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   Chapter 3 No.3

A Illustre Casa de Ramires By E?a de Queiroz Characters: 50269

Updated: 2017-12-06 00:02


Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre trabalhou com afferro e proveito. E n'essa manh?, depois de repicar a sineta no corredor, duas vezes o Bento empurrára a porta da livraria, avisando o snr. Doutor ?que o almocinho, assim á espera, certamente se estragava.? Mas de sobre a tira d'alma?o Gon?alo rosnava ?já vou!?-sem despegar a penna, que corria como quilha leve em agua mansa, na pressa amorosa de terminar, antes do almo?o, o seu Capitulo I.

Ah! e que canceira lhe custára, durante esses dias, esse copioso Capitulo, t?o difficil, com o immenso Castello de Santa Ireneia a erguer; e toda uma edade esfumada da Historia de Portugal a condensar em contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar, sem que faltasse uma ra??o nos alforges, ou uma garruncha nos caixotes, sobre o dorso das mulas! Mas felizmente, na vespera, já movera para fóra do Castello o tro?o de Louren?o Ramires, em soccorro de Monte-mór, com um vistoso coriscar de capellos e lan?as em torno ao pend?o tendido.

E agora, n'esse remate do Capitulo, era noite, e o sino de recolher tangera, e a almenára luzira na Torre albarran, e Tructesindo Ramires descera á sala terrea da Alca?ova para ceiar-quando fóra, deante da carcova, com tres toques fortes annunciando filho-d'algo, uma bozina apressada soou. E, sem que o villico tomasse permiss?o do Senhor, o al?ap?o da levadi?a rangeu nas correntes de ferro, rebombou cavamente nos apoios de pedra. Quem assim chegava em dura pressa era Mendo Paes, amigo de Affonso II e mordomo da sua Curia, casado com a filha mais velha de Tructesindo, D. Theresa-aquella que, pelo ondeante e alvo pesco?o, pelo pisar mais leve que um v?o, os Ramires chamavam a Gar?a Real. O Senhor de Santa Ireneia correra ao patim para acolher, n'um abra?o, o genro amado-?membrudo cavalleiro, com os cabellos ruivos, a alvissima pelle da ra?a germanica dos visigodos...? E, de m?os enla?adas, ambos penetraram n'essa sala de abobada, allumiada por tochas que toscos anneis de ferro seguravam, chumbados aos muros.

Ao meio pousava a massi?a meza de carvalho, rodeada de escanhos até ao topo, onde se erguia, deante d'um aspero mantel de linho coberto de pratos de estanho e de picheis luzidios, a cadeira senhorial com o A?or grossamente lavrado nas altas espaldas, e d'ellas suspensa, pelo cintur?o tauxeado de prata, a espada de Tructesindo. Por traz negrejava a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de pinheiro, com a prateleira guarnecida de conchas, entre bocaes de sanguesugas, sob dois molhos de palmas trazidas da Palestina por Gutierres Ramires, o d'Ultramar. Rente a um esteio da chaminé, um falc?o, ainda emplumado, dormitava na sua alcondora: e ao lado, sobre as lages, n'uma camada de juncos, dois al?es enormes dormiam tambem, com o focinho nas patas, as orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto um pipo de vinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com a face sumida no capuz, sentado na borda de uma arca, lia, á claridade do candil que por cima fumegava, um pergaminho desenrolado... Assim Gon?alo adornára a soturna sala Affonsina com alfaias tiradas do Tio Duarte, de Walter Scott, de narrativas do Panorama. Mas que esfor?o!... E mesmo, depois de collocar sobre os joelhos do monge um folio impresso em Moguncia por Ulrick Zell, desmanchára toda essa linha t?o erudita, ao recordar, com um murro na mesa, que ainda a Imprensa se n?o inventára em tempos de seu av? Tructesindo, e que ao monge lettrado apenas competia ?um pergaminho de amarellada escripta...?

E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira até ao arco da porta cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a branca barba espalhada sobre os bra?os cruzados, escutava Mendo Paes, que, na confian?a de parente e amigo, jornadeára sem homens da sua mercê, cingindo apenas por cima do brial de l? cinzenta uma espada curta e um punhal sarraceno. A?odado e coberto de pó correra Mendo Paes desde Coimbra para supplicar ao sogro, em nome do Rei e dos preitos jurados, que se n?o bandeasse com os de Le?o e com as senhoras Infantas. E já desenrolára ante o velho todos os fundamentos invocados contra ellas pelos doutos Notarios da Curia-as resolu??es do Concilio de Toledo! a bulla do Apostolo de Roma, Alexandre! o velho fóro dos Visigodos!... De resto, que injuria fizera ás senhoras Infantas seu real irm?o para assim chamarem hostes Leonezas a terras de Portugal? Nenhuma! Nem regedoria nem renda dos castellos e villas da doa??o de D. Sancho lhes negava o senhor D. Affonso. O Rei de Portugal só queria que nenhum palmo de ch?o portuguez, baldio ou murado, jazesse fóra de seu senhorio real. Escasso e avido El-Rei D. Affonso?... Mas n?o entregára elle á senhora D. Sancha oito mil morabitinos d'oiro? E a gratid?o da irm? f?ra o Leonez passando a raia e logo cahidos os castellos formosos d'Ulgoso, de Contrasta, d'Urros e de Lanhosello! O mais velho da casa dos Souzas, Gon?alo Mendes, n?o se encontrára ao lado dos cavalleiros da Cruz na jornada das Navas, mas lá andava em recado das Infantas, como moiro, talando terra portugueza desde Aguiar até Miranda! E já pelos cerros d'Além-Douro apparecera o pend?o renegado das treze arruellas-e por traz, farejando, a alcateia dos Castros! Carregada amea?a, e de armas christ?s, opprimindo o Reino-quando ainda Moabitas e Agarenos corriam á redea solta pelos campos do Sul!... E o honrado Senhor de Santa Ireneia, que t?o rijamente ajudára a fazer o Reino, n?o o deveria decerto desfazer arrancando d'elle os peda?os melhores para monges e para donas rebeldes!-Assim, com arremessados passos, exclamára Mendo Paes, t?o acalorado do esfor?o e da emo??o, que duas vezes encheu de vinho uma conca de pau e d'um trago a despejou. Depois, limpando a bocca ás costas da m?o tremula:

-Ide por certo a Monte-mór, senhor Tructesindo Ramires! Mas em recado de paz e boa aven?a, persuadir vossa senhora D. Sancha e as senhoras Infantas que voltem honradamente a quem hoje contam por seu pae e seu Rei!

O enorme senhor de Santa Ireneia parára, pousando no genro os olhos duros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como sar?as em manh? de geada:

-Irei a Monte-mór, Mendo Paes, mas levar o meu sangue e o dos meus para que justi?a logre quem justi?a tem.

Ent?o Mendo Paes, amargurado, ante a heroica teima:

-Maior dó, maior dó! Será bom sangue de Ricos-homens vertido por más desfórras... Senhor Tructesindo Ramires, sabei que em Canta-Pedra vos espera Lopo de Bai?o, o Bastardo, para vos tolher a passagem com cem lan?as!

