotado as papoulas do seu chapéo! Depois, por traz d'um penedo, surgiu-nos um homem nú, colossal, tisnado, de cornos; os seus olhos reluziam, vermelhos como vidros redondos de lanternas; e com o rabo infindavel ia fazendo no ch?o o rumor de uma cobra irritada que roja por folhas seccas. Sem nos cortejar, impudentemente, poz-se a marchar ao nosso lado. Eu percebi bem que era o Diabo; mas n?o senti escrupulo, nem terror. A insaciavel Adelia atirava olhadellas obliquas á potencia dos seus musculos. Eu dizia-lhe, indignado: ?Porca, até te serve o Diabo??

Assim marchando, chegámos ao alto do monte-onde uma palmeira se desgrenhava sobre um abysmo cheio de mudez e de treva. Defronte de nós, muito longe, o céo desdobrava-se como um vasto estofo amarello: e sobre esse fundo vivo, c?r de gema d'ovo, destacava um negrissimo outeiro, tendo cravadas no alto tres cruzinhas em linha, finas e d'um só tra?o. O Diabo, depois de escarrar, murmurou, travando-me da manga: ?A do meio é a de Jesus, filho de José, a quem tambem chamam o Christo; e chegamos a tempo para saborear a Ascens?o.? Com effeito! A cruz do meio, a do Christo, desairragada do outeiro, como um arbusto que o vento arranca, come?ou a elevar-se, lentamente, engrossando, atravancando o céo. E logo de todo o espa?o voaram bandos de anjos, a sustel-a, apressados como as pombas quando acodem ao gr?o; uns puxavam-na de cima, tendo-lhe amarrado ao meio longas cordas de sêda; outros, de baixo, empurravam-na-e nós viamos o esfor?o entumecido dos seus bra?os azulados. Por vezes do madeiro desprendia-se, como uma cereja muito madura, uma grossa gotta de sangue: um seraphim recolhia-a nas m?os e ia collocal-a sobre a parte mais alta do céo, onde ella ficava suspensa e brilhando com o resplendor d'uma estrella. Um anci?o enorme de tunica branca, a que mal distinguiamos as fei??es, entre a abundancia da coma revolta e os flocos de barbas nevadas, commandava, estirado entre nuvens, estas manobras da Ascens?o, n'uma lingua semelhante ao latim e forte como o rolar de cem carros de guerra. Subitamente tudo desappareceu. E o Diabo, olhando para mim, pensativo: ?Consummatum est, amigo! Mais outro Deus! Mais outra Religi?o! E esta vai espalhar em terra e céo um inenarravel tedio.?

E logo, levando-me pela collina abaixo, o Diabo rompeu a contar-me animadamente os Cultos, as Festas, as Religi?es que floreciam na sua mocidade. Toda esta costa do Grande Verde, ent?o, desde Byblos até Carthago, desde Eleusis até Memphis, estava atulhada de deuses. Uns deslumbravam pela perfei??o da sua belleza, outros pela complica??o da sua ferocidade. Mas todos se misturavam á vida humana, divinisando-a: viajavam em carros triumphaes, respiravam as fl?res, bebiam os vinhos, defloravam as virgens adormecidas. Por isso eram amados com um amor que n?o mais voltará: e os povos, emigrando, podiam abandonar os seus gados ou esquecer os rios onde tinham bebido-mas levavam carinhosamente os seus deuses ao collo. ?O amigo, perguntou elle, nunca esteve em Babylonia?? Ahi todas as mulheres, matronas ou donzellas, se vinham um dia prostituir nos bosques sagrados, em honra da deusa Mylitta. As mais ricas chegavam em carros marchetados de prata, puxados a búfalos, e escoltadas d'escravas; as mais pobres traziam uma corda ao pesco?o. Umas, estendendo um tapete na herva, agachavam-se como rezes pacientes; outras, erguidas, núas, brancas, com a cabe?a escondida n'um véo preto, eram como esplendidos marmores entre os troncos dos alamos. E todas assim esperavam que qualquer, atirando-lhe uma moeda de prata, lhes dissesse: ?Em nome de Venus!? Seguiam-no ent?o, fosse um principe vindo de Suza com tiara de perolas, ou o mercador que desce o Euphrates no seu barco de couro: e toda a noite rugia na escurid?o das ramagens o delirio da Luxuria ritual. Depois o Diabo disse-me as fogueiras humanas de Molok, os Mysterios da Boa-Deusa em que os lirios se regavam com sangue, e os ardentes funeraes d'Adonis…

E parando, risonhamente: ?o amigo nunca esteve no Egypto?? Eu disse-lhe que estivera e conhecera lá Maricocas. E o Diabo, cortez: ?N?o era Maricocas, era Isis!? Quando a inunda??o chegava até Memphis, as aguas cobriam-se de barcas sagradas, Uma alegria heroica, subindo para o sol, fazia os homens iguaes aos deuses. Osiris, com os seus cornos de boi, montava Isis; e, entre o estridor das harpas de bronze, ouvia-se por todo o Nilo o rugido amoroso da Vacca divina.

Depois o Diabo contava-me como brilhavam, d?ces e bellas, na Grecia as religi?es da Natureza. Ahi tudo era branco, polido, puro, luminoso e sereno: uma harmonia sahia das fórmas dos marmores, da constitui??o das cidades, da eloquencia das academias e das destrezas dos athletas: por entre as ilhas da Ionia, fluctuando na molleza do mar mudo como cestas de fl?res, as Nereidas dependuravam-se da borda dos navios, para ouvir as historias dos viajantes; as Musas, de pé, cantavam pelos valles: e a belleza de Venus era como uma condensa??o da belleza da Hellenia.

Mas apparecera este carpinteiro de Galilêa-e logo tudo acabára! A face humana tornava-se para sempre pallida, cheia de mortifica??o: uma cruz escura, esmagando a terra, seccava o esplendor das rosas, tirava o sabor aos beijos:-e era grata ao deus novo a fealdade das fórmas.

Julgando Lucifer entristecido, eu procurava consolal-o: ?Deixe estar, ainda ha de haver no mundo muito orgulho, muita prostitui??o, muito sangue, muito furor! N?o lamente as fogueiras de Molok. Ha de ter fogueiras de judeus.? E elle, espantado: ?Eu? Uns ou outros, que me importa, Raposo? Elles passam, eu fico!?

Assim, despercebido, a conversar com Satanaz, achei-me no campo de Sant'Anna. E tendo parado, emquanto elle desenvencilhava os cornos dos ramos d'uma das arvores-ouvi de repente ao meu lado um berro: ?Olha o Theodorico com o Porco-sujo!? Voltei-me. Era a titi! A titi, livida, terrivel, erguendo, para me espancar, o seu livro de missa! Coberto de suor-acordei.

Topsius gritava, á porta do beliche, alegremente:

-Levante-se, Raposo! Estamos á vista da Palestina!

O Caim?o parára; e no silencio eu sentia a agua ro?ando-lhe o costado, de leve, n'um murmurio de mansa caricia. Porque sonhára eu assim, ao avisinhar-me de Jerusalem, com os Deuses falsos, Jesus seu vencedor, e o Demonio a todos rebelde? Que suprema revela??o me preparava o Senhor?…

* * * * *

Desenrodilhei-me da manta; atordoado, sujo, sem largar o precioso embrulho da Mary, subi ao tombadilho, encolhido no meu jaquet?o. Um ar fino e forte banhou-me deliciosamente, trazendo um aroma de serra e de fl?r de laranjeira. O mar emmudecera, todo azul, na frescura da manh?. E ante meus olhos peccadores estendia-se a terra da Palestina, arenosa e baixa-com uma cidade escura, rodeada de pomares, toucada no alto de flechas de sol irradiando como os raios d'um resplendor de santo.

-Jaffa! gritou-me Topsius, sacudindo o seu cachimbo de lou?a. Ahi tem o

D. Raposo a mais antiga cidade da Asia, a velhissima Jeppo, anterior ao

Diluvio! Tire o barrete, saúde essa anci? dos tempos, cheia de lenda e

d'historia… Foi aqui que o borrachissimo Noé construiu a sua Arca!

Cortejei, assombrado.

-Caramba! Ainda agora a gente chega, já lhe come?am a apparecer coisas de religi?o!

E conservei-me descoberto-porque o Caim?o, ao ancorar diante da Terra Santa, tomára o recolhimento d'uma capella, cheia de piedosas occupa??es e d'un??o. Um lazarista, de longa sotaina, passeava, com os olhos baixos, meditando o seu Breviario. Sumidas dentro dos capuzes negros de lustrina, duas Religiosas corriam os dedos pallidos pelas contas dos seus rosarios. Ao longo da amurada humida, peregrinos da Abyssinia, hirsutos padres gregos de Alexandria, pasmavam para o casario de Jaffa, aureolado de sol, como para a illumina??o d'um sacrario. E a sineta á p?pa tilintava, na brisa salgada, com uma do?ura devota de toque de missa…

Mas, vendo uma barca?a escura remar para o Caim?o,-baixei depressa ao beliche a p?r o meu capacete de corti?a, cal?ar luvas pretas, para pisar decorosamente a terra do meu Salvador. Ao voltar, bem escovado, bem perfumado, achei a lancha atulhada. E descia, com alvoro?o, atraz d'um franciscano barbudo-quando o amado embrulhinho da Mary escapou dos meus bra?os carinhosos, rolou em saltos pela escada como uma pella, raspou a borda do bote… Ia sumir-se nas aguas amargas! Dei um berro! Uma das Religiosas apanhou-o, ligeira e cheia de misericordia.

-Agradecido, minha senhora! gritei, enfiado. é um pacotesinho de roupa!

Seja pelo sagrado amor de Maria!

Ella refugiou-se modestamente na sombra do seu capuz; e como eu me accommodára, mais longe, entre Topsius e o franciscano barbudo que cheirava a alho-a santa creatura guardou o embrulho sobre o seu puro rega?o, deitou-lhe mesmo por cima as contas do seu rosario.

O arraes, empunhando o leme, bradou: ?Allah é grande, larga!? Os arabes remaram cantando. O sol surgiu por traz de Jaffa. E eu, encostado ao meu guardachuva, contemplava a pudica religiosa que assim levava, ao collo, para a terra de castidade, a camisinha da Mary.

