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   Chapter 12 No.12

A Illustre Casa de Ramires By E?a de Queiroz Characters: 29296

Updated: 2017-12-06 00:02


Quatro annos passaram ligeiros e leves sobre a velha Torre, como v?os d'ave.

N'uma doce tarde dos fins de Septembro, Gracinha, que chegára na vespera de Oliveira acompanhada pelo bom Padre Sueiro, descansava na varanda da sala de jantar, estendida sobre o canapé de palhinha, ainda com um grande avental branco, tapando o vestido até ao pesco?o, um velho avental do Bento. Todo o dia, d'avental, atravez do casar?o, ajudada pela Rosa e pela filha da Crispola, s'esfalfára, arrumando e limpando, com tanto gosto e fervor no trabalho, que ella mesma sacudira o pó a todos os livros da livraria, o seu socegado pó de quatro annos. O Barr?lo tambem se occupára, dando senten?as nas obras da cavallari?a, que a valente egoa da briga da Grainha em breve partilharia com uma egoa ingleza, de meio sangue, comprada em Londres. Tambem Padre Sueiro remexera, pelo Archivo, zelosamente, com um espanejador. E até o Pereira da Riosa, o bom rendeiro, apressava desde madrugada dois mo?os na final limpeza da horta, agora muito cuidada, já com meloal, já com morangal, e duas novas ruas, ambas bordadas de roseiras e recobertas de latada que a parra densa já recobria.

Com efeito a Torre, entre a alvoro?ada alegria de todos, enfeitava a sua velhice-por que no Domingo, depois dos seus quatro annos d'Africa, Gon?alo regressava á Torre.

E Gracinha, estendida no canapé com o seu velho avental branco, sorrindo pensativamente para a quinta silenciosa, para o ceu todo córado sobre Valverde, recordava esses quatro annos, desde a manh? em que abra?ára Gon?alo, suffocada e a tremer, no beliche do Portugal... Quatro annos! Assim passados, e nada mudára no mundo, no seu curto mundo d'entre os Cunhaes e a Torre, e a vida rolára, e t?o sem historia como rola um rio lento n'uma solid?o:-Gon?alo na Africa, na vaga Africa, mandando raras cartas, mas alegres, e com um enthusiasmo de fundador de Imperio; ella nos Cunhaes, e o seu Barr?lo, n'um t?o quieto e costumado viver, que eram quasi d'agita??o os jantares em que reuniam os Mendon?as, os Marges, o coronel do 7, outros amigos, e á noite na sala se abriam duas mezas de panno verde para o voltarete e para o boston.

E n'este manso correr de vida se desfizera mansamente, quasi insensivelmente, a sombria tormenta do seu cora??o. Nem ella agora comprehendia como um sentimento, que atravez das suas anciedades ella justificava, quasi secretamente santificava por o saber unico, e o desejar eterno, assim se sumira, insensivelmente, sem dilacera??es, deixára apenas um leve arrependimento, alguma esfumada saudade, tambem estranheza e confus?o, restos de tanto que ardera, formando uma cinza fina... A success?o das cousas rolára, como o vento ás lufadas n'um campo, e ella rolára, levada com a inercia d'uma folha secca.

Logo depois do derradeiro Natal passado com Gon?alo, André, que ainda os acompanhára á Missa do Gallo e consoára nos Cunhaes, voltou para Lisboa, para essa ?Reforma?, de que se lastimava... No silencio que entre ambos ent?o se alargou, corria já uma frialdade d'abandono... E quando André recolheu a Oliveira, ao seu Governo Civil, partia ella para Amarante, onde a santa m?e do Barr?lo adoecera, com uma vagarosa doen?a d'anemia e velhice, que em Maio a levou para o Senhor.

