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   Chapter 10 No.10

A Illustre Casa de Ramires By E?a de Queiroz Characters: 94488

Updated: 2017-12-06 00:02


Até noite alta Gon?alo, passeando pelo quarto, remoeu a amarga certeza de que sempre, atravez de toda a sua vida (quasi desde o collegio de S. Fiel!), n?o cessára de padecer humilha??es. E todas lhe resultavam de intentos muito simples, t?o seguros para qualquer homem como o v?o para qualquer ave-só para elle constantemente rematados por d?r, vergonha ou perda! á entrada da vida escolhe com enthusiasmo um confidente, um irm?o, que traz para a quieta intimidade da Torre-e logo esse homem se apodéra ligeiramente do cora??o de Gracinha e ultrajosamente a abandona! Depois concebe o desejo t?o corrente de penetrar na Vida Politica-e logo o Acaso o fór?a a que se renda e se acolha á influencia d'esse mesmo homem, agora Auctoridade poderosa, por elle durante todos esses annos de despeito t?o detestada e chasqueada! Depois abre ao amigo, agora restabelecido na sua convivencia, a porta dos Cunhaes, confiado na seriedade, no rigido orgulho da irm?-e logo a irm? s'abandona ao antigo enganador, sem lucta, na primeira tarde em que se encontra com elle na sombra favoravel d'um caramanch?o! Agora pensa em casar com uma mulher que lhe offerecia com uma grande belleza uma grande fortuna-e immediatamente um companheiro de Villa-Clara passa e segreda:-?A mulher que escolheste, Gon?alinho, é uma marafona cheia d'amantes!? De certo essa mulher n?o a amava com um amor nobre e forte! Mas decidira accommodar nos formosos bra?os d'ella, muito confortavelmente, a sua sorte insegura-e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a humilha??o costumada. Realmente o Destino malhava sobre elle com rancor desmedido!

-E por quê? murmurava Gon?alo, despindo melancolicamente o casaco. Em vida t?o curta, tanta decep??o... Porquê? Pobre de mim!

Cahio no vasto leito como n'uma sepultura-enterrou a face no travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por aquella sua sorte t?o contrariada, t?o sem soccorro. E recordava o presump?oso verso do Videirinha, ainda n'essa noite proclamado ao viol?o:

Velha casa de Ramires

Honra e flor de Portugal!

Como a flor murchára! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro Gon?alo, encolhido no seu buraco de Santa Ireneia, com esses grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha-todos elles, se Historia e Lenda n?o mentiam, de vidas t?o triumphaes e sonoras! N?o! nem sequer d'elles herdára a qualidade por todos herdada atravez dos tempos-a valentia facil. Seu pae ainda fora o bom Ramires destemido-que na fallada desordem da romaria da Riosa avan?ava com um guardasol contra tres clavinas engatilhadas. Mas elle... Alli, no segredo do quarto apagado, bem o podia livremente gemer-elle nascera com a falha, a falha de peor desdouro, essa irremediavel fraqueza da carne que, irremediavelmente, deante de um perigo, uma amea?a, uma sombra, o for?ava a recuar, a fugir... A fugir d'um Casco. A fugir d'um malandro de suissas louras que, n'uma estrada e depois n'uma venda o insulta sem motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho. Ah vergonhosa carne, t?o espantadi?a!

E a Alma... N'essa calada treva do quarto bem o podia reconhecer tambem, gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o abandonava a qualquer influencia, logo por ella levado como folha secca por qualquer sopro. Por que a prima Maria uma tarde ado?a os espertos olhos e lhe aconselha por traz do leque que se interesse pela D. Anna-logo elle, fumegando d'esperan?a, ergue sobre o dinheiro e a belleza de D. Anna uma presump?osa torre de ventura e luxo. E a Elei??o? essa desgra?ada Elei??o? Quem o empurrára para a Elei??o, e para a reconcilia??o indecente com o Cavalleiro, e para os desgostos d'ahi manados? O Gouveia, só com leves argucias, murmuradas por cima do cache-nez desde a loja do Ramos até á esquina do Correio! Mas que! mesmo dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe impunha gostos, dietas, passeios, e opini?es e gravatas!-Homem de tal natureza, por mais bem dotado na Intelligencia, é massa inerte a que o Mundo constantemente imprime fórmas varias e contrarias. O Jo?o Gouveia fizera d'elle um candidato servil. O Manuel Duarte poderia fazer d'elle um beberr?o immundo. O Bento facilmente o levaria a atar ao pesco?o, em vez d'uma gravata de seda, uma colleira de couro! Que miseria! E todavia o Homem só vale pela Vontade-só no exercicio da Vontade reside o goso da Vida. Por que se a Vontade bem exercida encontra em torno submiss?o-ent?o é a delicia do dominio sereno: se encontra em torno resistencia-ent?o é a delicia maior da lucta interessante. Só n?o sahe goso forte e viril da inercia que se deixa arrastar mudamente, n'um silencio e macieza de cera... Mas elle, elle, descendendo de tantos var?es famosos pelo Querer-n?o conservaria, escondida algures no seu Ser, dormente e quente como uma braza sob cinza, uma parcella d'essa energia hereditaria?... Talvez! nunca porém n'esse pêco e encafuado viver de Santa Ireneia a fagulha despertaria, resaltaria em chamma intensa e util. N?o! pobre d'elle! Mesmo nos movimentos da Alma onde todo o homem realisa a liberdade pura-elle soffreria sempre a oppress?o da Sorte inimiga!

Com outro suspiro mais se enterrou, s'escondeu sob a roupa. N?o adormecia, a noite findava-já o relogio de char?o, no corredor, batera cavamente as quatro horas. E ent?o, atravez das palpebras cerradas, no confuso can?asso de tantas tristezas revolvidas, Gon?alo percebeu, atravez da treva do quarto, destacando pallidamente da treva, faces lentas que passavam...

Eram faces muito antigas, com desusadas barbas ancestraes, com cicatrizes de ferozes ferros, umas ainda flammejando como no fragor de uma batalha, outras sorrindo magestosamente como na pompa d'uma gala-todas dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer. E Gon?alo, espreitando por sobre a borda do len?ol, reconhecia n'essas faces as veridicas fei??es de velhos Ramires, ou já assim comtempladas em denegridos retratos, ou por elle assim concebidas, como concebera as de Tructesindo, em concordancia com a rijeza e explendor dos seus feitos.

Vagarosas, mais vivas, ellas cresciam d'entre a sombra que latejava espessa e como povoada. E agora os corpos emergiam tambem, robustissimos corpos cobertos de saios de malha ferrugenta, apertados por arnezes d'a?o lampejante, embu?ados em fuscos mantos de revoltas prégas, cingidos por faustosos gib?es de brocado onde scintillavam as pedrarias de collares e cintos;-e armados todos, com as armas todas da Historia, desde e clava g?da de raiz de roble errissada de puas, até ao espadim de sarau enla?arotado de seda e ouro.

Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gon?alo n?o duvidava da realidade maravilhosa! Sim! eram os seus avós Ramires, os seus formidaveis avós historicos, que, das suas tumbas dispersas corriam, se juntavam na velha casa de Santa Ireneia nove vezes secular-e formavam em torno do seu leito, do leito em que elle nascera, como a Assembleia magestosa da sua ra?a resurgida. E até mesmo reconhecia alguns dos mais esfor?ados, que agora, com o repassar constante do Poemeto do tio Duarte e o Videirinha gemendo fielmente o seu ?fado?, lhe andavam sempre na imagina??o...

Aquelle além, com o brial branco a que a cruz vermelha enchia o peitoral, era certamente Gutierres Ramires o d'Ultramar, como quando corria da sua tenda para a escalada de Jerusalem. No outro, t?o velho e formoso, que estendia o bra?o, elle adivinhava Egas Ramires, negando acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e á adultera Leonor! Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pend?o real de Castella, quem, sen?o Diogo Ramires, o Trovador, ainda na alegria da radiosa manh? d'Aljubarrota? Deante da incerta claridade do espelho tremiam as f?fas plumas escarlates do morri?o de Paio Ramires, que s'armava para salvar S. Luiz Rei de Fran?a. Levemente balan?ado, como pelas ondas humildes d'um mar vencido, Ruy Ramires sorria ás naus inglezas que ante a pr?a da sua Capitanea submissamente amainavam por Portugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pagem do Gui?o d'El-Rey nos campos fataes de Alcacer, sem elmo, rota a coura?a, inclinava para elle a sua face de donzel, com a do?ura grave d'um avó enternecido...

Ent?o, por aquella ternura attenta do mais poetico dos Ramires, Gon?alo sentio que a sua Ascendencia toda o amava-e da escurid?o das tumbas dispersas accudira para o velar e soccorrer na sua fraqueza. Com um longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos seus avós resurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que sobre a sua vida, sem descan?o, amontoava tristeza, vergonha e perda! E eis que subitamente um ferro faiscou na treva, com um abafado brado:-?Neto, doce neto, toma a minha lan?a nunca partida!...? E logo o punho d'uma clara espada lhe ro?ou o peito, com outra grave voz que o animava:-?Neto, doce neto, toma espada pura que lidou em Ourique!...? E depois uma acha de coriscante gume bateu no travesseiro, offertada com altiva certeza:-?Que n?o derribará essa acha, que derribou as portas d'Arzilla?...?

Como sombras levadas n'um vento transcendente todos os avós formidaveis perpassavam-e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e provadas armas, todas, atravez de toda a Historia, ennobrecidas nas arrancadas contra a Moirama, nos trabalhados cercos de Castellos e Villas, nas batalhas formosas com o Castelhano soberbo... Era, em torno do leito, um heroico reluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente gritavam:-?Oh neto, toma as nossas armas e vence a Sorte inimiga!...? Mas Gon?alo, espalhando os olhos tristes pelas sombras ondeantes, volveu:-?Oh Avós, de que me servem as vossas armas-se me falta a vossa alma?...?

Acordou, muito cedo, com a enredada lembran?a d'um pesadello em que fallára a mortos:-e, sem a pregui?a, que sempre o amollecia nos colch?es, enfiou um roup?o, escancarou as vidra?as. Que formosa manh?! uma manh? dos fins de Septembro, macia, lustrosa e fina; nem uma nuvem lhe desmanchava o vasto, o immaculado azul; e o sol já pousava nos arvoredos, nos outeiros distantes, com uma do?ura outomnal. Mas, apesar de lhe respirar allentamente o brilho e a pureza, Gon?alo permaneceu toldado de sombras, das sombras da véspera, retardadas no seu espirito opprimido, como nevoas em valle muito fundo. E foi ainda com um suspiro, arrastando tristonhamente as chinellas, que puxou o cord?o da campainha. O Bento n?o tardou com a infusa da agoa quente para a barba. E acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquelle silencioso e enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Snr. Doutor passára mal a noite...

-Pessimamente!

Bento declarou logo, com vivacidade e reprova??o-que certamente fizera mal ao Snr. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado, muito excitante... Bom para o Snr. D. Antonio, homemzarr?o pesado. Mas o Snr. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar n'aquelle cognac. Ou ent?o, meio calice escasso.

Gon?alo ergueu a cabe?a, na surpreza de encontrar logo ao come?o do seu dia e t?o flagrante, aquelle dominio que todos sobre elle se arrogavam-e de que tanto se lastimava, atravez de toda a amarga noite!

Eis ahi o Bento mandando-marcando a sua ra??o de cognac! E justamente o Bento insistia:

-O Snr. Doutor bebeu mais de tres calices. Assim n?o convém... Eu tambem tive culpa em n?o tirar a garrafa...

Ent?o, perante despotismo t?o declarado, o Fidalgo da Torre teve uma brusca revolta:

-Homem, n?o dês tantas leis. Bebo o cognac que preciso e que quero!

Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a agua na infusa:

-Esta agua está morna! exclamou logo. Já me tenho fartado de dizer! Para a barba, preciso sempre agua a ferver.

O Bento, gravemente, mergulhou tambem o dedo na agua:

-Pois esta agua está quasi a ferver... Nem para a barba se necessita agua mais quente.

Gon?alo encarou o Bento com furor. O que! mais objec??es, mais leis!

-Pois vá immediatamente buscar outra agua! Quando eu pe?o agua quente, pretendo que venha em cach?o. Irra! tanta senten?a!... Eu n?o quero moral, quero obediencia!

O Bento considerou Goncalo atravez d'um espanto que lhe inchára a face. Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando a infusa. E já Gon?alo se arrependia da sua violencia. Coitado, n?o era culpa do Bento se a vida lhe andava a elle t?o estragada e sacudida! Depois, em casa t?o antiga, n?o destoava a tradi??o dos antigos aios. E o Bento com perfeito rigor lhes reproduzia a rabugice e a lealdade! Mas ascendencia, e livre fallar bem lhe cabiam-bem os merecia por t?o longa, t?o provada dedica??o...

