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   Chapter 11 No.11

A Illustre Casa de Ramires By E?a de Queiroz Characters: 37250

Updated: 2017-12-06 00:02


Quando Gon?alo, estafado e já todo o ardor bruxuleando, retocou este derradeiro tra?o da affronta-a sineta no corredor repicava para o almo?o. Emfim! Deus louvado! eis finda essa eterna Torre de Ramires! Quatro mezes, quatro penosos mezes desde Junho, trabalhára na sombria resurrei??o dos seus avós barbaros. Com uma grossa e carregada lettra, tra?ou no fundo da tira Finis. E datou, com a hora, que era do meio-dia e quatorze minutos.

Mas agora, abandonada a banca onde tanto labutára, n?o sentia o contentamento esperado. Até esse supplicio do Bastardo lhe deixára uma avers?o por aquelle remoto mundo Affonsino, t?o bestial, t?o deshumano! Se ao menos o consolasse a certeza de que reconstituira, com luminosa verdade, o ser moral d'esses avós bravios... Mas que! bem receava que sob desconcertadas armaduras, de pouca exactid?o archeologica, apenas s'esfumassem incertas almas de nenhuma realidade historica!... Até duvidava que sanguesugas recobrissem, trepando d'um charco, o corpo d'um homem, e o sugassem das c?xas ás barbas, em quanto uma hoste mastiga a ra??o!... Emfim, o Castanheiro louvára os primeiros Capitulos. A Multid?o ama, nas Novellas, os grandes furores, o sangue pingando: e em breve os Annaes espalhariam, por todo o Portugal, a fama d'aquella Casa illustre, que armára mesnadas, arrasára castellos, saqueára comarcas por orgulho de pend?o, e affrontára arrogantemente os Reis na curia e nos campos de lide. O seu ver?o, pois, f?ra fecundo. E para o coroar, eis agora a Elei??o, que o libertava das melancolias do seu buraco rural...

Para n?o retardar as visitas ainda devidas aos Influentes, e tambem para espairecer, logo depois d'almoco montou a cavallo-apezar do calor, que desde a vespera, e n'aquelle meado d'outubro, esmagava a aldeia com o refulgente peso d'uma canicula d'Agosto. Na volta da estrada, dos Bravaes um homem gordo, de cal?a branca enxovalhada, que s'apressava, bufando, sob o seu guarda-sol de panninho vermelho, deteve o Fidalgo com uma cortezia immensa. Era o Godinho, amanuense da Administra??o. Levava um officio urgente ao Regedor dos Bravaes, e agora corria á Torre de mandado do Snr. Administrador...

Gon?alo recuou a egoa para a sombra d'uma carvalha:

-Ent?o que temos, amigo Godinho?

O Snr. Administrador annunciava a S. Ex.a que o maroto do Ernesto, o valent?o de Nacejas, em tratamento no Hospital d'Oliveira, melhorára consideravelmente. Já lhe repegára a orelha, a bocca soldava... E, como se procedeu á querella, o patife passava da enfermaria para a cadeia...

Gon?alo protestou logo, com uma palmada no selim:

-N?o senhor! Fa?a o obsequio de dizer ao Snr. Jo?o Gouveia que n?o quero que se prenda o homem! Foi atrevido, apanhou uma dóse tremenda, estamos quites.

-Mas Snr. Goncalo Mendes...

-Pelo amor de Deus, amigo Godinho! N?o quero, e n?o quero... Explique bem ao Snr. Jo?o Gouveia... Detesto vingan?as. N?o est?o nos meus habitos, nem nos habitos da minha familia. Nunca houve um Ramires que se vingasse... Quero dizer, sim, houve, mas... Emfim explique bem ao Snr. Jo?o Gouveia. De resto eu logo o encontro, na Assembleia... Bem basta ao homem ficar desfeiado. N?o consinto que o apoquentem mais!... Detesto ferocidades.

-Mas...

-Esta é a minha decis?o, Godinho.

-Lá darei o recado de V. Ex.a

-Obrigado. E adeus!... Que calor, hein!

-De rachar, Snr. Gon?alo Mendes, de rachar!

Gon?alo seguiu, revoltado pela ideia de que o pobre valent?o de Nacejas, ainda moído, com a orelha mal soldada, baixasse á sordida enxovia de Villa-Clara, para dormir sobre uma taboa. Pensou mesmo em galopar para Villa-Clara, reter o zelo legal do Jo?o Gouveia. Mas perto, adeante do lavadoiro, era a casa d'um Influente, o Jo?o Firmino, carpinteiro e seu compadre. E para lá trotou, apeando ao portal do quinteiro. O compadre Firmino largára cedo para a Arribada, onde trabalhava nas obras do lagar do Snr. Esteves. E foi a comadre Firmina que correu da cosinha, obesa e lusidia, com dous pequenos dependurados das saias e mais sujos que esfreg?es. O Fidalgo beijou ternamente as duas faces ramelosas:

-E que rico cheiro a p?o fresco, oh comadre! Foi a fornada, hein? Pois ent?o grande abra?o ao Firmino. E que se n?o esque?a! A Elei??o vem para o outro Domingo. Lá conto com o voto d'elle. E olhe que n?o é pelo voto, é pela amisade.