Era nova: e entre o bioco triste de lustrina preta parecia de marfim o seu rosto oval, onde as pestanas longas punham a sombra d'uma dolente melancolia. Os bei?os tinham perdido toda a c?r e todo o calor, para sempre inuteis, destinados sómente a beijar os pés arroxeados do cadaver d'um Deus. Comparada com Mary, rosa d'York aberta e sensual, perfumando Alexandria-esta pendia como um lirio ainda fechado e já murcho na humidade d'uma capella. Ia certamente para algum hospicio da Terra Santa. A vida para ella devia ser uma success?o de chagas a cobrir de fios e de len?oes a estender por cima de faces mortas. E era decerto o medo do Senhor que a tornava assim t?o pallida.

-Bem tola! murmurei eu.

Pobre e esteril creatura! Percebeu ella por acaso o que continha aquelle embrulho pardo? Sentiu ella subir de lá, e espalhar-se no escuro do seu capuz, um perfume estranho e enlanguecedor de baunilha e de pelle amorosa? A quentura do leito revolto, que ficára nas rendas da camisa, atravessou por acaso o papel e veio aquecer-lhe brandamente os joelhos? Quem sabe! Durante um momento pareceu-me que uma gota de sangue novo lhe roseou a face desmaiada, e que debaixo do habito, onde brilhava uma cruz, o seu seio arfou, perturbado: mesmo julguei vêr lampejar, por entre as suas pestanas, um raio fugitivo e assustado procurando as minhas barbas cerradas e pretas… Mas foi só um relance. Outra vez, sob o capuz, o rosto recahiu na sua frialdade de marmore santo; e sobre o seio submettido a cruz pesou, ciumenta e de ferro. Ao seu lado, a outra religiosa, rochonchuda e de lunetas, sorria para o verde mar, sorria para o sabio Topsius-com um sorriso claro que sahia da paz do seu cora??o e lhe punha uma covinha no queixo.

Apenas saltámos na arêa da Palestina, corri a agradecer, de capacete na m?o, garboso e palaciano.

-Minha irm?, estou muito penhorado… Grande desgosto se se perdesse o pacotesinho!… é de minha tia, uma encommenda para Jerusalem… Lá lhe contarei… A titi é muito respeitadora de coisas santas, pella-se pela caridade…

Muda, no refolho do seu capuz, ella estendeu-me o embrulhinho com a ponta dos dedos, debeis e mais transparentes que os d'uma Senhora da Agonia. E os dois habitos negros sumiram-se, entre muros faiscantes de cal nova, n'uma viella em escadas onde apodrecia o cadaver d'um c?o sob o v?o dos moscardos. Eu murmurei ainda: ?Bem tola!?

Quando me voltei, Topsius, á sombra do seu guardasol, conversava com o homem prestante-que foi nosso Guia através das terras da Escriptura. Era mo?o, moreno, espigado, com longos bigodes esvoa?ando ao vento; usava jaqueta de velludilho e botas brancas de montar; as coronhas prateadas de duas pistolas, emergindo d'uma facha de l? negra, armavam-lhe heroicamente o peito forte: e trazia amarrado na cabe?a, com as pontas e as franjas atiradas para traz, um len?o rutilante de sêda amarella. O seu nome era Paulo Potte, a sua patria o Montenegro: e toda a costa da Syria o conhecia pelo alegre Potte. Jesus, que alegre matalote! A alegria faiscava-lhe na pupilla azul-clara; a alegria cantava-lhe nos dentes incomparaveis; a alegria estremecia-lhe nas m?os buli?osas; a alegria resoava-lhe no bater dos tac?es. Desde Ascalon até aos bazares de Damasco, desde o Carmelo até aos pomares d'Engadi-elle era o alegre Potte. Estendeu-me rasgadamente a bolsa de tabaco perfumado. Topsius maravilhou-se do seu saber biblico. Eu, com palmadas pelo ventre, gritei-lhe logo-meu gajo! E, depois de valentes apertos de m?o, fomos para o Hotel de Josaphat firmar o nosso contracto, bebendo vasta cerveja.

O alegrissimo Potte depressa organisou a nossa caravana para a cidade do Senhor. Um macho levava as bagagens; o arrieiro arabe, embrulhado n'um farrapo azul, era t?o airoso e lindo que eu, irresistivelmente e sem cessar, procurava o negro afago do seu olhar de velludo; e, por luxo oriental, como escolta, seguia-nos um beduino, velho, catarrhoso, com o albornós de l? de camêlo listrado de cinzento, e uma forte lan?a ferrugenta toda enfeitada de borlas.

Guardei n'um alforge, desveladamente, o embrulhinho mimoso da camisinha da Mary: depois, já na sella, alongados os lóros do pernudo Topsius, o festivo Potte, floreando o chicote, lan?ou o antigo grito das Cruzadas e de Ricardo-Cora??o-de-Le?o-Avante, a Jerusalem, Deus o quer! E a trote, com os charutos em brasa, sahimos de Jaffa pela porta do Mercado-á hora em que suavemente tocava a vesperas no Hospicio dos Padres Latinos.

Na luminosa meiguice da tarde, a estrada alongava-se através de jardins, hortas, pomares, laranjaes, palmeiraes, terra de Promiss?o, resplandecente e amavel. Por entre as sebes de myrtos perdia-se o fugidio cantar das aguas. O ar todo, d'uma do?ura ineffavel, como para n'elle respirar melhor o povo eleito de Deus, era um derramado perfume de jasmins e limoeiros. O grave e pacifico chiar das noras ia adormecendo, ao fim do dia de rega, entre as romanzeiras em fl?r. Alta e serena no azul, voava uma grande aguia.

Consolados, parámos n'uma fonte de marmore vermelho e negro, abrigada á sombra de sycomoros onde arrulhavam r?las: ao lado erguia-se uma tenda, com um tapete na relva coberto d'uvas e de malgas de leite; e o velho de barbas brancas que a occupava saudou-nos em nome de Allah, com a nobreza de um patriarcha. A cerveja tinha-me feito sêde: foi uma rapariga bella como a antiga Rachel, que me deu a beber do seu cantaro de fórma biblica, sorrindo, com o seio descoberto, duas longas argolas d'ouro batendo-lhe a face morena-e um cordeirinho branco e familiar preso da ponta da tunica.

A tarde descia, muda e dourada, quando penetrámos na planicie de Saron, que a Biblia outr'ora encheu de rosas. No silencio tilintavam os chocalhos d'um rebanho de cabras negras, que um arabe ia pastoreando, nú como um S. Jo?o. Lá ao fundo, os montes sinistros da Judêa, tocados pelo sol obliquo que se afundava sobre o mar de Tyro, pareciam ainda formosos, azues e cheios de do?ura de longe, como as illus?es do peccado. Depois tudo escureceu. Duas estrellas de um resplendor infinito appareceram:-e come?aram a caminhar adiante de nós para os lados de Jerusalem.

* * * * *

O nosso quarto, no Hotel do Mediterraneo, em Jerusalem, com a sua abobada caiada de branco, o ch?o de tijolo, semelhava uma rigida cella de rude mosteiro. Mas, fronteiro á janella, um tabique delgado, revestido de papel de ramagens azues, dividia-o d'outro quarto, onde nós sentiamos uma voz fresca cantarolar a Ballada do rei de Thule: e ahi, exhalando conforto e civilisa??o, brilhava um guarda-roupa de mogno, que eu abri, como se abre um relicario, para encerrar o meu embrulhinho bemdito.

Os dois leitosinhos de ferro desappareciam sob as pregas virginaes dos cortinados de cambraia branca; e ao meio havia uma mesa de pinho, onde Topsius estudava o mappa da Palestina, emquanto eu, de chinelos, passeava, limando as unhas. Era a devota sexta-feira em que a christandade commemora, enternecida, os SS. Martyres d'Evora. Nós tinhamos chegado n'essa tarde, sob uma chuva triste e miuda, á cidade do Senhor: e de vez em quando Topsius, erguendo os oculos de cima das estradas de Galilêa, contemplava-me de bra?os cruzados e murmurava com amizade:

-Ora está o amigo Raposo em Jerusalem!

Eu, parando ao espelho, dava um olhar ás barbas crescidas, á face crestada, e murmurava tambem, agradado:

-é verdade, cá está o bello Raposo em Jerusalem!

E voltava, insaciado, a admirar através dos vidros ba?os a divina Si?o. Sob a chuva melancolica erguiam-se defronte as paredes brancas d'um convento silencioso, com as persianas verdes corridas, e duas enormes goteiras de zinco a cada esquina, uma escoando-se ruidosamente sobre uma viella deserta-a outra cahindo no ch?o molle d'uma horta plantada de couves, onde orneava um jumento. D'esse lado, era uma vastid?o infindavel de telhados em terra?o, lugubres e c?r de lodo, com uma cupulasinha de tijolo em fórma de forno, e longas varas para seccar farrapos; e quasi todos decrepitos, desmantelados, miserrimos, pareciam desfazer-se na agua lenta que os alagava. Do outro elevava-se uma encosta atulhada de casebres sordidos, com verduras de quintal, esfumadas, arripiadas na nevoa humida: por entre elles, torcia-se uma viella esgalgada, em escadinhas, onde constantemente se cruzavam frades de alpercatas sob os seus guardachuvas, sombrios judeus de melenas cahidas, ou algum vagoroso beduino arrega?ando o seu albornós… Por cima pesava o céo pardacento. E assim da minha janella me apparecia a velha Si?o, a bem-edificada, brilhante de claridade, alegria da terra, e formosa entre as cidades.

-Isto é um horror, Topsius! Bem dizia o Alpedrinha! Isto é peor que

Braga, Topsius! E nem um passeio, nem um bilhar, nem um theatro! nada!

Olha que cidade para viver Nosso Senhor!

-Sim! No tempo d'elle era mais divertida, resmungou o meu sapiente amigo.

E logo me prop?z que no domingo partissemos para as margens do Jord?o-onde o reclamavam os seus estudos sobre os Herodes. Ahi eu poderia ter deleites campestres-banhando-me nas aguas santas, atirando ás perdizes, entre as palmeiras de Jerichó. Accedi com gosto. E descemos a comer, chamados por uma sineta de convento, funeraria e badalando na sombra do corredor.

O refeitorio era tambem abobadado, com uma esteira d'esparto sobre o ch?o de ladrilho: e estavamos sós, o erudito investigador dos Herodes e eu, na mesa tristonha, adornada com fl?res de papel em vasinhos rachados. Remexendo o macarr?o de uma sopa dissaborida, murmurei, succumbido: ?Jesus, Topsius, que grande massada!? Mas uma porta de vidra?a ao fundo abriu-se de leve; e logo exclamei, arrebatado: ?Caramba, Topsius, que grande mulher!?