Tructesindo ergueu a vasta face-com um riso t?o soberbo e claro que os al?es rosnaram torvamente, e, acordando, o falc?o esticou a aza lenta:

-Boa nova e de boa esperan?a! E, dizei, senhor Mordomo-mór da Curia, t?o de fei??o e certa assim m'a trazeis para me intimidar?

-Para vos intimidar?... Nem o Senhor Archanjo S. Miguel vos intimidaria descendo do céo com toda a sua hoste e a sua espada de lume! De sobra o sei, senhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E já que n'esta lide n?o sereis por mim bem ajudado, quero, ao menos, que sejaes bem avisado.

O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:

-Bem, bem, a cear, pois! á ceia, Frei Munio!... E vós, Mendo Paes, deixai receios.

-Se deixo! N?o vos póde vir damno que me anceie de cem lan?as, de duzentas, que vos surjam a caminho.

E, emquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da mesa-Mendo Paes ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o cintur?o da espada:

-Só um cuidado me pesa. E é que, n'esta jornada, senhor meu sogro, ides ficar de mal com o Reino e com o Rei.

-Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e commigo!

Este grito de fidelidade, t?o altivo, n?o resoava no poemeto do tio Duarte. E quando o achou, com inesperada inspira??o, o Fidalgo da Torre, atirando a penna, esfregou as m?os, exclamou, enlevado:

-Caramba! Aqui ha talento!

Rematou logo o Capitulo. Estava esfalfado, á banca do trabalho desde as nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as energias magnificas dos seus fortes avós! Numerou as tiras-fechou na gaveta á chave o volume do Bardo. Depois á janella, com o collete desabotoado, ainda lan?ou o brado genial n'um grave e rouco tom, como o lan?aria Tructesindo:-...?de mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e commigo!...? E sentia n'elle realmente toda a alma de um Ramires, como elles eram no seculo XII, de sublime lealdade, mais presos á sua palavra que um santo ao seu voto, e alegremente desbaratando, para a manter, bens, contentamento e vida!

O Bento, que espalhára outro repique desesperado, escancarou a porta da livraria:

-é o Pereira... Está lá em baixo no pateo o Pereira que quer fallar ao Sr. Doutor.

Gon?alo Mendes franziu a testa, com impaciencia, assim repuxado d'aquellas alturas onde respirava os nobres espiritos da sua ra?a:

-Que massada!... O Pereira... Que Pereira?

-O Pereira; o Manoel Pereira, da Riosa; o Pereira Brazileiro.

Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado Brazileiro por ter herdado vinte contos de um tio, regat?o no Pará. Comprára ent?o terras, trazia arrendada a Cortiga, a fallada propriedade dos condes de Monte-Agra, envergava aos domingos uma sobrecasaca de panno fino, e dispunha de sessenta votos na Freguezia.

-Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversamos emquanto almó?o... E p?e outro talher.

A sala de jantar da Torre, que abria por trez portas envidra?adas para uma funda varanda alpendrada, conservava, do tempo do av? Dami?o, (o traductor de Valerius Flaccus) dous formosos pannos d'Arraz representando a Expedi??o dos Argonautas. Lou?as da India e do Jap?o, desirmanadas e preciosas, recheiavam um immenso armario de mogno. E sobre o marmore dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda ricos, das pratas famosas dos Ramires que o Bento constantemente areava e polia com amor. Mas Gon?alo, sobretudo de ver?o, sempre almo?ava e jantava na varanda luminosa e fresca, bem esteirada, revestida até meio-muro por finos azulejos do seculo XVIII, e offerecendo a um canto, para as pregui?as do charuto, um profundo canapé de palhinha com almofadas de damasco.

Quando lá entrou, com os jornaes da manh? que n?o abrira, o Pereira esperava, encostado a um grosso guarda-sol de panninho escarlate, considerando pensativamente a quinta que, d'alli, se abrangia até aos álamos da ribeira do Coice e aos outeiros suaves de Valverde. Era um velho esgalgado e rijo, todo ossos, com um car?o moreno, de olhos miudinhos e azulados, e uma barbicha rala, já branca, entre dous enormes collarinhos presos por bot?es de ouro. Homem de propriedade, acostumado á Cidade e ao trato das Auctoridades, estendeu largamente a m?o ao Fidalgo da Torre, e acceitou, sem embara?o, a cadeira que elle lhe empurrára para a mesa-onde dominavam, com os seus ricos lavores duas altas enfusas de crystal antigo, uma cheia d'a?ucenas e a outra de vinho verde.

-Ent?o, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo? N?o o vejo desde Abril!

-é verdade, meu Fidalgo, desde o sabbado em que cahiu a grande trovoada, na vespera da elei??o! confirmou o Pereira affagando o cabo do guarda-sol que conservára entre os joelhos.

Gon?alo, n'uma esfaimada pressa do almo?o, repicou a campainha de prata. Depois rindo:

-E os seus votos, Pereira amigo, segundo o costume, lá foram para o eterno Sanches Lucena, direitinhos, como os rios v?o para o mar!

O Pereira tambem riu, com um riso agradado que lhe descobria os máos dentes. Pois o circulo era uma propriedade do Sr. Sanches Lucena! Cavalheiro de fortuna, homem de bem, conhecedor, servi?al... E ent?o, quando lhe calhava como em Abril o apoio do Governo, nem Nosso Senhor Jesus Christo que voltasse á terra e se propuzesse por Villa-Clara desalojava o patr?o da Feitosa!

O Bento, vagaroso, de jaqueta de lustrina preta sobre o avental resplandecente, entrava com um prato d'ovos estrellados, quando o Fidalgo, que desdobrára o guardanapo, o amarrotou, arremessou com nojo:

-Este guardanapo já serviu! Eu estou farto de gritar. N?o me importa guardanapo r?to, ou com passagens, ou com remendos... Mas branquinho, fresquinho cada manh?, a cheirar a alfazema!

E reparando no Pereira, que discretamente arredava a cadeira:

-O quê! Você n?o almo?a, Pereira?...

N?o, agradecia muito ao Fidalgo, mas n'essa tarde comia as sopas com o genro nos Bravaes, que era festa pelos annos do netinho.

-Bravo! Parabens, Pereira amigo! Dê lá um beijo meu ao netinho... Mas ent?o ao menos um copo de vinho verde.

-Entre as comidas, meu Fidalgo, nem agua nem vinho.

Gon?alo farejára, arredára os ovos. E reclamou o ?jantar da familia?, sempre muito farto e saboroso na Torre, e come?ando por essas pesadas sopas de p?o, presunto e legumes, que elle desde crean?a adorava e chamava as palanganas. Depois, barrando de manteiga uma bolacha:

-Pois francamente, Pereira, esse seu Sanches Lucena n?o faz honra ao circulo! Homem excellente, decerto, respeitavel, obsequiador... Mas mudo, Pereira! Inteiramente mudo!