A comadre arreganhava os dentes magnificos n'um regalado e gordo riso:-?Ai o Fidalgo podia ficar seguro! Que o Firmino já jurára, até ao Snr. Regedor, que para o Fidalgo era todo o sitio a votar, e quem n?o fosse a amor ia a pau.? O Fidalgo apertou a m?o da comadre-que do degrau do quinteiro, com os dous pequenos enrodilhados nas saias, e o gordo riso mais embevecido, seguiu a poeira da egoa como o sulco d'um Rei benefico.

E depois nas outras visitas, ao Cerejeira, ao Ventura da Chiche, encontrou o mesmo fervor, os mesmos sorrisos luzindo de gosto. ?O que! para o Fidalgo! Isso tudo! E nem que fosse contra o Governo!?-Na tasca do Manoel da Adega, um rancho de trabalhadores bebia, já ruidoso, com as jaquetas atiradas para cima dos bancos: o Fidalgo bebeu com elles, galhofando, gosando sinceramente a pinga verde e o barulho. O mais velho, um avej?o escuro, sem dentes, e a face mais engilhada que uma ameixa secca, esmurrou com euthusiasmo o balc?o:-?Isto, rapazes, é fidalgo que, quando um pobre de Christo escalavra a perna, lhe empresta a egoa, e vae elle ao lado mais d'uma legua a pé, como foi com o S?lha! Rapazes! isto é Fidalgo para a gente ter gosto!? As saudes atroaram a venda. E quando Gon?alo montou, todos o cercavam como vassallos ardentes, que a um aceno correriam a votar,-ou a matar!

Em casa do Thomaz Pedra, a avó Anna Pedra, uma velha entrevada, muito velha e tremula, rompeu a choramigar por o seu Thomaz andar para o Olival quando o Fidalgo o visitava. ?Que aquillo era como visita de santo!?

-Ora essa, tia Pedra! Peccador, grande peccador!

Dobrada na cadeirinha baixa, com as farripas brancas descendo do len?o, pela face toda chupada de gelhas e pelluda, a tia Anna bateu no joelho agudo:

-N?o senhor! n?o senhor! que quem mostrou aquella caridade pelo filho do Casco, merece estar em altar!

O Fidalgo ria, beijocava pequenadas encardidas, apertava m?os asperas e rugosas como raizes, accendia o cigarro á braza das lareiras, conversando, com intimidade, das molestias e dos derri?os. Depois, no calor e pó da estrada, pensava:-?é curioso! parece haver amisade, n'esta gente!?

ás quatro horas, derreado, decidiu cessar o giro, recolher á Torre pela estrada mais fresca da Bica Santa. E passára o logarejo do Cerdal, quando na volta aguda do Caminho, rente ao souto de azinheiros, quasi esbarrou com o Dr. Julio, tambem a cavallo, tambem no seu giro, de quinzena d'alpaca, alagado em suor, debaixo d'um guarda-sol de sêda verde. Ambos detiveram as egoas, se saudaram amavelmente.

-Muito gosto em o vêr, Snr. Dr. Julio...

-Egualmente, com muita honra, Snr. Gon?alo Ramires...

-Ent?o tambem na tarefa?...

O Dr. Julio encolheu os hombros:

-Que quer V. Ex.a? Se me metteram n'esta! E sabe V. Ex.a como isto acaba?... Acaba em eu mesmo, no outro Domingo, votar em V. Ex.a.

O Fidalgo riu. Ambos se debru?aram, para se apertarem as m?os com alegria, com estima.

-Que calor este, Snr. Dr. Julio!

-Horroroso, Snr. Gon?alo Ramires... E que massada!

Assim o Fidalgo empregou essa semana nas visitas aos Eleitores-?os grandes e os miudos.? E dois dias antes da Elei??o, n'uma sexta-feira á tarde, com um tempo já macio e fresco, partiu para Oliveira-onde chegára, na vespera, o André Cavalleiro, depois da sua t?o longa, t?o fallada demora em Lisboa.

Nos Cunhaes, apenas saltára da caleche, logo se enfureceu ao saber, pelo bom Jo?o da Porta-?que as Snr.as Louzadas estavam em cima, de visita, com a Snr.a D. Gra?a...?

-Ha muito?

-Já lá est?o pegadas ha meia hora boa, meu senhor.

Gon?alo enfiou surrateiramente para o seu quarto, pensando:-?Que desavergonhadas! Chegou o André, veem logo cocar!? E já se lavára, mudára o fato cinzento,-quando o Barr?lo appareceu, esbaforido, desusadamente radiante, de sobrecasaca, de chapeu alto, com as bochechas accesas, alvoro?adamente radiantes:

-Eh, seu Barr?lo, que janota!

-Parece bruxedo! gritou o Barr?lo, depois d'um abra?o, que repetiu, com desacostumado fervor. Estava agora mesmo para te mandar um telegramma, que viesses...

-Para quê?

O Barr?lo gaguejou, com um riso reprimido que o illuminava, o inchava:

-Para quê? P'ra nada... Quero dizer, para a Elei??o! Pois a Elei??o é além d'ámanh?, menino! O Cavalleiro chegou hontem. Agora volto eu do Governo Civil. Estive no Pa?o com o Snr. Bispo, depois passei pelo Governo Civil... Optimo, o André! Aparou o bigode, parece mais mo?o. E traz novidades... Traz grandes novidades!

E o Barr?lo esfregava as m?os, n'um t?o faiscante alvoro?o, com tanto riso escapando dos olhos e da face relusente, que o Fidalgo o encarou curioso, impressionado:

-Ouve lá, Barrolinho! Tu tens alguma cousa boa para me annunciar?