Grande, em verdade! Solida e saudavel como eu; branca, da alvura do linho muito lavado, e picada de sardas; coroada por uma massa ardente de cabello ondeado e castanho; presa n'um vestido de sarja azul que os seios rijos quasi faziam estalar-ella entrou, derramando um fresco cheiro de sab?o Windsor e d'agua de Colonia, e logo alumiou todo o refeitorio com o esplendor da sua carne e da sua mocidade… O fecundo Topsius comparou-a á fortissima deusa Cybele.

Cybele sentou-se no topo da mesa, serena e soberba. Ao lado, fazendo ranger a cadeira com o peso dos seus amplos membros, accommodou-se um Hercules tranquillo, calvo, de espessas barbas grisalhas-que, no mero gesto de desdobrar o guardanapo, revelou a omnipotencia do dinheiro e o envelhecido habito de mandar. Por um yes que ella murmurou comprehendi que era da terra de Maricocas. E lembrava-me a ingleza do senhor bar?o.

Ella collocára junto ao prato um livro aberto que me pareceu ser de versos: o barba?as, mastigando com o vagar magestoso d'um le?o, folheava tambem, em silencio o seu Guia do Oriente. E eu esquecia o meu carneiro guisado, para contemplar devoradoramente cada uma das suas perfei??es. De vez em quando ella erguia a franja cerrada das suas pestanas: eu esperava com ancia o dom d'esse claro e suave olhar; mas ella derramava-o pelos muros caiados, pelas fl?res de papel, e deixava-o recahir, desinteressado e frio, sobre as paginas do seu poema.

Depois do café beijou a m?o cabelluda do barba?as; e desappareceu pela porta envidra?ada, levando comsigo o aroma, a luz, e a alegria de Jerusalem. O Hercules accendeu morosamente o cachimbo; disse ao mo?o ?que lhe mandasse o Ibrahim, o guia?; levantou-se, pesado e membrudo. Junto á porta derrubou o guardachuva de Topsius, do venerabilissimo Topsius, gloria da Allemanha, membro do Instituto imperial de Excava??es historicas; e passou-sem o erguer, nem sequer baixar o olho altivo.

-Irra, bruto! rosnei, a borbulhar de furor.

O meu douto amigo, com a sua cobardia social d'allem?o disciplinado, apanhou o seu guardachuva e escovou-lhe o paninho, murmurando, já tremulo, que talvez ?o barba?as fosse um duque…?

-Qual duque! Para mim n?o ha duques! Eu sou Raposo, dos Raposos do

Alemtejo… Rachava-o!

Mas a tarde descia-e deviamos fazer a nossa visita reverente ao sepulchro do nosso Deus. Corri ao quarto, a ornar-me com o meu chapéo alto, como promettera á titi; e penetrava no corredor quando vi Cybele abrir a porta, junto da nossa porta, e sahir envolta n'uma capa cinzenta, com uma gorra onde alvejavam duas pennas de gaivota. O cora??o bateu-me no delirio de uma grande esperan?a. Assim, era ella que cantarolava a Ballada do rei de Thule! Assim, os nossos leitos estavam apenas separados pelo fino, fragil tabique coberto de ramarias azues! Nem procurei as luvas pretas: desci n'um alvoro?o, certo de que a ia encontrar no sepulchro de Jesus: e planeava já verrumar no tabique um buraco, por onde o meu olho namorado pudesse ir saciar-se nas bellezas do seu desalinho.

Ainda chovia, lugubremente. Apenas come?ámos a atolar-nos no enxurro da Via-Dolorosa, entalada entre muros c?r de lodo-chamei Potte para debaixo do meu guardachuva, perguntei-lhe se vira no hotel a minha forte e sardenta Cybele. O jucundo Potte já a admirára. E pelo Ibrahim, seu compadre dilecto, sabia que o barba?as era um escossez, negociante de cortumes…

-Ahi está, Topsius! gritei eu. Negociante de cortumes… Qual duque! é uma besta! Eu rachava-o! Em coisas de dignidade sou uma fera. Rachava-o!

A filha, a das bastas tran?as, dizia Potte, tinha um nome radiante de pedra preciosa: chamava-se Ruby, rubim. Amava os cavallos, era arrojada; na Alta Galilêa, d'onde vinham, matára uma aguia negra…

-Ora aqui têm os cavalheiros a casa de Pilatos…

-Deixa lá a casa de Pilatos, homem! Importa-me bem com Pilatos! E ent?o que diz mais o Ibrahim? Desembucha, Potte!

Alli a Via-Dolorosa estreitava-se, abobadada, como um corredor de Catacumba. Dois mendigos chaguentos roíam cascas de mel?es, assapados na lama e grunhindo. Um c?o uivava. E o risonho Potte contava-me que o Ibrahim vira muitas vezes Miss Ruby enlevada na belleza dos homens da Syria: de noite, á porta da tenda, emquanto o papá cervejava, ella dizia versos baixinho, olhando para a palpita??o das estrellas. Eu pensava: ?Caramba! tenho mulher!?

-Ora aqui est?o os cavalheiros diante do Santo Sepulchro…

Fechei o meu guardachuva. Ao fundo de um adro, de lages descolladas, erguia-se a fachada d'uma igreja, caduca, triste, abatida, com duas portas em arco: uma tapada já a pedregulho e cal, como superflua; a outra timidamente, medrosamente entreaberta. E aos flancos debeis d'este templo soturno manchado de tons de ruina, collavam-se duas construc??es desmanteladas, do rito latino e do rito grego-como filhas apavoradas que a Morte alcan?ou, e que se refugiam ao seio da m?i, meia morta tambem e já fria.

Calcei ent?o as minhas luvas pretas. E immediatamente, um bando voraz d'homens sordidos envolveu-nos com alarido, offerecendo reliquias, rosarios, cruzes, escapularios, bocadinhos de taboas aplainadas por S. José, medalhas, bentinhos, frasquinhos de agua do Jord?o, cirios, agnus-dei, lithographias da Paix?o, fl?res de papel feitas em Nazareth, pedras benzidas, caro?os d'azeitona do Monte Olivete, e tunicas ?como usava a Virgem Maria!? E á porta do Sepulchro de Christo, onde a titi me recommendára que entrasse de rastos, gemendo e rezando a cor?a-tive de esmurrar um malandr?o de barbas de ermita, que se dependurára da minha rabona, f

aminto, rabido, ganindo que lhe comprassemos boquilhas feitas de um peda?o da arca de Noé!

-Irra, caramba, larga-me, animal!

E foi assim, praguejando, que me precipitei, com o guardachuva a pingar, dentro do santuario sublime onde a Christandade guarda o tumulo do seu Christo. Mas logo estaquei, surprehendido, sentindo um delicioso e grato aroma de tabaco da Syria. N'um amplo estrado, afofado em divan, com tapetes da Caramania e velhas almofadas de sêda, reclinavam-se tres turcos, barbudos e graves, fumando longos cachimbos de cerejeira. Tinham dependurado na parede as suas armas. O ch?o estava negro dos seus escarros. E, diante, um servo em farrapos esperava, com uma ta?a fumegante de café, na palma de cada m?o.

Pensei que o Catholicismo, previdente, estabelecera á porta do lugar divino uma Loja de bebidas e aguas-ardentes, para conforto dos seus romeiros. Disse baixo a Potte:

-Grande idéa! Parece-me que tambem vou tomar um cafésinho!

Mas logo o festivo Potte me explicou que esses homens sérios, de cachimbo, eram soldados musulmanos policiando os altares christ?os, para impedir que em torno ao mausoleu de Jesus se dilacerem por supersti??o, por fanatismo, por inveja de alfaias, os Sacerdocios rivaes que alli celebram os seus Ritos rivaes-Catholicos como o padre Pinheiro, Gregos orthodoxos para quem a cruz tem quatro bra?os, Abissynios e Armenios, Coptas que descendem dos que outr'ora em Memphis adoravam o boi Apis, Nestorianos que veem da Chaldêa, Georgianos que veem do mar Caspio, Maronitas que veem do Libano,-todos christ?os, todos intolerantes, todos ferozes!… Ent?o saudei com gratid?o esses soldados de Mahomet que, para manter o recolhimento piedoso em torno do Christo Morto, serenos e armados velam á porta, fumando.

Logo á entrada parámos diante d'uma lapide quadrada, incrustada nas lages escuras, t?o polida e reluzindo com um t?o d?ce brilho de nacar que parecia a agua quieta d'um tanque onde se reflectiam as luzes das lampadas. Potte puxou-me a manga, lembrou-me que era costume beijar aquelle peda?o de rocha, santa entre todas, que outr'ora, no jardim de José d'Arimathêa…

-Bem sei, bem sei… Beijo, Topsius?

-Vá beijando sempre, disse-me o prudente historiographo dos Herodes.

N?o se lhe péga nada; e agrada á senhora sua tia.

N?o beijei. Em fila e calados, penetrámos n'uma vasta cupula, t?o esfumada no crepusculo que o circulo de frestas redondas na cimalha brilhava apenas, pallidamente, como um aro de perolas em torno de uma tiara: as columnas que a sustentavam, finas e juntas como as lan?as d'uma grade, riscavam a sombra em redor-cada uma picada pela mancha vermelha e mortal d'uma lampada de bronze. Ao centro do lagedo sonoro elevava-se, espelhado e branco, um Mausoleu de marmore-com lavores e com flor?es: um velho, pano de damasco cobria-o como um toldo, recamado de bordados d'ouro esvaído: e duas alas de tocheiros faziam-lhe uma avenida de lumes funerarios até á porta, estreita como uma fenda, tapada por um trapo c?r de sangue. Um padre armenio que desapparecia sob o seu amplo manto negro, sob o capuz descido, incensava-o, dormente e mudamente.

Potte puxou-me outra vez pela manga:

-O tumulo!