O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E Gon?alo logo docemente, para o ado?ar:

-Dia muito bonito, hein, Bento?

O velho rosnou, ainda amuado:

-Muito bonito.

Gon?alo ensaboava a face, rapidamente, na impaciencia de reatar com o Bento, de lhe restabelecer a supremacia amoravel. E por fim mais doce, quasi humilde:

-Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavallo antes d'almo?o. Que te parece? Talvez me fa?a bem aos nervos... Com effeito, aquelle cognac n?o me convém... Ent?o, Bento, faze o favor, grita ahi ao Joaquim que me tenha a egoa prompta immediatamente. Com certeza me acalma, uma galopada... E no banho agora a agua bem esperta, bem quente. Tambem me acalma a agua quente. Por isso necessito sempre agua bem quente, a ferver. Mas tu, com essas tuas velhas idéas... Pois todos os medicos o declaram. Para a saude agua quente, bem quente, a sessenta graus!

E depois do rapido banho, em quanto se vestia, abriu mais familiarmente ao velho aio a intimidade das suas tristezas:

-Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar, n?o era um passeio, era uma jornada... Trago a alma muito carregada, homem! Depois estou farto d'esta eterna Villa-Clara, da eterna Oliveira. Muito mexerico, muita deslealdade. Precisava terra grande, distrac??o grande.

O Bento, já reconciliado, enternecido, lembrou que o Snr. Doutor brevemente, em Lisboa, encontraria uma linda distrac??o, nas C?rtes.

-Eu sei lá se vou ás C?rtes, homem! N?o sei nada, tudo falha... Qual Lisboa!... O que eu necessito é uma viagem immensa, á Hungria, á Russia, a terras onde haja aventuras.

O Bento sorriu superiormente d'aquella imagina??o. E apresentando ao Fidalgo o jaquet?o de velvetina cinzenta:

-Com effeito, na Russia parece que n?o faltam aventuras. Anda tudo a chicote, diz o Seculo... Mas aventuras, Snr. Doutor, até a gente as encontra na estrada... Olhe! o paesinho de V. Ex.a, que Deus haja, foi lá em baixo deante do port?o que teve a bulha com o Dr. Avelino da Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no bra?o...

Gon?alo cal?ava as luvas d'anta, mirando o espelho:

-Pobre papá, coitado, tambem teve pouca sorte... E por chicote, ó Bento, dá cá aquelle chicote de cavallo marinho que tu hontem areaste. Parece que é uma boa arma.

* * *

Ao sahir o port?o, o Fidalgo da Torre metteu a egoa, sem destino, n'um passo indolente, pela estrada costumada dos Bravaes. Mas no Casal Novo, onde dous pequenos jogavam á bola debaixo das carvalheiras, pensou em visitar o Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe concertaria os nervos a companhia de t?o sereno e generoso velho. E, se elle o convidasse a almo?ar, gastaria os seus cuidados visitando essa fallada quinta da Varandinha e cortejando ?o bot?o de Rosa?.

Gon?alo recordava apenas confusamente que o terra?o da Varandinha dominava uma estrada plantada de choupos, algures, entre o logar da Cerda e a espalhada aldêa de Canta-Pedra, E tomou o caminho velho que desce das carvalheiras do Casal Novo, e penetra no valle, entre o cabe?o d'Avellan e as ruinas do Mosteiro de Ribadaes, no solo historico onde Lopo de Bay?o derrotára a mesnada de Louren?o Ramires... Ora enterrada entre vallados, ora entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia sem belleza, e cansativa: mas as madresilvas nas sebes, por entre as amoras maduras, rescendiam: o fresco silencio recebia mais frescura e gra?a dos fremitos d'aza que o ro?avam; e tanto era o radiante azul nos ceus serenos que um pouco do seu rebrilho e serenidade s'instillava n'alma. Gon?alo, mais desannuviado, n?o se apressava: na Egreja dos Bravaes, quando elle passára ao Casal Novo, batiam apenas as nove horas: e depois de costear um lameiro d'herva magra parou a accender pachorrentamente um charuto, rente da velha ponte de pedra que galga o riacho das Donas. Quasi secca pela estiagem, a agoa escura mal corria, sob as folhas largas dos nenufares, por entre os juncaes que a atulhavam. Adiante, á orla d'um herva?al, no abrigo d'uma moita d'alamos, relusiam as pedras d'um lavadouro. Na outra margem, dentro d'um velho bote encalhado, um rapazito, uma rapariguinha conversavam profundamente, com dous molhos d'alfazema esquecidos nos rega?os. Gon?alo sorriu do idyllio-depois teve uma surpreza descobrindo, no cunhal da ponte, rudemente entalhado, o seu Braz?o-d'Armas, um A?or enorme, que alargava as garras ferozes. Talvez aquellas terras outr'ora pertencessem á Casa:-ou algum dos seus avós beneficos construira a ponte, sobre torrente ent?o mais funda, para seguran?a dos homens e dos gados. Quem sabe se o av? Tructesindo, em memoria piedosa de Louren?o Ramires, vencido e captivo nas margens d'aquella Ribeira!

O caminho, para além da ponte, alteava entre campos ceifados. As mêdas lourejavam, pesadas e cheias, por aquelle anno de fartura. Ao longe, dos telhados baixos d'um logarejo, vagarosos fumos subiam, logo desfeitos no radiante ceu. E lentamente, como aquelles fumos distantes, Goncalo sentia que todas as suas melancolias lhe escapavam da alma, se perdiam tambem no azul lustroso... Uma revoada de perdizes ergueu o v?o d'entre o restolho. Gon?alo galopou sobre ellas, gritando, sacudindo o seu forte chicote de cavallo-marinho, que zenia como uma fina lamina.

Em breve o caminho torceu, costeando um souto de sobreiros, depois cavado entre silvados com largos pedregulhos aflorando na poeira;-e ao fundo o sol faiscava sobre a cal fresca d'uma parede. Era uma casa terrea, com porta baixa entre duas janellas envidra?adas, remendos novos no telhado e um quinteiro que uma escura e immensa figueira assombreava. N'uma esquina pegava um muro baixo de pedra solta, continuado por uma sebe, onde adiante uma velha cancella abria para a sombra d'uma ramada. Defronte, no vasto terreiro que se alargava, jaziam cantarias, uma pilha de traves; passava uma estrada, lisa e cuidada, que pareceu a Gon?alo a de Ramilde. Para além, até a um distante pinheiral, desciam ch?s e lameiros.

Sentado n'um banco, junto da porta, com uma espingarda encostada ao muro, um rapaz grosso, de barrete de l? verde, acariciava pensativamente o focinho d'um perdigueiro. Gon?alo parou:

-Tem a bondade... Sabe por acaso qual é o bom caminho para a quinta do Snr. Visconde de Rio-Manso, a Varandinha?

O rapasote ergueu a face morena, de bu?o leve, remechendo vagamente no carapu?o.

-Para a quinta do Rio-Manso... Siga pela estrada até á pedreira, depois á esquerda a seguir, sempre rente da varzea...

Mas n'esse instante assomava á porta um latag?o de suissas louras em mangas de camisa, a cinta enfaixada em seda. E Gon?alo, com um sobresalto, reconheceu logo o ca?ador que o injuriára na estrada de Nacejas, o assobiára na venda do Pintainho. O homem relanceou superiormente o Fidalgo. Depois, com a m?o encostada á humbreira, chasqueou o rapasote:

-Oh Manoel, que estás tu ahi a ensinar o caminho, homem! Este caminho por aqui n?o é para asnos!

Con?alo sentiu a pallidez que o cobriu-e todo o sangue no cora??o, n'um tumulto confuso, que era de medo e de raiva. Um novo ultrage, do mesmo homem, sem provoca??o! Apertou os joelhos no sellim para galopar. E a tremer, n'um esfor?o que o engasgava:

-Vossê é muito atrevido! é já pela terceira vez! Eu n?o sou homem para levantar desordens n'uma estrada... Mas fique certo que o conhe?o, e que n?o escapa sem li??o.

Immediatamente, o outro agarrou a um cajado curto e saltou á estrada, affrontando a egoa, com as suissas erguidas, um riso de immenso desafio:

-Ent?o cá estou! Venha agora a li??o... E para diante é que Vossê já n?o passa, seu Ramires de merd...

Uma nevoa turvou os olhos esgaseados do Fidalgo. E de repente, n'um inconsciente arranque, como levado por uma furiosa rajada de orgulho e for?a, que se desencadeava do fundo do seu ser, gritou, atirou a fina egoa n'um gal?o terrivel! E nem comprehendeu! O cajado sarilhára! A egoa empinava, n'uma cabe?ada furiosa! E Gon?alo entreviu a m?o do homem, escura, immensa, que empolgava a camba do freio.

Ent?o, erguido nos estribos, por sobre a immensa m?o, despediu uma vergastada do chicote silvante de cavallo-marinho, colhendo o latag?o na face, de lado, n'um golpe t?o vivo da aresta aguda que a orelha pendeu, despegada, n'um borbutar de sangue. Com um berro o homem recuou, cambaleando. Gon?alo galgou sobre elle, n'outro arremesso, com outra fulgurante chicotada, que o apanhou pela b?ca, lhe rasgou a b?ca, decerto lhe espeda?ou dentes, o atirou, urrando, para o ch?o. As patas da egoa machucavam as grossas coxas estendidas,-e, debru?ado, Gon?alo ainda vergastou, cortou desesperadamente face, pesco?o, até que o corpo jazeu molle e como morto, com jorros de sangue escuro ensopando a camisa.

Um tiro atroou o terreiro! E Gon?alo, com um salto no selim, avistou o rapasote moreno ainda com a espingarda erguida, a fumegar, mas já hesitando aterrado.

-Ah, c?o!

Lan?ou a egoa, com o chicote alto:-o rapaz, espavorido, corria lentamente através do terreiro, para saltar o vallado, escapar para as varzeas ceifadas!

-Ah c?o, ah c?o! berrava Gon?alo. Estonteado, o rapaz trope?ára n'uma viga solta. Mas já se endireitava, largava, quando o Fidalgo o alcan?ou com uma cutilada do chicote no pesco?o, logo alagado de sangue. Estendendo as m?os incertas, ainda cambaleou, abateu, estalou contra a aresta d'um pilar, a cabe?a mais sangue jorrou. Ent?o Gon?alo, a arquejar, deteve a egoa. Ambos os homens jaziam immoveis! Santo Deus! Mortos? D'ambos corria o sangue sobre a terra secca. O Fidalgo da Torre sentia uma alegria brutal. Mas um grito espantado soou do lado do quinteiro.

-Ai que mataram o meu rapaz!

Era um velho que corria da cancella, n'uma carreira agachada, rente com a sebe, para a porta da casa. T?o certeiramente o Fidalgo arremessou a egoa, para o deter-que o velho esbarrou contra o peitoril que arfava coberto de suor e d'espuma. E ante o inquieto animal escarvando, e Gon?alo al?ado nos estribos, com a face chammejante, o chicote a descer-o velho, n'um terror, desabou sobre os joelhos, gritou anciadamente:

-Ai, n?o me fa?a mal, meu Fidalgo, por alma de seu pae Ramires.

Gon?alo ainda o manteve assim um momento, supplicante, a tremer, sob o justiceiro faiscar dos seus olhos:-e gosava soberbamente aquellas callosas m?os que se erguiam para a sua misericordia, invocavam o nome de Ramires, de novo temido, repossuido do seu prestigio heroico. Depois, recuando a egoa:

-Esse malandro do rapazola desfechou a ca?adeira!... Vossê tambem n?o tem boa cara! Que ia vossê correndo para casa? Buscar outra espingarda?

O velho alargou desesperadamente os bra?os, offerecia o peito, em testemunho da sua verdade:

-Oh meu Fidalgo, n?o tenho em casa nem um cajado!... Assim Deus me ajude e me salve o rapaz!

Mas Gon?alo desconfiava. Quando descesse agora pela estrada de Ramilde, bem poderia o velho correr ao casebre, agarrar outra ca?adeira, desfechar trai?oeiramente. E ent?o com a presteza d'espirito que a lucta afiára concebeu contra qualquer emboscada, um ardil seguro. E até n'um relance sorrio recordando ?tra?as de guerra?, de D. Garcia Viegas, o Sabedor.

-Marche lá deante de mim, sempre a direito, pela estrada!