Barr?lo recuou, negou com estrondo, como quem bruscamente fecha uma porta. Elle? N?o! N?o sabia nada! Só a Elei??o! Na Murtosa vota??o tremenda...

-Ah! pensei, murmurou Goncalo. E a Gracinha?

-A Gracinha tambem n?o!

-Tambem n?o quê, homem? Como está? Simplesmente como está?

-Ah! está com as Louzadas. Ha mais de meia hora, aquellas bebedas!... Naturalmente por causa do Bazar do Asylo Novo... Esta massada dos Bazares... E ouve lá, Gon?alinho! Tu ficas até Domingo?

-N?o, volto ámanh? para a Torre.

-Oh!...

-Pois dia d'Eleic?o, homem! devo estar em casa, no meu centro, no meio das minhas freguezias...

-é pena, murmurou o Barr?lo. Logo se sabia juntamente com a Elei??o... Eu dava um jantar tremendo...

-Logo se sabia, o quê?

O Barr?lo emmudeceu, com outro riso nas bochechas, que eram duas brazas gloriosas. Depois novamente gaguejou, gingando:

-Logo se sabia... Nada! O resultado, o apuramento. E grande brodio, grande foguetorio. Eu, na Murtosa, abro pipa de vinho.

Ent?o Gon?alo risonhamente prendeu o Barr?lo pelos hombros:

-Dize lá, Barrolinho. Dize lá. Tu tens uma cousa boa para contar ao teu cunhado.

O outro escapou, protestando com alarido: Que teima, que tolice. Elle n?o sabia nada. O André n?o lhe contára nada!

-Bem, concluiu o Fidalgo, certo de um amavel mysterio, que pairava. Ent?o descemos. E se essas carra?as das Louzadas ainda estiverem lá pegadas, manda dizer pelo escudeiro á sala, bem alto, á Gracinha, que cheguei, que lhe desejo fallar immediatamente no meu quarto: com esses monstros n?o ha considera??es.

O Barr?lo balbuciou, hesitando:

-O Snr. Bispo gosta d'ellas... Muito amavel commigo, ainda ha pouco, o Snr. Bispo.

Mas, logo nas escadas, sentiram o piano, Gracinha cantarolando. Já se libertára das Louzadas. Era uma antiga can??o patriotica da Vendeia, que outr'ora na Torre, ella e Gon?alo entoavam com emo??o, quando os inflammava o amor fidalgo e romantico dos Bourbons e dos Stuarts:

Monsieur de Charette a dit à ceux d'Ancenes

"Mes Amis!...

Monsieur de Charette a dit...

Gon?alo franziu vagarosamente o reposteiro da sala, rematando a estrophe, com o bra?o erguido como uma bandeira:

"Mes amis!

Le Roy va rammener les Fleurs de Lys!"

Gracinha saltou do mocho, n'uma surpresa.

-N?o te esperavamos! imaginei que passavas a Elei??o na Torre... E por lá?

-Na Torre, tudo bem, com a ajuda de Deus... Mas eu com trabalho immenso. Acabei o meu romance; depois visitas aos Eleitores.

Barr?lo, que n?o socegava pela sala, rompeu para elles, com o mesmo riso suffocado:

-Queres tu saber, Gracinha? Tem estado este homem, desde que chegou, n'uma curiosidade, a ferver. Imagina que eu tenho uma boa nova, uma grande nova para lhe contar... Eu n?o sei nada, a n?o ser a Elei??o! Pois n?o é verdade, Gracinha?

Gon?alo, muito serio, prendeu o queixo da irm?:

-Sabes tu, dize lá.

Ella sorriu, córada... N?o, n?o sabia nada, só a Elei??o.

-Dize lá!

-N?o sei... S?o tolices do José.

Mas ent?o, ante aquelle sorriso fraco, rendido, que confessava-o Barr?lo n?o se conteve, desafogou como um morteiro estoira.-Pois bem! sim! com effeito!-Grande novidade! Mas o André, que a trouxera de Lisboa, fresquinha a saltar, queria elle, só elle, causar a surpresa a Gon?alo...

-De modo que eu n?o posso! Jurei ao André. A Gracinha sabe, que eu já lhe contei hontem... Mas tambem n?o póde, tambem jurou. Só o André. Elle vem logo tomar chá, e rebenta a bomba... Que é uma bomba! e graúda!

Gon?alo, roído de curiosidade, murmurou simplesmente, encolhendo os hombros:

-Bem, já sei, é uma heran?a! Tens quinze tost?es d'alvi?aras, Barr?lo.

Mas durante o jantar e depois na sala tomando café, emquanto Gracinha recome?ára as velhas can??es patrioticas, agora as jacobitas, em louvor dos Stuarts-Gon?alo anciou pela appari??o do Cavalleiro. Nem receava que a esse encontro se misturasse amargura, despeito suffocado. Todo o seu furor contra o Cavalleiro, acceso na dolorosa tarde do Mirante, revolvido na Torre durante torturados dias, logo se dissipára lentamente depois da sua tocante conversa com a irm?, na manh? historica da briga da Grainha. Gracinha ent?o, com grandes lagrimas de pureza e de verdade, jurára reserva, retrahimento. Gon?alo, abandonando Oliveira, mostrava tambem uma resistencia louvavel contra o sentimento ou a vaidade que o transviára. Demais elle n?o podia romper novamente com o Cavalleiro, andando ainda nos mexericos e espantos d'Oliveira aquella reconcilia??o ruidosa que chamára o Cavalleiro á intimidade dos Cunhaes. E por fim de que valiam furores ou magoas? Nenhum rugir ou gemer seu annullariam o mal que se consummára no Mirante-se porventura se consummára. E assim toda a cólera contra o André se dissipára n'aquella sua leve e doce alma, onde os sentimentos, sobretudo os mais escuros, os mais carregados, sempre facilmente se desfaziam como nuvens em ceu de estio...