Oh minha alma piedosa! Oh titi! Ahi estava pois, ao alcance dos meus labios, o tumulo do meu Senhor!-E immediatamente rompi como um rafeiro, por entre a turba ruidosa de frades e peregrinos, a buscar um rosto gordinho e sardento e uma gorra com pennas de gaivota! Longamente, errei estonteado… Ora esbarrava n'um franciscano cingido na sua corda d'esparto; ora me arredava diante d'um padre copta, deslisando como uma sombra tenue, precedido por serventes que tangiam as pandeiretas sagradas do tempo d'Osiris. Aqui topava n'um mont?o de roupagens brancas, cahido nas lages como um fardo, d'onde se escapavam gemidos de contri??o; adiante trope?ava n'um negro, todo nú, estirado ao pé d'uma columna, dormindo placidamente. Por vezes o clamor sacro d'um org?o resoava, rolava pelos marmores da nave, morria com um susurro de vaga espraiada: e logo mais longe um canto armenio, tremulo e ancioso, batia os muros austeros como a palpita??o das azas d'uma ave presa que quer fugir para a luz. Junto d'um altar apartei dois gordos sacrist?es, um grego, outro latino, que se tratavam furiosamente de birbantes, esbrazeados, cheirando a cebola: e fui d'encontro a um bando de romeiros russos de grenhas hirsutas, vindos decerto do Caspio, com os pés doloridos embrulhados em trapos, que n?o ousavam mover-se, enleados de terror divino, torcendo o barrete de feltro entre as m?os, d'onde lhes pendiam grossos rosarios de vidro. Crian?as, em farrapos, brincavam na escurid?o das arcarias; outras pediam esmola. O aroma do incenso suffocava; e padres de cultos rivaes puxavam-me pela rabona para me mostrarem reliquias rivaes, heroicas ou divinas-uns as esporas de Godofredo, outros um peda?o da Cana Verde.

Atordoado, enfileirei-me n'uma prociss?o penitente-onde eu julgára entrevêr, brancas, altivas, entre véos pretos d'arrependimento, as duas pennas de gaivota. Uma carmelita, á frente, resmungava a ladainha, detendo-nos a cada passo, arrebanhados n'um assombro devoto, á porta de capellas cavernosas, dedicadas á Paix?o-a do Improperio onde o Senhor foi flagellado, a da Tunica onde o Senhor foi despido. Depois subimos, de tochas na m?o, uma escadaria tenebrosa, escavada na rocha…-E subitamente todo o tropel devoto se atirou de rojo, ululando, carpindo, gemendo, flagellando os peitos, clamando pelo Senhor, lugubre e delirante. Estavamos sobre a Pedra do Calvario.

Em torno a capella que a abriga resplandecia com um luxo sensual e pag?o. No tecto azul-ferrete brilhavam soes de prata, signos do Zodiaco, estrellas, azas d'anjos, fl?res de purpura: e, d'entre este fausto sideral, pendiam de correntes de perolas os velhos symbolos da Fecundidade, os ovos de avestruz, ovos sacros d'Astarté e de Baccho d'ouro. Sobre o altar elevava-se uma cruz vermelha com um Christo tosco pintado a ouro-que parecia vibrar, viver através do fulgor diffuso dos mólhos de lumes, da faisca??o das alfaias, do fumo dos aromaticos ardendo em ta?as de bronze. Globos espelhados, pousando sobre peanhas d'ebano, reflectiam as joias dos retabulos, a refulgencia das paredes revestidas de jaspe, de nacar e de agatha. E no ch?o, em meio d'este clar?o precioso de pedraria e luz, emergindo d'entre as lages de marmore branco-destacava um bocado de rocha bruta e brava com uma fenda alargada e polida por longos seculos de beijos e de afagos beatos. Um archidiacono grego, de barbas esqualidas, gritou: ?N'esta rocha foi cravada a cruz! A cruz! A cruz! Miserere! Kirie Eleison! Christo! Christo!? As rezas precipitaram-se, mais ardentes, entre solu?os. Um cantico dolente balan?ava-se, ao ranger dos incensadores. Kirie Eleison! Kirie Eleison! E os diaconos perpassavam rapidamente, s?fregamente, com vastos saccos de velludo, onde tilintavam, se afundavam, se sumiam as offrendas dos simples.

Fugi, aturdido e confuso. O sabio historiador dos Herodes passeava no adro, sob o seu guardachuva, respirando o ar humido. De novo nos accommetteu o bando esfaimado dos vendilh?es de reliquias. Repelli-os rudemente: e sahi do Santo Lugar como entrára-em peccado e praguejando.

No hotel, Topsius recolheu logo ao quarto a registrar as suas impress?es do Sepulchro de Jesus; eu fiquei no pateo cervejando e cachimbando com o aprazivel Potte. Quando subi, tarde, o meu esclarecido amigo já resonava, com a vela accesa-e com um livro aberto sobre o leito, um livro meu, trazido de Lisboa para me recrear no paiz do Evangelho, o Homem dos tres cal??es. Descal?ando os botins, sujos da lama veneravel da Via-Dolorosa-eu pensava na minha Cybele. Em que sacratissimas ruinas, sob que arvores divinisadas por terem dado sombra ao Senhor, passára ella essa tarde nevoenta de Jerusalem? F?ra ao valle do Cedron? F?ra ao branco tumulo de Rachel?…

Suspirei, amoroso e moído: e abria os len?oes bocejando-quando distinctamente, através do tabique fino, senti um ruido d'agua despejada n'uma banheira. Escutei, alvoro?ado: e logo n'esse silencio negro e magoado que sempre envolve Jerusalem, me chegou, perceptivel, o som leve d'uma esponja arremessada na agua. Corri, collei a face contra o papel de ramagens azues. Passos brandos e nús pisavam a esteira que recobria o ladrilho de tijolo; e a agua rumorejou, como agitada por um d?ce bra?o despido que lhe experimentava o calor. Ent?o, abrazado, fui ouvindo todos os rumores intimos de um longo, lento, languido banho: o espremer da esponja; o f?fo esfregar da m?o cheia de espuma de sab?o; o suspiro lasso e consolado do corpo que se estira sob a caricia da agua tepida, tocada d'uma gotta de perfume… A testa, tumida de sangue, latejava-me: e percorria desesperadamente o tabique, procurando um buraco, uma fenda. Tentei verrumal-o com a tesoura; as pontas finas quebraram-se na espessura da cali?a… Outra vez a agua cantou, escoando da esponja:-e eu, tremendo todo, julgava vêr as gottas vagarosas a escorrer entre o rego d'esses seios duros e brancos que faziam estalar o vestido de sarja…

N?o resisti: descal?o, em ceroulas, sahi ao corredor adormecido; e cravei á fechadura, da sua porta um olho t?o esbugalhado, t?o ardente-que quasi receava feril-a com a devorante chamma do seu raio sanguineo… Enxerguei n'um circulo de claridade uma toalha cahida na esteira, um roup?o vermelho, uma nesga do alvo cortinado do seu leito. E assim agachado, com bagas de suor no pesco?o, esperava que ella atravessasse, núa e esplendida, n'esse disco escasso de luz-quando senti de repente, por traz, uma porta ranger, um clar?o banhar a parede. Era o barba?as, em mangas de camisa, com o seu casti?al na m?o! E eu, miserrimo Raposo, n?o podia escapar. D'um lado estava elle, enorme. Do outro o topo do corredor, maci?o.

Vagarosamente, calado, com methodo, o Hercules pousou a vela no ch?o, ergueu a sua rude bota de duas solas, e desmantelou-me as ilhargas… Eu rugi: ?bruto!? Elle ciciou: ?silencio!? E outra vez, tendo-me alli acercado contra o muro, a sua bota bestial e de bronze me malhou tremendamente quadris, nadegas, canellas, a minha carne toda, bem cuidada e preciosa! Depois, tranquillamente, apanhou o seu casti?al. Ent?o eu, livido, em ceroulas, disse-lhe com immensa dignidade:

-Sabe o que lhe vale, seu bife? é estarmos aqui ao pé do tumulo do Senhor, e eu n?o querer dar escandalos por causa de minha tia… Mas se estivessemos em Lisboa, fóra de portas, n'um sitio que eu cá sei, comia-lhe os figados! Nem você sabe de que se livrou. Vá com esta, comia-lhe os figados!

E muito digno, coxeando, voltei ao quarto a fazer pacientes fric??es d'arnica. Assim eu passei a minha primeira noite em Si?o.

Ao outro dia cedo o profundo Topsius foi peregrinar ao monte das Oliveiras, á fonte clara de Siloé. Eu, dorido, n?o podendo montar a cavallo, fiquei no sofá de riscadinho com o Homem dos tres cal??es. E até para evitar o affrontoso barba?as n?o desci ao refeitorio, pretextando tristeza e langor. Mas ao mergulhar o sol no mar de Tyro-estava restabelecido e vivaz: Potte preparára para essa noite uma festividade sensual em casa da Fatmé, matrona bem acolhedoura, que tinha no Bairro dos Armenios um d?ce pombal de pombas: e nós iamos lá contemplar a gloriosa bailadeira da Palestina, a Fl?r de Jerichó, a saracotear essa dansa da Abelha, que esbrazêa os mais frios e deprava os mais puros…

A recatada portinha da Fatmé, ornada d'um pé de vinha secca, abria-se ao canto d'um muro negro junto á Torre de David. Fatmé esperava-nos, magestosa e obesa, envolta em véos brancos, com fios de coraes entre as tran?as, os bra?os nús-tendo cada um a cicatriz escura de um bub?o de peste. Tomou-me submissamente a m?o, levou-a á testa oleosa, levou-a aos labios empastados d'escarlate, e conduziu-me em ceremonia defronte d'uma cortina preta, franjada d'ouro como o pano d'um esquife. E eu estremeci, ao penetrar emfim nos segredos deslumbradores d'um serralho mudo e cheirando a rosa.

Era uma sala caiada de fresco, com sanefas de algod?o vermelho encimando a gelosia; e ao longo das paredes corria um divan amassado, revestido de sêda amarella, com remendos de sêda mais clara. N'um bocado de tapete da Persia pousava um brazeiro de lat?o, apagado, sob o mont?o de cinzas; ahi ficára esquecido um pantufo de velludo, estrellado de lentejoulas. Do tecto de madeira alvadia, onde se alastrava uma nodoa de humidade, pendia de duas correntes enfeitadas de borlas um candieiro de petroline. Um bandolim dormia a um canto, entre almofadas. No ar morno errava um cheiro adocicado e molle a mofo e a benjoim. Pelos ladrilhos, por baixo dos poaiaes da gelosia, corriam carochas.

