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   Chapter 4 No.4

A Illustre Casa de Ramires By E?a de Queiroz Characters: 57806

Updated: 2017-12-06 00:02


O palacete dos Barr?los em Oliveira (conhecido desde o come?o do seculo pela Casa dos Cunhaes) erguia a sua fidalga fachada de doze varandas no Largo d'El-Rei, entre uma solitaria viella que conduz ao Quartel e a rua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada, ladeirenta, opprimida pelo comprido terra?o do jardim, e pelo muro fronteiro da antiga cerca das Monicas. E n'essa manh?, justamente quando Gon?alo, na caleche da Torre puxada pela parelha do Torto, desembocava no Largo d'El-Rei, subia pela Tecedeiras, dobrando a esquina dos Cunhaes, n'um cavallo negro de fartas clinas, que feria as lages com soberba e garbo, o Governador Civil, o André Cavalleiro, de collete branco e chapeu de palha. N'um relance, do fundo da caleche, o Fidalgo ainda o surprehendeu levantando os pestanudos olhos negros para as varandas de ferro do palacete. E pulou, com um murro no joelho, rugindo surdamente-?que biltre!? Ao apear no port?o (um port?o baixo, como esmagado pelo immenso escudo de armas dos Sás) t?o suffocada indigna??o o impellia que n?o reparou nas effus?es do porteiro, o velho Joaquim da Porta, e esqueceu dentro da caleche os presentes para Gracinha, a caixa com o guardasolinho e um cesto de flores da Torre coberto de papel de sêda. Depois em cima, na sala d'espera, onde José Barr?lo correra, ao sentir nas lages do Largo silencioso o estrepito do calhambeque, desabafou logo, arrebatadamente, atirando o guarda pó para uma cadeira de couro:

-Oh senhores! Que eu n?o possa vir á cidade sem encontrar de cara este animal do Cavalleiro! E sempre no Largo, defronte da casa! é sorte!... Esse bigodeira n?o achará outro logar para onde vá caracolar com a pileca?

José Barr?lo, um mo?o gordo, de cabello ruivo e crespo, com um bu?o claro n'uma face mais redonda e córada que uma bella ma??, accudiu, ingenuamente:

-Pileca?!... Oh, menino, tem agora um cavallo lindo! Um cavallo lindo, que comprou ao Marges!

-Pois bem! é um burro feio em cima d'um cavallo bonito. Que fiquem ambos na cavallari?a. Ou que v?o ambos pastar para as Devezas!

O Barr?lo escancarou a b?ca larga e fresca, de soberbos dentes, n'um lento pasmo. E de repente, com uma patada no soalho, vergado pela cinta, rompeu n'uma risada que o suffocava, lhe inchava as veias:

-Essa é d'arromba! N?o, essa é para contar no Club... Um burro feio em cima d'um cavallo bonito! E ambos a pastarem!... Tu vens hoje rico, menino! Olha que essa! Ambos a pastarem, com os focinhos na herva, o Governador civil e o cavallo... é d'arromba!

Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E Gon?alo, ado?ado por aquella ova??o que celebrava a sua facecia:

-Bem. Dá cá esses ossos, ou antes esses untos. E como vae a familia? A Gracinha?... Oh! viva a linda fl?r!

Era ella, com a sua ligeiresa airosa e menineira, os magnificos cabellos soltos sobre um penteador de rendas, correndo alvoro?ada para o irm?o, que a envolveu n'um abra?o e em dous beijos sonoros. E immediatamente, recuando, a declarou mais bonita, mais gorda:

-Positivamente estás mais gorda, até mais alta... é sobrinho?... N?o? nada, por ora?

Gracinha córou, com aquelle seu languido sorriso que mais lhe humedecia e lhe enternecia a do?ura dos olhos esverdeados.

-Se ella n?o quer, ella n?o quer! gritava o José Barr?lo, gingando, com as m?os enterradas nos bolsos do jaquet?o que lhe desenhava as ancas roli?as. A culpa n?o é cá do patr?o... Mas ella n?o se decide!

O fidalgo da Torre reprehendeu a irm?:

-Pois é necessário um menino. Eu por mim n?o caso, n?o tenho geito: e lá se v?o d'esta feita Barr?los e Ramires! A extinc??o dos Barr?los é uma limpeza. Mas, acabados os Ramires, acaba Portugal. Portanto, Snr.a D. Gra?a Ramires, depressa, em nome da na??o, um morgado! Um morgado muito gordo, que eu pretendo que se chame Tructesindo!

Barr?lo protestou, aterrado:

-O que? Turtesinho? N?o! para tal sorte n?o o fabríco eu!

Mas Gracinha deteve aquelles gracejos picantes, desejosa de saber da Torre, e do Bento, e da Rosa cosinheira, e da horta, e dos pav?es... Conversando, penetraram na outra sala, guarnecida de contadores da India, de pesados cadeir?es dourados de damasco azul, com tres varandas sobre o Largo d'El-Rei. Barr?lo enrolou um cigarro, reclamou a historia do Relho, da grande desordem. Tambem elle arranjára uma ?pega? com o rendeiro da Ribeirinha, por causa d'um córte de pinhal. Essa do Relho porém f?ra tremenda...

E Gon?alo, enterrado ao canto do fundo camapé azul, desabotoando pregui?osamente o jaquet?o de chaviote claro:

-N?o! foi muito simples. Já ha mezes esse Relho andava bebedo, sem despegar... Uma noite berrou, amea?ou a Rosa, agarrou n'uma espingarda. Eu desci, e n'um instante a Torre ficou desembara?ada de Relhos e de barulhos.

-Mas veio o Regedor, com cabos! accudio o Barr?lo.

Gon?alo saccudiu os hombros, impaciente:

-Veio o regedor? Veio depois, para legalisar! Já o homem abalára, corrido. E como resultado arrendei a Torre ao Pereira, ao Pereira da Riosa...

Contou esse negocio excellente, tratado na varanda, ao almo?o, entre dous copos de vinho verde. Barr?lo admirou a renda-gabou o rendeiro. Assim Gon?alo descortinasse outro Pereira para a quinta de Treixedo, terra t?o generosa, t?o mal amanhada!

á borda do camapé, coberta pelos bellos cabellos que lavára n'essa manh? e que cheiravam a alecrim, Gracinha comtemplava o irm?o com ternura:

-E do estomago, andas melhor? Continuam as ceias com o Titó?

-Oh! esse animal! exclamou Gon?alo. Ha dias prometteu jantar na Torre, até a Rosa assou um cabrito no espeto, magnifico... Depois falhou: creio que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Elle vem esta semana a Oliveira... E é verdade! vocês sabiam da intimidade do Titó com o Sanches Lucena?

Historiou ent?o, com exagero alegre, o encontro da Bica-Santa, o horror que lhe causára a bella D. Anna, a descoberta inesperada d'essa familiaridade do Titó na Feitosa.

Barr?lo recordou que uma tarde, antes do S. Jo?o, avistára o Titó, deante do port?o da Feitosa, a passear pela trela um c?osinho branco de rega?o...

-Mas o que eu n?o comprehendo, menino, é esse teu ?horror? pela D. Anna... Caramba! Mulher soberba! Um quebrado de quadris, uns olh?es, um peitoril...

-Calle essa b?ca impura, devasso! gritou Gon?alo. Pois aqui ao lado da sua mulher, que é a fl?r das Gra?as, ousa louvar semelhante pe?a de carne!

Gracinha rindo, sem ciumes, comprehendia ?a admira??o do José.? Realmente, a Anna Lucena, que vistosa, que bella!...

-Sim, concedeu Gon?alo, bella como uma bella egoa... Mas aquella voz gorda, papuda... E a luneta, os modos... E ?o cavalheiro póde fumar, o cavalheiro está enganado...? Oh! senhores, pavorosa!

Barr?lo gingava, deante do sophá, com as m?os nos bolsos da rabona:

-Uvas verdes, Snr. D. Gon?alo, uvas verdes!