O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E batia com as grossas m?os nas coxas, n'uma ancia que o engasgava:

-Oh meu Fidalgo, oh meu fidalgo! mas deixar assim o rapaz sem acordo?...

-O rapaz está só atordoado, já se mecheu... E o outro malandro tambem... Marche vossê!

E ao irresistivel mando de Gon?alo, o velho, depois de sacudir demoradamente as joalheiras, come?ou a avan?ar pela estrada, vergado deante da egoa, como um captivo, com os longos bra?os a bambolear, rosnando, n'um rouco assombro:-Ai como ellas se armam! Ai Santo nome de Deus, que desgra?a! A espa?os estacava, esgaseando para Gon?alo um olhar torvo onde negrejava medo e odio... Mas logo o commando forte o empurrava: ?Marche!...? E marchava. Adiante, onde se erguia um cruseiro em memoria do Abbade Paguim, assassinado, Gon?alo reconheceu um largo atalho para a estrada dos Bravaes que chamavam o Caminho da Moleira. E para ahi enfiou o velho, que no pavor d'aquella asinhaga solitaria, pensando que Gon?alo o afastava de caminhos trilhados para o matar commodamente, rompeu a gemer. ?Ai que isto é o fim da minha vida! Ai Nossa Senhora, que é o fim da minha vida!? E n?o cessou de gemer, emmaranhando os passos tropegos, até que desembocaram na estrada alta entre taludes escarpados, revestidos de giesta brava. Ent?o de repente, com outro terror, o homem bruscamente revirou, atirando as m?os ao barrete:

-Oh meu senhor, o Fidalgo n?o me leva preso?...

-Marche! Corra! Que agora a egoa trota!

A egoa trotou-o velho correu, desengon?ado, arquejando como um folle de forja. Uma milha galgada, Gon?alo parou, farto do captivo, da lenta marcha. De resto antes que o homem agora corresse a casa, e agarrasse uma arma, e virasse para o alcan?ar, se desforrar-entraria elle, n'um galope solto, o port?o da Torre! Ent?o bradou, com o sobr'olho duro:

-Alto! Agora pode voltar para traz... Mas, antes: Como se chama aquelle seu logar?

-A Grainha, meu fidalgo.

-E vossê como se chama, e o rapaz?

O velho com a boca aberta, esperou, hesitou:

-Eu sou Jo?o, o meu rapaz Manoel... Manoel Domingues, meu Fidalgo.

-Vossê naturalmente mente. E o outro malandro, de suissas louras?

D'um folego, o velho gritou:

-Esse é o Ernesto de Nacejas, o valent?o de Nacejas, que chamam o Ca?a-abra?os, e que tanto me desencaminhou o rapaz...

-Bem! Pois diga lá a esses dous marotos que me atacaram a pau e a tiro, que n?o ficam quites sómente com a sova, e que agora têm de se entender com a Justi?a... Ella lá irá! Largue!

Do meio da estrada, Gon?alo ainda vigiou o velho que abalára, for?ando as passadas derreadas, limpando o suor que lhe pingava. Depois, pela conhecida estrada, galopou para a Torre.

E ia levado, galopando n'uma alegria t?o fumegante, que o lan?ava em sonho e devaneio. Era como a sensa??o sublime de galopar pelas alturas, n'um corcel de lenda, crescido magnificamente, ro?ando as nuvens lustrosas... E por baixo, nas cidades, os homens reconheciam n'elle um verdadeiro Ramires, dos antigos na Historia, dos que derrubavam torres, dos que mudavam a configura??o dos Reinos,-e erguiam esse maravilhado murmurio que é o sulco dos fortes passando! Com raz?o! com raz?o! Que ainda de manh?, ao sahir da Torre, n?o ousaria marchar para um rapazola decidido que brandisse um varapau... E depois, de repente, na solid?o d'aquella casa terrea, quando o bruto das suissas louras lhe atira a suja injuria-eis um n?o sei quê que se desprende dentro do seu ser, e transborda, e lhe enche cada veia de sangue ardido e lhe enrija cada nervo de for?a destra, e lhe espalha na pelle o desprezo e a d?r, e lhe repassa fundamente a alma de fortaleza indomavel... E agora alli voltava, como um var?o novo, soberbamente virilisado, liberto emfim da sombra que t?o dolorosamente assombreára a sua vida, a sombra molle e torpe do seu mêdo! Por que sentia que, agora se todos os valent?es de Nacejas o affrontassem n'um rijo erguer de cajados-esse n?o sei quê, lá dentro, no seu ser, de novo se soltaria, e o arremessaria, com cada veia inchada, cada nervo retesado, para o delicioso fragor da briga! Emfim era um homem! Quando em Villa Clara o Manuel Duarte, o Titó com o peito alto, contassem fa?anhas, já elle n?o enrolaria encolhidamente o cigarro-encolhido, mudo n?o sómente pela ausencia desconsoladora das valentias, mas sobretudo pela humilhante recorda??o das fraquezas. E galopava, galopava apertando furiosamente o cabo do chicote, como para investidas mais bellas. Para além dos Bravaes, mais galopou, ao avistar a Torre. E singularmente lhe pareceu, de repente, que a sua Torre, agora mais sua, e que uma affinidade nova fundada em gloria e for?a, o tornava mais senhor da sua Torre!

* * *

Como para acolher Gon?alo mais dignamente, o port?o grande, sempre cerrado, offerecia uma entrada triumphal com os dous pesados batentes escancarados. Elle atirou a egoa para o meio do pateo, bradando:

-Oh Joaquim! Oh Manoel! Eh lá! um de vossês!

O Joaquim surdiu da cavallari?a, de mangas arrega?adas, com uma esponja na m?o.

-Oh Joaquim, depressa! Apparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada de Ramilde, a que chamam a Grainha... Tive agora lá uma grande desordem! Creio que dei cabo de dous homens... Ficaram n'uma po?a de sangue! N?o digas que vaes da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que succedeu, se est?o mortos... Depressa, depressa!

O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavallari?a escura. E de cima d'uma das varandas do corredor, partiram exclama??es assombradas:

-Oh Gon?alo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!

Era o Barr?lo. Sem desmontar, sem surpresa ante a appari??o do Barr?lo, Gon?alo atirou logo para a varanda a historia da bulha, tumultuosamente. Um malandro que o insultára... Depois outro, que desfechou a ca?adeira... E ambos derribados sob as patas da egoa, n'uma po?a de sangue...

O Barr?lo despegou da varanda-e n'outro relance, investia pelo pateo, com os curtos bra?os a boiar, enfiado. Mas ent?o? mas ent?o?... E Gon?alo, desmontando, tremulo agora do can?asso e da emo??o, esmiu?ou mais lances... Na estrada de Ramilde! Um valent?o que o injuriou! A esse rasgára a b?ca, decepára a orelha... Depois o outro, um rapasola, desfecha uma carabina... Elle corre, t?o vivamente o colhe com uma cutilada que o estira, para cima d'uma pedra, como morto...

-Uma cutilada?

-Com este chicote, Barr?lo! Arma terrivel!... Bem dizia o Titó!... Estou perdido se n?o levo este chicote.

Esgaseado, Barr?lo remirava o chicote. Sim, com effeito ainda manchado de sangue.-Ent?o Gon?alo attentou no chicote, no sangue... Sangue de gente! sangue fresco, que elle arrancára!... E por entre o seu orgulho, uma piedade passou que o empallideceu:

-Que desgra?a, vejam que desgra?a!

Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de nodoas de sangue, que o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!... E immediatamente anciou por se despir, se lavar,-galgou a escada, com o Barr?lo que enxugava o suor, balbuciava:-?Ora uma d'essas! E de repente! Assim na estrada!...? Mas no corredor, subindo n'uma carreira da cosinha, appareceu Gracinha, pallida, com a Rosa atraz, que enterrava os dedos entre o len?o e o cabello n'um pavor mudo.

-Que foi, Gon?alo? Jesus, que foi?!

Ent?o, encontrando Gracinha junto d'elle, na Torre, n'esse momento magnifico do seu orgulho, depois de t?o rijo perigo vencido, Gon?alo esqueceu o André, o Mirante, as sombrias humilha??es, e no abra?o em que a colheu, nos fortes beijos que atirou á face querida, todo o seu amuo se fundio em ternura. Com ella ainda chegada ao cora??o, suspirou de leve, como uma crean?a can?ada. Depois apertando as duas pobres m?os tremulas, com um lento, enternecido sorriso, em quanto os olhos se lhe humedeciam de confusa emo??o, de confusa alegria:

-Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horrivel, eu que sou t?o pacato! imagina tu...

E pelo corredor recome?ou para Gracinha, que arfava, e para a Rosa, estarrecida, a historia do encontro, e o sujo ultrage, o tiro que falhára e os malandros lacerados a chicote, e o velho marchando como um captivo, a gemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, n'um desmaio, Gracinha murmurou:

-Ai, Gon?alo! E se um dos homens estivesse morto!

O Barr?lo, mais vermelho que uma pionia, berrou logo que taes malandros mereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo tremendo d'Africa! O Gouveia! era necessario mandar a Villa-Clara, avisar o Gouveia!... Mas largas passadas ávidas abalaram o soalho-e foi o Bento, que se ergueu deante de Gon?alo, bracejando n'uma ancia:

-Ent?o, Snr. Doutor?... Diz que uma grande desordem!...

E á porta do escriptorio, onde todos pararam, novamente attentos, a historia recome?ou, especialmente para o Bento, que a bebia, n'um lento riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos humidos a reluzir, como se tambem triumphasse. Por fim, triumphou, com estrondo:

-Foi o chicote, Snr. Doutor! O que serviu ao Snr. Doutor, foi o chicote que eu lhe dei!

Era verdade. E Gon?alo, commovido, abra?ou o velho aio, que n'uma excita??o, gritava para a Rosa, para Gracinha, para o Barr?lo:

-O Snr. Doutor deu cabo d'elles!... Aquelle chicote mata um homem!... Os malvados est?o mortos!... E foi o chicote! Foi o chicote que eu dei ao Snr. Doutor!

Mas Gon?alo reclamava agua quente para se lavar da poeira, do suor, do sangue... E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois pelas escadas da cosinha-?que f?ra o chicote! o chicote, que elle déra ao Snr. Doutor!? Gon?alo entrára no quarto, acompanhado pelo Barr?lo. E pousou o chapeu sobre o marmore da commoda, com um immenso ah consolado! Era o consolo immenso de se encontrar, depois de t?o violenta manh?, entre as doces cousas costumadas, pisando o seu velho tapete azul, ro?ando o leito de pau preto em que nascera, respirando pelas vidra?as abertas, onde as ramagens familiares das faias s'empurravam na aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de columnas douradas, se mirou e se remirou, como a um Gon?alo novo e t?o melhorado, que nos hombros reconhecia mais largueza, e até no bigode um arquear mais crespo.

E foi ao arredar do espelho, topando com o Barr?lo, que subitamente despertou n'uma curiosidade immensa:

-Mas, oh Barr?lo, como é que vos encontro esta manh? na Torre?

Resolu??o da vespera, ao chá. Gon?alo n?o apparecia, n?o escrevia... Gracinha a matutar, inquieta. Elle tambem espantado d'aquelle sumi?o depois do cesto dos pêcegos. De modo que ao chá, pensando tambem que a parelha necessitava uma trotada, lembrára a Gracinha:-?Vamos nós amanh? á Torre? no phaeton??

-Além disso precisava fallar comtigo, Gon?alo... Tenho andado aborrecido.

O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:

-Como aborrecido?... Aborrecido por que?...

Barr?lo, com as m?os nos bolsos da rabona de flanella, que lhe cingia as ancas gordas, considerou as fl?res do tapete, melancolicamente:

-é uma grande secca! A gente n?o póde confiar em ninguem... Nem ter familiaridades!...

N'um lampejo Gon?alo imaginou o Cavalleiro e Gracinha mostrando estouvadamente nos Cunhaes, como outr'ora entre os arvoredos da Torre, o sentimento que os dominava. E presentiu um desabafo, alguma queixa triste do pobre Barr?lo, amargurado por suspeitas, talvez por intimidades que espreitára. Mas a emo??o suprema da sua batalha, sumira para uma sombra inferior os cuidados que, ainda na vespera, o opprimiam: todas as difficuldades da vida lhe appareciam agora, de repente, n'aquelle frescor da sua coragem nova, t?o faceis d'abater como os desafios dos valent?es; e n?o se assustou com as confidencias do cunhado, bem seguro d'imp?r áquella alma submissa de bac?co a confian?a e a quieta??o. Até sorriu, com indolencia:

-Ent?o, Barrolinho? Succedeu alguma peripecia?

-Recebi uma carta.

-Ah!