Sentei-me sisudamente ao lado do historiador dos Herodes. Uma negra de Dongola, encamisada de escarlate, com braceletes de prata a tilintar nos bra?os, veio offerecer-nos um café aromatico: e quasi immediatamente Topsius appareceu, descor?oado, dizendo que n?o podiamos saborear a famosa dansa da Abelha! A Rosa de Jerichó f?ra bailar diante de um principe de Allemanha, chegado n'essa manh? a Si?o, a adorar o tumulo do Senhor. E Fatmé apertava com humildade o cora??o, invocava Allah, dizia-se nossa escrava! Mas era uma fatalidade! A Rosa de Jerichó f?ra para o principe louro que viera, com cavallos e com plumas, do paiz dos Germanos!…

Eu, despeitado, observei que n?o era um principe: mas minha tia tinha luzidas riquezas: os Raposos primavam pelo sangue no fidalgo Alemtejo. Se Fl?r de Jerichó estava ajustada para regosijar meus olhos catholicos, era uma desconsidera??o tel-a cedido ao romeiro coura?ado que viera da hereje Allemanha…

O erudito Topsius resmungou, al?ando o bico com petulancia, que a

Allemanha era a m?i espiritual dos povos…

-O brilho que sae do capacete allem?o, D. Raposo, é a luz que guia a humanidade!

-Sebo para o capacete! A mim ninguem me guia! Eu sou Raposo, dos

Raposos do Alemtejo!… Ninguem me guia sen?o Nosso Senhor Jesus

Christo… E em Portugal ha grandes homens! Ha Affonso Henriques, ha o

Herculano… Sebo!

Ergui-me, medonho. O sapientissimo Topsius tremia, encolhido. Potte acudiu:

-Paz, christ?os e amigos, paz!

Topsius e eu reencruzámo-nos logo no divan-tendo apertado as m?os, galhardamente e com honra.

Fatmé, no emtanto, jurava que Allah era grande e que ella era a nossa escrava. E, se nós a quizessemos mimosear com sete piastras d'ouro, ella em compensa??o da Rosa de Jerichó offerecia-nos uma joia inapreciavel, uma Circassiana, mais branca que a lua cheia, mais airosa que os lirios que nascem em Galgalá.

-Venha a Circassiana! gritei, excitado. Caramba, eu vim aos Santos

Lugares para me refocilar… Venha a Circassiana! Larga as piastras,

Potte! Irra! Quero regalar a carne!

Fatmé sahiu, recuando: o festivo Potte reclinou-se entre nós, abrindo a sua bolsa perfumada de tabaco de Alepo. Ent?o, uma portinha branca, sumida no muro caiado, rangeu a um canto, de leve: e uma figura entrou, velada, vaga, vaporosa. Amplos cal??es turcos de sêda carmesim tufavam com languidez, desde a sua cinta ondeante até aos tornozêlos, onde franziam, fixos por uma liga d'ouro; os seus pésinhos mal pousavam, alvos e alados, nos chinelos de marroquim amarello; e através do véo de gaze que lhe enrodilhava a cabe?a, o peito e os bra?os-brilhavam recamos d'ouro, scentelhas de joias, e as duas estrellas negras dos seus olhos. Espreguicei-me, tumido de desejo.

Por traz d'ella Fatmé, com a ponta dos dedos, ergueu-lhe o véo devagar, devagar-e d'entre a nuvem de gaze surgiu um car?o c?r de gesso, escaveirado e narigudo, com um olho vesgo, e dentes podres que negrejavam no langor nescio do sorriso… Potte pulou do divan, injuriando Fatmé: ella gritava por Allah, batendo nos seios, que soavam mollemente como odres mal cheios.

E desappareceram, assanhados, levados n'uma rajada de ira. A Circassiana, requebrando-se, com o seu sorriso putrido, veio estender-nos a m?o suja, a pedir ?presentinhos? n'um tom rouco d'aguardente. Repelli-a com nojo. Ella co?ou um bra?o, depois a ilharga; apanhou tranquillamente o seu véo, e sahiu arrastando as chinelas.

-Oh Topsius! rosnei eu. Isto parece-me uma grande infamia!

O sabio fez considera??es sobre a voluptuosidade. Ella é sempre enganadora. Debaixo do sorriso luminoso está o dente cariado. Dos beijos humanos só resta o amargor. Quando o corpo se extasia, a alma entristece…

-Qual alma! n?o ha alma! O que ha é um eminentissimo desaforo! Na rua do Arco do Bandeira, esta Fatmé tinha já dois murros na bochecha… Irra!

Sentia-me feroz, com desejos de escavacar o bandolim… Mas Potte reappareceu, cofiando os bigod?es, dizendo que por mais nove piastras d'ouro Fatmé consentia em mostrar a sua secreta maravilha, uma virgem das margens do Nilo, da alta Nubia, bella como a noite mais bella do Oriente. E elle vira-a, afian?ava-a, valia o tributo d'uma fertil provincia.

Fragil e liberal, cedi. Uma a uma, as nove piastras d'ouro tiniram na m?o gordufa de Fatmé.

De novo a porta caiada rangeu, ficou, cerrada-e, sobre o tom alvaiado, destacou, na sua nudez c?r de bronze, uma esplendida femea, feita como uma Venus. Durante um momento parou, muda, assustada pela luz o pelos homens, ro?ando os joelhos lentamente. Uma tanga branca cobria-lhe os flancos possantes e ageis: os cabellos hirsutos, lustrosos d'oleo, com sequins d'ouro entrele?ados, cahiam-lhe sobre o dorso, como uma juba selvagem; um fio solto de contas de vidro azul enroscava-se-lhe em torno do pesco?o e vinha escorregar por entre o rego dos seios rijos, perfeitos e de ebano. De repente soltou convulsamente, repicando a lingua, uma ulula??o desolada: Lu! lu! lu! lu! lu! Atirou-se de bru?os para o divan: e estirada, na attitude d'uma Esphinge, ficou dardejando sobre nós, séria e immovel, os seus grandes olhos tenebrosos.

-Hein? dizia Potte, acotovelando-me. Veja-lhe o corpo… Olhe, os bra?os! Olhe a espinha como arqueia! é uma panthera!

E Fatmé, de olhos em alvo, chilreava beijos na ponta dos dedos-exprimindo os deleites transcendentes que devia dar o amor d'aquella Nubia… Certo, pela persistencia do seu olhar, que as minhas barbas fortes a tinham captivado, desenrosquei-me do divan, fui-me acercando, devagar, como para uma preza certa. Os seus olhos alargavam-se, inquietos e faiscantes. Gentilmente, chamando-lhe ?minha lindinha?, acariciei-lhe o hombro frio: e logo ao contacto da minha pelle branca a Nubia recuou, arripiada, com um grito abafado de gazella ferida. N?o gostei. Mas quiz ser amavel. Disse-lhe paternalmente:

-Ah! se tu conhecesses a minha patria!… E olha que sou capaz de te levar! Em Lisboa é que é! Vai-se ao Dáfundo, cêa-se no Silva… Isto aqui é uma choldra! E as raparigas como tu s?o bem tratadas, dá-se-lhes considera??o, os jornaes fallam d'ellas, casam com proprietarios…

Murmurava-lhe ainda outras coisas profundas e d?ces. Ella n?o comprehendia o meu fallar: e nos seus olhos esgazeados fluctuava a longa saudade da sua aldêa da Nubia, dos rebanhos de bufalos que dormem á sombra das tamareiras, do grande rio que corre eterno e sereno entre as ruinas das Religi?es e os tumulos das Dynastias…

Imaginando ent?o despertar o seu cora??o com a chamma do meu, puxei-a para mim lascivamente. Ella fugiu; encolheu-se toda a um canto, a tremer; e deixando cahir a cabe?a entre as m?os come?ou a chorar, longamente.

-Olha que massada! gritei, emba?ado.

E agarrei o capacete, abalei, esga?ando quasi no meu furor o pano preto franjado d'ouro. Parámos n'uma cella ladrilhada onde cheirava mal. E ahi bruscamente foi entre Potte e a nedia matrona uma bulha ferina sobre a paga d'aquella radiante festa do Oriente: ella reclamava mais sete piastras d'ouro: Potte, de bigode erri?ado, cuspia-lhe injurias em arabe, rudes e chocando-se como calhaus que se despenham n'um valle. E sahimos d'aquelle lugar de deleite perseguidos pelos gritos de Fatmé, que se babava de furor, agitava os bra?os marcados da peste e nos amaldi?oava, e a nossos paes, e aos ossos de nossos avós, e a terra que nos gerára, e o p?o que comiamos, e as sombras que nos cobrissem! Depois na rua negra dois c?es seguiram-nos muito tempo, ladrando lugubremente.

Entrei no Hotel do Mediterraneo, afogado em saudades da minha terra risonha: os gozos de que me via privado n'esta lobrega, inimiga Si?o, faziam-me anciar mais inflammadamente pelos que me daria a facil, amoravel Lisboa, quando, morta a titi, eu herdasse a bolsa sonora de sêda verde!… Lá n?o encontraria, nos corredores adormecidos, uma bota severa e bestial! Lá nenhum corpo barbaro fugiria, com lagrimas, á caricia dos meus dedos. Dourado pelo ouro da titi, o meu amor n?o seria jámais ultrajado, nem a minha concupiscencia jámais repellida. Ah! meu Deus! Assim eu lograsse pela minha santidade captivar a titi!…-E logo, abancando, escrevi á hedionda senhora esta carta ternissima:

?Querida titi do meu cora??o! Cada vez me sinto com mais virtude. E attribuo-a ao agrado com que o Senhor está vendo esta minha visita ao seu santo tumulo. De dia e de noite passo o tempo a meditar a sua divina Paix?o e a pensar na titi. Agora mesmo venho da Via-Dolorosa. Ai, que enternecedora que estava! é uma rua t?o benta, t?o benta, que até tenho escrupulo de a pisar com os botins; e n'outro dia n?o me contive, agachei-me, beijei-lhe as ricas pedrinhas! Esta noite passei-a quasi toda a rezar á Senhora do Patrocinio que todo o mundo aqui em Jerusalem respeita muitissimo. Tem um altar muito lindo; ainda que a este respeito bem raz?o tinha a minha boa tia (como tem raz?o em tudo) quando dizia que lá para festas e prociss?es n?o ha como os nossos portuguezes. Pois esta noite, assim que ajoelhei deante da capella da Senhora, depois de seis Salve-Rainhas, voltei-me para a bella imagem e disse-lhe:-Ai, quem me dera saber como está minha tia Patrocinio!-E quer a titi acreditar? Pois olhe, a Senhora com a sua divina bocca disse-me, palavras textuaes, que até, para n?o me esquecerem, as escrevi no punho da camisa:-A minha querida afilhada vai bem, Raposo, e espera fazer-te feliz!-E isto n?o é milagre extraordinario, porque me contam aqui todas as familias respeitaveis com quem vou tomar chá que a Senhora e seu divino Filho dirigem sempre algumas palavras bonitas a quem os vem visitar. Saberá que já lhe obtive certas reliquias, uma palhinha do presepio, e uma taboinha aplainada por S. José. O meu companheiro allem?o, que, como mencionei á titi na minha carta de Alexandria, é de muita religi?o e muito sabio, consultou os livros que traz e affirmou-me que a taboinha era das mesmas que, segundo está provado, S. José costumava aplainar nas horas vagas. Emquanto á grande reliquia, aquella que lhe quero levar para a curar de todos os seus males e dar a salva??o á sua alma e pagar-lhe assim tudo o que lhe devo, essa espero em breve obtel-a. Mas por ora n?o posso dizer nada… Recados aos nossos amigos em quem penso muito e por quem tenho rezado constantemente; sobretudo ao nosso virtuoso Casimiro. E a titi deite a sua ben??o ao seu sobrinho fiel e que muito a venera e está chupadinho de saudades e deseja a sua saude-Theodorico.-P.S. Ai, titi, que asco que me fez hoje a casa de Pilatos! Até lhe escarrei! E cá disse á Santa Veronica que a titi tinha muita devo??o com ella. Pareceu-me que a senhora santa ficou muito regalada… é o que eu digo aqui a todos estes ecclesiasticos e aos patriarchas:-é necessario conhecer-se a titi para se saber o que é virtude!?