O lavrador ro?ou vagarosamente pelas ventas cabelludas o len?o vermelho,enrolado em bóla:

-Sabe as cousas, pensa com acêrto...

-Sim! mas pensamento e acêrto n?o lhe sahem de dentro do craneo! Depois está muito velho, Pereira! Que edade terá elle? Sessenta?

-Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija, meu Fidalgo. O av? durou até aos cem annos. E ainda o conheci na loja...

-Como, na loja?

Ent?o o Pereira, enrolando mais o len?o, estranhou que o Fidalgo n?o soubesse a historia do Sanches Lucena. Pois o av?, o Manoel Sanches, era um linheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado tambem com uma mo?a muito vistosa, muito farfalhuda...

-Bem! atalhou o Fidalgo. Isso é honroso para o Sanches Lucena. Gente que engordou, que trepou... E eu concordo, Pereira, o circulo deve mandar a Lisboa um homem como o Sanches Lucena, que tenha n'elle terra, raizes, interesses, nome... Mas é preciso que seja tambem homem com talento, com arrojo. Um deputado, que, nas grandes quest?es, nas crises, se erga, transporte a Camara!... E depois, Pereira amigo, em Politica quem mais grita mais arranja. Olhe a estrada da Riosa! Ainda em papel, a lapis vermelho... E, se o Sanches Lucena fosse homem de berrar em S. Bento, já o Pereira trazia por lá os seus carros a chiar.

O Pereira abanou a cabe?a, com tristeza:

-Ahi talvez o Fidalgo acerte... Para essa estradinha da Riosa sempre faltou quem gritasse. Ahi talvez o Fidalgo acerte!

Mas o Fidalgo emmudecera, embebido na cheirosa sopa, dentro d'uma ca?oila nova, com raminhos de hortel?. E ent?o o Pereira, acercando mais a cadeira, cruzou no rebordo da mesa as m?os, que meio seculo de trabalho na terra tornára negras e duras como raizes-e declarou que se atrevera a incommodar o Fidalgo, áquellas horas do almocinho, porque n'essa semana come?ava um córte de madeiras para os lados de Sandim, e desejava, antes que surdissem outros arranjos, conversar com S. Ex.a sobre o arrendamento da Torre...

Gon?alo reteve a colhér, num pasmo risonho:

-Você queria arrendar a Torre, Pereira?

-Queria conversar com V. Ex.a. Como o Relho está despedido...

-Mas eu já tratei com o Casco, o José Casco dos Bravaes! Ficamos meio apalavrados, ha dias... Ha mais de uma semana.

O Pereira co?ou arrastadamente a barba rala. Pois era pena, grande pena... Elle só no sabbado s'inteirára da desaven?a com o Relho. E, se o Fidalgo n?o resalvava o segredo, por quanto ficára o arrendamento?

-N?o resalvo, n?o, homem! Novecentos e cincoenta mil réis.

O Pereira tirou da algibeira do collete a caixa de tartaruga, e sorveu detidamente uma pitada, com o car?o pendido para a esteira. Pois maior pena, mesmo para o Fidalgo. Emfim! depois de palavra trocada... Mas era pena, porque elle gostava da propriedade; já pelo S. Jo?o pensára em abeirar o Fidalgo; e, apezar dos tempos correrem escassos, n?o andaria longe de offerecer um conto e cincoenta, mesmo um conto cento e cincoenta!

Gon?alo esqueceu a sopa, n'uma emo??o que lhe afogueou a face fina, ante um tal accrescimo de renda-e a excellencia de tal rendeiro, homem abastado, com metal no banco, e o mais fino amanhador de terras de todas as cercanias!

-Isso é sério, oh Pereira?

O velho lavrador pousou a caixa de rapé sobre a toalha, com decis?o:

-Meu Fidalgo, eu n?o era homem que entrasse na Torre para ca?oar com V. Ex.a! Proposta a valer, escriptura a fazer... Mas se o arrendamento está tratado...

Recolheu a caixa, apoiava a m?o larga na meza para se erguer, quando Gon?alo acudiu, nervoso, empurrando o prato:

-Escute, homem!... Eu, n?o contei por miudo o caso do Casco. Você comprehende, sabe como essas cousas passam... O Casco veiu, conversamos; eu pedi novecentos e cincoenta mil reis e porco pelo Natal. Primeiramente concordou, que sim; logo adiante emendou, que n?o... Voltou com o compadre; depois, com a mulher e o compadre, e o afilhado, e o c?o! Depois só. Andou ahi pela quinta, a medir, a cheirar a terra; acho até que a provou. Aquellas rabulices do Casco!... Por fim, uma tarde, lá gemeu, lá acceitou os novecentos e cincoenta mil reis, sem porco. Cedi do porco. Aperto de m?o, copo de vinho. Ficou de apparecer para combinar, tratar da escriptura. N?o o avistei mais, ha quasi duas semanas! Naturalmente já virou, já se arrependeu... Para resumir, n?o tenho com o Casco contracto firme. Foi uma conversa em que apenas estabelecemos, como base, a renda de novecentos e cincoenta. E eu, que detesto cousas vagas, já andava pensando em encontrar melhor homem!

Mas o Pereira co?ava o queixo, desconfiado. Elle, em negocios, gostava de lisura. Sempre se entendêra bem com o Casco. Nem por um condado se atravessaria nos arranjos do Casco, homem violento, assomado. De modo que desejava as cousas claras, para n?o surdir desgosto rijo. N?o se lavrára escriptura, bem! Mas ficára, ou n?o, palavra dada entre o Fidalgo e o Casco?

Gon?alo Mendes Ramires, que findára apressadamente a sopa e enchia um copo de vinho verde para se calmar, fitou o lavrador, quasi severamente:

-Homem, essa pergunta!... Pois se eu tivesse confirmado ao Casco decisivamente a palavra de Gon?alo Ramires, estava agora aqui a tratar, ou sequer a conversar comsigo, Pereira, sobre o arrendamento da Torre?

O Pereira baixou a cabe?a. Tambem era verdade!... Pois, n'esse caso, elle abria a sua ten??o, claramente. E, como conhecia a propriedade, e apurára o seu calculo-offerecia ao Fidalgo um conto cento e cincoenta mil réis, sem porco. Mas n?o dava para a familia nem leite, nem hortali?a, nem fructa. O Fidalgo, homem só, pouco se aproveitava. A Torre, porém, casa antiga, enxameava de gentes e d'adherentes. Todos apanhavam, todos abusavam... Emfim, esse era o seu principio. E de resto, para a meza do Fidalgo e mesmo dos creados, bastava o pomar e a horta de regalo... Que horta e pomar necessitavam trato mais geitoso: mas elle, por amor do Fidalgo, e gosto seu, por lá passaria e tudo luziria... Emquanto ás outras condi??es, acceitava as do antigo arrendamento. E escriptura assignada para a outra semana, no sabbado... Estava feito?

Gon?alo, depois de um momento em que pestanejou nervosa e tremulamente, estendeu a m?o aberta ao Pereira:

-Toque! Agora sim! Agora fica palavra dada!