Em Junho f?ra o commovido embarque de Gon?alo para a Africa,-e no tombadilho do paquete, entre o barulho e as bagagens, um encontro com André, que chegara d'Oliveira, dias antes, e contou muito alegremente do casamento da Mariquinhas Marges. Todo esse ver?o, como o Barr?lo decidira fazer obras consideraveis no velho palacete do Largo d'El-Rei, o passaram na quinta da Murtosa, que ella escolhera por causa da linda matta, dos altos muros de convento. A essa solid?o attribuiu logo o Barr?lo a sua melancolia, a sua magreza, aquelle cansado scismar a que se abandonava, pelos bancos musgosos da matta, com um romance esquecido no rega?o. Para que ella se distrahisse, se fortificasse com banhos do mar, alugou em Setembro, na Costa, o vistoso chalet do commendador Barros. Ella n?o tomou banhos, nem apparecia na praia, á fresca hora das barracas, entre as senhoras sentadas em cadeirinhas baixas:-e só á tarde passeava pelo comprido areal rente á vaga, acompanhada por dous enormes galgos que lhe dera Manoel Duarte. Uma manh?, ao almo?o, ao abrir as Novidades, Barr?lo pulou, com um berro, um espanto. Era a queda inesperada do Ministerio do S. Fulgencio! André Cavalleiro apresentava logo a sua demiss?o pelo telegrapho. E ainda pelas Novidades souberam na Costa que S. Ex.a partira para uma ?longa e pittoresca viagem?, a viagem a Constantinopla, á Asia Menor, que elle annunciára ao jantar nos Cunhaes. Ella abrira um Atlas: com o dedo lento caminhou desde Oliveira até á Syria, por sobre fronteiras e montes: já André lhe parecia desvanecido, n'esses horisontes mais luminosos; fechou o Atlas, pensando simplesmente ?como a gente muda!?

Em Novembro voltaram a Oliveira, n'um sabbado de chuva, e ella na carruagem sentia toda a melancolia e a frialdade do ceu penetrar no seu cora??o. Mas no Domingo acordou com um lindo sol nas vidra?as. Para a missa das onze na Sé, ella estreou um chapéo novo; depois, no caminho para casa da tia Arminda, levantou os olhos para o casar?o do Governo Civil: agora habitava lá outro Governador Civil, o Snr. Santos Maldonado, um mo?o louro que tocava piano.

Na outra primavera o Barr?lo, agora escravisado pela paix?o d'obras, imaginou demolir o Mirante para construir outra estufa, mais vasta, com um repuxo entre palmeiras, que formaria ?um jardim d'inverno catita.?

Os trabalhadores come?aram por esvasiar o Mirante da velha mobilia que o guarnecia desde o tempo do tio Melchior: o immenso divan jazeu dois dias no jardim, encalhado contra uma sebe de buxo, e o Barr?lo, impaciente, com aquelle desusado traste, de molas quebradas, nem o consentiu nas arrecada??es do sot?o, mandou que o queimassem com outras cadeiras partidas, n'uma fogueira de festa, na noute dos annos de Gracinha. E ella andou em torno da fogueira. O estofo poído flammejou, depois o mogno pesado mais lentamente, com um leve fumo, até que uma braza ficou latejando, e a braza escureceu em cinza.

Logo n'essa semana as Lousadas, mais agudas, mais escuras, invadiram uma tarde os Cunhaes-e apenas espetadas no sophá, logo lhe contaram, com um riso feroz nos olhinhos furantes, do grande escandalo, o Cavalleiro! em Lisboa! sem rebu?o! com a mulher do Conde de S. Rom?o! um fazendeiro de Cabo Verde!

N'essa noite, ella escreveu a Gon?alo uma carta muito longa que come?ava:-?Por cá estamos todos bem, e n'este rame-ram costumado...? E com effeito a vida recome?ára, no seu rame-ram, simples, contínua, e sem historia, como corre um rio claro n'uma solid?o.

á porta envidra?ada da varanda o filho da Crispola espreitou-o filho da Crispola, que ficára sempre na Torre, como ?andarilho?, mas crescera muito para fóra da sua antiga jaqueta de bot?es amarellos, usava agora jaquet?es velhos do Snr. Doutor, e já repuxava o bu?o:

-é que está lá em baixo o Snr. Antonio Villalobos, com o Snr. Gouveia e outro senhor, o Videirinha, e perguntam se podem fallar á senhora...

-O Snr. Villalobos! Sim! que subam, que entrem para aqui, para a varanda!