O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:

-Nem que ella se me offerecesse, de joelhos, em camisa, com os duzentos contos do Sanches n'uma salva d'ouro!

Sorrindo, vermelha como uma pionia, com um ?oh? escandalisado, Gracinha bateu no hombro de Gon?alo-que puxou por ella, galhofeiramente:

-Venha lá essa bochecha, e outra beijoca, para purificar! Com effeito, só pensar na D. Anna arrasta a gente ás imagens brutaes... Dizias ent?o do estomago... Sim, filha, combalido. E ha dias mais pesado, desde o tal cabrito no espeto e da companhia beberrona do Manoel Duarte. Tu tens cá agua de Vidago?... Ent?o, Barr?linho, sê angelico. Manda trazer já uma garrafinha bem fresca. E olha! pergunta se subiram um a?afate e uma caixa de papel?o que eu deixei na caleche? Que ponham no meu quarto. E n?o desembrulhes, que é surpreza... Escuta! Que me levem agua bem quente. Preciso mudar toda a roupa... Estava uma poeirada por esse caminho!

E quando o Barr?lo abalou, a rebolar e a assobiar, Gon?alo, esfregando as m?os:

-Pois vocês ambos est?o explendidos! E na harmonia que convem. Tu positivamente mais fórte, mais cheia. Até pensei que fosse sobrinho. E o Barr?lo mais delgado, mais leve...

-Oh, agora o José passeia, monta a cavallo, já n?o adormece tanto depois de jantar...

-E a outra familia? A tia Arminda, o rancho Mendon?a? Bem?... Padre Sueiro, que é feito d'esse santo?

-Teve um ataquesito de rheumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre no Pa?o do Bispo, na Bibliotheca... Parece que se entretem a fazer um livro sobre os Bispos.

-Bem sei, a Historia da Sé d'Oliveira... Pois eu tambem tenho trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.

-Ah!

-Um Romance pequeno, uma Novella, para os Annaes de Litteratura e de Historia, uma Revista que fundou um rapaz meu amigo, o Castanheiro... é sobre um facto historico da nossa gente... Sobre um av? nosso, muito antigo, Tructesindo.

-Tem gra?a, que fez elle?

-Horrores. Mas é pittoresco... E depois o Pa?o de Santa Ireneia, no século XII, em todo o seu explendor! Emfim uma bella reconstruc??o do velho Portugal e sobre tudo dos velhos Ramires. Has-de gostar... N?o ha amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma das nossas antepassadas, uma D. Menda, que eu nem sei se realmente existiu. Tem seu chic, hein?... E tu comprehendes, como eu desejo tentar a Politica, preciso primeiramente apparecer, espalhar o meu nome...

Gracinha sorria docemente para o irm?o, no costumado enlevo:

-E agora tens alguma idéa? A tia Arminda lá continua sempre com a teima que devias entrar na Diplomacia. Ainda ha dias... ?Ai, o Gon?alinho, assim galante, e com aquelle nome, só n'uma grande embaixada!?

Gon?alo despegára lentamente do vasto camapé, reabotoando o jaquet?o claro:

-Com effeito ando com uma idéa, ha dias... Talvez me viesse d'um romance inglez, muito interessante, e que te recommendo, sobre as antigas Minas de Ophir, King Salomon's Mines... Ando com idéas de ir para a Africa.

-Oh Gon?alo, credo! Para a Africa?

O escudeiro entrára com duas garrafas de agua de Vidago, ambas desarrolhadas, n'uma salva. Precipitadamente, para aproveitar o ?piquesinho?, Gon?alo encheu um copo enorme de crystal lavrado. Ah! que delicia d'agua!-E como o Barr?lo voltava, annunciando que cumprira as ordens de S. Ex.a:

-Bem! ent?o logo conversamos ao almo?o, Gracinha! Agora lavar, mudar de roupa, que n?o paro com estas infames comich?es...

Barr?lo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais espa?osos e alegres do Palacete, forrado de cretones c?r de canario com uma varanda para o jardim, e duas janellas de peitoril sobre a rua das Tecedeiras e os velhos arvoredos do convento das Monicas. Gon?alo impaciente despiu logo o casaco, saccudiu para longe o collete:

-Pois tu estás explendido, Barr?lo! Deves ter perdido tres ou quatro kilos. S?o naturalmente os kilos que Gracinha ganhou... Vocês, se assim se equilibram, ficam perfeitos.

Deante do espelho Barr?lo acariciava a cinta, com um risinho deleitado:

-Realmente, parece que adelgacei... Até sinto nas cal?as...

Gon?alo abrira o gavet?o da rica commoda de ferragens douradas, onde conservava sempre roupa (até duas casacas), para evitar o transporte de malas entre os Cunhaes e a Torre. E ria, aconselhava o bom Barr?lo a ?adelga?ar? sem descan?o, para belleza da futura ra?a Barrolica-quando em baixo, na silenciosa rua das Tecedeiras as patas de um cavallo de luxo feriram as lages em cadencia lenta.

Logo desconfiado, Gon?alo correu á janella, ainda com a camisa que desdobrava. E era elle! Era o André Cavalleiro, que descia ladeando, sopeando a rédea, para escarvar com garbo e fragor a rampa mal empedrada. Gon?alo virou para o Barr?lo a face chammejante de fur?r:

-Isto é uma provoca??o! Se este descarado d'este Cavalleiro passa outra vez na maldita pileca, por debaixo das janellas, apanha com um balde d'agua suja!...

Barr?lo, inquieto, espreitou:

-Naturalmente vae para casa das Louzadas... Anda agora muito intimo das Louzadas... Sempre por aqui o vejo... E é para as Louzadas.

-Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, n?o ha outro caminho para casa das Louzadas? Duas vezes em meia hora! Grande insolente! Tem uma chapada d'agua de sab?o, pela grenha e pela bigodeira, t?o certo como eu ser Ramires, filho de meu pae Ramires!

Barr?lo beliscava a pelle do pesco?o, constrangido ante aquelles rancores ruidosos que desmanchavam o seu socego. Já, por imposi??o de Gon?alo, rompera desconsoladamente com o Cavalleiro. E agora antevia sempre uma bulha, um escandalo que o indisporia com os amigos do Cavalleiro, lhe vedaria o Club e as do?uras da Arcada, lhe tornaria Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da Ribeirinha ou da Murtosa, solid?es detestadas. N?o se conteve, arriscou o costumado reparo:

-ó Gon?alinho, olha que tambem todo esse espalhafato só por causa da Politica...

Gon?alo quasi quebrou o jarro, na furia com que o pousou sobre o marmore do lavatorio:

-Politica! Ahi vens tu com a Politica! Por Politica n?o se atira agua suja aos Governadores Civis. Que elle n?o é Politico, é só malandro! Além d'isso...

Mas terminou por encolher os hombros, emmudecer, diante do pobre bac?co de bochechas pasmadas, que, n'aquellas rondas do Cavalleiro pelos Cunhaes, só notava o ?lindo cavallo? ou ?o caminho mais curto para as Louzadas!...?

-Bem! resumiu. Agora larga, que me quero vestir... Do bigodeira me encarrego eu.

-Ent?o, até logo... Mas se elle passar nada d'asneiras, hein?

-Só justi?a, aos baldes!

E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barr?lo, que, pelo corredor, suspirando, lamentava o assomado genio do Gon?alinho, as coleras desproporcionadas em que o lan?ava ?a Politica.?