Gravemente Barr?lo desabotoou o jaquet?o, puxou do bolso interior uma larga carteira, de couro verde e lustroso, com monogramma d'ouro. E foi a carteira que elle mostrou a Gon?alo, com satisfa??o.

-Bonita, hein? Presente do André, coitado... Creio que até a mandou vir de Paris. O monogramma tem muito chic.

Gon?alo esperava, espantado. Emfim o bom Barr?lo tirou da carteira uma carta-já amarrotada, depois alisada. Era, n'um papel pautado, uma lettra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com seguran?a:

-é das Louzadas.

E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovello enterrado na almofada: ?Ex.mo Snr. José Barr?lo.-V. Ex.a apesar de todos os seus amigos o alcunharem de Zé bac?co, mostrou agora muita espertesa, chamando de novo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil André Cavalleiro, nosso Governador Civil. Com effeito a esposa de V. Ex.a, a linda Gracinha, que n'estes ultimos tempos andava t?o murcha e até desbotada (o que a todos nos inquietava) immediatamente reflorio, e ganhou c?res, desde que possue a valiosa companhia da primeira auctoridade do districto. Portou-se pois V. Ex.a como marido zeloso, e desejoso da felicidade e boa saude de sua interessante esposa. Nem parece rasgo d'aquelle que toda a Oliveira considera como o seu mais illustre pateta! Os nossos sinceros parabens!?

Gon?alo guardou muito socegadamente na algibeira aquella carta que, dias antes, o lan?aria em infinita amargura e furia:

-é das Louzadas... E tu déste importancia a semelhante babuseira?

O Barr?lo repontou, com as bochechas abrazadas:

-Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos anonymos... E depois essa insolencia a respeito dos amigos me chamarem Bac?co... Grande infamia, hein? Tu acreditas?... Eu n?o acredito! mas lan?a sizania entre mim e os rapazes... Nem voltei ao Club... Bac?co! Porquê? Por que eu sou simples, sempre franco, disposto a arranchar... N?o! se os rapazes no Club me chamam bac?co pelas costas, caramba, mostram ingratid?o! Mas eu n?o acredito! Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as m?os cruzadas sobre as gordas nadegas. Depois, estacando deante do divan, d'onde Gon?alo o considerava, com piedade:

-Em quanto ao resto da carta é t?o estupido, t?o atrapalhado que ao principio nem comprehendi. Agora percebo... Querem dizer que a Gracinha e o Cavalleiro teem namoro... é o que me parece que querem dizer! Ora vê tu que disparate! Até a intimidade do Cavalleiro é mentira. O pobre rapaz, desde que lá jantou, só appareceu tres ou quatro vezes, á noite, para a manilha, com o Mendon?a... E agora abalou para Lisboa.

Ent?o o Fidalgo pulou, de surpresa.

-O quê! o Cavalleiro foi para Lisboa?

-Pois partiu ha tres dias!

-Com demora?

-Com demora, com grande demora... Só volta no meado d'outubro para a Elei??o.

-Ah!

Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro d'agua quente, duas toalhas de rendas, ainda n'uma excita??o que o azafamava. Deante do espelho, lentamente Barr?lo reabotoava o jaquet?o:

-Bem, até logo, Gon?alinho. Eu des?o á cavallari?a, visitar a parelha. N?o imaginas! desde Oliveira, sem descanso, uma trotada explendida. E nem um pello suado! Tu guardas a carta?

-Guardo, para estudar a lettra.

Apenas Barr?lo cerrára a porta-o Fidalgo recome?ou com o Bento a deliciosa historia da briga, revivendo as surprezas e os rasgos, simulando os arremessos da egoa, arrebatando o chicote para representar as cutiladas silvantes, que arrancavam febra e sangue... E de repente, em ceroulas:

-Oh Bento, traze o meu chapeu... Estou desconfiado que a bala ro?ou pelo chapeu.

Ambos remiraram, esquadrinharam o chapeu. O Bento, no seu encarecimento da fa?anha, achava a copa amolgada-até chamuscada.

-A bala passou de rasp?o, Snr. Doutor!

O Fidalgo negou, com a modestia grave d'um forte:

-N?o! Nem de rasp?o!... Quando o malandro desfechou já o bra?o lhe tremia... Devemos agradecer a Deus, Bento. Mas eu realmente n?o corri grande perigo!

Depois de vestido, Gon?alo, passeando no quarto, releu a carta. Sim, certamente das Lousadas. Mas agora essa maledicencia, soprada com t?o sordida maldade sobre as pobres bochechas do Barr?lo, n?o causava damno-antes servia, quasi beneficamente, como a braza d'um ferro, para sarar um damno. O pobre Barr?lo apenas se impressionára com a revela??o da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em galhofas ingratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra insinua??o terrivel, Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavalleiro, essa mal a comprehendera, escassamente a attendera n'um desdem distrahido e candido. Mas a carta que assim silvava por sobre o bom Barr?lo como flecha errada-acertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no seu impressional pudor, mostrando á pobre tonta como o seu nome e mesmo o seu cora??o, já arrastavam enxovalhadamente, pela rasteira mexeriquice das Lousadas!... Certesa t?o humilhadora n?o apagaria um sentimento-que se n?o apagava com humilha??es mais intimas, tanto mais dolorosas. Mas estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato:-e agora que André se afastára para Lisboa, operaria n'ella, surdamente, solitariamente, sem que a presen?a tentadora lhe desmanchasse a influencia socegadora e salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um aviso temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas femeas para desencadear nos Cunhaes escandalo e d?r-talvez restabelecesse, na amea?ada casa, quieta??o e gravidade.-Gon?alo esfregou as m?os pensando-que em t?o ditosa manh? talvez até esse mal redundasse em bem!

-Oh Bento, onde está a Snr.a D. Gra?a?

-A menina subiu agora ha pouco para o seu quarto, Snr. Doutor.

Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda se conservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador illustre que pertencera á Rainha D. Maria Francisca de Saboya, e o sophá, as cadeiras de casimira clara em que Gracinha bordára, n'um arrastado labor d'annos, o A?or negro dos Ramires. E sempre que voltava á Torre Gracinha gostava de reviver no seu quarto, as horas de solteira, remexendo as gavetas, folheando velhos romances inglezes na estantesinha envidra?ada, ou simplesmente da varanda contemplando a querida quinta estendida até aos outeiros de Valverde, a verde quinta, t?o misturada á sua vida que cada arvore lhe susurrava, cada recanto de verdura era como um recanto do seu pensamento.

Gon?alo subiu-bateu á porta cerrada com o antigo aviso:-?Licen?a para o mano!? Ella correu da varanda, onde regava nos seus antigos vasos vidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E desabafando logo do pensamento que a enchia:

-Oh Gon?alo! mas que felicidade nós virmos á Torre, justamente hoje, que te succedeu cousa tamanha!

-é verdade, Gracinha, grande sorte! E n?o me admirei nada de te vêr... Era como se ainda vivesses na Torre e te encontrasse no corredor... Quem estranhei foi o Barr?lo! E no primeiro momento depois de desmontar, pensava assim, vagamente: ?mas que diabo faz aqui o Barr?lo? como diabo se acha aqui o Barr?lo?...? Curioso, hein? Foi talvez que, depois da desordem, me senti remo?ado, com um sangue novo, e me julguei no tempo em que desejavamos uma guerra em Portugal, e nós cercados na Torre, sob o nosso pend?o, o nosso ter?o atirando bombardas aos hespanhoes...

Ella ria, lembrada dessas imagina??es heroicas. E com o vestido entalado entre os joelhos recome?ou a lenta rega dos seus vasos-em quanto Gon?alo, encostado á varanda, considerando a Torre, retomado pela ideia d'uma concordancia mais intima, que desde essa manh? se estabelecera entre elle e aquelle heroico resto da Honra de Santa Ireneia, como se a sua for?a, tanto tempo quebrada, se soldasse emfim firmemente á for?a secular da sua ra?a.

-Oh Gon?alo! tu deves estar muito can?ado! Depois d'essa verdadeira batalha...

-N?o, can?ado n?o... Mas com fome. Com fome, e com uma sêde explendida!

Ella pousou logo o regador, sacudindo as m?os alegremente:

-Pois o almo?o n?o tarda!... Já andei a trabalhar na cosinha, com a Rosa, n'uma pescada á hespanhola... é uma receita nova do Bar?o das Marges.

-Ent?o insonsa, como elle.

-N?o! até picante: foi o Snr. Vigario Geral que lh'a ensinou.

E como, deante do toucador da Rainha Maria Francisca, ella arranjava á pressa os ganchos do cabello, para aproveitar a solid?o favoravel, apressou com um esfor?o, a confidencia que o commovia:

-E em Oliveira? Lá por Oliveira!

-Em Oliveira, nada... Muito calor!

Gon?alo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho, fino entrela?amento de a?ucenas e louros, murmurou:

-Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em plena actividade...

Gracinha negou candidamente:

-As Lousadas? N?o! Nem teem apparecido.

-Mas teem tecido!

E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem comprehender, Gon?alo arrancou vivamente da algibeira a carta que guardára, que agora lhe pesava, como uma chapa de ferro:

-Olha, Gracinha! Mais vale desabafarmos! Ahi tens o que ellas ha dias escreveram a teu marido...

N'um relance, Gracinha devorou as linhas terriveis. E com ondas de sangue nas faces, apertando as m?os n'uma afflic??o, um desespero, em que o papel amarfanhou:

-Oh Gon?alo! pois...

Gon?alo accudio:

-N?o! o Barr?lo n?o se importou! Até se rio! E eu tambem, quando elle me entregou esse papelucho... E a prova que ambos o consideramos uma mexeriquice insensata, é que eu t'o mostro t?o francamente.

Ella esmagava a carta nas m?os juntas e tremulas, pallida agora e emmudecida pelo espanto, retendo grandes lagrimas que rebrilhavam. E Gon?alo commovido, com gravidade, com ternura:

-Mas tu, Gracinha, sabes o que s?o terras pequenas. Sobre tudo Oliveira! Precisas muito cuidado, muita reserva... Ai de mim! De mim vem a culpa. Reatei rela??es que nunca se deviam reatar... Bem me tenho arrependido! E acredita! por causa d'essa situa??o t?o falsa e t?o perigosa, que eu creei, levianamente, por ambi??o tola, passei aqui na Torre dias amargurados... Até nem m'atrevia voltar a Oliveira. Hoje, n?o sei porquê, depois d'esta aventura, parece que tudo se esbateu, s'afundou para uma grande sombra... Emfim já n?o me arde t?o em braza no cora??o... Por isso desabafo assim, serenamente.

Ella desatou n'um solto, doloroso choro em que a sua fraca alma se desfazia. Com redobrada ternura Gon?alo abra?ou os pobres hombros vergados que os solu?os espeda?avam. E foi com ella toda refugiada no seu peito, que ainda a aconselhou, docemente:

-Gracinha, o passado morreu, e todos precisamos, para honra de todos, que continue morto. Pelo menos que por fóra, em cada gesto teu, pare?a bem morto! Sou eu que t'o pe?o, pelo nosso nome!...

D'entre os bra?os do irm?o, ella gemeu com infinita humildade:

-Mas elle até foi embora!... Nem quiz estar mais em Oliveira!

Gon?alo acariciou a acabrunhada cabe?a que de novo se escondera contra o seu peito, contra elle se apertava, como procurando a fresca misericordiosa que dentro sentia brotar:

-Bem sei. E isso me mostra que tens sido forte... Mas precisas muita reserva, muita vigilancia, Gracinha!... E agora socega. N?o fallemos mais, nunca mais, n'este incidente... Por que foi apenas um incidente. E que eu provoquei, ai de mim, por leviandade, por illus?o. Passou, está esquecido! Socega, descan?a. E quando desceres traze os olhos bem seccos.

Lentamente a desprendera dos bra?os, onde ella se arraigava como ao abrigo mais certo e á cons

ola??o mais desejada. E sahia, engasgado pela emo??o, recalcando tambem as lagrimas... Um gemido timido, supplicante, ainda o reteve.

-Gon?alo! mas tu pensas...

Elle voltou, de novo a abra?ou, a beijou na testa lentamente:

-Eu penso que tu, agora bem avisada, bem aconselhada, vaes mostrar muita dignidade, muita firmeza.

Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na escada estreita, escassamente allumiada por uma claraboia ba?a, limpava as palpebras, quando esbarrou com o Barr?lo, que procurava Gracinha, para apressar o almo?o.

-A Gracinha já desce! atabalhoou o Fidalgo. Está a lavar as m?os! Já desce!... Mas antes do almo?o vamos á cavallari?a. Devemos uma visita á egoa, a essa querida egoa que me salvou!