Ao atravessar a sala, onde dous esteireiros d'Oliveira pregavam uma esteira nova, o vozeir?o do Titó já ribombava, notando os ?preparativos da festa...? E quando entrou na varanda a sua face mais barbuda, mais requeimada, rebrilhava com a alegria d'encontrar emfim a Torre despertando d'aquella modorra, em que tudo dentro parecia tristemente apagado, até o lume das ca?arolas:

-Pe?o desculpa da invas?o, prima Gra?a. Mas passamos, de volta d'um passeio dos Bravaes, soubemos que a prima viera com o Barr?lo...

-Oh! gosto immenso, primo Antonio. Eu é que pe?o desculpa d'esta figura, assim despenteada, de grande avental... Mas todo o dia em arranjos, a preparar a casa... E o Snr. Gouveia, como tem passado? N?o o vejo desde a Paschoa.

O administrador, que n?o mudára n'esses quatro annos, escuro, secco, como feito de madeira, sempre esticado na sobrecasaca preta, apenas com o bigode mais amarellado do cigarro, agradeceu á Snr.a D. Gra?a... E passára menos mal, desde a Paschoa. A n?o ser a desavergonhada da garganta...

-E ent?o o nosso grande homem? quando chega? quando chega?

-No Domingo. Estamos todos em alvoro?o... Ent?o n?o se senta, Snr. Videira? Olhe, puxe aquella cadeira de vime. A varanda por ora n?o está arranjada.

Videirinha, logo depois da Elei??o, recebera de Gon?alo o logar promettido, facil e com vagares, para n?o esquecer o viol?o. Era amanuense na Administra??o do Concelho de Villa-Clara. Mas convivia ainda na intimidade do seu chefe, que o utilisava para todos os servi?os, mesmo de enfermeiro, e o mandava sempre com uma auctoridade secca, mesmo ceando ambos no Gago.

Timidamente arrastou a cadeira de vime, que collocou, com respeito, atraz da cadeira do seu Chefe. E depois de tirar as luvas pretas, que agora sempre trazia para real?ar a sua posi??o, lembrou que o comboio chegava ao apeadeiro de Craquêde ás dez e quarenta, n?o trazendo atrazo. Mas talvez o Snr. Doutor apeasse em Corinde, por causa das bagagens...

-Duvido, murmurou Gracinha. Em todo o caso o José está com ten??o de partir de madrugada, para o encontrar na bifurca??o, em Lamello.

-Nós n?o! acudiu o Titó, que se sentára familiarmente no rebordo da varanda. Cá o nosso rancho vae simplesmente a Craquêde. Já é terra da familia, e sitio mais socegado para o vivorio... Mas ent?o esse homem n?o se demorou em Lisboa, prima Gra?a?

-Desde Domingo, primo Antonio. Chegou no Domingo, de Paris, pelo Sud-Express. E teve uma chegada brilhante... Oh! muito brilhante! Hontem recebi eu uma carta da Maria Mendon?a, uma grande carta em que conta...

-O que? A prima Maria Mendon?a está em Lisboa?

-Sim, desde os fins d'Agosto, n'uma visita a D. Anna Lucena...

Vivamente, Jo?o Gouveia puxou a cadeira, n'uma curiosidade que de certo o remoera:

-é verdade, Snr.a D. Gra?a!-Ent?o parece que a D. Anna Lucena comprou uma casa em Lisboa. anda em arranjos de mobilia?... V. Ex.a ouviu, Snr.a D. Gra?a?

N?o, Gracinha n?o sabia. Mas era natural, agora que tanto se demorava em Lisboa, pouco se aproveitava da Feitosa, t?o linda quinta...

-Ent?o casa! exclamou o Gouveia, com immensa convic??o. Se anda em arranjos de mobilia, ent?o casa. é natural, quer posi??o. Depois, já lá v?o quatro annos de viuvez, e...

Gracinha sorriu. Mas o Titó, que co?ava lentamente a barba, voltou á carta da prima Maria Mendon?a, contando a chegada.

-Sim! acudiu Gracinha, conta, esteve na Esta??o, no Rocio. Parece que o Gon?alo optimo, mais forte... Olhe, primo Antonio, leia a carta. Leia alto! N?o tem segredos. é toda sobre o Gon?alo...