Mas quando, perto das nove horas, o Cavalleiro penetrou na sala, vagaroso e magnifico, com o bigode encurtado mas mais retorcido, uma gravata vermelha entufando estridentemente no largo peito que entufava, Gon?alo sentiu uma renovada avers?o por toda aquella petulancia recheada de falsidade-e apenas poude bater mollemente, desenxabidamente, nas costas do velho amigo, que o apertava n'um abra?o d'apparatosa ternura. E em quanto André, torcendo as luvas claras, languidamente enterrado na poltrona que o Barr?lo lhe achegou com carinho, contava de Lisboa e de Cascaes, t?o alegre, e partidas de bridge e da Parada e d'El-Rei-Gon?alo revivia a tarde do Mirante, o seu pobre cora??o a bater contra a persiana mal fechada, a bruta supplica murmurada atravez d'aquelles bigodes atrevidos, e emmudecera, como empedernido, esmigalhando nervosamente entre os dentes o charuto apagado. Mas Gracinha conservava uma serenidade attenta, sem nenhum dos seus chammejantes rubores, dos seus desgra?ados enleios de modo e gesto, apenas levemente secca, d'uma seccura preparada e posta. Depois André alludira muito desprendidamente ao seu regresso a Lisboa, depois da Elei??o, ?porque o tio Reis Gomes, o José Ernesto, esses crueis amigos, lhe andavam atirando para os hombros todo o trabalho da Nova Reforma Administrativa.?

Entre elle e Gracinha, separados por um curto tapete, parecia cavada uma funda legua de fosso, onde rolára, se afundára todo aquelle romance do ver?o, sem que na face d'ambos restasse um afogueado vestigio do seu ardor. E Gon?alo, insensivelmente contente pela apparencia, terminou por abandonar a cadeira onde se impedernira, accendeu o charuto na vela do piano, perguntou pelos amigos de Lisboa. Todos (segundo o Cavalleiro) anciavam pela chegada de Gon?alo.

-Lá encontrei tambem o Castanheiro... Enthusiasmado com o teu Romance. Parece que nem no Herculano, nem no Rebello existe nada t?o forte, como reconstruc??o historica. O Castanheiro prefere mesmo o teu realismo epico ao do Flaubert, na Salammb?. Emfim, enthusiasmado! E nós, está claro, ardendo por que appare?a a sublime obra.

O Fidalgo córou profundamente, murmurando-?Que tolice!? Depois ro?ou pela poltrona em que se enterrava o André, afagou suavemente o largo hombro do André:

-Pois, tens feito cá muita falta, meu velho! Ha dias passei em Corinde, tive saudades...

Ent?o o Barr?lo, que n?o socegava, vermelho, a estoirar rebolando pela sala, espiando ora o Cavalleiro, ora o Gon?alo, com um riso mudo e avido, n?o se conteve mais, gritou:

-Bem, basta de prologos... Vamos lá agora á grande surpresa, André! Eu tenho estado toda a tarde a rebentar... Mas emfim, jurei e calei! Agora n?o posso... Vamos lá. E tu, Gon?alinho, vae preparando os quinze tost?es.

Gon?alo, com a curiosidade de novo refervendo, apenas sorria, desprendidamente:

-Com effeito! Parece que tens uma bella novidade.

O Cavalleiro alargou lentamente os bra?os, sempre enterrado na vasta poltrona, sem pressa:

-Oh! é a cousa mais simples, mais natural... A Snr.a D. Gra?a já sabe, n?o é verdade?... N?o ha motivo para surpresa... T?o legitima, t?o natural!

Gon?alo exclamou, já impaciente:

-Mas emfim, venha lá, dize.

O Cavalleiro insistia, indolente. Todo o espanto era que só agora se pensasse em a realisar, cousa t?o devida, t?o adequada. Pois n?o lhe parecia á Snr.a D. Gra?a?

Gon?alo, n'uma braza, berrou:

-Mas quê? que diabo?

O Cavalleiro, que se despegára vagarosamente da poltrona, puxou os punhos, e deante de Gon?alo, no silencio attento, alteando o peito, grave, quasi official, come?ou:

-Meu tio Reis Gomes, e o José Ernesto, tiveram uma ideia muito natural, que communicaram a El-Rei, e que El-Rei approvou... Que approvou mesmo ao ponto de a appetecer, de se assenhorear d'ella, de desejar que fosse só sua. E hoje é só d'El-Rei. El-Rei pois pensou, como nós pensamos, que um dos primeiros fidalgos de Portugal, decerto mesmo o primeiro, devia ter um titulo que consagrasse bem a antiguidade illustre da Casa, e consagrasse tambem o merito superior de quem hoje a representa... Por isso, meu querido Gon?alo, já te posso annunciar, e quasi em nome d'El-Rei, que vaes ser Marquez de Treixedo.