Antes de me despir, fui escutar, collada a orelha ao tabique de ramagens. A ingleza dormia serena, insensivel: eu resmunguei brandindo para lá o punho fechado:

-Besta!

Depois abri o guarda-roupa, tirei o dilecto embrulho da camisinha da

Mary, depuz n'elle o meu beijo repenicado e grato.

Cedo, ao alvorar do outro dia, partimos para o devoto Jord?o.

* * * * *

Fastidiosa, modorrenta, foi a nossa marcha entre as collinas de Judá! Ellas succedem-se, lividas, redondas como craneos, resequidas, escalvadas por um vento de maldi??o: só a espa?os n'alguma encosta rasteja um tojo escasso, que na vibra??o inexoravel da luz parece de longe um bolor de velhice e de abandono. O ch?o faisca, c?r de cal. O silencio radiante entristece como o que cae da aboboda de um jazigo. No fulgor duro do céo rondava em torno a nós, lento e negro, um abutre… Ao declinar do sol erguemos as nossas tendas nas ruinas de Jericó.

Saboroso foi ent?o descan?ar sobre macios tapetes, bebendo devagar limonada, na do?ura da tarde. A frescura de um riacho alegre, que chalrava junto ao nosso acampamento por entre arbustos silvestres, misturava-se ao aroma da fl?r que elles davam, amarella como a da giesta; adiante verdejava um prado de hervas altas, avivado pela brancura de vaidosos, languidos lirios; junto d'agua passeavam aos pares pensativas cegonhas. Do lado de Judá erguia-se o monte da Quarentena, torvo, fusco na sua tristeza de eterna penitencia; e para as bandas de Moab os meus olhos perdiam-se na velha, sagrada terra de Canaan, areal cinzento e desolado que se estende, como a alva mortalha d'uma ra?a esquecida, até ás solid?es do Mar Morto.

Fomos, ao alvorecer, com os alforges fornidos, fazer essa votiva romaria. Era ent?o em dezembro; esse inverno da Syria ia transparentemente d?ce; e trotando pela areia fina ao meu lado, o erudito Topsius contava-me como esta planicie de Canaan f?ra outr'ora toda coberta de rumorosas cidades, de brancos caminhos entre vinhedos, e d'aguas de rega refrescando os muros das eiras; as mulheres, toucadas d'anemonas, pisavam a uva cantando; o perfume dos jardins era mais grato ao céo que o incenso: e as caravanas que entravam no valle pelo lado de Segor achavam aqui a abundancia do rico Egypto-e diziam que era este em verdade o vergel do Senhor.

-Depois, acrescentava Topsius sorrindo com infinito sarcasmo, um dia o

Altissimo aborreceu-se e arrazou tudo!

-Mas porquê? porquê?

-Birra; mau humor; ferocidade…

Os cavallos relincharam sentindo a visinhan?a das aguas malditas:-e bem depressa ellas appareceram, estendidas até ás montanhas de Moab, immoveis, mudas, faiscando solitarias sob o céo solitario. Oh tristeza incomparavel! E comprehende-se que pesa ainda sobre ellas a colera do Senhor, quando se considera que alli jazem, ha tantos seculos-sem uma recreavel villa como Cascaes; sem claras barracas de lona alinhadas á sua beira; sem regatas, sem pescas; sem que senhoras, meigas e de galochas, lhe recolham poeticamente as conchinas na areia; sem que as alegrem, á hora das estrellas, as rebecas de uma Assembléa toda festiva e com gaz-alli mortas, enterradas entre duras serras como entre as cantarias de um tumulo.

-Além era a cidadella de Makeros, disse gravemente o erudito Topsius, al?ado sobre os estribos, alongando o guardasol para a costa azulada do mar. Alli viveu um dos meus Herodes, Antipas, o tetrarcha da Galilêa, filho de Herodes o Grande: alli, D. Raposo, foi degolado o Baptista.

E seguindo a passo para o Jord?o (emquanto o alegre Potte nos fazia cigarros do bom tabaco de Aleppo) Topsius contou-me essa lamentavel historia. Makeros, a mais altiva fortaleza da Asia, erguia-se sobre pavorosos rochedos de basalto. As suas muralhas tinham cento e cincoenta covados d'altura; as aguias mal podiam chegar até onde subiam as suas torres. Por fóra era toda negra e soturna: mas dentro resplandecia de marfins, de jaspes, d'alabastros; e nos profundos tectos de cedro os largos broqueis d'ouro suspensos faziam como as constella??es d'um céo de ver?o. No centro da montanha, n'um subterraneo, viviam as duzentas egoas de Herodes, as mais bellas da terta, brancas como o leite, com clinas negras como o ebano, alimentadas a bolos de mel, e t?o ligeiras que podiam, correr, sem lhes macular a pureza, por sobre um prado de acu?enas. Depois, mais fundo ainda, n'um carcere, jazia Iokanan-que a Igreja chama o Baptista.

-Mas ent?o, esclarecido amigo, como foi essa desgra?a?

-Pois foi assim, D. Raposo… O meu Herodes conhecera em Roma Herodiade, sua sobrinha, esposa de seu irm?o Filippe, que vivia na Italia, indolente e esquecido da Judêa, gozando o luxo latino. Era esplendidamente, sombriamente bella. Herodiade!… Antipas Herodes arrebata-a n'uma galera para a Syria; repudia sua mulher, uma moabita nobre, filha do rei Aretas, que governava o deserto e as caravanas; e fecha-se incestuosamente com Herodiade n'essa cidadella de Makeros. Colera em toda a devota Judêa contra este ultraje á lei do Senhor! E ent?o Antipas Herodes, arteiro, manda buscar o Baptista que prégava no v?o do Jord?o…

-Mas para quê, Topsius?

-Pois para isto, D. Raposo… A vêr se o rude propheta, acariciado, amimado, amollecido pelo louvor e pelo bom vinho de Sichem, approvava estes negros amores, e pela persuas?o da sua voz, dominante em Judêa e Galilêa, os tornava aos olhos dos fieis brancos como a neve do Carmello. Mas, desgra?adamente, D. Raposo, o Baptista n?o tinha originalidade. Santo respeitavel, sim; mas nenhuma originalidade… O Baptista imitava em tudo servilmente o grande propheta Elias; vivia n'um buraco como Elias; cobria-se de pelles de feras como Elias; nutria-se do gafanhotos como Elias; repetia as impreca??es classicas de Elias:-e como Elias clamára contra o incesto d'Achab, logo o Baptista trovejou contra o incesto de Herodiade. Por imita??o, D. Raposo!

-E emmudeceram-no com a masmorra!

-Qual! Rugiu peor, mais terrivelmente! E Herodiade escondia a cabe?a no manto para n?o ouvir esse clamor de maldi??o, sahido do fundo da montanha.

Eu balbuciei, com uma lagrima a amollentar-me a palpebra:

-E Herodes mandou ent?o degolar o nosso bom S. Jo?o!

-N?o! Antipas Herodes era um frouxo, um tibio… Muito lubrico, D. Raposo, infinitamente lubrico, D. Raposo! Mas que indecis?o!… Além d'isso, como todos os galileus, tinha uma secreta fraqueza, uma irremediavel sympathia por prophetas. E depois arreceava a vingan?a de Elias, o patrono, o amigo d'Iokanan… Porque Elias n?o morreu, D. Raposo. Habita o céo, vivo, em carne, ainda coberto de farrapos, implacavel, vociferador e medonho…

-Safa! murmurei, arripiado.

-Pois ahi está… Iokanan ia vivendo, ia rugindo. Mas sinuoso e subtil é o odio da mulher, D. Raposo. Chega, no mez de Schebat, o dia dos annos de Herodes. Ha um vasto festim em Makeros, a que assistia Vitellius, ent?o viajando na Syria. D. Raposo lembra-se do crasso Vitellius que depois foi senhor do mundo… Pois á hora em que pelo ceremonial das Provincias Tributarias se bebia á saude de Cesar e de Roma, entra subitamente na sala, ao som dos tamborinos e dan?ando á maneira de Babylonia, uma virgem maravilhosa. Era Salomé, a filha de Herodiade e de seu marido Filippe, que ella educára secretamente em Cesarea, n'um bosque, junto do Templo d'Hercules. Salomé dan?ou, núa e deslumbrante. Antipas Herodes, inflammado, estonteado de desejo, promette dar tudo o que ella pedisse pelo beijo dos seus labios… Ella toma um prato d'ouro, e tendo olhado a m?i, pede a cabe?a do Baptista. Antipas, aterrado, offerece-lhe a cidade de Tiberiade, thesouros, as cem aldeias de Genesareth… Ella sorriu, olhou a m?i: e outra vez, incerta e gaguejando pediu a cabe?a de Iokanan… Ent?o todos os convivas, Saducceus, Escribas, homens ricos da Decapola, mesmo Vitellius e os romanos, gritaram alegremente: ?Tu prometteste, tetrarca, tu juraste, tetrarca!? Momentos depois, D. Raposo, um negro da Idumea entrou, trazendo n'uma das m?os um alfange, na outra presa pelos cabellos a cabe?a do propheta. E assim acabou S. Jo?o, por quem se canta e se queimam fogueiras n'uma d?ce noite de junho…

Escutando, embevecidos e a passo, estas coisas t?o antigas-avistámos ao longe, na areia fulva, uma sebe de verdura triste e da c?r do bronze. Potte gritou: ?o Jord?o! o Jord?o!? E arrebatadamente galopámos para o rio da Escriptura.