Tirára do bolso um pesado enveloppe, com sinete d'armas no lacre. Mas a prima Maria escrevia sempre depressa, n'uma lettra atabalhoada, com as linhas crusadas. Talvez o primo Antonio n?o comprehendesse...-E com effeito, deante das quatro folhas de papel erri?adas de negras linhas, parecendo uma sebe espinhosa, o Titó recuou, aterrado. Mas o Jo?o Gouveia immediatamente se offereceu, com a sua pericia em decifrar officios de regedores... N?o havendo segredos.

-N?o, n?o ha segredos, afian?ou Gracinha, rindo. é unicamente sobre o Gon?alo, como n'um jornal.

O administrador folheou a immensa carta, passou os dedos sobre o bigode, com certa solemnidade:

?Minha querida Gra?a... A costureira do Silva diz que o vestido...?

-N?o! acudiu Gracinha. é na outra pagina, no alto. Volte a pagina.

Mas o Administrador gracejou, ruidosamente. Oh! está claro, carta de senhora, logo os trapos... E a Snr.a D. Gra?a a assegurar que era toda sobre Gon?alo. Pois já veriam se pelo meio se n?o fallava ainda em vestidos... Ah! estas senhoras, com os trapos!...-Depois recome?ou, na outra pagina, com lentid?o e gravidade:

?...Deves agora estar anciosa por saber da grande chegada do primo Gon?alo. Foi realmente brilhante, e parecia uma recep??o de pessoa real. Eramos mais de trinta amigos. Está claro, appareceu toda a roda da nossa parentella; e se rebentasse de repente n'essa manh? uma revolu??o, os Republicanos apanhavam alli junta, na esta??o do Rocio, toda a fl?r da nobresa de Portugal, da velha, da boa. De senhoras, era a prima Chellas, a tia Louredo, as duas Esposendes (com o tio Esposende, que apesar do rheumatismo e da vindima, veiu expressamente da quinta de Torres), e eu. Homens, todos. E como estava o Conde de Arega, que é secretario d'El-Rei e o primo Olhalvo, que é o seu Mordomo-Mór, e o Ministro da Marinha e o Ministro das Obras Publicas, ambos condiscipulos e intimos de Gon?alo, as pessoas na esta??o deviam imaginar que chegava El-Rei. O Sud-Express trouxe quarenta minutos de demora. De modo que parecia um sal?o, com toda aquella gente da sociedade, muito alegre, e o primo Arega, sempre t?o amavel e engra?ado, e fazendo já convites para um jantar (que depois deu) ao primo Gon?alo. Lá fui a esse jantar com o meu vestido verde, novo, que ficou bem...?

Gouveia gritou triumphando:

-Hein? que disse eu?! cá está vestido. Vestido verde!

-Lê para deante, homem! bramou o Titó.

E o Administrador, realmente interessado, recome?ou, com entono:

?...com o meu vestido verde novo, excepto a saia, um pouco pesadota. Creio que fui eu a primeira que avistou o primo Gon?alo, na plataforma do Sud-Express. N?o imaginas como vem... optimo! Até mais bonito, e sobretudo mais homem. A Africa nem de leve lhe tostou a pelle. Sempre a mesma brancura. E d'uma elegancia, d'um apuro! Prova de como se adeanta a civilisa??o d'Africa! dizia o primo Arega, este é estylo novo de tangas em Macheque!... Como imaginas, muito abra?o, muita beijoca. A tia Louredo choramigou. Ah, já esquecia! Estava tambem o Visconde de Rio-Manso, com a filha, a Rosinha. Muito linda ella, com um vestido do Redfern, fez sensa??o. Todos me perguntavam quem era, e o conde d'Arega, está claro, logo com appetite de ser apresentado. O Rio-Manso tambem choramigou ao abra?ar o primo Gon?alo. E ali viemos todos, em nobre sequito, pela esta??o fóra, entre o pasmo dos povos. Mas immediatamente uma scena. De repente, no meio de toda aquella nata de braz?es, o primo Gon?alo rompe e cahe nos bra?os do homemzinho de bonet agaloado que recebia á porta os bilhetes. Sempre o mesmo Gon?alo! Parece que o conheceu ao chegar a Louren?o Marques, onde o homem tratava de se estabelecer como photographo. Mas já esquecia o melhor-o Bento! N?o imaginas o Bento... Magnifico! Deixou crescer um bocado de suissa. é um modelo, vestido em Londres, de grande cas