-Bravo! bravo! bramou o Barr?lo, com palmas delirantes. Saltem para cá os quinze tost?es, Snr. Marquez de Treixedo!

Uma onda de sangue cobria a fina face de Gon?alo. N'um relance sentiu que o Titulo era um dom do Cavalleiro, n?o ao chefe da casa de Ramires, mas ao irm?o complacente de Gracinha Ramires... E sobre tudo sentia a incoherencia de que, ao chefe d'uma Casa dez vezes secular, m?e de Dynastias, edificadora do Reino, com mais

de trinta dos seus var?es mortos sob a armadura, se atirasse agora um ouco titulo, atravez do Diario do Governo, como a um tendeiro enriquecido que subsidiou elei??es. Todavia saudou o Cavalleiro, que esperava a effus?o, os abra?os.-Oh! Marquez de Treixedo! certamente muito elegante, muito amavel... Depois, esfregando as m?os, com um sorriso de gra?a e d'espanto... Mas, meu caro André, com que auctoridade me faz El-Rei Marquez de Treixedo?

O Cavalleiro levantou vivamente a cabe?a n'uma offendida surpresa:

-Com que auctoridade? Simplesmente com a auctoridade que tem sobre nós todos, como Rei de Portugal que ainda é, Deus louvado!

E Gon?alo, muito simplesmente, sem fuma?a ou pompa, com o mesmo sorriso de suave gracejo:

-Perd?o, Andrésinho. Ainda n?o havia Reis de Portugal, nem sequer Portugal, e já meus avós Ramires tinham solar em Treixedo! Eu approvo os grandes dons entre os grandes fidalgos; mas cumpre aos mais antigos come?arem. El-Rei tem uma quinta ao pé de Beja, creio eu, o Ronc?o. Pois dize tu a El-Rei, que eu tenho immenso gosto em o fazer, a elle, Marquez do Ronc?o.

O Barr?lo embasbacára, sem comprehender, com as bochechas descahidas e murchas. Da beira do canapé, Gracinha, toda córada, faiscava de gosto, por aquelle lindo orgulho que t?o bem condizia com o seu, mais lhe fundia a alma com a alma do irm?o amado. E André Cavalleiro, furioso, mas vergando os hombros com ironica submiss?o, apenas murmurou:-?Bem, perfeitamente!... Cada um se entende a seu modo...?

O escudeiro entrava com a bandeja do chá.

* * *

E no Domingo foi a Elei??o.

Ainda com uma desconfian?a, uma reserva supersticiosa, o Fidalgo desejou atravessar esse dia muito solitariamente, quasi escondido, e no sabbado, em quanto todos os amigos de Villa-Clara, mesmo os d'Oliveira, o consideravam estabelecido nos Cunhaes, e em communica??o azafamada com o Governo Civil, montou a cavallo ao escurecer, e trotou surrateiramente para Santa Ireneia.

Mas o Barr?lo (ainda abalado com ?aquelle despauterio do Gon?alo, que era uma offensa para o Cavalleiro! até para El-Rei!?) ficára com a miss?o de telegraphar para a Torre as noticias successivas das assembleias, á maneira que ellas acudissem ao Governo Civil. E, com ruidoso zelo, logo depois da missa, estabeleceu entre os Cunhaes e o velho Convento de S. Domingos um servi?o de creados formigando sem repouso. Gracinha, na sala de jantar, ajudada por Padre Sueiro, copiava com amor, n'uma lettra muito redonda, os telegrammas mandados pelo Cavalleiro, que ajuntava a lapis alguma nota amavel-?Tudo optimamente!?-Victoria cresce.-Parabens a V. Ex.as.

Pela estrada de Villa-Clara á Torre, incessantemente, o mo?o do Telegrapho se esbaforia sobre a perna manca. O Bento rompia pela livraria, berrando: ?outro telegramma, Snr. Doutor?. Gon?alo, nervoso, com um immenso bule de chá sobre a banca, a bandeja já alastrada de cigarros meio fumados, lia o telegramma ao Bento. O Bento, com vivas pelo corredor, corria a bramar o telegramma á Rosa.

E assim, quando cerca das oito horas, o Fidalgo consentiu em jantar-já conhecia o seu triumpho explendido. E o que o impressionava, relendo os telegrammas, era o enthusiasmo carinhoso d'aquelles influentes, povos que elle mal rogava, e que convertiam o acto da Elei??o quasi n'um acto d'Amor. Toda a freguezia dos Bravaes marchára para a Egreja, cerrada como uma hoste, com o José Casco na frente erguendo uma enorme bandeira, entre dous tambores que estouravam. O Visconde de Rio-Manso entrára no adro da Egreja de Ramilde na sua victoria, com a neta toda vestida de branco, seguido por uma vistosa fila de char-à-bancs, onde se apinhavam eleitores sob toldos de verdura. Na Finta todos os casaes se esvasiavam, as mulheres carregadas d'ouro, os rapazes de fl?r na orelha, correndo á Elei??o do Fidalgo entre o repenicar das violas, como á romaria d'um Santo. E deante da taberna do Pintainho, em face á Egreja, a gente da Velleda, da Riosa, do Cercal, erguera um arco de buxo, com distico vermelho, sobre panninho:-?Viva o nosso Ramires, fl?r dos homens!?