-é verdade, caramba! concordou logo Barr?lo revirando nos degraus, com enthusiasmo. Precisamos visitar a egoa... Grande, briosa, hein! Mas aposto que ficou mais suada que as minhas... Imagina! uma trotada d'aquellas, desde Oliveira, e nem um pello molhado! Grandes egoas! Tambem, o que eu as ólho, o que as trato!

Na cavallari?a, ambos affagaram a egoa. Barr?lo lembrou que se mimoseasse com uma ra??o larga de cenoura. Depois-para que Gracinha, com vagar se calmasse,-o Fidalgo arrastou o Barr?lo ao pomar e á horta...

-Tu n?o vens á Torre ha perto de seis mezes, Barrolinho! Precisas vêr, admirar progressos. Anda agora por aqui a m?o forte do Pereira da Riosa...

-Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu tenho uma fome, Gon?alinho!

-Tambem eu!

Uma hora batia quando entraram na varanda onde a mesa esperava, florida e em festa-e Gracinha, á beira do divan, percorria pensativamente a velha Gazeta do Porto. Apesar de muito banhados, os seus bellos olhos conservavam um ardor: e para o justificar, e o seu modo abatido, logo se lastimou, córando, d'uma enxaqueca. Eram as emo??es, o perigo de Gon?alo...

-Tambem eu tenho d?r de cabe?a! declarou o Barr?lo, rondando a mesa. Mas a minha vem da fome... Oh filhos, é que estou desde as sete da manh? com uma chavena de café e um ovo quente!

Gon?alo repicou a campainha. Mas quem rompeu pela porta envidra?ada, esbaforido, escancarando a bocca n'um riso immenso, foi o Joaquim, o mo?o da cavallari?a que voltava da Grainha.

Gon?alo atirou os bra?os, soffrego:

-Ent?o?! ent?o?!

-Pois lá estive, meu Fidalgo! exclamou o Joaquim com o peito a estalar d'importancia. E vae por lá um povoleu, todos já sabem! Uma rapariga dos Bravaes espreitou tudo, de dentro do quinteiro... Depois correu, badalou... Mas o velho, o tal Domingues que mora na casa, e o filho, abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se cahio, sem sentidos, foi com o susto. O Ernesto de Nacejas, esse sim, santo nome de Deus, apanhou. Lá o levaram em bra?os para casa d'um compadre alli ao pé, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem bocca!... Pois por todos aquelles sitios era o ai-jesus das mo?as!... E logo lá o carregam para o Hospital de Villa Clara, que na casa do Compadre n?o pode sarar. Um povoleu, e todos d?o a ras?o ao Fidalgo. O tal Domingues era malandro. E o Ernesto, esse ninguem o podia enxergar! Mas todos lhe tinham medo... O Fidalgo fez uma limpeza!

Gon?alo resplandecia. Ah! Ainda bem! que n?o passára damno mais forte, que belleza perdida do D. Juan de Nacejas!

-E ent?o o povo por lá, a fallar, a olhar para o sitio?

-Pois o povo n?o se arreda! E a mostrar o sangue, no ch?o, e as pedras por onde se atirou a egoa do Fidalgo... E agora até contam que foi uma espera, e que desfecharam tres tiros ao Fidalgo, e que depois adiante no pinhal ainda saltaram tres homens mascarados que o Fidalgo escangalhou...

-Eis a lenda que se forma! declarou Gon?alo.

O Bento apparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo affagou risonhamente o hombro do Joaquim. E em baixo a Rosa que abrisse, para o almo?o da familia, duas garrafas de vinho do Porto, velho. Depois com a m?o nas costas da cadeira murmurou gravemente:-Pensemos um momento em Deus, que me tirou hoje d'um grande perigo!

Barr?lo pendeu a cabe?a, reverente. Gracinha, atravez d'um leve suspiro, pensou uma leve ora??o. E desdobravam os guardanapos; Gon?alo acclamava a travessa de pescada á hespanhola-quando o pequeno da Crispola empurrou ainda a porta envidra?ada ?com um telegramma, que viera da Villa!? Uma inquieta??o deteve os garfos. A manh? correra com tantas agita??es e espantos! Mas já um sorriso de gosto, de triumpho, se espalhára na fina face de Gon?alo:

-N?o é nada... é do Castanheiro, por causa dos capitulos do Romance que eu lhe mandei... Coitado! Bom rapaz!

E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegramma, que os seus olhos affagavam:-?Capitulos romance recebidos. Leitura feita amigos. Enthusiasmo! Verdadeira obra prima! Abra?o!...?

Barr?lo, com a bocca cheia, bateu as palmas. E Gon?alo, sem reparar na travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de vinho verde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que n?o se dissipava:

-Emfim, boa manh?... Grande manh?!

Gon?alo, apesar das insistencias de Gracinha e do Barr?lo, n?o os acompanhou para Oliveira-no desejo de acabar, durante essa semana, o derradeiro Capitulo da Novella, e depois cerrar o pregui?oso giro de visitas aos influentes Eleitoraes do Circulo. Assim rematava a Obra d'Arte e a obra de Politica,-e cumpria, Deus louvado, a tarefa d'esse ver?o fecundo!

Logo n'essa noite retomou o manuscripto da Novella-e na margem larga lan?ou a data, uma nota:-?Hoje, na freguesia da Grainha, tive uma briga terrivel com dous homens que me assaltaram a pau e tiro, e que castiguei severamente...? Depois, com facilidade atacou o lance de tanto sabor medieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do Bastardo, penetrava, ao espalhado e fumarento clar?o dos archotes, no arraial de D. Pedro de Castro.

Com grave amisade acolhia o velho homem de guerra aquelle seu primo de Portugal, que lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Ireneia, quando os Castros combateram um grande poder de Mouros em Enxarez de Sandornin. Depois, na vasta tenda, reluzente d'armas, tapizada de pelles de le?o e d'urso, Tructesindo contava, ainda a arfar de d?r represa, a morte de seu filho Louren?o, ferido na lide de Canta-Pedra, acabado á punhalada pelo Bastardo de Bay?o, deante das muralhas de Santa Ireneia, com o sol no ceu alto a olhar a trai??o! Indignado, o velho Castro esmurra?ou a mesa, onde um rosario d'ouro se misturava a grossas pe?as de xadrez; jurou pela vida de Christo, que, em sessenta annos d'armas e surpresas nunca soubera de feito mais vil! E agarrando a m?o do senhor de Santa Ireneia, ardentemente lhe offereceu, para a empreza da santa vingan?a, a sua hoste inteira-tresentas e trinta lan?as, vasta e rija peonagem.

-Por Santa Maria! Formosa arrancada! bradou Mendo de Briteiros com as vermelhas barbas a flammejar de gosto.

Mas D. Garcia Viegas, o Sabedor, entendia que para colherem o Bastardo vivo, como convinha a uma vingan?a vagarosa e bem gosada, mais utilmente serviria uma calada e curta fila de cavalleiros, com alguns homens de pé...

-Porquê, D. Garcia?

-Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da pionada e carriagem correra, com a mira em Coimbra, para se acolher á for?a da Hoste Real. N'essa noite, com o seu esfalfado bando de lan?as, pernoitára certamente no solar de Landim. E com o luzir da alva, para encurtar, certamente retomava a galopada pelo velho caminho de Mirad?es, que trepa e foge atravez das lombas do Caramulo. Ora elle, Garcia Viegas, conhecia para deante do Po?o da Esquecida, certo passo, onde poucos cavalleiros, e alguns bésteiros, bem postados por entre o bravio, apanhariam Lopo de Bay?o como lobo em fojo...

Tructesindo, incerto e pensativo, mettia os dedos lentos pelos fios da barba. O velho Castro duvidava, preferindo que se pozessse batalha ao Bastardo em campo bem liso onde se avantajassem tantas lan?as já aprestadas, que depois correriam em alegre levada a assolar as terras de Bay?o. Ent?o Garcia Viegas rogou aos seus primos d'Hespanha e de Portugal que sahissem ao terreiro, deante da tenda, com fartura de tochas para bem se allumiarem. E ahi, no meio dos cavalleiros curiosos, á claridade dos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, riscou sobre a terra, com a ponta d'uma adaga, o roteiro da sua ca?ada para lhe comprovar a belleza... D'além castello Landim, largaria com a alva o Bastardo. Por aqui, quando a lua nascesse, abalariam elles, com vinte cavalleiros dos Ramires e dos Castros, para que lidadores d'ambas as mesnadas gosassem a lide. Além, se postariam, alapados no mattagal, besteiros e pe?es de frecha. Por traz, d'este lado, para entaipar o Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com t?o gostosa ajuda elle honrasse o Senhor de Santa Ireneia. Adiante, acolá, para colher pela gorja o vill?o, o Snr. D. Tructesindo que era o pae e Deus mandava fosse o vingador. E alli, na estreitura o derrubariam e o sangrariam como um porco-e como o sangue era vil, a um tiro de bésta encontrariam agua farta para lavar as m?os, a agoa do pégo das Bichas!...

-Famosa tra?a! murmurou Tructesindo convencido.

E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavalleiros d'Hespanha:

-Vida de Christo, que se meu tio-av? Gutierres tivera por Coudel aqui o snr. D. Garcia, n?o lhe escapavam os de Lara quando levaram o Rei Menino, na grande carreira, para Santo Estevam de Gurivaz!... Entendido pois, primo e amigo! E a cavallo, para a monteria, mal reponte a lua!

E recolheram as tendas-que já nas fogueiras lourejavam os cabritos da ceia, e os uch?es acarretavam, d'entre os carros da sarga, os pesados odres de vinho de Tordesillas.

Com a ceia no arraial (grave e sem ruido, por que um luto velava o cora??o dos hospedes) Gon?alo terminou, n'essa noute, o seu capitulo IV, lan?ando á margem outra nota:-?Meia noite... Dia cheio. Batalhei, trabalhei.-?. Depois no seu quarto, em quanto se despia, tra?ou todo o alvoroto da briga curta em que o Bastardo como lobo em fojo quedaria captivo, á mercê vingadora dos de Santa Ireneia... Mas de manh?, antes d'almo?o, ao abancar com gosto para o trabalho-recebeu dous telegrammas, que o desviaram deliciosamente da correria contra o Bastardo de Bay?o.

Eram dois telegrammas d'Oliveira, um do Bar?o das Marges, outro do capit?o Mendon?a-ambos com parabens ao Fidalgo ?por assim escapar de t?o terrivel espera, destro?ando os valent?es de Nacejas.? O Bar?o das Marges accrescentava:-?Bravissimo! é d'heroe!?

Gon?alo, enternecido, mostrou os telegrammas ao Bento. A nova da sua fa?anha, pois, já se espalhára, impressionára Oliveira,

-Foi o Snr. José Barr?lo que contou! acudiu o Bento. E o Snr. Dr. verá! o Snr. Dr. verá... Até no Porto se v?o assombrar!

Ao bater meio dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o immenso Titó, acompanhado pelo Jo?o Gouveia que chegára na vespera á tarde da Costa, soubera da aventura na Assembleia, corria á Torre, como amigo para o abra?o, antes de comparecer, como Auctoridade, para o auto. Ent?o Gon?alo, ainda nos bra?os do Gouveia, pediu generosamente, ?que se n?o procedesse contra os bandidos...? O Administrador recusou, decidido e secco, proclamando o principio da Ordem, e necessidade d'um escarmento rijo, para que Portugal n?o recuasse aos tempos barbaros do Jo?o Brand?o de Mid?es. Elle e Titó almo?aram na torre:-e Titó, á sobremesa, lembrou galhofeiramente a conveniencia d'um brinde, e bramou elle o brinde, comparando Gon?alo ao elefante, ?sempre bom, que tanto aguenta, e de repente, zás, esmaga o mundo!?

Depois Jo?o Gouveia accendendo um grande charuto reclamou a representa??o veridica da desordem, com os pulos, os gritos, para elle se compenetrar como auctoridade. Ent?o atravez da varanda, reviveu a historia heroica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou por esga?ar) os golpes que arremessára imitando os tombos meio desmaiados do valent?o de Nacejas, quando já o sangue o alagava. O Administrador e o Titó visitaram na cavallari?a a egoa historica; e no pateo, Gon?alo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro seccando ao sol, lavadas do sangue que as salpicára.

Deante do port?o Jo?o Gouveia bateu gravemente no hombro do Fidalgo:

-Gon?alo, vossê deve apparecer esta noite na Assembleia...