aco de viagem de panno claro, até aos pés, luvas amarelladas, gravidade immensa. Gostou de me vêr na esta??o-perguntou logo, com o olho humido, pela Snr.a D. Gra?a, e pela Rosa. á noite, o José e eu jantamos em familia, com o primo Gon?alo, no Bragan?a, para conversar da Torre e dos Cunhaes. Elle contou muitas cousas interessantes d'Africa. Traz notas para um livro, e parece que o praso prospera. N'estes poucos annos plantou dois mil coqueiros. Tem tambem muito cacau, muita borracha. Gallinhas s?o aos milhares. é verdade que uma gallinha gorda em Macheque vale um pataco. Que inveja! Aqui em Lisboa custa seis tost?es, só com ossos-por que tendo tambem alguma carne no peito, salta para cá dez tost?es, e agradece! No praso já se construiu uma grande casa, proximo do rio, com vinte janellas e pintada de azul. E o primo Gon?alo declara que já n?o vende o praso nem por oitenta contos. Para felicidade completa até achou um excellente administrador. Eu todavia duvido que elle volte para a Africa. Tenho agora cá a minha linda ideia sobre o futuro do primo Gon?alo. Talvez te rias. E n?o adivinhas... com effeito, eu mesma só n'essa noite em que jantamos no Bragan?a, recebi de repente a inspira??o. O Rio-Manso está tambem no Bragan?a. Quando desciamos para o jantar, para um gabinete, encontramos no corredor o velho com a pequena. O homem tornou logo a abra?ar Gon?alo, com uma ternura de pae. E a Rosinha t?o vermelha se fez, que até Gon?alo, apesar de excitado e distrahido, notou e córou de leve. Parece que já ha entre elles um conhecimento antigo, por causa d'um cesto de rosas, e que, desde annos, o Destino os anda surrateiramente chegando. Ella é realmente uma belleza. E t?o sympathica, t?o bem educada!... Differen?a d'edade, apenas onze annos; e o dote tremendo. Fallam em quinhentos contos. Ha apenas a quest?o de sangue e o d'ella, coitadinha... Emfim, como se diz em heraldica,-?o Rei faz a pastora Rainha.? E os Ramires, n?o só vem dos Reis, mas os Reis vem dos Ramires.-E agora passando a assumpto menos interessante...?

Discretamente Jo?o Gouveia dobrou a carta, que entregou a Gracinha, louvando a Snr.a D. Maria Mendon?a como um ?reporter? precioso. Depois, com um cumprimento:

-E, minha senhora, se as previs?es d'ella se realisam...

Mas n?o! Gracinha n?o acreditava! Ora! imagina??es da Maria Mendon?a.

-O primo Antonio bem a conhece, sabe como ella é casamenteira...

-Pois se até a mim me quiz casar, ribombou o Titó saltando do rebordo da varanda. Imagine a prima... Até a mim! Com a viuva Pinho, da loja de pannos.

-Credo!

Mas o Gouveia insistia, com superioridade, um sentimento verdadeiro da vida positiva:

-Olhe, Snr.a D. Gra?a, acredite V. Ex.a, sempre era melhor arranjo para o Gon?alo que a Africa... Eu n?o acredito n'esses prazos... Nem na Africa. Tenho horror á Africa. Só serve para nos dar desgostos. Boa para vender, minha senhora! A Africa é como essas quintarolas, meio a monte, que a gente herda d'uma tia velha, n'uma terra muito bruta, muito distante, onde n?o se conhece ninguem, onde n?o se encontra sequer um estanco; só habitada por cabreiros, e com sez?es todo o anno. Boa para vender.

Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:

-O quê! vender o que tanto custou a ganhar, com tantos trabalhos no mar, tanta perda de vida e fazenda?!