-E nosso Senhor lhe ponha virtude, concluiu o Pereira, firmado no immenso guarda-sol para se erguer. Ent?o no sabbado, em Oliveira, para a escriptura... Assigna V. Ex.a ou o Sr. padre Soeiro?

Mas o fidalgo calculava:

-N?o, homem, n?o póde ser! No sabbado, com effeito, estou em Oliveira, mas s?o os annos da mana Maria da Gra?a...

O Pereira destapou de novo os maus dentes, n'um riso de estima:

-Ah! e como vae a snr.a D. Maria da Gra?a? Ha que edades a n?o vejo! Desde o anno passado, na prociss?o de Passos, em Oliveira... Muito boa senhora! Muito dada! E o Sr. José Barr?lo? Pessoa excellente tambem, a valer, o Sr. José Barr?lo... E que terra a d'elle, a Ribeirinha! A melhor propriedade d'estas vinte leguas em redor. Linda propriedade! A do André Cavalleiro que lhe está pegada, a Biscaia, n?o se lhe compára-é como cardo ao pé de couve.

O Fidalgo da Torre descascava um pecego, sorrindo:

-Do André Cavalleiro nada presta, Pereira! Nem terra, nem alma!

O lavrador pareceu surprehendido. Elle imaginava que o Fidalgo e o Cavalleiro continuavam chegados e amigos... N?o em Politica! Mas particularmente, como cavalheiros...

-O que? Eu e o Cavalleiro? Nem como cavalheiro nem como politico. Que elle nem é cavalheiro nem politico. é apenas cavallo, e resabiado.

O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toalha. Depois, resumindo:

-Ent?o está entendido, no sabbado, na cidade. E, se n?o faz transtorno ao Fidalgo, passamos pelo tabelli?o Guedes, e fica o feito arrumado. O Fidalgo, naturalmente, vae para a casa da senhora sua mana...

-Sempre. Appare?a você ás trez horas. Lá conversamos com o padre Soeiro.

-Tambem ha que edades n?o encontro o Sr. padre Soeiro!

-Oh! esse ingrato, agora, raramente apparece na Torre. Sempre em Oliveira, com a mana Gra?a, que é a menina dos seus encantos... Ent?o nem um calice de vinho do Porto, Pereira?... Bem, até sabbado. N?o esque?a o beijinho para o neto.

-Cá me vae no cora??o, meu Fidalgo... Ora essa! Pois consentia eu que V. Ex.a se levantasse? Sei perfeitamente a escada, e ainda passo pela cozinha para debicar com a tia Rosa. Já desde o tempo do paesinho de V. Ex.a, que Deus haja, conhe?o bem a Torre!... E sempre m'esperancei de trazer n'esta quinta uma lavoura a meu gosto, de consolar!

Durante o café, esquecido dos jornaes, Gon?alo gozou a excellencia d'aquelle negocio. Duzentos mil réis mais de renda. E a Torre tratada pelo Pereira, com aquelle amor da terra e saber de lavra que transformára o chavascal do Monte-Agra n'uma maravilha de seára, vinha e horta!... Além d'isso, homem abastado, capaz de um adeantamento. E eis ahi mais uma evidencia do valor da Torre, esse affinco do Pereira em a arrendar, elle t?o apertado, t?o seguro... Quasi se arrependia de lhe n?o ter arrancado um conto e duzentos. Emfim, a manh? f?ra fecunda! E, realmente, nenhum accordo firmado o collava ao Casco. Entre elles apenas s'esbo?ára uma conversa, sobre um arrendamento possivel da Torre, a debater depois miudamente, n'uma base nova de novecentos e cincoenta mil reis... E que insensatez se elle, por escrupuloso respeito d'essa conversa esbo?ada, recusasse o Pereira, retivesse o Casco, lavrador de rotina-dos que raspam a terra para comer, e a deixam cada anno deperecendo, mais can?ada e chupada!...

-Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha a egua sellada das cinco para as cinco e meia. Sempre vou á Feitosa... Hoje é o dia!

Accendeu um charuto, voltou á livraria. E, immediatamente releu o final magnifico: ?De mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e commigo!?-Ah! como alli gritava a alma inteira do velho portuguez, no seu amor religioso da palavra e da honra! E, com a tira d'almasso entre os dedos, junto da varanda, considerou um momento a Torre, as poeirentas frestas engradadas de ferro, as resistentes ameias, ainda inteiras, onde agora adejava um bando de pombas... Quantas manh?s, ás frescas horas d'alva, o velho Tructesindo se encostára áquellas ameias, ent?o novas e brancas! Toda a terra em redor, semeada ou bravia, decerto pertencia ao poderoso Rico-Homem. E o Pereira, n'esse tempo colono ou servo, só abordava o seu Senhor de joelhos e tremendo! Mas n?o lhe pagava um conto cento e cincoenta mil réis de sonora moeda do Reino. Tambem, que diabo, o v?v? Tructesindo n?o precisava... Quando os saccos rareavam nas arcas, e os acostados rosnavam por tardan?a de soldo, o leal Rico-Homem, para se prover, tinha as tulhas e as adégas dos Concelhos mal defendidos-ou ent?o, n'uma volta de estrada, o oven?al voltando de recolher as rendas reaes, o bufarinheiro genovez com os machos ajoujados de trouxas. Por baixo da Torre (como lhe contára o papá) ainda negrejava a masmorra feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes chumbadas aos pilares, e na abobada a argola d'onde pendia a polé, e no lagedo os buracos em que se escorava o potro. E, n'essa surda e humida cova, oven?al, bufarinheiro, clerigos e mesmo burguezes de f?ro uivavam sob o a?oite ou no torniquete, até largarem agonizando o derradeiro morabitino. Ah! a ramantica Torre, cantada t?o meigamente ao luar pelo Videirinha, quantos tormentos abafára!...

E de repente, com um berro, Gon?alo agarrou de sobre a mesa um volume de Walter Scott, que atirou sem piedade, como uma pedra, contra o tronco de uma faia. é que descortinára o gato da Rosa cozinheira, trepado, d'unhas fincadas n'um ramo, arqueando a espinha, para assaltar um ninho de melros.

* * *

Quando n'essa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de montar, polainas de couro polido, luvas de camur?a branca, parou a egua ao port?o da Feitosa-um velho todo esfarrapado, com longos cabellos cahidos pelos hombros e immensas barbas espalhadas pelo peito, immediatamente se ergueu do banco de pedra onde com

ia rodellas de chouri?o, bebendo d'uma caba?a, para o avisar que o Sr. Sanches Lucena e a Sr.a D. Anna andavam por fóra, de carruagem. Gon?alo pediu ao velho que puchasse o ferro da sineta. E entregando um cart?o ao mo?o, que entreabrira a rica grade dourada, com um S e um L entrela?ados, sob uma cor?a de conde:

-O Sr. Sanches Lucena, bem?

O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor...

-O que? Esteve doente?

-Pois o Sr. Conselheiro, aqui ha tres ou quatro semanas, andou muito agoniado...