Appareceu-e foi acolhido como o vencedor d'uma batalha illustre. No bilhar, por proposta do velho Ribas, flammejou um grande punche--e o Commendador Barros, afogueado, teimava que no domingo se celebrasse em S. Francisco um Te-Deum de gra?as, de que elle costearia as despezas, com orgulho, caramba! á sahida, acompanhado pelo Titó, pelo Gouveia, pelo Manoel Duarte, por outros socios, encontraram o Videirinha-que n?o pertencia á Assembleia, mas rondava, esperando o Fidalgo para lhe lan?ar duas trovas do Fado, improvisadas n'essa tarde, em que o exaltava acima dos outros Ramires, da Historia e da Lenda!

O rancho quedou no chafariz. O viol?o gemeu, com amor. E o cantar do Videirinha, elevado da alma, varou a muda ramagem das olaias:

Os Ramires d'outras eras

Venciam com grandes lan?as,

Este vence com um chicote,

Vêde que estranhas mudan?as!

é que os Ramires famosos,

Da passada gera??o,

Tinham a for?a nas armas

E este a tem no cora??o!

A t?o requebrado conceito-os amigos romperam em vivas a Gon?alo, á Casa de Ramires. E o Fidalgo recolhendo á Torre, commovido, pensava:

-é curioso! Esta gente toda parece gostar de mim!...

Mas que emo??o quando, de manh? cedo, o Bento o acordou com um telegramma de Lisboa! Era do Cavalleiro-que ?soubera pelos jornaes attentado, lhe mandava enthusiastico abra?o pela felicidade e pela valentia!? Gon?alo berrou, sentado na cama:

-Caramba! ent?o os jornaes em Lisboa já fallam, Bento! o caso anda celebrado!

Certamente celebrado!-por que durante o delicioso dia, o mo?o do Telegrapho, esbaforido sobre a perna manca, n?o cessou d'empurrar o port?o da Torre, com outros telegrammas, todos de Lisboa, da Condessa de Chellas; de Duarte Louren?al; dos Marquezes de Cója felicitando; da tia Louredo com ?parabens ao destemido sobrinho?; da marqueza d'Esposende ?esperando que o caro primo tivesse agradecido a Deus!?... E o ultimo do Castanheiro, com exclama??es:-Magnifico! Digno de Tructesindo!-Gon?alo, pela livraria, erguia os bra?os, estonteado:

-Santo nome de Deus! mas que ter?o dito os jornaes?

E, por entre os Telegrammas, accudiam os cavalheiros dos arredores, os influentes,-o Dr. Alexandrino, aterrado, antevendo um regresso ao Cabralismo; o velho Pacheco Valladares de Sá, que n?o se espantára do seu nobre primo, por que sangue de Ramires, como sangue de Sás, sempre ferve; o padre Vicente da Finta, que com os seus parabens, offereceu um cestinho de cachos do seu famoso moscatel tinto; e por fim o Visconde de Rio-Manso, que agarrado a Gon?alo, solu?ou, no enternecimento quasi ufano de que a briga assim rompesse, na estrada, quando ?o querido amigo, o amigo da sua Rosa? se encaminhava para a Varandinha. Gon?alo, afogueado, banhado de riso, abra?ava, recontava pacientemente a fa?anha, acompanhava até ao port?o aquelles cavalheiros, que ao montar as egoas, ao entrar nas caleches, sorriam para a velha Torre, escura e rigida, na doce claridade da tarde de Setembro, como saudando, depois do heroe, o secular fundamento do seu heroismo.

E o Fidalgo, galgando as escadas para a livraria, de novo murmurava, estonteado:

-Que ter?o dito os jornaes de Lisboa?

Nem dormiu, na anciedade de os devorar. Quando o Bento, em alvoro?o, rompeu pelo quarto com o correio-Gon?alo saltou, arrojou o len?ol, como se abafasse. E logo no Seculo, soffregamente percorrido, encontrou o telegramma d'Oliveira, contando o assalto! os tiros disparados! a immensa coragem do Fidalgo da Torre, que com um simples chicote... O Bento quasi arrebatou o Seculo das m?os tremulas do Fidalgo, para correr á cosinha, bramar á Rosa a noticia gloriosa!

De tarde, Gon?alo correu a Villa-Clara, á Assembleia, para devorar os outros jornaes de Lisboa, os do Porto. Todos contavam, todos celebravam! A Gazeta do Porto, attribuindo o attentado a Politica, ultrajava furiosamente o Governo. O Liberal Portuense, porém, relacionava ?com certas vingan?as dos republicanos d'Oliveira, o pavoroso attentado que quasi causára a morte d'um dos maiores fidalgos de Portugal e d'Hespanha e d'um dos mais pujantes talentos da nova gera??o!? Os jornaes de Lisboa, glorificavam sobre tudo ?a coragem explendida do Snr. Gon?alo Ramires.? E o mais ardente era a Manh?, n'um verboso artigo (de certo escripto pelo Castanheiro), recordando as heroicas tradi??es da Casa illustre, esbo?ando as bellezas do Castello de Santa Ireneia e terminando por affirmar que ?agora, se esperava com redobrada anciedade a appari??o da novella de Gon?alo Ramires, fundada sobre um feito de seu av? Tructesindo no seculo XII, e promettida para o primeiro numero dos Annaes de Litteratura e de Historia, a nova Revista do nosso querido amigo Lucio Castanheiro, esse benemerito restaurador da Consciencia heroica de Portugal!?-As m?os de Gon?alo, ao desdobrar os jornaes, tremiam. E o Jo?o Gouveia, tambem soffrego, devorando tambem os artigos, por sobre o hombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:

-Vossê, Gon?alinho, vae ter uma vota??o tremenda!

Depois n'essa noute, recolhendo á Torre, Gon?alo encontrou uma carta que o perturbou. Era de Maria de Mendon?a, n'um papel perfumado, com o mesmo perfume que t?o docemente espalhava D. Anna, pelo adro de Santa Maria de Craquêde:-?Só esta manh? soubemos o grande perigo que passou, e ficamos ambas muito commovidas. Mas ao mesmo tempo eu (e n?o só eu) muito vaidosa da magnifica coragem do primo. é d'um verdadeiro Ramires! Eu n?o vou ahi abra?al-o (com risco de me comprometter e fazer invejas) por que um dos meus pequenos, o Neco, anda muito constipado. Felizmente n?o é cousa de cuidado... Mas aqui todos, até os pequenos, anciamos por vêr o heroe, e n?o creio que houvesse nada d'extraordinario, nem d'um lado nem d'outro, em que o primo por aqui apparecesse além d'amanh? (quinta feira) pelas tres horas. Davamos um passeio na quinta, e até se merendava, á boa e velha moda dos nossos avós. Está dito? Muitos comprimentos, muitos, da Annica, e o primo creia-me, etc.?-Gon?alo sorriu, pensativamente, considerando a carta, recebendo o aroma. Nunca a prima Maria lhe empurrára, t?o claramente, a D. Anna para os bra?os... E como D. Anna se deixava empurrar, prompta, e d'olhos cerrados... Ah, se fosse somente para a alcova! Mas ai! era tambem para a Egreja. E de novo sentia aquelle vozeir?o do Titó, nos degraus da portinha verde com a lua cheia por cima dos olmos negros: ?Essa creatura teve um amante, e tu sabes que eu nunca minto??

Ent?o tomou lentamente a penna, respondeu a D. Maria Mendon?a:-?Querida prima-Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus enthusiasmos. N?o exaggeremos! Eu n?o fiz mais que correr a chicote uns valent?es que me assaltaram a tiro. é fa?anha facil para quem tenha, como eu, um chicote excellente. Emquanto á visita á Feitosa, que me seria t?o agradavel, n?o a posso realisar com fundo pezar meu, nem na quinta-feira, nem mesmo por todo este mez... Ando occupadissimo com o meu livro, a minha Elei??o, a minha mudan?a para Lisboa. A era dos cuidados sérios soou severamente para mim,-cerrando a doce era dos passeios e dos sonhos. Pe?o que apresente á Snr.a D. Anna os meus profundos respeitos. E com muitas amisades para si, e bons desejos pelo restabelecimento d'esse querido Neco, espero me creia sempre seu dedicado e grato primo, etc.?

Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete d'armas sobre o lacre verde, pensava:

-Assim aquelle maroto do Titó me rouba dusentos contos!...

* * *

Durante toda essa macia semana dos fins de Setembro, Gon?alo trabalhou no Capitulo final da sua Novella.

Era emfim a madrugada vingadora em que os Cavalleiros de Santa Ireneia, refor?ados pelas mais nobres lan?as da mesnada dos Castros, surprehendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o Sabedor, o bando de Bay?o, na sua a?odada corrida sobre Coimbra... Briga curta e falsa, sem destro e brioso ter?ar d'armas, mais semelhante a montaria contra um lobo do que a arremettida contra um Filho-de-Algo. E assim a desejára Tructesindo, com ruidosa approva??o de D. Pedro de Castro, por que n?o se cuidava de combater um inimigo, mas de colher um matador.

Antes do luzir d'alva, o Bastardo abalára do castello de Landim, em dura pressa e com t?o descuidada seguran?a, que nem almogavar nem coudel lhe atalayavam os trilhos. As cotovias cantavam quando elle, em aspero trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de penedia e urze, que chamam a Racha do Moiro, desde que Mafoma a fendeu para que escapassem as adagas christans de El-Rei Fernando, o Magno, o Alcaide moiro de Coimbra e a monja que elle arrebatára á garupa. E apenas pela esguia greta enfiára a derradeira lan?a da fila-eis que da outra embocadura do valle surde o cerrado tro?o dos cavalleiros de Santa Ireneia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel, sacudindo apenas uma ascuma de monte como se folgadamente andasse em ca?ada. Da selva arredada que os encobria, rompem por traz as lan?as dos Castros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente que as puas d'uma levadi?a. Do recosto dos cerros róla, como reprêsa solta, uma rude e escura peonagem! Colhido, perdido, o Bastardo terrivel! Ainda arranca furiosamente a espada, que redomoinhando o cor?a de coriscos. Ainda com um fero grito arremette contra Tructesindo... Mas bruscamente, d'entre um escuro magote de fundeiros baleares, parte ondeando uma corda de canave, que o la?a pela gargalheira, o arranca n'um brusco sac?o da sela mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se entala e se parte rente ao punho dourado. E emquanto os cavalleiros de Bay?o aguentam assombradamente o denso cerco de lan?as, que os envolvera-um r?lo de pe?es, em dura grita, como mastins sobre um cerdo, arrastam o Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel e adaga, lhe despeda?am o brial de l? r?xa, lhe quebram os fechos do elmo, para lhe cuspirem na face, nas barbas c?r de ouro, t?o bellas e de tanto orgulho!

Depois a mesma bruta matula o i?a, amarrado, para sobre o dorso d'uma possante mula de carga, o estende entre dous esguios caixotes de virot?es, como rez apanhada ao recolher da montaria. E servos da carriagem ficam guardando o Cavalleiro soberbo, o Claro-Sol que allumiava a casa de Bay?o, agora entaipado entre dois caixotes de pau, com cordas nos pés, e cordas nas m?os, e n'ellas espetado um triste ramo de cardo-emblema da sua trai??o.

No emtanto os seus quinze Cavalleiros juncavam o ch?o, esmagados sob o furioso cerco de lan?as que os investira-uns hirtos, como adormecidos, dentro das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com as carnes retalhadas, pendendo horrendamente entre malhas rotas dos lorigaes. Os escudeiros, colhidos, empurrados a pontoada de chu?o para a boca d'uma barroca, sem resgate ou mercê, como alcateia immunda de roubadores de gado, acabaram, decepados a macheta pelos barbudos estafeiros leonezes. Todo o valle cheirava a sangue como um pateo de magarefes. Para reconhecer os companheiros do Bastardo, uma turma de cavalleiros desafivelava os gorjaes, as viseiras, arrancando furtivamente as medalhas de prata, os bentos, saquinhos de reliquias, que todos traziam como bem-tementes. N'uma face, de fina barba negra, que uma espuma sangrenta manchava, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Sueiro de Lugilde com quem, pela fogueira de S. Jo?o, folgára t?o docemente e bailára no castello de Unhello,-e vergado sobre a alta sella rezou, pela pobre alma sem confiss?o, uma devota Ave-Maria. Fuscas, tristonhas nuvens, abafavam a manh? d'Agosto. E afastados á entrada do valle, sob a ramagem d'um velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e Garcia Viegas, o Sabedor, decidiam que morte lenta, e bem dorida e viltosa, se daria ao Bastardo, vill?o de t?o negra vilta.