Depois, em quanto jantava, um mo?o da quinta voltou de Villa-Clara, alvoro?ado, contando o delirio, as philarmonicas pelas ruas, a Assembleia toda embandeirada, e na casa da Camara, sobre a porta, um transparente com o retrato de Gon?alo, que uma multid?o acclamava.

Gon?alo apressou o café. Por timidez, receoso dos vivorios, n?o ousava correr a Villa-Clara-a espreitar. Mas accendeu o charuto, passou á varanda, para respirar a doce noite de festa, que andava t?o cheia de clar?es e rumores em seu louvor. E ao abrir a porta envidra?ada quasi recuou, com outro espanto. A Torre illuminára! Das suas fundas frestas, atravez das negras rexas de ferro, sahia um clar?o; e muito alta, sobre as velhas ameias, refulgia uma serena cor?a de lumes! Era uma surpresa, preparada, com delicioso mysterio, pelo Bento, pela Rosa, pelos mo?os da quinta,-que agora, todos, no escuro, por baixo da varanda, contemplavam a sua obra, allumiando o ceu sereno. Gon?alo percebeu os passos abafados, o pigarro da Rosa. Gritou alegremente da borda da varanda:

-Oh, Bento! Oh, Rosa!... Está ahi alguem?

Um risinho esfusiou. A jaqueta branca do Bento surdio da sombra.

-O Snr. Doutor queria alguma cousa?

-N?o, homem! Queria agradecer... Foram vocês, hein? Está linda a illuminac?o! Mas linda. Obrigado, Bento. Obrigado, Rosa! Obrigado, rapazes! De longe deve fazer um effeito soberbo.

Mas o Bento ainda se n?o contentava com aquellas lamparinas frouxas. A Torre, para sobresahir, necessitava chammas fortes de gaz. O Snr. Doutor nem imaginava a altura, depois em cima, a immensid?o do eirado.

Ent?o, de repente, Gon?alo sentiu um desejo de subir a esse immenso eirado da Torre. N?o entrára na Torre desde estudante-e sempre ella lhe desagradára por dentro, t?o escura, de t?o duro granito, com a sua nudez, silencio e frialdade de jazigo, e logo no pavimento terreo os negros al?ap?es chapeados de ferro que levavam ás masmorras. Mas agora as luzes nas frestas aqueciam, reviviam aquella derradeira ossada, Honra de Ordonho Mendes. E de entre as suas ameias, mais alto que da varanda, lhe parecia interessante respirar aquella rumorosa sympathia esparsa, que em torno, pelas freguezias rolava, subindo para elle, atravez da noite, como um incenso. Enfiou um paletot, desceu á cosinha. O Bento, o Joaquim da horta, divertidos, agarraram grandes lanternas. E com elles atravessou o pomar, penetrou pela atarracada poterna, de funda hombreira, come?ou a trepar a esguia escadaria de pedra, que tanta sola de ferro polira e poira.

Já desde seculos se perdera a memoria do logar que occupava aquella torre nas complicadas fortifica??es da Honra e Senhorio de Santa Ireneia. N?o era de certo (segundo padre Sueiro) a nobre torre albarran, nem a de Alca?ova, onde se guardava o thesouro, o cartorio, os sacos t?o preciosos das especiarias do Oriente-e talvez, obscura e sem nome, apenas defendesse algum angulo de muralha, para os lados em que o Castello enfrontava com as terras semeadas e os olmedos da Ribeira. Mas, sobrevivente ás outras mais altivas, comprehendida nas construc??es do Pa?o formoso que se erguera d'entre o sombrio Castello Affonsino, e que dominava Santa Ireneia durante a dynastia d'Aviz, ligada ainda por claras arcarias d'um terra?o ao Palacio de gosto italiano, em que Vicente Ramires converteu o Pa?o manuelino depois da sua campanha de Castella: isolada no pomar, mas sobranceando o casar?o que lentamente se edificára depois do incendio do Palacio em tempo d'El-Rei D. José, e a derradeira certamente onde retiniram armas e circularam os homens do Ter?o dos Ramires-ella ligava as edades e como que mantinha, nas suas pedras eternas, a unidade da longa linhagem. Por isso o povo lhe chamára vagamente a ?Torre de D. Ramires?. E Gon?alo, ainda sob a impress?o dos avós e dos tempos que resuscitára na sua Novella, admirou com um respeito novo a sua vastid?o, a sua for?a, os seus empinados escal?es, os seus muros t?o espessos, que as frestas esguias na espessura se alongavam como corredores, escassamente allumiadas pelas tigelinhas d'azeite, com que o Bento as despertára. Em cada um dos trez sobrados parou, penetrando curiosamente, quasi com uma intimidade, nas salas núas e sonoras, de vasto lagedo, de tenebrosa abobada, com os assentos de pedra, estranho buraco ao meio, redondo como o d'um po?o e ainda pelas paredes riscadas de sulcos de fumos, os anneis dos tocheiros. Depois em cima, no immenso eirado que a fieira de lamparinas, cingindo as ameias, enchia de claridade, Gon?alo, erguendo a gola do paletot na aragem mais fina, teve a dilatada sensa??o de dominar toda a Provincia, e de possuir sobre ella uma supremacia paternal, só pela soberana altura e velhice da sua torre, mais que a Provincia e que o Reino. Lentamente caminhou em roda das ameias, até ao miradouro, a que um candieiro de petroleo, sobre uma cadeira de palhinha posta em frente á fresta, estragava o entono feudal. No céo macio, mas levemente enevoado, raras estrellas luziam, sem brilho. Por baixo a quinta, toda a largueza dos campos, a espessura dos arvoredos se fundiam em escurid?o. Mas na sombra e silencio, por vezes além, para o lado dos Bravaes, lampejavam foguetes remotos. Um clar?o amarellado e fumarento, caminhando mais longe, entestando para a Finta, era de certo um rancho com archotes festivos. Na alta Egreja da Velleda tremeluzia uma illumina??o vaga, rala. Outras luzes, incertas através do arvoredo, riscavam o velho arco do Mosteiro, em Santa Maria de Craquêde. Da terra escura subia, por vezes, um errante som de tambores. E lumes, fachos, abafados rufos, eram dez freguezias celebrando amoravelmente o Fidalgo da Torre, que lhes recebia o amor e o preito no eirado da sua torre, envolto em silencio e sombra.