-Oh! Sinto muito... Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muitissimo!

Chamou o velho que repicára a sineta para o recompensar com um tost?o. E, interessado por aquellas barba?as e melenas de mendigo de Melodrama:

-Vocemecê pede esmola por estes sitios?

O homem ergueu para elle os olhos sujos, avermelhados da poeira e do sol, mas risonhos, quasi contentes:

-Tambem me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, gra?as a Deus, lá me fazem muito bem.

-Ent?o quando lá voltar diga ao Bento... Você conhece o Bento?

Se conhecia! E a Snr.a Rosa...

-Pois diga ao Bento que lhe dê umas cal?as, homem! Você assim, com essas cal?as, n?o anda decente.

O velho riu, n'um riso lento e desdentado, mirando com gosto os sordidos farrapos que lhe trapejavam nas canellas, mais denegridas e seccas que galhos de inverno:

-R?tinhas, r?tinhas... Mas o Sr. dr. Julio diz que me ficam assim bem. O Sr. dr. Julio, quando lá passo, sempre me tira o retrato na machina. Ainda na semana passada... Até com uns peda?os de grilh?es dependurados do pulso, e uma espada erguida na m?o... Parece que para mostrar ao Governo.

Gon?alo, rindo, picou a egua. Pensava agora em alongar por Valverde: depois recolheria por Villa-Clara, e tentaria o Gouvêa a partilhar na Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que elle na vespera, na Assembléa, convidára o Manoel Duarte e o Titó. Mas ao atravessar a ?Cruz das Almas?, onde a estrada de Corinde, t?o linda, com as suas filas d'alamos, crusa a ladeira de Valverde, parou-notando ao fundo, para o lado de Corinde, como o confuso esbarro d'uma carrada de lenha, e uma carriola d'a?ougue, e uma mulher de len?o escarlate bracejando sobre a albarda d'um burro, e dous lavradores de enxada ás costas. E, de repente, todo o encalhe se despegou-a mulher trotando no seu burrinho, logo sumida n'uma volta de arvoredo; a carriola solavancando n'um rolo leve de poeira; o carro avan?ando para a ?Cruz das Almas? a chiar tardamente; os cavadores descendo para uma ch? atravez das leiras de feno... Na estrada só restou, como desamparado, um homem de jaqueta ao hombro, que se arrastava penosamente, coxeando. Gon?alo trotou, com curiosidade:

-Que foi?... Vocemecê que tem?

O homem, com a perna encolhida, levantou para Gon?alo uma face arrepanhada, quasi desmaiada, que reluzia sob as camarinhas de suor:

-Nosso Senhor lhe dê muito boas tardes, meu Fidalgo! Ora o que hade ser? Desgra?as d'esta vida!

E, gemendo, contou a sua historia.-Desde mezes padecia d'uma chaga n'um tornozello, que n?o seccára, nem com emplastos, nem com pó de murtinhos, nem com benzeduras... E agora andava arriba, na fazenda do Sr. dr. Julio, a concertar um socalco, para ajudar um compadre tambem doente com maleitas-e, zás, desaba um pedregulho, que tópa na ferida, leva a carne, lasca o osso, o deixa n'aquella lastima!... Até rasgára a fralda para ensopar o sangue e amarrar por cima o len?o.

-Mas assim n?o póde andar, homem! D'onde é vocemecê?

-De Corinde, meu Fidalgo. Manoel S?lha, do logar da Finta. Até lá, sempre me hei-de arrastar.

-E ent?o, d'essa gente toda, que ahi estava ha bocado, ninguem o poude ajudar?... Uma carriola, dous latag?es...

Uma rija guinada, no teimoso esfor?o de firmar a perna, arrancou um grito ao S?lha. Mas sorriu, arquejando... Que queria o Fidalgo? Cada um, n'este mundo, tem a sua pressa... Emfim, a rapariga do burro promettêra passar pela Finta, para avisar. E talvez um dos seus rapazes apparecesse na estrada com uma eguasita que elle comprára pela Paschoa-e que, por desgra?a, tambem mancava!...

Immediatamente, com um salto leve, o Fidalgo da Torre desmontou:

-Bem! Ent?o, egua por egua, já vocemecê tem aqui esta...

O S?lha embasbacou para Gon?alo:

-Ora essa! Santo nome de Deus!... Pois eu havia de ir a cavallo, e V. Ex.a a pé?

Gon?alo ria:

-Homem, com essas discuss?es de ?eu a pé? e ?você a cavallo?, e ?faz fav?r? e ?n?o senhor?, é que perdemos um tempo precioso. Monte, esteja quieto, e trote para a Finta!

O outro recuava para a valleta da estrada, sacudindo a cabe?a, esgazeado, como no espanto de um sacrilegio:

-Isso é que n?o, meu senhor, isso é que n?o! Antes eu acabasse aqui á mingoa, com a chaga em bolor!

Gon?alo bateu o pé, com auctoridade:

-Monte, que mando eu! Vocemecê é um lavrador de enxada, eu sou um Doutor formado em Coimbra, sou eu que sei, sou eu que mando!

E o S?lha, logo submisso ante aquella for?a deslumbrante do Saber superior, agarrou em silencio a crina da egua, enfiou respeitosamente o estribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar as luvas brancas, lhe amparava o pé entrapado e manchado de sangue.

Depois, quando elle repousou no sellim com um ah! consolado:

-Ent?o que tal?

O homem só murmurava o nome de Nosso Senhor, na gratid?o e no assombro d'aquella caridade:

-Mas isto é a volta do mundo... Eu aqui, na egua do Fidalgo! E o Fidalgo, o Sr. Gon?alo Ramires, da Torre, a pé pela estrada!

Gon?alo gracejou. E, para entreter a caminhada, perguntou pela quinta do Dr. Julio, que agora se arrojára a obras e planta??es de vinha. Depois, como o Manoel S?lha conhecia o Pereira Brasileiro (que pensára em arrendar as terras do Dr. Julio), conversaram sobre esse esperto homem, sobre as grandezas da Cortiga. Já sem embara?o, direito no sellim, no gosto d'aquella intimidade com o Fidalgo da Torre, o S?lha esquecia a chaga, a d?r que adormentára. E á estribeira do S?lha, attento e sorrindo, o Fidalgo estugava o passo na poeira branca.

Assim se avizinhavam da Bica-Santa, um dos sitios decantados d'aquellas cercanias formosas. Ahi a estrada, cortada na encosta d'um monte, alarga e fórma um arejado terra?o, d'onde se abrange todo o valle de Corinde, t?o rico em casaes, em arvoredos, em seáras, em aguas. No pendor do monte, coberto de carvalhos e de fragas musgosas, bróta a fonte nomeada, que já em tempos d'El-Rei D. Jo?o V curava males d'entranhas-e que uma devota senhora de Corinde, D. Rosa Miranda Carneiro, mandou encanar desde o alto até a um tanque de marmore, onde agora corre beneficamente, por uma bica de bronze, sob a imagem e patrocinio de Santa Rosa de Lima. De cada lado do tanque se encurvam dous compridos bancos de pedra, que a espalhada ramaria das carvalheiras tolda de sombra e frescura. é um suave retiro onde se apanham violetas, se comem merendas, e senhoras dos arredores se sentam em rancho, nas tardinhas de domingo, escutando os melros, gozando a povoada, luminosa e verdejante largueza do valle.