Contando assim a sombria emboscada com o gemente esfor?o de quem empurra um arado por terra pedreira-gastára Gon?alo essa doce semana de Setembro. E no sabbado, cedo, na livraria, com os cabellos ainda molhados do banho de chuva, esfregava as m?os deante da banca-porque certamente com duas horas de attento trabalho, findaria antes d'almo?o a sua Novella, a sua Obra! E todavia esse final, quasi o repellia, com o seu sujo horror. O tio Duarte no seu Poemeto apenas o esbo?ára, com esquiva indecis?o, como nobre Lyrico que ante uma vis?o de bruta ferocidade solta um lamento, resguarda a Lyra, e desvia para sendas mais doces. E, ao tomar a penna, Gon?alo tambem, realmente lamentava que seu av? Tructesindo n?o matasse outr'ora o Bastardo, no fragor da briga, com uma d'essas cutiladas maravilhosas, e t?o doces de celebrar, que racham o cavalleiro e depois racham o ginete, e para sempre retinem na Historia.

Mas n?o! Sob a folhagem do azinheiro, os tres cavalleiros combinavam com lentid?o uma vingan?a terrifica. Tructesindo desejára logo recolher a Santa Ireneia, al?ar uma forca deante das barbacans, no ch?o em que seu filho rolára morto, e n'ella enforcar, depois de bem a?oitado, como vill?o, o vill?o que o matára. O velho D. Pedro de Castro, porém, aconselhava despacho mais curto, e tambem gostoso. Para que rodear por Santa-Ireneia, desbaratar esse dia d'Agosto na arrancada que os levava a Montemór, a soccorro das Infantas de Portugal? Que se estendesse o Bastardo amarrado sobre uma trave, aos pés de D. Tructesindo, como porco pelo Natal, e que um cavallari?o lhe chamuscasse as barbas, e depois outro, com facalh?o de ucharia, o sangrasse no pesco?o, pachorrentamente.

-Que vos parece, Snr. D. Garcia?

O Sabedor desafivelára o casco de ferro, limpava nas rugas o suor e a poeira da lide:

-Senhores e amigos! Temos melhor, e perto tambem, sem delongas de cavalgada, logo adiante destes cerros, no Pego das Bichas... E nem torcemos caminho, que de lá, por Tordezello e Santa Maria da Varge, endireitamos a Montemór, t?o direitos como v?a o corvo... Confiae em mim, Tructesindo! Confiae em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal morte e t?o vil, que d'outra egual se n?o possa contar desde que Portugal foi condado.

-Mais vil que forca, para cavalleiro, meu velho Garcia?

-Lá vereis, senhores e amigos, lá vereis!

-Seja! Mandae dar ás bozinas.

Ao commando d'Affonso Gomes, o Alferes, as bozinas soaram. Um tro?o de besteiros e de estafeiros Leoneses rodearam a mula que carregava o Bastardo amarrado e entalado entre dois caixotes. E acaudilhada por D. Garcia, a curta hoste metteu para o Pego das Bichas, em desbando, com os senhores de lan?a espalhados, como em marcha de folgan?a e paz, (?) e todos n'uma rija fallada recordando, entre gabos e risos, as proezas da lide.

A duas leguas de Tordezello e do seu castello formoso, se escondia entre os cerros o Pego das Bichas. Era um lugar de eterno silencio e de eterna tristeza. Em esmerados versos lhe marcára o tio Duarte a desolada asperid?o:

Nem trillo d'ave em balan?ado ramo!

Nem fresca fl?r junto de fresco arroio!

Só rocha, mattagal, ribas soturnas,

E em meio o Pego, tenebroso e morto!...

E quando os primeiros cavalleiros, galgada a lomba d'um cerro, o avistaram, na melancholia da manh? nevoenta, emmudeceram da larga fallada, repucharam os freios, assustados ante t?o aspero ermo, t?o propicio a Bruxas, a Avantesmas e a Almas penadas. Deante do escalavrado barranco, por onde os ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira, aberta com charcos lamacentos, quasi chupados pela estiagem, luzindo pardamente, por entre grossos pedregulhos e o tojo rasteiro. Ao fundo, a meio tiro de bésta, negrejava o Pego, lagoa estreita, lisa, sem uma ruga n'agua, duramente negra, com manchas mais negras, como lamina d'estanho onde alastrasse a ferrugem do tempo e do abandono. Em torno subiam os cerros, eri?ados de matto bravio e alto, sulcados por trilhos de saibro vermelho como por fios de sangue que escoresse, e rasgados no alto por penedias lustrosas, mais brancas que ossadas. T?o pesado era o silencio, t?o pesada a soledade, que o velho D. Pedro de Castro, homem de tanta jornada, se espantou:

-Feia paragem! E voto a Christo, a Santa Maria, que nunca antes de nós, n'ella entrou homem remido pelo baptismo.

-Pois, Snr. D. Pedro de Castro! accudiu o Sabedor, já por aqui se moveu muita lan?a, e luzida, e ainda em tempos do Conde D. Sueiro, e de vosso rei D. Fernando, se erguia n'aquella beira d'agua, uma castellania famosa! Vêde além!-E mostrava na ponta do pego, fronteira ao barranco, dous rijos pilares de pedra, que emergiam da agua negra, e que chuva e vento polira como marmores finos. Um passadi?o de traves, sobre estacas limosas e meio apodrecidas, atava a margem ao mais grosso dos pilares. E a meio d'esse rude esteio pendia uma argola de ferro.

No emtanto já o tropel da peonagem se espalhára pela ribanceira. D. Garcia Viegas desmontou, bradando por Pero Ermigues, o Coudel dos bésteiros de Santa Ireneia. E, ao lado do ginete de Tructesindo, risonho e gozando a surpreza, ordenou ao Coudel que seis dos seus rijos homens descessem o Bastardo da mula, o estirassem no ch?o, o despissem, todo nú, como sua m?e barreg? o soltára á negra vida...

Tructesindo encarou o Sabedor, franzindo as sobrancelhas hirsutas:

-Por Deus, D. Garcia! que me ides simplesmente afogar o vill?o, e sujar essa agua innocente!...

E alguns Cavalleiros, em redor, murmuraram tambem contra morte t?o quieta e sem malicia. Mas os miudos olhos de D. Garcia giravam, lampejavam de triumpho e gosto:

-Socegae, socegae! Velho estou certamente, mas ainda o senhor Deus me consente algumas tra?as. N?o! Nem enforcado, nem degolado, nem afogado... Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e de vagar, pelas grandes sanguesugas que enchem toda essa agua negra!

D. Pedro de Castro, maravilhado, bateu o guante nas solhas do coxote:

-Vida de Christo! Que ter n'uma hoste o Snr. D. Garcia, é ter juntamente, para marchas e conselho, enrolados n'um só, Annibal e Aristoteles!

Um rumor d'admira??o correu pela hoste:

-Boa tra?a, boa tra?a!

E Tructesindo, radiante, bradava:

-Andar, andar, bésteiros! E vós, senhores, recuae para a lomba do cerro, como para palanque, que vae ser grande a vista! Já seis bésteiros descarregavam da mula o Bastardo amarrado. Outros cercavam, com mólhos de cordas. E, como magarefes para esfolar uma rez, toda a rude turma se abateu sobre o malfadado, arrancando por cordas que desatavam a cervilheira, o saio, as grevas, os sapat?es de ferro, depois a grossa roupa de linho encardido. Agarrado pelos compridos cabellos, filado pelos pés, onde se cravavam agudas unhas no furor de o manter, com os bra?os esmagados sob outros grossos bra?os retêsos, o possante Bastardo ainda se estorcia, urrando, cuspindo contra as faces confusas da matulagem um cuspo avermelhado, que espumava!

Mas, por entre o escuro tropel que o cobria, o seu corpo, todo despido, branquejava, atado com cordas mais grossas. Lentamente o seu furioso urrar esmorecia, arquejado e rouquenho. E um após outro se erguiam os bésteiros, esfalfados, bufando, limpando o suor do esfor?o.

No emtanto os Cavalleiros d'Hespanha, de Santa Ireneia, desmontavam cravando o couto das lan?as entre o tojo e as pedras. Todos os recostos dos outeiros se cubriam da mesnada espalhada, como palanques em tarde de justa. Sobre uma rocha mais lisa, que dous magros espinheiros toldavam de folha rala, um pagem estendera pelles d'ovelha para o Snr. D. Pedro de Castro, para o senhor de Santa Ireneia. Mas só o velho Castell?o se accommodou, para uma repousada delonga, desafivelando o seu corselete de ferro tauxeado d'ouro.

Tructesindo permanecera erguido, mudo, com os guantes apoiados ao punho da sua alta espada, os olhos fundos ávidamente cravados na tenebrosa lag?a que, com morte t?o fera e t?o suja, vingaria seu filho... E pela borda do Pego, pe?es, e alguns cavalleiros d'Hespanha, remexiam com virot?es, com os coutos das ascumas, a agua lodosa, na curiosidade das negras bichas escondidas, que o povoavam.

Subitamente a um brado de D. Garcia, que rondava, toda a chusma de pe?es amontoada em torno ao Bastardo se arredou:-e o forte corpo appareceu, nú e branco, sobre a terra negra, com um denso pello ruivo nos peitos, a sua virilidade afogada n'outra matta de pello ruivo, e todo ligado por cordas de canave que o inteiri?avam. N'aquella rigidez de fardo, nem as costellas arfavam-apenas os olhos refulgiam, ensanguentados, horrendamente esbugalhados pelo espanto e pelo furor. Alguns cavalleiros correram a mirar a aviltada nudez do homem famoso de Bay?o. O senhor dos Pa?os d'Argelim mofou, com estrondo:

-Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba, sem costura de ferida!...

Leonel de ?amora raspou o sapato de ferro pelo hombro do malfadado:

-Vêde este Claro-Sol, t?o claro, que se apaga agora, em agua t?o negra!

O Bastardo cerrava duramente as palpebras,-d'onde duas grossas lagrimas escaparam, lentamente rolaram... Mas um agudo preg?o resoou pela ribanceira:

-Justi?a! Justi?a!

Era o Adail de Santa Ireneia, que marchava, sacudia uma lan?a, atroava os cerros:

-Justi?a! justi?a que manda fazer o Senhor de Treixedo e de Santa Ireneia, n'um perro matador!... Justi?a n'um perro, filho de perra, que matou vilmente, e assim morra vilmente por ella!...

Trez vezes pregoou por deante da hoste apinhada nos cerros. Depois quedou, saudou humildemente Tructesindo Ramires, o velho Castro,-como a julgadores no seu Estrado de julgamento.

-Aviae, aviae! bradava o Senhor de Santa Ireneia.

Immediatamente, a um commando do Sabedor, seis bésteiros, com as pernas embrulhadas em mantas da carga, ergueram o corpo do Bastardo como se ergue um morto enrolado no seu len?ol, e com elle entraram na agua, até ao mais alto pilar de granito. Outros, arrastando molhos de cordas, correram pelo limoso passadi?o de traves. Com um alarido d'aguenta! endireita! al?a! n'um desesperado esfor?o o robusto corpo branco foi mergulhado n'agua até ás virilhas, arrimado ao mais alto pilar, depois n'elle atado com um longo calabre que, passando pela argola de ferro, o suspendia, sem escorregar, t?o seguro e collado como um r?lo de vela que se amarra ao mastro. Rapidamente os bésteiros fugiram d'agoa, desentrapando logo as pernas, que palpavam, raspavam no horror das bichas sugadoras. Os outros recolheram pelo passadi?o, n'uma fila que se empurrava. No Pego ficava Lopo de Bay?o bem arranjado para a vistosa morte lenta, com a agoa que já o afogava até ás pernas, com cordas que o enroscavam até ao pesco?o como a um escravo no poste; e uma espessa mecha dos cabellos louros la?ada na argola de ferro, repuxando a face clara, para que todos n'ella gozassem largamente a humilhada agonia do Claro-Sol.

Ent?o o attento da hoste, esperando espalhada pelos recostos dos cerros, mais entristeceu o enevoado silencio do ermo. A agoa jazia sem um arrepio, com as suas manchas, negras como uma lamina d'estanho enferrujado. Entre as cristas das rochas, archeiros postados pelo Sabedor, atalaiavam, para além, os descampados. Um alto v?o de gralha atrevessou grasnando. Depois um bafo lento agitou as flamulas das lan?as cravadas no tojo denso.