O Administrador protestou logo, com calor, já enristado para a controversia:

-Quaes trabalhos, minha senhora? Era desembarcar alli na areia, plantar umas cruzes de pau, atirar uns safan?es aos pretos... Essas glorias d'Africa s?o balelas. Está claro, V. Ex.a falla como fidalga, neta de fidalgos. Mas eu como economista. E digo mais...

O seu dedo agudo amea?ava argumentos agudos.

Titó acudiu, salvou Gracinha:

-Oh Gouveia, nós estamos a tirar o tempo á prima Gra?a, que anda nos seus arranjos. Essas quest?es d'Africa s?o para depois, com o Gon?alo, á sobremeza... E ent?o, minha querida prima, até Domingo, em Craquêde. Lá comparece o rancho todo. E quem atira os foguetes sou eu!

Mas Gouveia, cofiando o c?co com a manga, ainda esperava converter a Snr.a D. Gra?a ás ideias s?s, sobre Politica Colonial.

-Era vender, minha senhora, era vender! Ella sorria, já consentia-tomando a m?o do Videirinha, que hesitava, com os dedos espetados:

-E ent?o, Snr. Videira, tem agora algumas quadras novas para o Fado?

Córando, Videirinha balbuciou que ?arranjára uma coisita, tambem n'um fado, para a volta do Snr. Doutor.? Gracinha prometteu decorar, para cantar ao piano.

-Muito agradecido a V. Ex.a... Creado de V. Ex.a...

-Ent?o até Domingo, primo Antonio... Está uma tarde linda.

-Até Domingo, em Craquêde, prima.

Mas á porta envidra?ada, Jo?o Gouveia parou mais teso, bateu na testa:

-Já me esquecia, desculpe V. Ex.a! Recebi uma carta do André Cavalleiro, da Figueira da Foz. Manda muitas saudades ao Barr?lo. E quer saber se o Barr?lo lhe poderia ceder d'aquelle vinho verde de Vidainhos. é tambem para um africanista, para o conde de S. Rom?o... Parece que a Snr.a condessa se péla por vinho verde!

E os tres amigos, em fila, atravessaram a sala de jantar, onde o vozeir?o do Titó ainda ribombou, louvando a esteira nova de c?res. No corredor, Videirinha espreitou para a Livraria, notou o molho de penas de pato espetado no velho tinteiro de lat?o, que esperava, rebrilhando solitariamente sobre a mesa nua sem papeis nem livros. Depois a Rosa appareceu á porta do quarto de Gon?alo, ajoujada de roupa, com um riso em cada ruga da sua face redonda e c?r de tijolo, que o farto len?o de cambraia, muito branco, circumdava como um nimbo. O Titó affagou carinhosamente o hombro da boa cosinheira:

-Ent?o, tia Rosa, agora recome?am essas grandes petisqueiras, hein?

-Louvado seja Deus, Snr. D. Antonio! Que imaginei que n?o tornava a vêr o meu rico senhor. Tambem já tinha decidido... Se me enterrassem o corpo aqui em Santa Ireneia, antes de eu vêr o menino, a alma com certesa ia á Africa para lhe fazer uma visita.

Os seus miudos olhos piscaram, lagrimejando de gosto-e seguiu pelo corredor, tesa e decidida, com a sua trouxa que rescendia a ma?? camoeza. O Gouveia murmurára com uma careta:-?Safa!? E os tres amigos desceram ao pateo onde, por curiosidade do Titó, visitaram as obras da cavallari?a.

-Veja você! exclamou elle para o Gouveia, que accendia o charuto. Você a negar!... Mobilias, obras, egoa ingleza... Tudo já dinheiro d'Africa.

O Administrador encolheu os hombros:

-Veremos depois como elle traz o figado...

Deante do port?o o Titó ainda parou a colher, na roseira costumada, uma rosinha para florir o jaquet?o de velludilho. E juntamente entrava o Padre Sueiro, recolhendo d'uma volta pelos Bravaes, com o seu grande guarda-sol de panninho e o seu breviario. Todos acolheram com carinho o santo e douto velho, t?o raro agora na Torre.