Em quanto se ensaboava com vehemencia, depois se vestia n'uma pressa irada, Gon?alo ruminou aquelle intoleravel escandalo. Fatalmente, apenas se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande guedelha, caracolando por sob as janellas do palacete, na pileca de grandes clinas! E o que o desolava era perceber no cora??o de Gracinha, pobre cora??o meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz de ternura pelo Cavalleiro, bem enterrada, ainda vivaz, facil de reflorir... E nenhum outro sentimento forte que a defendesse, n'aquella ociosidade d'Oliveira-nem superioridade do marido, nem encanto d'um filho no seu ber?o. Só a amparava o orgulho, certo respeito religioso pelo nome de Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira e mexeriqueira. A sua salva??o seria o abandono da cidade, o encerrado retiro n'uma das quintas do Barr?lo, a Ribeirinha, sobretudo a Murtosa, com a linda matta, os musgosos muros de convento, a aldêa em redor para ella se occupar como castell? benefica. Mas quê! Nunca o Barr?lo, consentiria em perder o seu voltarete no Club, e a cavaqueira da tabacaria ?Elegante?, e as chala?as do Major Ribas!

Afogueado pelo calor, pela emo??o, Gon?alo abriu a varanda. Em baixo, no curto terra?o ladrilhado, orlado de vasos de lou?a, precedendo o jardim, Gracinha, ainda soltos os cabellos por cima do penteador, conversava com outra senhora, muito alta, muito magra, de chapeu marujo enfeitado de papoulas, que segurava entre os bra?os um repolhudo mólho de rosas. Era a ?prima? Maria Mendon?a, mulher de José Mendon?a, condiscipulo do Barr?lo em Amarante, agora capit?o do Regimento de Cavallaria estacionado em Oliveira. Filha d'um certo D. Antonio, senhor (hoje Visconde) dos Pa?os de Severim, devorada pela preoccupa??o de parentescos fidalgos, de origens fidalgas, ligava sempre surrateiramente o vago solar de Severim a todas as casas nobres de Portugal-sobre tudo, mais gulosamente, á grande casa de Ramires: e, desde que o regimento se aquartellára em Oliveira, tratára logo Gracinha por ?tu? e Gon?alo por ?primo?, com a intimidade especial, que convem a sangues superiores. Todavia mantinha amisades muito seguidas e activas com brazileiras ricas d'Oliveira-até com a viuva Pinho, dona da loja de pannos, que (segundo se murmurava) lhe fornecia os dous filhos ainda pequenos de cal??es e de jalecas. Tambem convivia intimamente, já na cidade, já na Feitosa, com D. Anna Lucena. Gon?alo gostava da sua gra?a, da sua agudeza, da vivacidade maliciosa que a agitava n'uma linda crepita??o de galho, ardendo com alegria. E quando, ao rumor da janella perra, ella levantou os olhos lusidios e espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:

-Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janella...

-E para mim, primo Gon?alo, que o n?o via desde a sua volta de Lisboa!... Pois está mais lindo, assim de bigode...

-Dizem que estou lindissimo, absolutamente irresistivel! Até aconselho á prima Maria que se n?o approxime muito de mim, para se n?o incendiar.

Ella deixou pender desoladamente nos bra?os o seu pesado molho de rosas:

-Ai Jesus, ent?o estou perdida, que ainda agora prometti á prima Gra?a jantar cá esta tarde!... Oh Gracinha, por quem és, p?e um biombo entre os dois!

Gon?alo gritou, pendurado da varanda, já deliciado com os chistes da prima Maria:

-N?o! enfio eu um abat-jour pela cabe?a para attenuar o meu brilho!... E o maridinho, os pequenos? Como vae o nobre rancho?

-Vivendo, com algum p?o e muita gra?a de Deus... Ent?o até logo, primo Gon?alo! E seja misericordioso!

E ainda elle ria, encantado-já a prima Maria depois de cochichar e d'estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, desapparecêra pela porta envidra?ada da sala com a sua elegancia esgalgada. Gracinha, lentamente, subiu os tres degraus de marmore do jardim. Da varanda, Gon?alo ainda avistou atravez da ramaria leve, entre as sebes de buxo, o penteador branco, os fartos cabellos cabidos, relusindo no sol como uma cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas, desappareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.

Mas Gon?alo n?o se arredou d'entre as janellas, limando vagamente as unhas, espreitando pelas cortinas, n'uma desconfian?a, quasi n'um terror que o Cavalleiro de novo surgisse na pileca-agora que Gracinha se embrenhára para os lados d'esse commodo Mirante, construc??o do seculo XVIII, imitando um Templosinho do Amor, que rematava o longo terra?o do jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a cal?ada permanecia silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do Palacete e do Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da espionagem-certo que a irm? n?o se mostraria ao Cavalleiro na varandinha do Mirante, assim com os cabellos em desalinho, por cima d'um penteador.

E cerrava a porta, quando se encontrou deante dos bra?os do Padre Sueiro, que o prenderam pela cinta com affago e respeito.

-Oh! meu ingratissimo Padre Sueiro! exclamava Gon?alo, batendo ternamente nas gordas costas do Capell?o. Ent?o que feia ac??o foi esta? Mais de um mez sem apparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre Sueiro já n?o ha Gon?alinho, ha só Gracinha...

Enternecido, quasi com uma lagrima a bailar nos mansos olhos miudos, que mais negrejavam entre a frescura rozea da face roli?a e a cabecinha branca como algod?o-Padre Sueiro sorria, fechando as m?os sobre o peito da batina d'alpaca, d'onde surdia a ponta de um len?o de quadrados vermelhos. E n?o lhe escasseára certamente o desejo d'ir á Torre. Mas aquelle trabalhinho na Bibliotheca do Pa?o do Bispo... Depois o seu rheumatismosito... Emfim a Sr.a D. Gra?a sempre esperando S. Ex.a, um dia, outro dia...

-Bem, bem! acudiu alegremente Gon?alo, comtanto que o cora??o n?o se esquecesse da Torre...

-Ah! esse! murmurou Padre Sueiro com commovida gravidade.

E pelo corredor de paredes azues, adornadas com gravuras coloridas das batalhas de Napole?o, Gon?alo resumiu as novidades da Torre:

-Como o Padre Sueiro sabe, rebentou aquelle escandalo do Relho... E ainda bem, porque conclui um negocio explendido. Imagine! Arrendei ha dias a quinta ao Pereira Brazileiro, ao Pereira da Riosa, por um conto cento e cincoenta mil réis...

O capell?o suspendeu a pitada, que colhera n'uma caixa de prata dourada, pasmado para o Fidalgo:

-Ora ahi está como as cousas se inventam! Pois por cá constou que V. Ex.a tratára com o José Casco, o José Casco dos Bravaes. Até no Domingo, ao almo?o, a Sr.a D. Gra?a...

-Sim, interrompeu o Fidalgo com uma fugidia c?r na face fina. Effectivamente o Casco veio á Torre, conversámos. Primeiramente quiz, depois n?o quiz. Aquellas cousas do Casco! Einfim, uma massada... N?o ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma bella manh?, me appareceu com a proposta, eu, inteiramente desligado, acceitei, e com que alvoro?o!... Imagine! Um augmento soberbo de renda, o Pereira como rendeiro... O Padre Sueiro conhece bem o Pereira...

-Homem entendido, concordou o Capell?o co?ando embara?adamente o queixo. N?o ha duvida. E homem de bem... Depois n?o havendo palavra dada ao Cas...

--Pois o Pereira para a semana vem á cidade, atalhou apressadamente Gon?alo. O Padre Sueiro previne o tabelli?o Guedes, e assignamos essa bella escriptura. S?o as condi??es costumadas. Creio que ha uma reserva a respeito da hortali?a e do porco... Emfim o Padre Sueiro deve receber carta do Pereira.

E immediatamente, descendo a escada, passando o len?o perfumado pelo bigode, gracejou com o capell?o sobre o famoso Fado dos Ramires em que elle collaborava com o Videirinha. Oh! Padre Sueiro fornecera lendas sublimes! Mas aquella de Santa Aldon?a, realmente, f?ra ataviada com exagera??o... Quatro Reis a levarem a Santa aos hombros!

-S?o Reis de mais, Padre Sueiro!