Para despertar, aviar a lentid?o das bichas, alguns pe?es atiravam pedras á agoa lodosa. Já alguns cavalleiros hespanhoes rosnavam impacientes com a delonga, n'aquella cova abafada. Outros, descendo agachados a borda da lag?a, para mostrar que falladas bichas nunca acudiriam, mergulhavam lentamente, n'agoa negra, as m?os descal?adas, que depois sacudiam, rindo, e mofando o Sabedor... Mas de repente um estreme??o sacudiu o corpo do Bastardo; os seus rijos musculos, no furioso esfor?o de se desprenderem, inchavam entre as cordas, como cobras que se arqueiam; dos bei?os arreganhados romperam, em rugidos, em grunhidos, ultrages e amea?as contra Tructesindo covarde, e contra toda a ra?a de Ramires, que elle emprasava, dentro do anno, para as labaredas do Inferno! Indignado, um Cavalleiro de Santa Ireneia agarrou uma bésta de garrunche, a que retesou a corda.

Mas D. Garcia deteve o arremesso:

-Por Deus, amigo! N?o roubeis ás sanguesugas nem uma pinga d'aquelle sangue fresco!... Vêde como veem! vêde como veem!

Na agoa espessa, em torno ás coxas mergulhadas do Bastardo, um fremito corria, grossas bolhas empolavam,-e d'ellas, mollemente, uma bicha surdio, depois outra e outra, lusidias e negras, que ondulavam, se collavam á branca pelle do ventre, d'onde pendiam, chupando, logo engrossadas, mais lustrosas com o lento sangue que já escorria. O Bastardo emmudecera-e os seus dentes batiam estridentemente. Enojados, até rudes pe?es desviaram a face cuspindo para as urzes. Outros, porém, chasqueavam, assuavam as bichas, gritando-a elle, donzellas! a elle! E o gentil ?amora de Cendufe, clamava rindo contra t?o ensossa morte! Por Deus! Uma apostura de bichas, como a enfermo d'almorreimas. Nem era senten?a de Rico-Homem-mas receita d'herbanista moiro!

-Pois que mais quereis, meu Leonel? acudio alegremente o Sabedor, resplandecendo. Morte é esta para se contar em livros! E n?o tereis este inverno ser?o á lareira, por todos os solares de Minho a Douro, em que n?o volte a historia d'este Pego, e d'este feito! Olhae nosso primo Tructesindo Ramires! Formosos tratos presenceou de certo em t?o longo lidar d'armas!... E como goza! t?o attento! t?o maravilhado!

Na encosta do outeiro, junto do seu bals?o, que o Alferes cravára entre duas pedras, e como elle t?o quêdo, o velho Ramires n?o despregava os olhos do corpo do Bastardo, com deleite bravio, n'um fulgor sombrio. Nunca elle esperára vingan?a t?o magnifica! O homem que atára seu filho com cordas, o arrastára n'umas andas, o retalhára a punhal deante das barbacans da sua Honra-agora, vilmente nú, amarrado tambem como cerdo, pendurado d'um pilar, emergido n'uma agoa suja, e chupado por sanguesugas, deante de duas mesnadas, das melhores d'Hespanha, que miravam, que mofavam! Aquelle sangue, o sangue da ra?a detestada, n?o o bebia a terra revolta n'uma tarde de batalha, escorrendo de ferida honrada, atravez de rija armadura-mas, gota a gota, escuramente e mollemente se sumia, sorvido por nojentas bichas, que surdiam famintas do lodo e no lodo recahiam fartas, para sobre o lodo bolsar o orgulhoso sangue que as enfartára. N'um charco, onde elle o mergulhára, viscosas bichas bebiam socegadamente o cavalleiro de Bay?o! Onde houvera homizio de solares fundado em desforra mais d?ce?

E a fera alma do velho acompanhava, com inexoravel goso, as sanguesugas subindo, espalhadamente alastrando por aquelle corpo bem amarrado, como seguro rebanho pela encosta da collina onde pasta. O ventre já desapparecia sob uma camada viscosa e negra, que latejava, relusia na humidade morna do sangue. Uma fila sugava a cinta, encovada pela ancia, d'onde sangue se esfiava, n'uma franja lenta. O denso pello ruivo do peito, como a espessura d'uma selva, detivera muitas, que ondulavam, com um rasto de lodo. Um mont?o ennovelado sangrava um bra?o. As mais fartas, já inchadas, mais relusentes, despegavam, tombavam mollemente: mas logo outras, famintas, se aferravam. Das chagas abandonadas o sangue escorria delgado, represo nas cordas, d'onde pingava como uma chuva rala. Na escura agoa boiavam gordas postemas de sangue esperdi?ado. E assim sorvido, ressumando sangue, o malfadado ainda rugia, atravez ultrages immundos, amea?as de mortes, de incendios, contra a ra?a dos Ramires! Depois, com um arquejar em que as cordas quasi estalavam, a bocca horrendamente escancarada e avida, rompia aos roucos urros, implorando agoa, agoa! No seu furor as unhas, que uma volta de amarras lhe collára contra as fortes c?xas, esfarrapavam a carne, cravavam-se na fenda esfarrapada, ensopadas de sangue.

E o furioso tumulto esmorecia n'um longo gemer can?ado-até que parecia adormecido nos grossos nós das cordas, as barbas relusindo sob o suor que as alagára como sob um grosso orvalho, e entre ellas a espantada lividez d'um sorriso delirado.

No emtanto já na hoste derramada pelos cerros, como por um palanque, se embotára a curiosidade bravia d'aquelle supplicio novo. E se acercava a hora da ra??o de meridiana. O Adail de Santa Ireneia, depois o Almocadem Hespanhol, mandaram soar os anafins. Ent?o todo o áspero ermo se animou com uma faina d'arraial. O almazem das duas mesnadas parára por detraz dos morros, n'uma curta almargem d'herva, onde um regato claro se arrastava nos seixos, por entre as raizes de amieiros chor?es. N'uma pressa esfaimada, saltando sobre as pedras, os pe?es corriam para a fila dos machos de carga, recebiam dos uch?es e estafeiros a fatia de carne, a grossa metade d'um p?o escuro: e, espalhados pela sombra do arvoredo, comiam com silenciosa lentid?o, bebendo da agoa do regato pelas concas de pau. Depois pregui?avam, estirados na relva,-ou trepavam em bando pela outra encosta dos morros, através do matto, na esperan?a d'atravessar com um virote alguma ca?a erradia. Na ribanceira, deante da lag?a, os cavalleiros, sentados sobre grossas mantas, comiam tambem, em roda dos alforges abertos, cortando com os punhaes nacos de gordura nas grossas viandas de porco, empinando, em longos tragos, as bojudas caba?as de vinho.

Convidado por D. Pedro de Castro, o velho Sabedor descan?ava, partilhando d'uma larga escudella de barro, cheia de bolo papal, d'um bolo de mel e fl?r de farinha, onde ambos enterravam lentamente os dedos, que depois limpavam ao forro dos morri?es. Só o velho Tructesindo n?o comia, n?o repousava, hirto e mudo deante do seu pend?o, entre os seus dous mastins, n'aquelle fero dever de acompanhar, sem que lhe escapasse um arrepio, um gemido, um fio de sangue, a agonia do Bastardo. Debalde o Castell?o, estendendo para elle um pichel de prata, gabava o seu vinho de Tordesillas, fresco como nenhum d'Aquilat ou de Provins, para a sede de t?o rija arrancada. O velho Rico-Homem nem attendera:-e D. Pedro de Castro, depois de atirar dous p?es aos al?es fieis, recome?ou discorrendo com Garcia Viegas sobre aquelle teimoso amor do Bastardo por Violante Ramires que arrastára a tantos homizios e furores.

-Ditosos nós, Snr. D. Garcia! Nós a quem a edade e o quebranto e a fartura já arredam d'essas tenta??es... Que a mulher, como m'ensinava certo Physico quando eu andava com os moiros, é vento que consola e cheira bem, mas tudo enrodilha e esbandalha. Vêde como os meus por ellas penaram! Só meu pae, com aquella desvairan?a de zelos, em que matou a cutello minha d?ce madre Estevaninha. E ella t?o santa, e filha do Imperador! A tudo, tudo leva, a tonta ardencia! Até a morrer, como este, sugado por bichas, deante d'uma hoste que merenda e mofa. E por Deus, quanto tarda em morrer, Snr. D. Garcia!

-Morrendo está, Snr. D. Pedro de Castro. E já com o demo ao lado para o levar!

O Bastardo morria. Entre os nós das cordas ensanguentadas todo elle era uma ascorosa aventesma escarlate e negra com as viscosas pastas de bichas que o cobriam, latejando com os lentos fios de sangue que de cada ferida escorriam, mais copiosos que os regos d'humidade por um muro denegrido.

O desesperado arquejar cessára, e a ancia contra as cordas, e todo o furor. Molle e inerte como um fardo, apenas a espa?os esbogalhava horrendamente os olhos vagarosos, que revolvia em torno com enevoado pavor. Depois a face abatia, livida e flaccida, com o bei?o pendurado, escancarando a bocca em cova negra, d'onde se escoava uma baba ensanguentada. E das palpebras novamente cerradas, entumecidas, um muco gotejava, tambem como de lagrimas engrossadas com sangue.

A peonagem, no emtanto, voltando da ra??o, reatulhava a ribanceira, pasmava, com rudes chufas para o corpo pavoroso que as bichas ainda sugavam. Já os pagens recolhiam manteis e alforges. D. Pedro de Castro descera do cabe?o com o Sabedor até á borda da agoa lodosa, onde quasi mergulhava os sapatos de ferro, para contemplar, mais de cerca, o agonisante de t?o rara agonia! E alguns senhores, estafados com a delonga, afivelando os gibanetes, murmuravam:-?Está morto! Está acabado!?

Ent?o Garcia Viegas gritou ao Coudel dos Bésteiros:

-Ermigues, ide vêr se ainda resta alento n'aquella postema.

O Coudel correu pelo passadi?o de traves, e arrepiado de nojo palpou a livida carne, acercou da bocca, toda aberta, a lamina clara da adaga que desembainhára.

-Morto! morto!-gritou.

Estava morto. Dentro das cordas que o arroxeavam o corpo escorregava, engilhado, chupado, esvasiado. O sangue já n?o manava, havia coalhado em postas escuras, onde algumas bichas teimavam latejando, relusindo. E outras ainda subiam, tardias. Duas, enormes, remexiam na orelha. Outra tapava um olho. O Claro-Sol n?o era mais que uma immundice que se decompunha. Só a madeixa dos cabellos louros, repuxada, presa na argola, relusia com um lampejo de chamma, como rastro deixado pela ardente alma que fugira.

Com a adaga ainda desembainhada, e que sacudia, o Coudel avan?ou para o Senhor de Santa Ireneia, bradou:

-Justi?a está feita, que mandastes fazer no perro matador que morreu!

Ent?o o velho Rico-Homem atirando o bra?o, o cabelludo punho, com possante amea?a, bradou, n'um rouco brado que rolou por penhascos e cerros:

-Morto está! E assim morra de morte infame quem traidoramente me affronte a mim e aos da minha ra?a!

Depois, cortando rigidamente pela encosta do cerro, atravez do matto, e com um largo aceno ao Alferes do Pend?o:

-Affonso Gomes, mandae dar as bozinas. E a cavallo, se vos praz, Snr. D. Pedro de Castro, primo e amigo, que leal e bom me fostes!...

O Castell?o ondeou risonhamente o guante:

-Por Santa Maria, primo e amigo! que gosto e honra os recebi de vós. A cavallo pois se vos praz! Que nos promette aqui o Snr. D. Garcia vêrmos ainda, com sol muito alto, os muros de Monte-mór.

Já a peonagem cerrava as quadrilhas, os donzeis d'armas puxavam para a ribanceira os ginetes folgados que a vasta agua escura assustava. E, com os dous bals?es tendidos, o A?or negro, as Treze Arruellas, a fila da cavalgada atirou o trote pelo barranco empinado, d'onde as pedras soltas rolavam. No alto, alguns cavalleiros ainda se torciam nas sellas para silenciosamente remirarem o homem de Bay?o, que lá ficava, amarrado ao pilar, na solid?o do Pego, a apodrecer. Mas quando a ala dos bésteiros e fundibularios de Santa Ireneia desfilou, uma rija grita rompeu, com chufas, sujas injurias ao ?perro matador?. A meio da escarpa, um bésteiro, virando, retezou furiosamente a bésta. A comprida garruncha apenas varou a agua. Outra logo zinio, e uma bala de funda, e uma setta barbada,-que se espetou na ilharga do Bastardo, sobre um negro novello de bichas. O Coudel berrou: ?cerra! anda!? A récua das azemolas de carga avan?ava, sob o estralar dos lategos: os mo?os da carriagem apanhavam grossos pedregulhos, apedrejavam o morto. Depois os servos carreteiros marcharam, nos seus curtos saios de couro crú, balan?ando um chu?o curto:-e o capataz apanhou simplesmente esterco das bestas, que chapou na face do Bastardo sobre as finas barbas d'ouro.

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