-E ent?o no Domingo, cá temos o nosso homem, Padre Sueiro!

O capell?o achatou sobre o peito a m?o gorda, com reverencia, com gratid?o...

-Deus ainda me quiz conceder, na minha velhice, mais esse grande favor... Pois mal o esperava. Terras t?o asperas, e elle t?o delicado...

E para conversar de Gon?alo, da espera em Craquêde, acompanhou aquelles senhores até á ponte da Portella. Jo?o Gouveia manquejava, aperreado por umas infames botas novas que n'essa manh? estreára. E descan?aram um momento no bello banco de pedra que o pae de Gon?alo mandára collocar, quando Governador Civil d'Oliveira. Era esse o doce sitio d'onde se avista Villa-Clara, t?o aceada, sempre t?o branca, áquella hora toda rosada, d'esde o vasto convento de Santa Theresa até ao muro novo do cemiterio no alto, com os seus finos cyprestes.

Para além dos outeiros de Valverde, longe, sobre a Costa, o sol descia, vermelho como um metal candente que arrefece, entre nuvens vermelhas, accendendo ainda, em ouro coruscante, as janellas da Villa.

Ao fundo do valle, uma claridade nimbava as altas ruinas de Santa Maria de Craquêde, entre o seu denso arvoredo. Sob o arco, o rio cheio corria sem um rumor, já dormente na sombra dos choupos finos, onde ainda passaros cantavam. E na volta da estrada, por cima dos alamos que escondiam o casar?o, a velha Torre, mais velha que a Villa e que as ruinas do Mosteiro, e que todos os casaes espalhados, erguia o seu esguio miradoiro, envolto no v?o escuro dos morcegos, espreitando silenciosamente a planicie e o sol sobre o mar, como em cada tarde d'esses mil annos, desde o Conde Ordonho Mendes.

Um pequeno com uma alta aguilhada passou, recolhendo duas vaccas lentas. Do lado da Villa, o padre José Vicente da Finta trotou na sua egoa branca, saudou o Snr. Administrador, o amigo Sueiro, aben?oando tambem a chegada do Fidalgo para quem já preparára uma bella cesta da sua uva moscatel. Trez ca?adores, com uma matilha de coelheiras, atravessaram a estrada, descendo pelo portello á quelha que contorna o casal do Miranda.

Um silencio ainda claro, de immenso repouso, t?o doce como se descesse do ceu, cobria a largueza povoada dos campos, onde n?o se movia uma folha, na macia transparencia do ar de Setembro. Os fumos das lareiras accesas já se escapavam, lentos e leves, d'entre a telha rala. Na loja do Jo?o ferreiro, adeante da Portella, o clar?o da forja avivou, mais vermelho. Um bum-bum de tambor bateu festivamente para o lado dos Bravaes, cresceu apressado, marchando:-n'algum cabe?o, depois lentamente se afastou, esmoreceu, logo sumido, em arvoredos ou no valle mais fundo.

Jo?o Gouveia, que se recostára no canto do largo assento de pedra, com o seu c?co sobre os joelhos, acenou para o lado dos Bravaes:

-Estou a lembrar aquella passagem do romance do Gon?alo, quando os Ramires se preparam para soccorrer as Infantas, andam a reunir a mesnada. é assim, a estas horas da tarde, com tambores: e por sitios... ?Na frescura do valle...? N?o! ?Pelo valle de Craquêde...? Tambem n?o! Esperem vocês, que eu tenho boa memoria... Ah! ?E por todo o fresco valle até Santa Maria de Craquêde, os atambores mouriscos abafados no arvoredo, tararam! tararam! ou mais vivos nos cerros ralatam! ralatam! convocavam á mesnada dos Ramires, na do?ura da tarde...? E lindo!

Por sobre as costas do Titó que, debru?ado, riscava pensativamente com o bengal?o a poeira da estrada, Videirinha adeantou para o seu chefe a face estendida, com um sorriso de finura:

-Oh Snr. Administrador, olhe que talvez seja ainda mais bonito, quando os Ramires largam a perseguir o Bastardo! Cá para mim, tem mais poesia. Quando o velho faz aquella jura com a espada e depois lá na Torre, muito devagar, come?a a tocar a finados... é d'appetite!

