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   Chapter 24 No.24

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 10002

Updated: 2017-12-04 00:03


José Hipolito creára protectores esperan?ados no bom exito da tentativa. Os inimigos politicos de Silvestre de Romariz coadjuvaram-no a tiral a judicialmente.

O juiz prestou se a interrogar a morgada, visto que ella n?o podia requerer por seu pulso. Suppridas legalmente as formalidades, Felizarda foi depositada em Barcellos, no seio da familia Alvaraens.

Trava-se ent?o a lucta nos tribunaes. O pretensor, mal dirigido pelo seu advogado, responde com retalia??es pungentissimas a insultos que o argentario lhe dirige ao seu nascimento obscuro e á sua pobreza. A pugna passara a ser um assanhado pugilato dos dois causidicos.

Um dos membros da familia Alvar?es era mo?o, chamava-se Jose Francisco, e estudava o quinto anno de latim a ver se aprendia o necessario para conego da collegiada barcellense. Tinha quatro reprova??es conscienciosas em Braga; mas ao quinto anno já distinguia o verbo do complemento objectivo, e traduzia com poucos erros a Ladainha.

A familia Alvar?es era antiga e abastada; contava muitos frades bernardos na prosapia, e um governador em uma pra?a da Azia, d'onde trouxera navios de especiarias que formaram o casco da riqueza. A casa tinha pedra d'armas, e uma liteira brazonada que antigamente ia a Alcoba?a buscar os frades a rusticar nas pescarias do Cavado, e a encher as roscas da caluga balofas pela inercia do claustro.

José Francisco, o estudante, era sanguineo, nedio, com as ma??s do rosto vermelhas, e os olhos enfronhados nas palpebras somnolentas. Felizarda, a noiva depositada, pareceu-lhe bem, ao passo que o amanuense da camara lhe era um antipathico bandalho, desde que em plena pra?a o enxovalhára perguntando-lhe, no terceiro anno de latim, o accusativo de Asinus. Oppozera-se José Francisco á recep??o da morgada para haver de casar com José Hypolito, filho do Manuel Colchoeiro; mas for?a maior obrigara os Alvar?es a protegerem o amanuense.

ás vezes, o futuro conego pasmava-se a contemplar Felizarda, e sentia em si as suaves d?res da natureza em parto do primeiro amor. Se ella, a morgada, olhava para elle a fito, produzia-lhe no rosto o effeito do sol que aponta em dia de calma-avermelhava-o até aos globulos das orelhas; e José cossava-se a disfar?ar, ou esbofeteava as moscas que lhe passeavam sobre a epiderme oleosa, e faziam titila??es incommodas nas fossas nazaes.

A morgada achava-o bonito, e dizia ás irm?s que era pena fazerem-no padre. José, quando soube isto, creou umas esperan?as que o tresnoitavam, e tinha as sentimentalidades doloridas de Jocelin, e d'um ou outro clerigo de Barcellos que deixava vingar-se a natureza.

Procuràva José Francisco Alvar?es modos de conversar com Silvestre de

Romariz, e contava-lhe o que a filha dizia a respeito do Hypolito.

Levava á depositada cartas do pai, e lia-lh'as ás escondidas da familia.

O amanuense suspeitara-o, e tratava de remover o deposito, allegando

subornos que a lei n?o facultava.

Ora, n'aquellas confidentes leituras, estabelecera se intimidade bastante entre a morgada e o interprete das lastimas de seu pai. D'uma vez que Felizarda enxugava as lagrimas, ouvindo ler o adeus que o pai enfermo lhe enviava, José Francisco, transportado n'um rapto inconsciente de enthusiasmo, pegou-lhe da m?o e disse com ternissima meiguice:

-N?o case contra vontade de seu pai… Tenha pena d'elle, que está t?o acabadinho…

A morgada poz-se a torcer e a destorcer o seu len?o branco, e a lamber uma lagrima que lhe pruía no bei?o superior; mas n?o respondeu.

Alvar?es foi contar isto ao velho. Silvestre pegou do processo que o seu advogado lhe enviara, e disse-lhe:

-Fa?a-me o sr. Josésinho o favor de levar estes autos, e ler a minha filha o que o tal patife, que quer ser seu marido, aqui diz de seu pai; leia-lhe isto, e veja o que ella diz.

O leitor já sabe, por eu lh'o haver dito nas primeiras paginas d'este livrinho, que o indiscreto amanuense consentira que se escrevesse que o pai de Silvestre f?ra salteador de estradas, e que o pai de Felizarda exercitara o baixo mester de fogueteiro em Famalic?o.

Tudo isto era expendido na tréplica de José Hypolito com grande lardo de zombarias e sarcasmos em estylo piccaresco. A morgada ouviu ler as injurias entoadas com vehemencia por Jose Francisco, que as declamou como se estivesse traduzindo um periodo de Eutropio.