O bom capell?o protestou, logo interessado e serio, no amor d'aquella obra que glorificava a Casa:

-Ora essa! Com perd?o de V. Ex.a... Perfeitissimamente exacto. Lá o conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas Damas da C?rte do Ceu, livro precioso, livro rarissimo, que o Sr. José Barr?lo tem na Livraria. N?o especifica os Reis, mas diz quatro... ?Aos hombros de quatro Reis e com acompanhamento de muitos Condes.? Mas o nosso José Videira declarou que n?o podia metter os Condes por causa da rima.

O Fidalgo ria, dependurando n'um cabide, ao fundo da escada, o chapeu de palha com que descêra:

-Por causa da rima, pobres Condes... Mas o fado está lindo. Eu trago uma copia para a Gracinha cantar ao piano... E agora outra cousa, Padre Sueiro. O que se conta por ahi do Governador Civil, d'esse Sr. André Cavalleiro?...

O capell?o encolheu os hombros, desdobrando cautelosamente o seu vasto len?o de quadrados vermelhos:

-Eu, como V. Ex.a sabe, n?o entendo de Politica. Depois tambem n?o frequento os cafés, os sitios onde se questiona Politica... Mas parece que gostam.

No corredor um escudeiro gordo, de opulentas suissas ruivas, que Gon?alo n?o conhecia, badalou a sineta do almo?o. Gon?alo reparou, avisou o homem que a Snr.a D. Maria da Gra?a andava para o fundo do jardim...

-Entrou agora, Snr. D. Gon?alo! accudiu o escudeiro. E até manda perguntar se V. Ex.a deseja para o almo?o vinho verde de Amarante, de Vidainhos.

Sim, com certeza, vinho de Vidainhos. Depois sorrindo:

-Oh Padre Sueiro, previna este escudeiro novo que eu n?o tenho Dom. Sou simplesmente Gon?alo, gra?as a Deus!

O capell?o murmurou que todavia, em documentos da Primeira Dynastia, appareciam Ramires com Dom. E, como Gon?alo parara deante do reposteiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas escrupulosas, reverentes ceremonias, para o Fidalgo passar.

-Ent?o, Padre Sueiro, por quem é!

Mas elle, com apegado respeito:

-Depois de V. Ex.a, meu senhor...

Gon?alo afastou o reposteiro, empurrou docemente o capell?o:

-Padre Sueiro, já nos documentos da Primeira Dynastia se estabeleceu que os Santos nunca andam atraz dos Peccadores!

-V. Ex.a manda, e sempre com que gra?a!

Depois dos annos de Gracinha, uma tarde, pelas tres horas, Gon?alo, recolhendo com Padre Sueiro d'uma visita á Bibliotheca do Pa?o do Bispo, sentiu logo da antecamara o vozeir?o do Titó, que rolava na sala azul em trov?o lento. Franziu vivamente o reposteiro-e sacudiu o punho para o immenso homem que enchia um dos cadeir?es dourados, estirando por sobre as fl?res do tapete umas botas novas de grossas tachas reluzentes:

-Oh infame!... Ent?o n'outro dia assim me larga, sem escrupulo, depois de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado n'um espeto de cerejeira? E para quê?... Para uma orgia reles, com bolinhos de bacalhau e bichinhas de rabear!

Titó n?o desmanchou a sua conchegada beatitude:

-Impossibilissimo. De tarde encontrei o Jo?o Gouveia no Chafariz. E só ent?o nos lembrámos de que eram os annos da D. Casimira. Dia sagrado!

Aquellas ceias de Villa-Clara, as tresnoutadas ?pandegas? com viol?o, impressionavam sempre Barr?lo, que as appetecia. E com o olho agu?ado, do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente pacotes de tabaco dentro de uma terrina do Jap?o:

-Quem é a D. Casimira? Vocês em Villa-Clara descobrem uns typos... Conta lá!

-Um monstro! declarou Gon?alo. Uma matrona?a bojuda como uma pipa, com um pêllo nojento no queixo. Vive ao pé do Cemiterio, n'um cacifro que tresanda a petroleo, onde este senhor e as auctoridades v?o jogar o quino, e derri?ar com umas serigaitas de cazabeque vermelho e de farripas... Nem se póde decentemente contar deante do Snr. Padre Sueiro!

O capell?o, que sem rumor se esbatera n'uma sombra discreta, entre os franjados setins d'uma cortina e um pesado contador da India, moveu os hombros n'um consentimento risonho, como acostumado a todas as fealdades do Peccado. E, com pachorra, o Titó emendava o esbo?o burlesco do Fidalgo:

-A D. Casimira é gorda, mas muito aceada. Até me pediu para eu lhe comprar hoje, na cidade, uma bacia nova d'assento. A casa n?o cheira a petroleo e fica por traz do convento de Santa Theresa. As serigaitas s?o simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres que gostam de rir e de tro?ar... E o Snr. Padre Sueiro podia, sem medo...

-Bem, bem! atalhou Gon?alo. Gente deliciosa! Deixemos a D. Casimira, que tem bacia nova para os seus semicupios... Vamos á outra infamia do Sr. Antonio Villalobos!

Mas Barr?lo insistia, curioso:

-N?o, n?o, conta lá, Titó... Noite d'annos, patuscada rija, hein?

-Ceia pacata, contou o Titó com a seriedade que lhe merecia a festa das suas amigas. A D. Casimira tinha uma bella frangalhada com ervilhas. O Jo?o Gouveia trouxe do Gago uma travessa de b?los de bacalhau que calharam... Depois, fogo de vistas na horta. O Videirinha tocou, as pequenas cantaram... N?o se passou mal.

Gon?alo esperava-irresistivelmente interessado pela ceia das Casimiras:

-Acabou, hein?... Agora a outra infamia, mais grave! Ent?o o Snr. Antonio Villalobos é intimo do Sanches Lucena, frequenta todas as semanas a Feitosa, toma chá e torradas com a bella D. Anna, e esconde tenebrosamente dos seus amigos estes privilegios gloriosos?...

-Sem contar, gritou o Barr?lo deliciosamente divertido, que lhe passeia á trela os c?esinhos felpudos!

-Sem contar que lhe passeia á trela os c?esinhos felpudos! echoou cavamente Gon?alo. Responda, meu illustre amigo!

O Titó remecheu o vasto corpo dentro do cadeir?o, recolheu as botas de tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda, que uma vermelhid?o aquecêra. E depois de encarar Gon?alo, intensamente, com um esfor?o de sagacidade que mais o afogueou:

-Tu já alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu conhecia o Sanches Lucena? Nunca me perguntaste...

O Fidalgo protestou. N?o! Mas constantemente na Assembleia, no Gago, na Torre, elles berravam, em quest?es de Politica, o nome do Sanches Lucena! Nada mais natural, até mais prudente, do que alludir o Snr. Titó á sua intimidade illustre! Ao menos para evitar que elle, ou os amigos, deante do Snr. Titó que comia as torradas da Feitosa, tratassem o Sanches Lucena como um trapo!

O Titó despegou do cadeir?o. E afundando as m?os nos bolsos da quinzena d'alpaca, sacudindo desinteressadamente os hombros:

-Cada um tem sobre o Sanches a sua opini?o... Eu apenas o conhe?o ha quatro ou cinco mezes, mas acho que é serio, que sabe as cousas... Agora, lá nas Camaras...

Gon?alo, indignado, bradava que se n?o discutiam os meritos do Snr. Sanches Lucena-mas os segredos do Snr. Titó Villalobos! E o escudeiro novo, avan?ando as suissas ruivas por uma fenda do reposteiro, annunciou que o Snr. Administrador de Villa-Clara procurava Suas Ex.as...

Barr?lo largou logo a terrina de tabaco:

-O Snr. Jo?o Gouveia! Que entre! Bravo! temos cá toda a rapaziada de Villa-Clara!

E Titó, da janella onde se refugiara, lan?ou o vozeir?o, mais troante, abafando a importuna conversa do Sanches e da Feitosa:

-Viemos ambos! Por signal n'uma traquitana infame... Até se nos desferrou uma das pilecas e tivemos de parar na Vendinha. N?o se perdeu tempo, que ha agora lá um vinhinho branco que é d'aqui da ponta fina!...

Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barr?lo e Gon?alo a passarem na Vendinha, para provar a pinga celeste.

-Até aqui o Snr. Padre Sueiro lhe ati?ava uma caneca valente, apesar do Peccado!

Mas Jo?o Gouveia entrou, encalmado, emp

oeirado, com um vinco vermelho na testa, do chapeu e do calor-e abotoado na sobrecasaca preta, de cal?as pretas, de luvas pretas. Sem folego, apertou silenciosamente pela sala as m?os amigas que o acolhiam. E desabou sobre o camapé, implorando ao amigo Barr?lo a caridade d'uma bebidinha fresca!

-Estive para entrar no café Monaco. Mas reflecti que n'esta grandiosa casa dos Barr?los as bebidas s?o de mais confian?a.

-Ainda bem! Você que quer? Orchata? Sangria? Limonada?

-Sangria.

E, limpando o pesco?o e a testa, amaldi?oou o indecente calor d'Oliveira:

-Mas ha gente que gosta! Lá o meu chefe, o Snr. Governador Civil, escolhe sempre a hora do calor para passear a cavallo. Ainda hoje... Na reparti??o até ao meio dia; depois, cavallo á porta; e larga até á estrada de Ramilde, que é uma Africa... N?o sei como lhe n?o fervem os miolos!

-Oh! acudiu Gon?alo, é muito simples. Se elle os n?o tem!

O administrador saudou gravemente:

-Já cá faltava com a sua ferroadasinha o Snr. Gon?alo Mendes Ramires! N?o comecemos, n?o comecemos... Este seu cunhado, Barr?lo, é bicho indomesticavel! Sempre reponta!

O bom Barr?lo gaguejou, constrangido, que Gon?alinho em Politica n?o dispensava a piada...

-Pois olhe! declarou o administrador, sacudindo o dedo para Gon?alo. Esse Snr. André Cavalleiro, que n?o tem miolos, ainda esta manh? na Reparti??o gabou com immensa sympathia os miolos do Snr. Gon?alo Mendes Ramires!...

E Gon?alo, muito serio:

-Tambem n?o faltava mais nada! Para esse Governador Civil ser perfeitamente absurdo só lhe restava que me considerasse um asno!

-Perd?o! gritou o Administrador, que se erguera, desabotoando logo a sobrecasaca, para commodidade da contenda.

Barr?lo acudio, afflicto, carregando nos hombros do Gouveia-para o socegar e o rep?r no camapé:

-N?o, meninos, n?o! Politica, n?o! E ent?o essa massada do Cavalleiro... Vamos ao que importa. Você janta comnosco, Jo?o Gouveia?

-N?o, obrigado. Já prometti jantar com o Cavalleiro. Temos lá o Ignacio Vilhena. Vae lêr um artigo que escreveu para o Boletim de Guimar?es sobre umas f?rmas de fabricar ossos de martyres, descobertas nas obras do convento de S. Bento. Estou com curiosidade... E a Snr.a D. Gra?a, bem? Quem eu n?o avistava havia mezes era o Snr. Padre Sueiro. Nunca apparece agora pela Torre!... Mas sempre rijo, sempre vi?oso. Oh, Snr. Padre Sueiro, qual é o seu segredo para toda essa meninice?

Do seu canto, o capell?o sorriu timidamente. O segredo? Poupar a Vida-n?o a consumindo nem com ambi??es nem com decep??es. Ora para elle, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito pequenina. E fóra o seu rheumatismo...

Depois, córando d'acanhamento, atravez das senten?as evangelicas que lhe escapavam:

-Mas mesmo o rheumatismo n?o é mal perdido. Deus, que o manda, sabe porque o manda... Soffrer edifica. Por que enfim o que nós soffremos nos leva a pensar no que os outros soffrem...

-Pois olhe, volveu com alegre incredulidade o Administrador, eu, quando tenho os meus ataques de garganta, n?o penso na garganta dos outros! Penso só na minha que me dá bastante cuidado. E agora a vou regalar n'aquella bella sangria...

O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos de sangria onde boiavam rodellinhas de lim?o. E todos se tentaram, todos beberam, até Padre Sueiro, para mostrar ao Snr. Antonio Villalobos que n?o desdenhava o vinho, dadiva amavel de Deus-pois como ensina Tibulo com verdade, apezar de gentilico, vinus facit dites animos, mollia corda dat, enrija a alma e ado?a o cora??o.

Jo?o Gouveia, depois d'um suspiro consolado, pousou na bandeja o copo que esvasiára d'um trago e interpellou Gon?alo:

-Vamos a saber! Ent?o n'outro dia que historia phantastica foi essa d'uma festa na Torre, com senhoras, com a D. Anna Lucena?... Eu n?o acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu o recado. Depois...

Mas d'entre as cortinas da janella, onde acabava a sangria, Titó novamente rebombou, interpellando tambem o Fidalgo:

-Oh s? Gon?alo! E o que me contou ha pouco o Barr?lo?... Que andavas com idéas de abalar para a Africa?

Ao espanto de Jo?o Gouveia quasi se misturou terror. Para a Africa?... O quê? Com um emprego para a Africa?...

-N?o! plantar c?cos! plantar cacau! plantar café! exclamava o Barr?lo, com divertidas palmadas na c?xa.

Pois Titó approvava a idéa! Tambem elle, se arranjasse um capital, dez ou quinze contos, tentava a Africa, a traficar com o preto... E tambem se f?sse mais pequeno, mais secco. Que homens do seu corpanzil, necessitando muita comezaina e muita vinha?a, n?o aguentam a Africa, rebentam!

-O Gon?alo sim! é chupado, é rijo; n?o carrega na agua-ardente; está na conta para Africanista... E sempre te digo! Carreira bem mais decente que essa outra por que tens mania, de deputado! Para que? Para palmilhar na Arcada, para bajular Conselheiros.

Barr?lo concordou, com alarido. Tambem n?o comprehendia a teima de Gon?alo em ser deputado! Que massada! Eram logo as intrigas, e as desandas nos jornaes, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os eleitores.

-Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um titulo e uma gran-cruz a tiracollo, como o Freixomil!

Gon?alo escutára, n'um silencio risonho e superior, enrolando laboriosamente um cigarro com o tabaco do Barr?lo:

-Vocês n?o comprehendem... Vocês n?o conhecem a organisa??o de Portugal. Perguntem ahi ao Gouveia... Portugal é uma fazenda, uma bella fazenda, possuida por uma parceria. Como vocês sabem ha parcerias commerciaes e parcerias ruraes. Esta de Lisboa é uma parceria politica, que governa a herdade chamada Portugal... Nós os Portuguezes pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milh?es que trabalham na fazenda, ou vivem n'ella a olhar, como o Barr?lo, e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a parceria, que recebem e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por habito de familia, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na parceria politica, o cidad?o portuguez precisa uma habilita??o-ser deputado. Exactamente como, quando pretende entrar na Magistratura, necessita uma habilita??o-ser bacharel. Por isso procuro come?ar como deputado para acabar como parceiro e governar... N?o é verdade, Jo?o Gouveia?

O Administrador voltára á bandeja das sangrias, de que saboreava outro copo, agora lentamente, aos goles:

-Sim, com effeito, essa é a carreira... Candidato, Deputado, Politico, Conselheiro, Ministro, Mandarim. é a carreira... E melhor que a d'Africa. Por fim na Arcada, em Lisboa, tambem cresce cacau e ha mais sombra!

Barr?lo no emtanto abra?ára o hombro possante do Titó, com quem mergulhou no v?o da janella, n'uma confraternidade d'ideias, gracejando:

-Pois eu, sem ser dos taes parceiros, tambem mando nos bocados de Portugal que mais me interessam por que me pertencem!... E sempre queria vêr que esse S. Fulgencio, ou o Braz Victorino, ou lá os politicos do Terreiro do Pa?o, se mettessem a disp?r nas minhas terras, na Ribeirinha ou na Murtosa... Era a tiro!