O festivo Potte conhecia, á beira da corrente baptismal, um sitio deleitosissimo para uma sesta christ?: e ahi passamos as horas quentes, recostados n'um tapete, languidos, e bebendo cerveja, depois de bem esfriada nas aguas do rio santo. Elle faz alli um claro, suave remanso, a repousar da lenta, abrazada jornada que traz, através do deserto, desde o lago de Galilêa: e antes de mergulhar para sempre no amargor do Mar Morto-alli pregui?a, espraiado sobre a areia fina; canta baixo e cheio de transparencia, rolando os seixos lustrosos do seu leito; e dorme nos sitios mais frescos, immovel e verde, á sombra dos tamarindos… Por sobre nós rumorejavam as folhas dos altos choupos da Persia: entre as hervas balan?avam-se fl?res desconhecidas, das que toucavam outr'ora as tran?as das virgens de Canaan em manh?s de vindima; e na escurid?o fofa das ramagens, onde já as n?o vinha assustar a voz terrivel de Jehovah, gorgeavam pacificamente as toutinegras. Defronte elevavam-se azues e sem mancha, como feitas d'um só bloco de pedra preciosa, as montanhas de Moab. O céo branco, mudo, recolhido, parecia descan?ar deliciosamente do duro tumulto que o agitou quando alli vivia, entre preces e mortandades, o sombrio Povo de Deus: e onde constantemente batiam as azas dos Seraphins, e fluctuavam as roupagens dos prophetas arrebatados pelo Altissimo, era calmante vêr agora passar apenas uma revoada de pombos bravos, voando para os pomares d'Engaddi.

Obedecendo á recommenda??o da titi, despi-me, e banhei-me nas aguas do Baptista. Ao principio, enleado de emo??o beata, pisei a areia reverentemente como se fosse o tapete d'um altar-mór: e de bra?os cruzados, nú, com a corrente lenta a bater-me os joelhos, pensei em S. Jo?osinho, susurrei um padre-nosso. Depois ri, aproveitei aquella bucolica banheira entre arvores; Potte atirou-me a minha esponja; e ensaboei-me nas aguas sagradas, trauteando o fado da Adelia.

Ao refrescar, quando montavamos a cavallo, uma tribu de beduinos, descendo das collinas de Galgalá, trouxe os seus rebanhos de camêlos a beber ao Jord?o; as crias brancas e felpudas corriam, balando; os pastores, de lan?a alta, soltando gritos de batalha, galopavam, n'um amplo esvoa?ar d'albornozes; e era como se resurgisse em todo o valle, no esplendor da tarde, uma pastoral da idade biblica, quando Agar era mo?a! Teso na sella, com as redeas bem colhidas, eu senti um curto arrepio de heroismo; ambicionava uma espada, uma Lei, um Deus por quem combater… Lentamente alargara-se pela planicie sacra um silencio enlevado. E o mais alto cerro de Moab cobriu-se de um fulgor raro, c?r de rosa e c?r d'ouro, como se n'elle de novo, fugitivamente, ao passar, se reflectisse a face do Senhor! Topsius al?ou a m?o sapiente:

-Aquelle cimo illuminado, D. Raposo, é o Moriah, onde morreu Moysés!

Estremeci. E penetrado pelas emana??es divinas d'essas aguas, d'esses montes, sentia-me forte-e igual aos homens fortes do Exodo. Pareceu-me ser um d'elles, familiar de Jehovah, e tendo chegado do negro Egypto com as minhas sandalias na m?o… Esse alliviado suspiro que trazia a briza vinha das tribus d'Israel, emergindo emfim do deserto! Pelas encostas além, seguida d'uma escolta d'anjos, a Arca dourada descia balan?ada sobre os hombros dos levitas vestidos de linho e cantando. Outra vez nas seccas areias reverdecia a terra da Promiss?o. Jericó branquejava entre as seáras: e através dos palmares cerrados já resoavam em marcha os clarins de Josué!

N?o me contive, arranquei o capacete, soltei por sobre Canaan este urro piedoso:

-Viva Nosso Senhor Jesus Christo! Viva toda a C?rte do Céo!

* * * * *

Cedo, ao outro dia, domingo, o incansavel Topsius partiu, bem enlapisado e bem enguardasolado, a estudar as ruinas de Jericó, essa velha Cidade das Palmeiras que Herodes cobrira de thermas, de templos, de jardins, d'estatuas, e onde passaram os seus tortuosos amores com Cleopatra… E eu, á porta da tenda, escarranchado n'um caixote, fiquei a tomar o meu café, olhando os pacificos aspectos do nosso acampamento. O cozinheiro depennava frangos; o beduino triste areava á beira d'agua o seu pacato alfange; o nosso lindo arrieiro esquecia a ra??o ás egoas para seguir no céo, d'um brilho de saphira, a branca passagem das cegonhas voando aos pares para a Samaria.

Depois puz o capacete, fui vadiar na do?ura da manh?, de m?os nos bolsos, cantarolando um fado meigo. E ia pensando na Adelia e no snr. Adelino… Enroscados na alcova, beijando-se furiosamente, estavam-me talvez chamando carola, emquanto eu passeava alli, nos retiros da Escriptura! áquella hora a titi, de mantelete preto, com o seu ripan?o, sahia para a missa de Sant'Anna: os creados do Montanha, esguedelhados, assobiando, escovavam o pano dos bilhares: e o dr. Margaride, á janella, na pra?a da Figueira, pondo os oculos, abria o Diario de Noticias. ó minha d?ce Lisboa!… Mas ainda mais perto, para além do deserto de Gaza, no verde Egypto, a minha Maricoquinhas n'esse instante estava enchendo o vaso do balc?o com magnolias e rosas; o seu gato dormia no velludo da cadeira; ella suspirava pelo ?seu portuguezinho valente…? Suspirei tambem: mais triste nos labios se me fez o fado triste.

E de repente, olhando, achei-me, como perdido, n'um sitio de grande solid?o e de grande melancolia. Era longe do regato e dos aromaticos arbustos de fl?r amarella; já n?o via as nossas tendas brancas; e diante de mim arredondava-se um ermo árido, livido, de areia, fechado todo por penedos lisos, direitos como os muros d'um po?o-t?o lugubres que a luz loura da quente manh? do Oriente desmaiava alli, mortalmente, desbotada e magoada. Eu lembrava-me de gravuras, assim desoladas, onde um eremita de longas barbas medita um in-folio junto de uma caveira. Mas nenhum solitario aniquilava alli a carne em heroica penitencia. Sómente, ao meio do fero recinto, isolada, orgulhosa, com um ar de raridade e de reliquia, como se as penedias se tivessem amontoado para lhe arranjarem um resguardo de Sacrario-erguia-se uma arvore t?o repellente, que logo me fez morrer nos labios o resto do fado triste…

Era um tronco grosso, curto, atochado e sem nós de raizes, semelhante a uma enorme moca bruscamente cravada na areia: a casca corredia tinha o lustre oleoso de uma pelle negra: e da sua cabe?a entumecida, de um tom de ti??o apagado-rompiam, como longas pernas d'aranha, oito galhos que contei, pretos, molles, lanugentos, viscosos, e armados de espinhos… Depois de olhar em silencio para aquelle monstro, tirei devagar o meu capacete e murmurei:

-Para que viva!

é que me encontrava certamente diante d'uma arvore illustre! F?ra um galho igual (o nono talvez) que, arranjado outr'ora em fórma de cor?a por um centuri?o romano da guarni??o de Jerusalem, ornára sarcastimente, no dia do suplicio, a cabe?a de um carpinteiro de Galilêa, condemnado… Sim, condemnado por andar, entre quietas aldeias e nos santos pateos do Templo, dizendo-se filho de David e dizendo-se filho de Deus, a prégar contra a velha Religi?o, contra as velhas Institui??es, contra a velha Ordem, contra as velhas Fórmas! E eis que esse galho por ter tocado os cabellos incultos do rebelde torna-se divino, sobe aos altares, e do alto enfeitado dos andores faz prostrar no lagedo, á sua passagem, as multid?es enternecidas…

No collegio dos Isidoros, ás ter?as e sabbados, o sebento padre Soares dizia esfuracando os dentes-?que havia, meninos, lá n'um sitio da Judêa…? Era alli! ?…uma arvore que segundo dizem os authores é mesmo d'arripiar…? Era aquella! Eu tinha ante meus frivolos olhos de Bacharel a sacratissima Arvore d'Espinhos!

E logo uma idéa sulcou-me o espirito com um brilho de visita??o celeste… Levar á titi um d'esses galhos, o mais pennugento, o mais espinhoso, como sendo a reliquia fecunda em milagres a que ella poderia consagrar seus ardores de devota e confiadamente pedir as mercês celestiaes! ?Se entendes que mere?o alguma coisa pelo que tenho feito por ti, traze-me ent?o d'esses santos lugares uma santa reliquia…? Assim dissera a snr.^a D. Patrocinio das Neves na vespera da minha jornada piedosa, enthronada nos seus damascos vermelhos, diante da Magistratura e da Igreja, deixando escapar uma baga de pranto sob seus oculos austeros. Que lhe podia eu offerecer mais sagrado, mais enternecedor, mais efficaz, que um ramo da Arvore d'Espinhos, colhido no valle do Jord?o, n'uma clara, rosada manh? de missa?

Mas de repente assaltou-me uma aspera inquieta??o… E se realmente uma virtude transcendente circulasse nas fibras d'aquelle tronco? E se a titi come?asse a melhorar do figado, a reverdecer, mal eu installasse no seu oratorio, entre lumes e fl?res, um d'esses galhos erri?ados de espinhos? ó miserrimo logro! Era eu pois que lhe levava nesciamente o principio milagroso da Saude, e a tornava rija, indestructivel, ininterravel, com os contos de G. Godinho firmes na m?o avara! Eu! Eu que só come?aria a viver-quando ella come?asse a morrer!