Antes porém de desembocar na Bica-Santa, e perto do logar do Serdal, a estrada de Corinde quebra n'uma volta:-e, ahi, de repente, a egua pulou, n'um reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre, desconfiado da pericia do S?lha, a deitar a m?o á caimba do freio. F?ra o encontro inesperado d'uma carruagem-uma caleche forrada d'azul, com a parelha coberta de rêdes brancas contra a m?sca, e na almofada, têzo, um cocheiro de bigode, farda de golla escarlate e chapéo de tópe amarello. E Gon?alo mantinha ainda a egua pelo freio, como arrieiro servi?al em trilho perigoso-quando avistou, sentado n'um dos bancos de pedra, junto da Bica, com um chale-manta por cima dos joelhos, o velho Sanches Lucena. Ao lado o trintanario, agachado, esfregava com um mólho d'herva a botina que a bella D. Anna lhe estendia, apanhando o vestido de linho crú, apoiando a outra m?o, sem luva, na cinta vergada e fina.

A desconcertada appari??o do Fidalgo da Torre, puxando pela rédea a sua egua onde se escarranchava regaladamente um cavador em mangas de camisa, alvorotou aquelle repousado e dormente recanto da Bica. Sanches Lucena esbugalhava os olhos, esbugalhava os oculos, n'um arremesso de curiosidade que o levantára, com o pesco?o esticado, o chale-manta escorregado para a relva. D. Anna recolheu bruscamente a botina, logo empertigada, na gravidade condigna da senhora da Feitosa, retomando como uma insignia o cabo d'ouro da luneta d'ouro, suspensa por um cord?o d'ouro. E até o trintanario ria pasmadamente para o S?lha.

Mas já, com o seu desembara?o elegante, Gon?alo, n'um relance, saudára D. Anna, apertava com fervor a m?o espantada do Sanches Lucena, e, alegremente se congratulava por aquelle encontro ditoso! Pois vinha justamente da Feitosa! E ahi soubera com desgosto, por um mo?o da quinta decerto exagerado, que o Sr. Conselheiro nas ultimas semanas andára doente... E, ent?o como estava? como estava?-Oh! a physionomia era excellente!

-Pois n?o é verdade, Sr.a D. Anna? O aspecto é excellente!

Com um leve requebro da cabe?a, um fofo ondear do mólho de plumas brancas sobre o chapéo de palha vermelha, ella volveu n'uma voz rolada, lenta e gorda, que arripiou Gon?alo:

-O Sanches agora, gra?as a Deus, desfructa melhor saude...

-Um pouco melhor, sim, com effeito, muito agradecido a V. Ex.a, Sr. Gon?alo Ramires! murmurou o descarnado e corcovado homem, repuxando para os joelhos o chale-manta.

E, com os oculos a luzir, cravados em Gon?alo, na curiosidade que o abrazava, quasi lhe rosára a face afilada, mais amarella que um cirio:

-Mas, com perd?o de V. Ex.a! como é que V. Ex.a anda por aqui, pela estrada de Corinde, n'este estado, a pé, trazendo á rédea um lavrador de enxada?...

Rindo, sobretudo para D. Anna, cujos olhos formosamente negros, d'uma funda refulgencia liquida, tambem esperavam, serios e reservados, Gon?alo contou o desastre do bom homem, que encontrára no caminho gemendo, arrastando a perna escalavrada...

-De sorte que lhe offereci a minha egua... E até, se V. Ex.a me permitte, minha senhora, é necessario que eu combine com elle o resto da jornada...

Rapidamente, voltou ao S?lha, que, de novo acanhado ante os senhores da Feitosa, com o chapeu na m?o, encolhido sobre o sellim, como attenuando a sua grandeza, logo se desestribou para desmontar. Mas já Gon?alo lhe ordenava que trotasse para a Finta-e lhe mandasse a egua por um dos seus rapazes, alli á Bica-Santa, onde elle se demorava com o Snr. Conselheiro. E quando o S?lha largou, saudando desabaladamente, torcido, como impellido a seu pezar pelos acenos risonhos com que o Fidalgo o despedia, o assombro do Sanches Lucena recome?ou:

-Ora uma cousa d'estas! Eu tudo esperaria, tudo, menos o Sr. Gon?alo Mendes Ramires a trazer á rédea, pela estrada de Corinde, um cavador d'enxada! é a repeti??o do Bom Samaritano... Mas para melhor!

Gon?alo gracejou, sentado no banco, junto de Sanches Lucena.-Oh! o Bom Samaritano n?o merecera uma pagina t?o amavel no Evangelho sómente por offerecer o burro a um Levita doente: decerto mostrára virtudes mais bellas...-E sorrindo para D. Anna, que, do outro lado de Sanches Lucena, espalhava a luneta, com lentid?o magestosa, pelas arvores e pela Fonte que t?o bem conhecia:

-Ha dous annos, minha senhora, que eu n?o tenho a honra...

Mas Sanches Lucena despediu um grito:

-Oh! Sr. Gon?alo Ramires! V. Ex.a traz sangue na m?o!

O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de camur?a branca resaltavam duas manchas arroxeadas:

-N?o é sangue meu! foi naturalmente quando o S?lha montou, e eu lhe segurei o pé escalavrado...

Arrancou a luva, que arremessou para as hervas bravas, por traz do banco de pedra. E continuando o sorriso:

-Com effeito, n?o tenho a honra de encontrar a V. Ex.a, minha senhora, desde o baile do bar?o das Marges, em Oliveira, o famoso baile de Entrudo... Ha mais de dois annos, era eu estudante. E ainda me recordo que V. Ex.a estava vestida esplendidamente de Catharina da Russia...

E, emquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos e meigos, pensava:-?Formosa creatura! mas ordinaria! e que voz!...? D. Anna tambem se recordava do baile dos Marges:

-O cavalheiro, porém, está equivocado. Eu n?o fui de Russa, fui de Imperatriz...

-Sim, d'Imperatriz da Russia, de Grande Catharina... E com um gosto! com um luxo!

Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gon?alo os oculos d'ouro, apontou um dedo alongado e livido:

-Pois tambem eu me lembro que sua mana, e minha senhora, a Sr.a D. Gra?a, trazia um trage de lavradeira de Vianna... Foi uma luzidissima festa; nem admira; o nosso Marges é sempre primoroso... E desde essa noite n?o tornei a encontrar a mana de V. Ex.a em intimidade. Apenas de longe, na missa...

De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar de conservar a casa montada, creadagem e cocheira-porque, ou culpa do ar ou culpa da agua, n?o se dava bem na Cidade.

Gon?alo acalorou mais o seu interesse:

-Mas ent?o, realmente, V. Ex.a o que tem tido?

Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os medicos, em Lisboa, n?o se entendiam. Uns attribuiam ao estomago-outros attribuiam ao cora??o. Portanto, aqui ou alli, viscera essencial atacada. E soffria crises-más crises... Emfim, com a gra?a de Deus, e regimen, e leite, e descan?o, ainda esperava arrastar uns annos.

-Oh! com certeza! exclamou Gon?alo alegremente. E V. Ex.a n?o pensa que a estada em Lisboa, e as Camaras, e a Politica, a terrivel Politica, o fatiguem, o agitem?...

N?o, pelo contrario, Sanches Lucena passava toleravelmente em Lisboa. Melhor mesmo que na Feitosa! Depois, gostava d'aquella distrac??o das Camaras. E como conservava amigos na Capital, uma roda escolhida, uma roda fina...

-Um d'esses nossos excellentes amigos, V. Ex.a decerto conhece. Elle é parente de V. Ex.a... O D. Jo?o da Pedrosa.

Gon?alo, alheio ao homem, mesmo ao nome, murmurou polidamente:

-Sim, o D. Jo?o, decerto...

E Sanches Lucena, passando pelas suissas brancas a m?o magrissima, quasi transparente, onde reluzia um enorme annel d'armas de saphira:

-E n?o sómente o D. Jo?o... Outro dos nossos amigos é egualmente parente de V. Ex.a, e chegado. Muitas vezes temos fallado de V. Ex.a, e da sua casa. Que elle pertence tambem á primeira nobreza... é o Arronches Manrique.

-Cavalheiro muito dado, muito divertido! accrescentou D. Anna, com uma convic??o que lhe alteou o peito, a que o corpete justo marcava a for?a vi?osa e a perfei??o.

A Gon?alo tambem nunca chegára esse nome sonóro. Mas n?o hesitou:

-Sim, perfeitamente, o Manrique... De resto, eu tenho tantos parentes em Lisboa, e vou t?o pouco a Lisboa!... E V. Ex.a, Sr.a D. Anna...

Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado n'aquella conversa de parentescos fidalgos:

-V. Ex.a, naturalmente, tem em Lisboa toda a sua parentella historica. Assim eu creio que V. Ex.a é primo do Duque de Louren?al... O Duarte Louren?al! Elle n?o usa o titulo, por Miguelismo, ou antes por habito: mas emfim é o legitimo Duque de Louren?al. é quem representa a casa de Louren?al.

Gon?alo, sorrindo attentamente, desabotoára o fraque, procurava a sua velha charuteira de couro.

-Sim, com effeito, o Duarte... Somos primos. Diz elle que somos primos. E eu acredito. Entendo t?o pouco d'arvores de costado!... De facto as casas em Portugal andam muito cruzadas; todos somos parentes, n?o só pelo lado d'Ad?o, mas pelos Godos... E V. Ex.a, Sr.a D. Anna, prefere a estada em Lisboa?

Mas, reparando que escolhera um charuto, distrahidamente o trincára:

-Oh! perd?o minha senhora... Ia fumar sem saber se V. Ex.a...

Ella saudou, descendo as longas pestanas:

-O cavalheiro póde fumar; o Sanches n?o fuma, mas eu até aprecio o cheiro.

Gon?alo agradeceu, enjoado com aquella voz redonda e gorda, aquelles horrendos ?cavalheiro, o cavalheiro!...? Mas pensava:-?que linda pelle! que bella creatura!...? E Sanches Lucena, inexoravel, estendera o dedo agudo:

-Pois eu conhe?o muito, n?o o Sr. D. Duarte Louren?al, n?o tenho essa subida honra por ora, mas seu irm?o, o Sr. D. Philippe. Cavalheiro estimabilissimo, como V. Ex.a decerto sabe... E depois, que talento... Que talento, no cornetim!

-Ah!

-O quê! V. Ex.a n?o ouviu seu primo, o Sr. D. Philippe Louren?al, tocar cornetim?

E até a bella D. Anna se animou, com um sorriso languido dos bei?os cheios, mais vermelhos que cerejas maduras sobre o fresco rebrilho dos dentes pequeninos:

-Oh! tóca ricamente! O Sanches gosta muito de musica; eu tambem... Mas, como V. Ex.a comprehende, qui na aldéa, com a falta de recursos...

Gon?alo, arremessando o phosphoro, exclamára logo, n'um sincero interesse:

-Ent?o, queria que V. Ex.a ouvisse um amigo meu, que é verdadeiramente sublime no viol?o, o Videirinha!...

Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vulgaridade. E o Fidalgo, singelamente:

-é um rapaz muito meu amigo, de Villa-Clara... O José Videira, ajudante da Pharmacia...

Os oculos de Sanches Lucena cresceram de puro espanto:

-Ajudante da Pharmacia e amigo do Sr. Gon?alo Mendes Ramires!

Sim, desde estudante, dos exames do Lyceu. Até o Videirinha passava as ferias na Torre, com a m?e, antiga costureira da casa. T?o bom rapaz, t?o simples... E na realidade, no viol?o, um genio!

-Agora tem elle uma cantiga admiravel que chamou o Fado dos Ramires. A musica é com effeito um fado de Coimbra, um fado conhecido. Mas os versos s?o d'elle, umas quadras engra?adas sobre cousas da minha Casa, lendas, patranhas... Pois ficou sublime! Ainda ha dias na Torre, comigo e com o Titó...

E a este nome, familiar e menineiro, Sanches Lucena mostrou outro reparo:

-O Titó?

O Fidalgo ria:

-é uma velha alcunha d'amizade que nós damos ao Antonio Villalobos.

Ent?o Sanches Lucena atirou ambos os bra?os, como se alguem muito querido apparecesse na estrada:

-O Antonio Villalobos! Mas esse é um dos nossos fieis e bons amigos! Cavalheiro estimabilissimo! Quasi todas as semanas nos faz o favor de apparecer pela Feitosa...

E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa intimidade a que nunca o Titó alludira, quando no Gago, na Torre, na Assembléa, se berrava, politicando, o nome do Sanches Lucena!

-Ah V. Ex.a conhece...

Mas D. Anna, que se erguera bruscamente do banco, e, debru?ada, recolhia a luva e a sombrinha-lembrou ao marido o estriar lento da tarde, a neblina subindo sempre áquella hora do valle aquecido:

-Sabes que nunca te faz bem... E tambem n?o faz bem á parelha, assim parada, ha tanto tempo.

Immediatamente Sanches Lucena, receioso, puxára da algibeira um espesso len?o de sêda branca para abafar o pesco?o. E, receioso tambem pela parelha, logo se arrancou pesadamente do banco de pedra, com um aceno can?ado ao trintanario para apanhar o chale, avisar o cocheiro. Mas ainda atravessou, vergado e arrimado á bengala, para o parapeito que resguarda a estrada sobre o despenhado pendor do monte, dominando o valle. E confessava a Gon?alo que aquelle era, nos arredores da Feitosa, o seu passeio preferido. N?o só pela belleza do sitio, já cantado pelo ?nosso mavioso Cunha Torres?;-mas porque do terra?o da Bica, sem esfor?o, sentado no banco, avistava n'uma largueza terras suas:

-Olhe V. Ex.a... Para além d'aquelle souto, até á ch? e ao comoro onde está a casota amarella e por traz o pinhal, tudo é meu... O pinhal ainda é meu... Acolá, do renque d'álamos para deante, depois do lameiro, é tambem meu... Alli, do lado da ermida, pertence ao Monte-Agra... Mas, mais para lá, passado o azinhal, pelo monte acima, é tudo meu!