Encostado á vidra?a, Titó co?ava a barba, impressionado:

-Pois sim, Barr?lo! Mas você na Ribeirinha e na Murtosa tem de pagar as contribui??es que elles mandarem. E n'esses concelhos tem d'aguentar as auctoridades que elles nomearem. E goza para lá d'estradas se elles lh'as fizerem. E vende o carro de p?o e a pipa de vinho com mais ou menos proveito, segundo as leis que elles votarem... E assim tudo. O Gon?alo n?o deixa de acertar. é o diabo! Quem manda é quem lucra... Olhe! o maroto do meu senhorio em Villa-Clara, agora para o S. Miguel, augmenta a renda da casa em que eu moro, um cochicho que ninguem quer, por que mataram lá o carrasco, que ainda lá apparece... E o Cavalleiro, esse, como parceiro, vive de gra?a n'este bello palacio de S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta...

Barr?lo atirou um chut, de m?o espalmada, abafando o vozeir?o do Titó, com medo que as regalias do Cavalleiro, assim proclamadas, renovassem as furias de Gon?alo. Mas o Fidalgo n?o percebera, attento ao Jo?o Gouveia, que, enterrado no camapé depois da sangria, novamente contava o seu assombro, ao encontrar no chafariz, em Villa-Clara, o rapasola do Gago com o recado da grande festa na Torre:

-E cheguei a desconfiar que realmente você désse festa, quando bateram as nove, depois as nove e meia, e o Titó sem chegar para a ceia da D. Casimira!... Bem, pensei, tambem recebeu recado e abalou para a Torre! Por fim, apenas elle appareceu, de carapu?o e de jaqueta, percebi que f?ra tro?a do Snr. D. Gon?alo...

Ent?o o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:

-De carapu?o e jaqueta? O Titó andava n'essa noite de carapu?o e de jaqueta?...

Mas bruscamente Barr?lo, da funda janella, lan?ou para dentro, para a sala, um brado de pavor:

-Oh! rapazes! Santo Deus! Ahi veem as Louzadas!

Jo?o Gouveia saltou do camapé, como n'um perigo, reabotoando arrebatadamente a sobrecasaca; Gon?alo, atarantado, esbarrou com o Titó e o Barr?lo que recuavam, no terror de serem apercebidos atravez dos vidros largos; até Padre Sueiro, prudente, abandonou o seu recanto onde corria os oculos pela Gazeta do Porto. E todos, d'entre a fenda das cortinas, como soldados na fresta de uma cidadella, espreitavam o Largo, que o sol das quatro horas dourava por sobre os telhados musgosos da Cordoaria. Do lado da rua das Pêgas, as duas Louzadas, muito esgalgadas, muito sacudidas, ambas com manteletes curtos de seda preta e vidrilhos, ambas com guardasoes de xadresinbo desbotado, avan?avam, estirando pelo largo empedrado duas sombras agudas.

As duas manas Louzadas! Seccas, escuras e garrulas como cigarras, desde longos annos, em Oliveira, eram ellas as esquadrinhadoras de todas as vidas, as espalhadoras de todas as maledicencias, as tecedeiras de todas as intrigas. E na desditosa Cidade n?o existia nodoa, pécha, bule rachado, cora??o dorido, algibeira arrasada, janella entreaberta, poeira a um canto, vulto a uma esquina, chapeu estreado na missa, bolo encommendado nas Mathildes, que os seus quatro olhinhos furantes d'azeviche sujo n?o descortinassem-e que a sua solta lingoa, entre os dentes ralos, n?o commentasse com malicia estridente! D'ellas surdiam todas as cartas anonymas que infestavam o Districto: as pessoas devotas consideravam como penitencias essas visitas em que ellas durante horas galravam, abanando os bra?os escanifrados: e sempre por onde ellas passassem ficava latejando um sulco de desconfian?a e receio. Mas quem ousaria recha?ar as duas manas Louzadas? Eram filhas do decrepito e venerando General Louzada; eram parentas do Bispo; eram poderosas na poderosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E depois d'uma castidade t?o rigida, t?o antiga e t?o resequida, e por ellas t?o espaventosamente alardeada-que o Marcolino do Independente as alcunhára de Duas Mil Virgens.

-N?o veem para cá! trovejou o Titó, com immenso allivio.

Com effeito no meio do Largo, rente á grade que circumda o antigo Relogio-de-Sol, as duas manas paradas, erguiam o bico escuro, farejando e espiando a Egrejinha de S. Matheus onde o sino lan?ára um repique de baptisado.

-Oh, c'os diabos, que é para cá!

As Louzadas, decididas, investiam contra o port?o dos Cunhaes! Ent?o foi um panico! As gordas pernas do Barr?lo, fugindo, abalaram, quasi derrubaram sobre os contadores, os potes bojudos da India. Gon?alo bradava que se escondessem no pomar. Desconcertado, o Gouveia rebuscava com desespero o seu chapeu c?co. Só o Titó, que as abominava e a quem ellas chamavam o Polyphemo, retirou com serenidade, abrigando o Padre Sueiro sob o seu bra?o forte. E já o bando espavorido se arremessára sobre o reposteiro-quando Gracinha appareceu, com um fresco vestido de sedinha c?r de morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que rolava:

-Que foi? Que foi?...

Um clamor abafado envolveu a d?ce senhora amea?ada:

-As Louzadas!

-Oh!

Fugidiamente o Titó e Jo?o Gouveia apertaram a m?o que ella lhes abandonou, esmorecida. A sineta do port?o tilintára, temerosa! E a fila acavallada, onde Padre Sueiro rebolava a reboque, enfiou para a livraria que o Barr?lo aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma inspira??o:

-Esconde as sangrias!

Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou ella para uma banqueta do corredor, n'um esfor?o desesperado, a pesada salva-com que as Louzadas, se a descortinassem, edificariam por sobre a cidade, e mais alta que a Torre de S. Matheus, uma historia pavorosa de ?vinha?a e bebedeira?. Depois, offegando, relanceou no espelho o penteado. E direita como n'uma arena, com a temeridade simples e risonha dos antigos Ramires, esperou a arremettida das manas terriveis.

* * *

No outro domingo, depois do almo?o, Gon?alo acompanhou a irm? a casa da tia Arminda Villegas, que na vespera, ao tomar (como costumava todos os sabbados) o seu banho aos pés, se escaldára e recolhera á cama, apavorada, reclamando uma junta dos cinco cirurgi?es d'Oliveira. Depois acabou o charuto sob as acacias do Terreiro da Lou?a, pensando na sua Novella abandonada na Torre durante essas semanas, e no lance famoso do Capitulo II que o tentava e que o assustava-o encontro de Louren?o Ramires com Lopo de Bay?o, o Bastardo, no valle fatal de Cantapedra. E recolhia aos Cunhaes (porque promettera ao Barr?lo uma trotada a cavallo, até ao Pinhal de Estevinha, para aproveitar a do?ura do domingo ennevoado) quando, na rua das Vellas, avistou o tabelli?o Guedes, que sahia da confeitaria das Mathildes com um grosso embrulho de pasteis. Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua-emquanto o Guedes, da borda do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins miudinhos gaspeados de verniz, descobria, n'uma cortezia immensa, a calva, emplumada ao meio pelo famoso tufo de cabello grisalho que lhe valera a alcunha de ?Guedes P?pa?:

-Por quem é, meu caro Guedes, ponha o chapeu! Como está? Sempre féro e mo?o. Ainda bem!... Fallou com o meu Padre Sueiro? O Pereira da Riosa, por fim, só vem á cidade na quarta feira...

Sim! Sim! O Snr. Padre Sueiro passára pelo cartorio, para avisar-e elle apresentava os parabens a S. Ex.a pelo seu novo rendeiro...

-Homem muito competente, o Pereira! Já ha vinte annos que o conhe?o... E olhe V. Ex.a a propriedade do Conde de Monte-Agra! Ainda me lembro d'ella, um chavascal; hoje que primor! Só a vinha que elle tem plantado! Homem muito competente... E V. Ex.a com demora?