Rondando ent?o em torno á Arvore d'Espinhos, interroguei-a, sombrio e rouco: ?Anda, monstro, dize! és tu uma reliquia divina com poderes sobrenaturaes? ou és apenas um arbusto grutesco com um nome latino nas classifica??es de Linneu? Falla! Tens tu, como aquelle cuja cabe?a coroaste por escarneo, o dom de sarar? Vê lá… Se te levo commigo para um lindo Oratorio portuguez, livrando-te do tormento da solid?o e das melancolias da obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o incenso vivo das rosas, a chamma louvadora das velas, o respeito das m?os postas, todas as caricias da ora??o-n?o é para que tu, prolongando indulgentemente uma existencia estorvadora, me prives da rapida heran?a e dos gozos a que a minha carne mo?a tem direito! Vê lá! Se, por teres atravessado o Evangelho, te embebeste de idéas pueris de Caridade e Misericordia, e vaes com ten??o de curar a titi-ent?o fica-te ahi, entre essas penedias, fustigado pelo pó do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina, enfastiado no silencio eterno!… Mas se promettes permanecer surdo ás preces da titi, comportar-te como um pobre galho secco e sem influencia, e n?o interromperes a appetecida decomposi??o dos seus tecidos-ent?o vaes ter em Lisboa o macio agasalho d'uma capella afofada de damascos, o calor dos beijos devotos, todas as satisfa??es de um idolo, e eu hei de cercar-te de tanta adora??o que n?o has de invejar o Deus que os teus espinhos feriram… Falla, monstro!?

O monstro n?o fallou. Mas logo senti perpassar-me na alma, aquietadoramente, com uma consolante fresquid?o de brisa d'estio, o presentimento de que breve a titi ia morrer e apodrecer na sua cova. A Arvore d'Espinhos mandava, pela communica??o esparsa da Natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquelle palpite suave da morte da snr.^a D. Patrocinio-como uma promessa sufficiente de que, transportado para o oratorio, nenhum dos seus galhos impediria que o figado d'essa hedionda senhora inchasse e se desfizesse… E isto foi, entre nós, n'esse ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.

Mas era esta realmente a Arvore d'Espinhos? A rapidez da sua condescendencia fazia-me suspeitar a excellencia da sua divindade. Resolvi consultar o solido, sapientissimo Topsius.

Corri á fonte de Elyseo, onde elle rebuscava pedras, lascas, lixos, restos da orgulhosa Cidade das Palmeiras. Avistei logo o luminoso historiographo acocorado junto a uma po?a d'agua, com os oculos s?fregos, esgarafunhando um peda?o de pilastra negra, meia enterrada no lodo. Ao lado um burro, esquecido da herva tenra, contemplava philosophicamente e com melancolia o afan, a paix?o d'aquelle sabio, de rastos no ch?o, á procura das Thermas de Herodes.

Contei a Topsius o meu achado, a minha incerteza… Elle ergueu-se logo, servi?al, zeloso, presto ás lides do Saber.

-Um arbusto d'espinhos? murmurava, estancando o suor. Ha de ser o Nabka… Banalissimo em toda a Syria! Hasselquist, o botanico, pretende que d'ahi se fez a Cor?a d'Espinhos… Tem umas folhinhas verdes, muito tocantes, em fórma de cora??o, como as da hera… Ah, n?o tem? Perfeitamente, ent?o é o Lycium Spinosum. Foi o que serviu, segundo a tradi??o latina, para a Cor?a d'Injuria… Que quanto a mim a tradi??o é futil; e Hasselquist ignaro, infinitamente ignaro… Mas eu vou já aclarar isso, D. Raposo. Aclarar irrefutavelmente e para sempre!

Abalámos. No ermo, ante a arvore medonha, Topsius, al?ando cathedraticamente o bico, recolheu um momento aos depositos interiores do seu saber-e depois declarou que eu n?o podia levar a minha tia devotissima nada mais precioso. E a sua demonstra??o foi faiscante. Todos os instrumentos da Crucifica??o (disse elle, floreando o guardasol), os Pregos, a Esponja, a Cana Verde, um momento divinisados como materiaes da Divina Tragedia, reentraram pouco a pouco, pelas urgencias da civilisa??o, nos usos grosseiros da vida… Assim, o Prego n?o ficou per eternum na ociosidade dos altares, memorando as Chagas Sacratissimas: a humanidade, catholica e commerciante, foi gradualmente levada a utilisar o prego como uma valiosa ferragem: e tendo trespassado as m?os do Messias, elle hoje segura, laborioso e modesto, as tampas de caix?es impurissimos… Os mais reverentes irm?os do Senhor dos Passos empregam a Cana para pescar; ella entra na folgante composi??o do foguete; e o Estado mesmo (t?o escrupuloso em materia religiosa) assim a usa em noites alegres de nova Constitui??o ou em festivos delirios pelas bodas de Principes… A Esponja, outr'ora embebida no vinagre de sarcasmo e offerecida n'uma lan?a, é hoje aproveitada n'esses irreligiosos ceremoniaes da limpeza-que a Igreja sempre reprovou com odio… Até a Cruz, a Fórma suprema, tem perdido entre os homens a sua divina significa??o. A christandade, depois de a ter usado como lábaro, usa-a como enfeite. A cruz é broche, a cruz é breloque; pende nos collares, tilinta nas pulseiras; é gravada em sinetes de lacre, é incrustada em bot?es de punho;-e a Cruz realmente n'este soberbo seculo pertence mais á Ourivesaria do que pertence á Religi?o…

-Mas a Cor?a d'Espinhos, D. Raposo, essa n?o tornou a servir para mais nada!

Sim, para mais nada! A Igreja recebeu-a das m?os de um proconsul romano-e ella ficou isoladamente e para toda a eternidade na Igreja, commemorando o Grande Ultraje. Em todo este vario Universo ella só encontra um lugar congenere na penumbra das capellas; o seu unico prestimo é persuadir á contri??o. Nenhum joalheiro jámais a imitou em ouro, cravejada de rubis, para ornar um penteado loiro; ella é só Instrumento de Martyrio; e com salpicos de sangue, sobre os caracoes frisados das imagens, inspira infinitamente as lagrimas… O mais astuto Industrial, depois de a retorcer pensativamente nas m?os, restituil-a-hia aos altares como coisa inutil na Vida, no Commercio, na Civilisa??o; ella é só attributo da Paix?o, recurso de tristes, enternecedora de fracos. Só ella, entre os accessorios da Escriptura, provoca sinceramente a ora??o. Quem, por mais adorabundo, se prostraria, a borbulhar de Padre-Nossos, diante d'uma esponja cahida n'uma tina, ou d'uma cana á beira d'um regato?… Mas para a Cor?a d'Espinhos erguem-se sempre as m?os crentes; e a sensa??o da sua deshumanidade passa ainda na melancolia dos Misereres!

Que maior maravilha podia eu levar á titi?…

-Sim, Topsius, meu catita… Os teus dizeres s?o d'oiro puro… Mas a outra, a verdadeira, a que serviu, teria sido tirada d'aqui, d'este tronco? Hein, amiguinho?

O erudito Topsius desdobrou lentamente o seu len?o de quadrados: e declarou (contra a futil tradi??o latina e contra o ignarissimo Hasselquist) que a Cor?a d'Espinhos f?ra arranjada d'uma silva, fina e flexivel, que abunda nos valles de Jerusalem, com que se accende o lume, com que se erri?am as sebes, e que dá uma fl?rzinha r?xa, triste e sem cheiro…

Eu murmurei, succumbido:

-Que pena! A titi fazia tanto gosto que fosse d'aqui, Topsius! A titi é t?o rica!…

Ent?o este sagaz philosopho comprehendeu que ha Raz?es de Familia como ha Raz?es d'Estado-e foi sublime. Estendeu a m?o por cima da arvore, cobrindo-a assim largamente com a garantia da sua sciencia-e disse estas palavras memoraveis:

-D. Raposo, nós temos sido bons amigos… Póde pois afian?ar á senhora sua tia da parte d'um homem que a Allemanha escuta em quest?es de critica archeologica, que o galho que lhe levar d'aqui, arranjado em cor?a, foi…

-Foi?-berrei ancioso.

-Foi o mesmo que ensanguentou a fronte do rabbi Jeschoua Natzarieh, a quem os latinos chamam Jesus do Nazareth, e outros tambem chamam o Christo!…

Fallára o alto saber germanico! Puxei o meu navalh?o sevilhano, decepei um dos galhos. E emquanto Topsius voltava a procurar pelas hervas humidas a cidadella de Cypron e outras pedras de Herodes-eu recolhi ás tendas, em triumpho, com a minha preciosidade. O prazenteiro Potte, sentado n'um sellim, estava moendo café.

-Soberbo galho! gritou elle. Quer-se arranjadinho em cor?a… Fica d'uma devo??o!

E logo, com a sua rara destreza de m?os, o jocundo homem entrela?ou o galho rude em forma de cor?a santa. E t?o parecida! t?o tocante!…

-Só lhe faltam as pinguinhas de sangue! murmurava eu, enternecido.

Jesus! o que a titi se vai babar!

Mas como levariamos para Jerusalem, através dos cerros de Judá, aquelles incommodos espinhos-que, apenas armados na sua fórma Passional, pareciam já avidos de rasgar carne innocente? Para o alegre Potte n?o havia difficuldades; tirou do fundo do seu provido alforge uma fofa nuvem de algod?o em rama; envolveu n'ella delicadamente a Cor?a d'Aggravo, como uma joia fragil; depois com uma folha de papel pardo e um nastro escarlate-fez um embrulho redondo, sólido, ligeiro e nitido… E eu, sorrindo, enrolando o cigarro, pensava n'esse outro embrulho de rendas e la?os de sêda, cheirando a violeta e a amor, que ficára em Jerusalem, esperando por mim e pelo favor dos meus beijos.

-Potte, Potte! gritei, radiante. Nem tu sabes que grossa moeda me vai render esse galhinho, dentro d'esse pacotinho!

Apenas Topsius voltou da sacra fonte d'Elyseo-eu offereci, para celebrar o encontro providencial da Grande Reliquia, uma das garrafas de Champagne, que Potte trazia nos alforges, encarapu?adas d'ouro. Topsius bebeu ?á Sciencia!? Eu bebi ?á Religi?o!? E largamente a espuma de Moet et Chandon regou a terra de Canaan.

á noite, para maior festividade, accendemos uma fogueira: e as mulheres arabes de Jericó vieram dan?ar diante das nossas tendas. Recolhemos tarde, quando por sobre Moab, para os lados de Makéros, a lua apparecia, fina e recurva, como esse alfange d'ouro que decepou a cabe?a ardente d'Iokanan.

O embrulho da Cor?a d'Espinhos estava á beira do meu catre. O lume apagára-se, o nosso acampamento dormia no infinito silencio do Valle da Escriptura… Tranquillo, regalado, adormeci tambem.

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