á borda do assento, encolhido contra o Titó, para que o Snr. Administrador se alastrasse confortavelmente, Padre Sueiro, com as m?os no cabo do seu guarda-sol, concordou:

-Com certesa! s?o lances interessantes... Com certesa! N'aquella novella ha imagina??o rica, muito rica: e ha saber, ha verdade.

O Titó, que depois de Sim?o de Nantua, em pequeno, n?o abrira mais as folhas d'um livro, e n?o lêra a Torre de D. Ramires, murmurou, com um risco mais largo na poeira:

-Extraordinario, aquelle Gon?alo!

O Videirinha n?o findára o seu enlevado sorriso:

-Tem muito talento... Ah! o Snr. Doutor tem muito talento.

-Tem muita ra?a! exclamou o Titó, levantando a cabe?a. E é o que o salva dos defeitos... Eu sou um amigo de Gon?alo, e dos firmes. Mas n?o o escondo, nem a elle... Sobretudo a elle. Muito leviano, muito incoherente... Mas tem a ra?a que o salva.

-E a bondade, Snr. Antonio Villalobos! atalhou docemente Padre Sueiro. A bondade, sobretudo como a do Snr. Gon?alo, tambem salva... Olhe, ás vezes ha um homem muito serio, muito puro, muito austero, um Cat?o que nunca cumpriu sen?o o dever e a lei... E todavia ninguem gosta d'elle, nem o procura. Por que? Por que nunca deu, nunca perdoou, nunca acarinhou, nunca serviu. E ao lado outro leviano, descuidado, que tem defeitos, que tem culpas, que esqueceu mesmo o dever, que offendeu mesmo a lei... Mas quê? é amoravel, generoso, dedicado, servi?al, sempre com uma palavra doce, sempre com um rasgo carinhoso... E por isso todos o amam, e n?o sei mesmo, Deus me perd?e, se Deus tambem o n?o prefere...

A curta m?o que acenára para o ceu, recahiu sobre o cabo d'osso do guarda-sol. Depois, e córado com a temeridade de pensamento t?o espiritual acudiu cautelosamente:

-Que esta n?o é propriamente doutrina da Egreja!... Mas anda nas almas; anda já em muitas almas.

Ent?o Jo?o Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o c?co á banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:

-Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gon?alo Mendes. E sabem vocês, sabe o Snr. Padre Sueiro quem elle me lembra?

-Quem?

-Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhan?a. Aquelle todo de Gon?alo, a franqueza, a do?ura, a bondade, a immensa bondade, que notou o Snr. Padre Sueiro... Os fogachos e enthusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistencia, muito aferro quando se fila á sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negocios, e sentimentos de muita honra, uns escrupulos, quasi pueris, n?o é verdade?... A imagina??o que o leva sempre a exaggerar até á mentira, e ao mesmo tempo um espirito pratico, sempre attento á realidade util. A viveza, a facilidade em comprehender, em apanhar... A esperan?a constante n'algum milagre, no velho milagre d'Ourique, que sanará todas as difficuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade t?o grande, que dá na rua o bra?o a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de t?o palrador, t?o sociavel. A desconfian?a terrivel de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e apparece um heroe, que tudo arrasa... Até aquella antiguidade de ra?a, aqui pegada á sua velha Torre, ha mil annos... Até agora aquelle arranque para a Africa... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem elle me lembra?

-Quem?...

-Portugal.

Os tres amigos retomaram o caminho de Villa-Clara. No ceu branco uma estrellinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquêde. E Padre Sueiro, com o seu guarda-sol sob o bra?o, recolheu á Torre vagarosamente, no silencio e do?ura da tarde, resando as suas Avè-Marias, e pedindo a paz de Deus para Gon?alo, para todos os homens, para campos e casaes adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, t?o cheia de gra?a amoravel, que sempre bemdita fosse entre as terras.

FIM

* * *

A revis?o das provas d'este livro, desde paginas 417 até á conclus?o, n?o foi feita pelo Auctor. Entretanto seguiu-se á risca o original.

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