-Dois ou tres dias... N?o se atura este calor de Oliveira. Hoje, felizmente, refrescou. E que ha de novo? Como vae a politica? O amigo Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, hein?

Subitamente o Tabelli?o, com o seu embrulho de doces conchegado ao collete de seda preta, agitou o bra?o gordo e curto, n'uma indigna??o que lhe esbraseou de sangue o pesco?o, as orelhas cabelludas, a face rapada, toda a testa até ás abas do chapeu branco orlado de fumo negro:

-E quem o n?o ha-de ser, Snr. Gon?alo Mendes Ramires? Quem o n?o ha-de ser?... Pois este ultimo escandalo!

Os risonhos olhos de Gon?alo logo se alargaram, serios:

-Que escandalo?

O Tabelli?o recuou. Pois S. Ex.a n?o sabia da ultima prepotencia do Governador Civil, do Snr. André Cavalleiro?

-O quê, caro amigo?...

O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e inchou, para exclamar:

-A transferencia do Noronha!... A transferencia do desgra?ado Noronha!

Mas uma senhora, tambem obesa, de bu?o carregado, toda a estalar em ricas e rugidoras sêdas de missa, arrastando severamente pela m?o um menino que rabujava, parou, fitou o Guedes-porque o digno homem com o seu ventre, o seu embrulho, a sua indigna??o, atravancava a entrada das Mathildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para ella entrar, o fecho da porta envidra?ada. Depois, n'um alvoro?o:

-O amigo Guedes naturalmente vae para casa. é o meu caminho. Andamos e conversamos... Ora essa! Mas o Noronha... Que Noronha?

-O Ricardo Noronha... V. Ex.a conhece. O pagador das Obras-Publicas!

-Ah! sim, sim... Ent?o transferido? Transferido arbitrariamente?

Na rua das Brocas por onde desciam, no silencio, a solid?o das lojas cerradas, a colera do Guedes resoou, mais solta:

-Infamemente, Snr. Gon?alo Mendes Ramires, infamissimamente! E para Almodovar, para os confins do Alemtejo!... Para uma terra sem recursos, sem distrac??es, sem familias!...

Parára, com os doces contra o cora??o, os olhinhos esbugalhados para o Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um empregado trabalhador, honradissimo! E sem Politica, absolutamente sem Politica. Nem dos Historicos, nem dos Regeneradores. Só da familia, das tres irm?s que sustentava, tres fl?res... E homem estimadissimo na cidade, cheio de prendas! Um talento immenso para a musica!... Ah! o Snr. Gon?alo Ramires n?o sabia? Pois compunha ao piano cousas lindas! Depois precioso para reuni?es, para annos. Era elle quem organisava sempre em Oliveira as representa??es de curiosos...

-Porque, como ensaiador, creia V. Ex.a que n?o ha outro, mesmo na capital... N?o ha outro! E, zás, de repente, para Almodovar, para o Inferno, com as irm?s, com os tarecos! Só o piano!... Veja V. Ex.a só o transporte do piano!

Gon?alo resplandecia:

-é um bello escandalo. Ora que felicidade esta de o ter encontrado, meu caro Guedes!... E n?o se sabe o motivo?

De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o tabelli?o encolhia os hombros, com amargura. O motivo! Publicamente, como sempre n'estas prepotencias, o motivo era a conveniencia do Servi?o...

-Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o verdadeiro motivo... O intimo, o secreto, o medonho!

-Ent?o?

Guedes relanceou a rua, com prudencia. Uma velha atravessava, coxeando, segurando uma bilha. E o tabelli?o segredou cavamente, junto á face deslumbrada do fidalgo.-é que o Snr. André Cavalleiro, esse infame, se encantára com a mais velha das irm?s Noronhas, a D. Adelina, formosissima rapariga, alta e morena, uma estatua!... E repellido (porque a menina, cheia de juizo, uma perola, percebera a inten??o villissima) em quem se vinga, por despeito, o Snr. Governador Civil? No pagador! Para Almodovar com as meninas, com os tarecos!... Era o pagador quem pagava!

-é uma bella maroteira! murmurou Gon?alo, banhado de gosto e riso.

-E note V. Ex.a! exclamava o Guedes, com a m?o gorda a tremer por cima do chapeu. Note V. Ex.a que o pobre Noronha, na sua innocencia, t?o bom homem, gostando sempre d'agradar aos seus chefes, ainda ha semanas dedicára ao Cavalleiro uma valsa linda!... A Mariposa, uma valsa linda!

Gon?alo n?o se conteve, esfregou as m?os n'um triumpho:

-Mas que preciosa maroteira!... E n?o se tem fallado? Esse jornal d'opposi??o, o Clarim d'Oliveira, nem uma denuncia, nem uma allus?o?...

O Guedes pendeu a cabe?a, descor?oado. O Snr. Gon?alo Ramires conhecia bem essa gente do Clarim... Estylo-e estylo brincado, opulento... Mas para assoalhar, assim n'um caso gravissimo como o do Noronha, a verdade bem nua-pouco nervo, nenhuma valentia. E depois o Biscainho, o redactor principal, andava a passar surrateiramente para os Historicos. Ah! O Snr. Gon?alo Mendes Ramires n?o se inteirára? Pois esse torpissimo Biscainho bolinava. De certo o Cavalleiro lhe acenára com posta... Além d'isso, como provar a infamia? Cousas intimas, cousas de familia. N?o se podia apresentar a declara??o da D. Adelina, menina virtuosissima-e com uns olhos!... Ah! se fosse no tempo do Manoel Justino e da Aurora de Oliveira!... Esse era homem para estampar logo na primeira pagina, em letra graúda: ?Alerta! que a Auctoridade superior do Districto tentou levar a deshonra ao seio da familia Noronha!...?

-Esse era um homem! Coitado, lá está no cemiterio de S. Miguel... E agora, Snr. Gon?alo Ramires, o despotismo campeia, desenfreado!

Bufava, arfava, esfalfado d'aquelle fogoso desabafo. Dobraram calados a esquina das Brocas para a bella rua, novamente cal?ada, da Princeza D. Amelia. E logo na segunda porta, parando, tirando da algibeira o trinco, o Guedes, que ainda resfolgava, offereceu a S. Ex.a para descan?ar.

-N?o, n?o, obrigado, meu caro amigo. Tive immenso, immenso prazer, em o encontrar... Essa historia do Noronha é tremenda!... Mas nada me espanta do Snr. Governador Civil. Só me espanta que o n?o tenham corrido d'Oliveira, como elle merece, com pancada e assuada... Emfim, nem toda a gente boa jaz no cemiterio de S. Miguel... Até ámanh?, meu Guedes. E obrigado!

Da rua da Princeza D. Amelia até o Largo de El-Rei, Gon?alo correu com o deslumbramento de quem descobrisse um thesouro e o levasse debaixo da capa! E ahi levava com effeito o ?escandalo, o rico escandalo?, que tanto farejára, por que tanto almejára, para desmantelar o Snr. Governador Civil na sua fiel cidade de Oliveira que lhe levantava arcos de buxo! E, por uma mercê de Deus, o ?rico escandalo? demoliria tambem o homem no cora??o de Gracinha, onde, apezar do antigo ultraje, elle permanecia como um bicho n'um fructo, esfuracando e estragando... E n?o duvidava da efficacia do escandalo! Toda a cidade se revoltaria contra a Authoridade femieira, que opprime, desterra um funccionario admiravel-por que a irm? do pobre senhor se recusou á baba dos seus beijos. E Gracinha?... Como resistiria Gracinha áquelle desengano-o seu antigo André abrazado pela menina Noronha e por ella repellido com n?jo e com mófa? Oh! o escandalo era soberbo! Só restava que estalasse, bem ruidoso, sobre os telhados d'Oliveira e sobre o peito de Gracinha como trov?o benefico que limpa ares corrompidos. E d'esse trov?o, rolando por todo o Norte, se encarregava elle com delicia. Libertava a cidade d'um Governador detestavel, Gracinha d'um sonho errado. E assim, com uma certeira pennada, trabalhava pro patria et pro domo!