O Bento descera, com o Joaquim, para refor?ar as lamparinas nas frestas dos muros, onde ellas esmoreciam na espessura. E Gon?alo sósinho, acabando o charuto, recome?ou a rolda, lento, em torno ás ameias, perdido n'um pensamento que já o agitára estranhamente, atravez d'aquelle sobresaltado Domingo... Era pois popular! Por todas essas aldeias, estendidas á sombra longa da Torre, o Fidalgo da Torre era pois popular! E esta certeza n?o o penetrava d'alegria, nem de orgulho,-antes o enchia agora, n'aquella serenidade da noite, de confus?o, d'arrependimento! Ah! se adivinhasse-se elle adivinhasse!... Como caminharia, com a cabe?a bem levantada, com os bra?os bem estendidos, sósinho, em confian?a risonha para todas essas sympathias que o esperavam, t?o certas, t?o dadas. Mas n?o! Sempre se julgára cercado da indifferen?a d'aquellas aldeias, onde elle, apesar do antiquissimo nome, era o costumado mo?o, que volta de Coimbra e vive silenciosamente da sua renda, passeando na sua egoa. A essas indifferen?as t?o naturaes nunca elle imaginára arrancar o punhado de votos, o punhado de papelinhos que necessitava para entrar na Politica, onde elle conquistaria pela destreza o que os velhos Ramires recebiam por heran?a-fortuna e poder. Por isso se agarrára t?o avidamente á m?o do Cavalleiro, á m?o do Snr. Governador Civil-para que S. Ex.a, o bom amigo, o mostrasse, o impozesse como o homem necessario, o querido do Governo, o melhor entre os bons, a quem as freguezias deviam offerecer n'um Domingo o punhado de votos.

E na impaciencia d'esse favor abafára a memoria de amargos aggravos; deante d'Oliveira pasmada abra?ára o homem detestado desde annos, que andava chasqueando e demolindo, por pra?as e jornaes: facilitára a resurrei??o de sentimentos que para sempre deviam jazer enterrados; e envolvera o ser que mais amava, a sua pobre e fraca irm?sinha, em confus?o e miseria moral... Torpezas e damnos-e para quê? Para surripiar um punhado de votos que dez freguezias lhe trariam correndo, gratuitamente, effusivamente, entre vivas e foguetes, se elle acenasse e lh'os pedissse...

Ah! eis ahi... F?ra a desconfian?a, essa encolhida desconfian?a de si mesmo,-que desde o collegio, atravez da vida, lhe estragára a vida. Era a mesma desgra?ada desconfian?a, que ainda semanas antes, deante de uma sombra, um pau erguido, uma risada n'uma taberna, o for?ava a abalar, a fugir, arripiado e praguejando contra a sua fraqueza. Por fim, um dia, n'uma volta d'estrada, avan?a, ergue o chicote-e descobre a sua for?a! E agora, penetra por entre o povo, agarrado timidamente á m?o poderosa, por se imaginar impopular-e descobre a sua popularidade immensa. Que vida enganada, e tanto a sujára-por n?o saber!