O livido dedo, o bra?o escanifrado na manga de casimira preta, cresciam por sobre o valle.-Além os pastos... Adeante os centeios... Depois o bravio...-Tudo d'elle! E, por traz da magra figura alquebrada, de chapéo enterrado na nuca, o abafo de seda subido até ás pallidas orelhas quasi despegadas, D. Anna, esvelta, clara e s? como um marmore, com um sorriso esquecido nos labios gulosos, o formoso peito mais cheio, acompanhava a enumera??o copiosa, affincava a luneta sobre os pastos, e os pinhaes, e os centeios, sentindo já-tudo d'ella!

-E agora acolá, detraz do olival, concluiu Sanches Lucena com respeito, é sitio seu, Sr. Gon?alo Mendes Ramires...

-Meu?...

-De V. Ex.a, quero dizer, ligado á casa de V. Ex.a. Pois n?o reconhece?... Além, por traz do moinho, passa a estrada de Santa Maria de Craquêde. S?o os tumulos dos seus antepassados... Passeio que eu tambem ás vezes fa?o, e com gosto. Ainda ha um mez visitamos detidamente as ruinas. E acredite que fiquei impressionado! Aquelle bocado de claustro t?o antigo, os grandes esquifes de pedra, a espada chumbada á abobada por cima do tumulo do meio... é de commover! E achei muito bonito, muito filial, da parte de V. Ex.a, o ter sempre aquela lampada de bronze accêsa de noite e de dia...

Gon?alo engrolou um murmurio risonho-porque n?o se recordava da espada, nunca recommendára a lampada. Mas Sanches Lucena, agora, supplicava um precioso favor ao snr. Gon?alo Mendes Ramires. E era que S. Ex.a lhe concedesse a honra de o conduzir na carruagem á Torre... Alvoro?adamente Gon?alo recusou. Nem podia! combinára com o homem da perna dorida esperar alli, na Bica, pela sua egoa.

-Mas fica aqui o meu trintanario, que leva a egoa de V. Ex.a á Torre.

-N?o, n?o, se V. Ex.a me permitte, eu espero... Depois metto pelo atalho da Crassa, porque tenho ás oito horas na Torre, á minha espera para jantar, o Titó.

D. Anna, do meio da estrada, apressou logo o marido sacudidamente, com a amea?a renovada da friagem, do relento... Mas, junto da caleche, Sanches Lucena ainda emperrou para affirmar a Gon?alo, com a descarnada m?o sobre o encovado peito, que aquella tarde lhe ficava celebre...

-Porque vi uma cousa que poucas vezes se terá visto: o maior fidalgo de Portugal, a pé pela estrada de Corinde, levando á rédea no seu proprio cavallo um cavador de enxada!

Ajudado por Gon?alo, trepou emfim pesadamente ao estribo. D. Anna já se enterrára nas almofadas, al?ando entre as m?os, como uma insignia, o cabo rebrilhante da luneta d'ouro. O trintanario tambem se entezou, cruzou os bra?os: e a caleche apparatosa, com as manchas brancas das rêdes dos cavallos, mergulhou no silencio e na penumbra da estrada, sob a espalhada ramaria das faias.

?Que massada!? exclamou Gon?alo. E n?o se consolava de tarde t?o linda assim desperdi?ada... Intoleravel, esse Sanches Lucena, com o Snr. D. Fulano e o Snr. D. Sicrano, e a sua gula de ?róda fina?, e ?tudo d'elle? por collina e valle! A mulher, explendida pé?a de carne, como filha de carniceiro,-mas sem migalha de gra?a ou alma. E que voz, Jesus, que voz! Gente pedante e sabuja...-E agora só desejava recuperar a sua egoa, galopar para a Torre, e desabafar com o Titó, familiar da Feitosa! o seu ásco por toda aquella Sancharia.

A egoa n?o tardou, a tróte largo, montada pelo filho do S?lha, que, ao avistar o Fidalgo, saltou á estrada, de chapeu na m?o, encouchado e encarnado, balbuciando que o pae chegára bem, pedia a Nosso Senhor lhe pagasse a caridade...

-Bem, bem! Recados a teu pae. Que estimo as melhoras. Lá mandarei saber.

N'um pulo montára-galopava pelo facil atalho da Crassa. Mas, deante do port?o da Torre, encontrou um mo?o do Gago, com um bilhete do Titó, annunciando que n?o podia jantar na Torre porque partia n'essa semana para Oliveira!

-Que disparate! Para Oliveira tambem eu parto; mas janto hoje! Até combinavamos, o levava na carruagem... Elle que ficou a fazer, o Snr. D. Antonio?

O rapaz co?ou pensativamente a cabe?a:

-O Snr. D. Antonio passou lá por casa para eu trazer o bilhete ao Fidalgo... Depois, creio que tem festa, porque entrou defronte no tio Cosme fogueteiro, a comprar bichas de rabear...

Aquellas inesperadas bichas de rabear causaram logo ao Fidalgo uma immensa inveja:

-E onde é a festa, sabes?

-Eu n?o sei, meu Fidalgo... Mas parece que é cousa rija, porque o Snr. Jo?o Gouvêa encommendou lá ao patr?o dous grandes pratos de bolos de bacalhau.

Bolos de bacalhau! Gon?alo sentio como a amargura de uma trai??o:

-Oh! que animaes!

E de repente ideou uma vingan?a alegre:

-Pois se vires hoje o Snr. D. Antonio ou o Snr. Jo?o Gouvêa n?o te esque?as de lhes dizer que sinto muito... Que eu tambem cá tinha á noite na Torre uma festa. E havia senhoras. Vinha a Snr.a D. Anna Lucena... N?o te esque?as, hein?

Gon?alo galgou as escadas rindo da sua inven??o. Mas, n'essa noite, ás nove horas, depois do arrastado e atochado jantar com o Manoel Duarte, entrou na sala grande dos retratos, apenas allumiada pelo lampe?o dourado do corredor, para buscar uma caixa de charutos. E casualmente, atravez da janella aberta, reparou n'um homem que, em baixo, rente da sombra dos alamos, rondava, espreitava... Mais attento, imaginou reconhecer os poderosos hombros, o andar bovino do Titó. Mas n?o, com certesa! o homem trasia jaqueta e carapu?o de l?. Curioso, abafando os passos, ainda se abeirou da varanda. O vulto porém descera da estrada, logo sumido sob as arvores d'uma quelha que contorna o Casal do Miranda, e desemboca adiante, na Portella, junto das primeiras casas de Villa-Clara.

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