Nos Cunhaes correu ao quarto do Barr?lo, que se vestia trauteando o Fado dos Ramires, e gritou atravez da porta com uma decis?o flammejante:

-N?o te posso acompanhar á Estevinha. Tenho que escrever urgentemente. E n?o subas, n?o me perturbes. Necessito socego!

Nem attendeu aos protestos desolados com que o Barr?lo accudira ao corredor, em ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto, depois de despir rapidamente o casaco, de excitar a testa com um borrifo d'agua de Colonia, abancou á mesa-onde Gracinha collocava sempre entre flores, para elle trabalhar, o monumental tinteiro de prata que pertencera ao tio Melchior. E sem emperrar, sem rascunhar, n'um d'esses soltos fluxos de Prosa que brotam da paix?o, improvisou uma Correspondencia rancorosa para a Gazeta do Porto contra o Snr. Governador Civil. Logo o titulo fulminava-Monstruoso attentado! Sem desvendar o nome da familia Noronha, contava miudamente, como um acto certo e por elle testemunhado, ?a tentativa vill?a e baixa da primeira Auctoridade do Districto contra a pudicicia, a paz de cora??o, a honra de uma doce rapariga de dezeseis primaveras!? Depois era a resistencia desdenhosa-?que a nobre crean?a oppuzera ao Don Juan administrativo, cujos bellos bigodes s?o o espanto dos povos!? Por fim vinha-?a desforra torpe e sem nome que S. Ex.a tomára sobre o zeloso empresado (que é tambem um talentoso artista), obtendo d'este nefasto Governo que fosse transferido, ou antes arrojado, cruelmente exilado, com a familia de tres delicadas senhoras, para os confins do Reino, para a mais arida e escassa das nossas Provincias, por o n?o poder empacotar para a Africa no por?o sordido d'uma fragata!? Lan?ava ainda alguns rugidos sobre ?a agonia politica de Portugal?. Com pavor triste, recordava os peiores tempos do Absolutismo, a innocencia soterrada nas masmorras, o prazer desordenado do Principe sendo a express?o unica da Lei! E terminava perguntando ao Governo se cobriria este seu agente-?este grotesco Nero, que como outr'ora o outro, o grande, em Roma, tentava levar a seduc??o ao seio das familias melhores, e commettia esses abusos de poder, motivados por lascivias de temperamento, que foram sempre, em todos os seculos e todas as civilisa??es, a execra??o do justo!?-E assignava Juvenal.

Eram quasi seis horas quando desceu á sala, ligeiro e resplandecente. Gracinha martellava o piano, estudando o Fado dos Ramires. E Barr?lo (que n?o se arriscára a um passeio solitario) folheava, estendido no camapé, uma famosa Historia dos Crimes da Inquizi??o que come?ára ainda em solteiro.

-Estou a trabalhar desde as duas horas! exclamou logo Gon?alo, escancarando a janella. Fiquei derreado. Mas, louvado seja Deus, fiz obra de Justi?a... D'esta vez o Snr. André Cavalleiro vae abaixo do seu cavallo!

Barr?lo fechou immediatamente o livro, com o cotovello nas almofadas, inquieto:

-Houve alguma coisa?

E Gon?alo, plantado deante d'elle, com um risinho suave, um risinho feroz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:

-Oh! quasi nada. Uma bagatella. Apenas uma infamia... Mas para o nosso Governador Civil infamias s?o bagatellas.

Sob os dedos de Gracinha o Fado dos Ramires esmoreceu, apenas ro?ado, n'um murmurio incerto.

O Barr?lo esperava, esgaseado:

-Desembucha!

E Gon?alo desabafou, com estrondo:

-Pois uma maroteira immensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha, perseguido, espesinhado, expulso! Com a familia... Para o inferno, para o Algarve!

-O Noronha pagador?

-O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!

E, regaladamente, desenrolou a historia lamentavel. O Snr. André Cavalleiro namoradissimo, todo em chammas pela irm? mais velha do Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos, estropidos cada manh? por deante da janella, a ladear na pileca! Até lhe soltára, ao que parece, uma velha marafona, uma alcoviteira... E a rapariga, um anjo cheio de dignidade, impassivel. Nem se revoltava, apenas se ria. Era uma tro?a em casa das Noronhas, ao chá, com a leitura da versalhada ardente em que elle a tratava de ?Nympha, d'estrella da tarde...? Emfim uma sordidez funambulesca!

O pobre Fado dos Ramires debandou pelo teclado, n'um tumulto de gemidos desconcertados e asperos.

-E eu n?o ter ouvido nada! murmurava o Barr?lo, assombrado. Nem no Club, nem na Arcada...

-Pois, meu amiguinho, quem ouviu, e um famoso estampido, foi o pobre Noronha. Arremessado para o fundo do Alemtejo, para um sitio doentio, coalhado de pantanos. é a morte... é uma condemna??o á morte!

A esta apparic?o da Morte, surdindo dos pantanos, Barr?lo atirou uma palmada ao joelho, desconfiado:

-Mas quem diabo te contou tudo isso?

O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com desdem, com piedade:

-Quem me contou!? E quem me contou que D. Sebasti?o morreu em Alcacer-Kebir?... S?o os factos. é a Historia. Toda Oliveira sabe. Por acaso ainda esta manh? o Guedes e eu conversamos sobre o caso. Mas eu já sabia!... E tenho tido pena. Que diabo! N?o ha crime em se estar apaixonado como o pobre André. Louco, perdido! Até a chorar na Reparti??o, deante do Secretario Geral. E a rapariga ás gargalhadas!... Agora onde ha crime, e horrendo, é na persegui??o ao irm?o, ao pagador, empregado excellente, d'um talento raro... E o dever de todo o homem de bem, que prese a dignidade da Administra??o e a dignidade dos costumes, é denunciar a infamia... Eu, pela minha parte, cumpri esse bom dever. E com certo brilho, louvado Deus!

-Que fizeste?

-Enterrei na ilharga do Snr. Governador Civil a minha b?a penna de Toledo, até á rama!

O Barr?lo, impressionado, beliscava a pelle do pesco?o. O piano emmudecera: mas Gracinha n?o se movia do m?cho, com os dedos entorpecidos nas teclas, como esquecida deante da larga folha onde se enfileiravam, na lettra apurada do Videirinha, as quadras triumphaes dos Ramires. E subitamente Gon?alo sentiu n'aquella immobilidade suffocada o despeito que a trespassava. Sensibilisado, para a libertar, lhe poupar algum solu?o escapando irresistivelmente, correu ao piano, bateu com carinho nos pobres hombros vergados que estremeceram:

-Tu n?o dás conta d'esse lindo fado, rapariga! Deixa, que eu te cantarolo uma quadra, á b?a moda do Videirinha... Mas primeiramente sê um anjo... Grita ahi no corredor que me tragam um copo d'agua bem fresca do Po?o Velho.

Ensaiou as teclas, entoou versos, ao accaso, n'um esfor?o esgani?ado:

Ora na grande batalha,

Quatro Ramires valentes...

Gracinha desapparecera por uma fenda do reposteiro, sem rumor. Ent?o o bom Barr?lo, que deante da sua terrina da India enrolava um cigarro com pensativo cuidado, correu, desafogou, debru?ado sobre Gon?alo, da certeza que lentamente o invadira:

-Pois, menino, sempre te digo... Essa irm? do Noronha é um mulher?o soberbo! Mas o que eu n?o acredito é que ella se fizesse arisca. Com o Cavalleiro, bonito rapaz, Governador civil?... N?o acredito. O Cavalleiro saboreou!

E com as bochechas lusidias d'admira??o:

-Aquelle velhaco! Para cavallos e para mulheres n?o ha outro, em Oliveira!

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