O Bento n?o apparecia, ainda azafamado em illuminar condignamente as rexas da Torre. Gon?alo atirou a ponta do charuto, e com as m?os nas algibeiras do paletot, parou junto do miradouro, olhou vagamente para as estrellas. A nevoa adelga?ára quasi sumida,-lumes mais vivos palpitavam no ceu mais profundo. De lumes e ceus descia essa sensa??o de infinidade, d'eternidade, que penetra, como uma surpresa, nas almas desacostumadas da sua contempla??o. Na alma de Gon?alo passou, muito fugidiamente, o espanto d'essas eternas immensidades sob que se agita, t?o vaidosa da sua agita??o, a rasteira, a sombria poeira humana. Longe, algum derradeiro foguete ainda lampejava, logo apagado na escurid?o serena. As luzinhas sobre a capella de Velleda, sobre o arco de Santa Maria de Craquêde, esmoreciam, já ralas. Todo o remoto rumor de musicatas se perdera, na mudez mais funda dos campos adormecidos. O dia de triumpho findava, breve como os luminares e os foguetes.-E Gon?alo, parado, rente do miradouro, considerava agora o valor d'esse triumpho por que tanto almejára, porque tanto sabujára. Deputado! Deputado por Villa-Clara, como o Sanches Lucena. E ante esse resultado, t?o miudo, t?o trivial,-todo o seu esfor?o t?o desesperado, t?o sem escrupulos, lhe parecia ainda menos immoral que risivel. Deputado! Para quê? Para almo?ar no Bragan?a, galgar de tipoia a ladeira de S. Bento, e dentro do sujo convento escrevinhar na carteira do Estado alguma carta ao seu alfaiate, bocejar com a inanidade ambiente dos homens e das ideias, e distrahidamente acompanhar, em silencio ou balando, o rebanho do S. Fulgencio, por ter desertado o rebanho identico do Braz Victorino. Sim, talvez um dia, com rasteiras intrigas e sabujices a um chefe e á senhora do chefe, e promessas e risos atravez de Redac??es, e algum Discurso esbrazeadamente berrado-lograsse ser Ministro. E ent?o? Seria ainda a tipoia pela cal?ada de S. Bento, com o correio atraz na pileca branca, e a farda mal-feita, nas tardes d'assignatura, e os recurvados sorrisos d'amanuenses pelos escuros corredores da Secretaria, e a lama escorrendo sobre elle de cada gazeta d'opposi??o... Ah! que pêca, desinteressante vida, em compara??o d'outras cheias e soberbas vidas, que t?o magnificamente palpitavam sob o tremeluzir d'essas mesmas estrellas! Em quanto elle se encolhia no seu paletot, deputado por Villa-Clara, e no triumpho d'essa miseria-Pensadores completavam a explica??o do Universo; Artistas realisavam obras de belleza eterna; Reformadores aperfei?oavam a harmonia social; Santos melhoravam santamente as almas; Physiologistas diminuiam o velho soffrer humano; Inventores alargavam a riqueza das ra?as; Aventureiros magnificos arrancavam mundos de sua esterilidade e mudez... Ah! esses eram os verdadeiramente homens, os que viviam deliciosas plenitudes de vida, modelando com as suas m?os incan?adas fórmas sempre mais bellas ou mais justas da humanidade. Quem f?ra como elles, que s?o os sobre-humanos! E tal ac??o t?o suprema requeria o Genio, o dom que, como a antiga chamma, desce de Deus sobre um eleito? N?o! Apenas o claro entendimento das realidades humanas-e depois o forte querer.

E o Fidalgo da Torre, immovel no eirado da Torre, entre o ceu todo estrellado, e a terra toda escura, longamente revolveu pensamentos de Vida superior-até que enlevado, e como se a energia da longa ra?a, que pela Torre passára, refluisse ao seu cora??o, imaginou a sua propria encaminhada emfim para uma ac??o vasta e fecunda, em que soberbamente gozasse o goso de verdadeiro viver, e em torno de si creasse vida, e accrescentasse um lustre novo ao velho lustre de seu nome, e riquezas puras o dourassem e a sua terra inteira o bem-louvasse por que elle inteiro e n'um esfor?o pleno bem servira a sua terra...

O Bento surdiu da portinha baixa do eirado, com a lanterna:

-O Snr. Doutor ainda se demora?

-N?o. A festa acabou, Bento.

* * *

Nos come?os de Dezembro, com o primeiro numero dos Annaes, appareceu a Torre de D. Ramires. E todos os jornaes, mesmo os da opposi??o, louvaram ?esse estudo magistral (como affirmou a Tarde) que, revelando um erudito e um artista, continuava, com uma arte mais moderna e colorida, a obra de Herculano e de Rebello, a reconstitui??o moral e social do velho Portugal heroico.? Depois das festas de Natal, que elle passou alegremente nos Cunhaes, ajudando Gracinha a cosinhar bolos de bacalhau por uma receita sublime do padre José Vicente, da Finta, os amigos d'Oliveira, os rapazes do Club e da Arcada offereceram ao Deputado por Villa-Clara, na sala da Camara, adornada de buxos e bandeiras, um banquete, a que assistia o Cavalleiro, de gran-cruz, e em que o Bar?o das Marges (que presidia) saudou ?o prestigioso mo?o que, talvez em breve, nas cadeiras do Poder levantasse do marasmo este brioso paiz, com a pujan?a, a valentia, que s?o proprias da sua ra?a nobilissima!?

* * *

No meado de Janeiro, por uma agreste noite de chuva, Gon?alo partiu para Lisboa; e atravez do inverno, em Lisboa, andou sempre nos Carnet-Mondain e High-Life dos jornaes, nas noticias de jantares, do raouts, de tiros aos pombos, de Ca?adas d'El-Rei, t?o notado nos movimentos mais simples da sua elegancia, que os Barr?los assignaram o Diario Illustrado para saber quando elle passeava na Avenida. Em Villa-Clara, na Assembleia, o José Gouveia já encolhia os hombros, rosnando:-?Desandou em janota!?-Mas nos fins d'Abril uma noticia de repente alvoro?ou Villa-Clara, espantou na quieta Oliveira os rapazes do Club e da Arcada, perturbou t?o inesperadamente Gracinha, ent?o em Amarante com o Barr?lo, que n'essa noite ambos abalaram para Lisboa-e na Torre atirou a Rosa para um banco de pedra da cosinha, lavada em lagrimas, sem comprehender, gemendo:

-Ai o meu rico menino, o meu rico menino, que o n?o torno mais a vêr!

Gon?alo Mendes Ramires, silenciosamente, quasi mysteriosamente, arranjára a concess?o d'um vasto praso de Macheque, na Zambezia, hypothecára a sua quinta historica de Treixedo, e embarcava em come?os de Junho no paquete Portugal, com o Bento, para a Africa.

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