Concluida a leitura, Felizarda, antes que o leitor a interrogasse com os olhos, exclamou:

-Quero ir para casa de meu pai, e hade ser já. O Josésinho vai commigo.

Mande dizer a meu pai que me mande a burra.

José foi dar parte á familia da subita resolu??o da morgada; o depositario foi dar parte ao juiz, e o juiz respondeu que a lei n?o podia empecer á vontade da depositada. Quando estas alterca??es chegaram á noticia de José Hypolito, a filha de Silvestre ia já caminho de casa, acompanhada pelo estudante e pelas irm?s.

O pai e a m?e receberam-na nos bra?os, offegantes de jubilo, a pedir-lhes perd?o da sua doudice. Silvestre abra?ava José Fra

ncisco Alvar?es, chamando-lhe o salvador da sua filha e da sua honra. A santa m?e de Felizarda olhava para o estudante com os olhos cheios de riso, e dizia:

-N?o queira ser padre, sr. Josésinho… Olhe que o meu homem já disse que se vossa senhoria quizesse a nossa rapariga, que lh'a dava, e eu tambem.

José olhou estupefacto para o velho; Silvestre intendeu o espanto, e disse-lhe:

-N?o olhe para mim, que eu n?o sou o que caso; olhe para a minha filha, e veja o que ella diz. Felizarda, queres casar com o sr. José Francisco?

-Se o pai quizer… tambem eu.-E escondeu o rosto no seio da m?e com umas visagens que pareciam de entremez; mas que eram da maior naturalidade.

As irm?s de José Francisco rodearam-na e beijaram-na soffregamente, em quanto o noivo, alumiado por aquelle improviso e inesperado lampejo de felicidade, achou no cora??o estas phrazes que balbuciou, abeirando-se da morgada:

-Se a menina casasse com o outro, eu acho que morria de paix?o, e mais nunca lh'o disse.

CONCLUS?O

Quando os vi em Braga, no theatro de S. Geraldo, estavam casados havia já vinte e cinco annos. Na casa de Romariz, durante essa temporada, apenas pezaram dias funestos, quando se fecharam as sepulturas de Silvestre e sua mulher.

José Francisco Alvare?es era um modelo raro de continencia conjugal. Em Portugal só se conhecem dois exemplares: el-rei D. Affonso IV e elle. As divers?es da vida, convencionalmente chamadas prazeres, n?o perturbaram a suave monotonia de Romaris. D. Felizarda apenas conhecia na arte dramatica o ?Santo Antonio? de Braz Martins, e a ?Degola??o dos innocentes? por onde entrou na vida infame de Herodes. As noites de dezembro aligeiravam-se em Romariz a dormir. Ceavam e digeriam serenamente. Ao pé de um bom estomago coexistiu sempre uma boa alma. Acordavam alegres, para continuar as func??es animaes. Viviam para credito da physiologia: eram duas pessoas que se adoravam e faziam reciprocamente o seu chylo em um só org?o. Tinham um cora??o, um figado, e um pancreas para os dois. N'esta vida vegetal havia ternuras cupidineas como as das cylindras e acacias florecentes; e, quando extravasavam da orbita physiologica, jogavam a bisca de trez; mas ordinariamente entretinham-se mais com o burro.

De S. Miguel de Seide-julho de 1876.

FIM

Notas:

[1] Meu caro doutor Thomaz de Carvalho, lembra-se d'elle ha oito annos, no Hotel Gibraltar, já encanecido, mas t?o galhardo velho que o invejavam os mo?os?

[2] ?Chico Bellas? era D. Francisco de Castello Branco, irm?o do conde de Pombeiro. Foi official de cavallaria, teve vida de amores aventurosa e altissima, morreu em 1862 cancerado, podre de embriaguez e de devassid?o. Conheci-o, em 1861, idiota, a babar-se, e a pedir um pataco para genebra. Os seus nobilissimos parentes n?o poderam nada contra o destino d'este homem, que exercitara o magisterio na esgrima, na gineta e na galanteria bruta e… feliz!

[3] Ecloga III do Lima.

[4] Cant. 2.^o est. XXXVI.

[5] Alludia á novella intitulada o Senhor do Pa?o de Nin?es.

[6] Vou condensando estas noticias colhidas em um livro do coronel Francisco de Figueiredo, escriptor coevo dos successos. é um tomo que fórma o 14.^o da obra intitulada Theatro de Manuel de Figueiredo. Este livro raro, malissimamente escripto, é precioso repositorio dos costumes portuguezes do decimo oitavo seculo. A proposito do negociante Araujo, informem-se os curiosos desde pag. 632 até 640.

[7] Em provincia nenhuma, salvante o Minho, ouvi ainda empregar este verbo regeitar (de rejicere) como quem diz arremessar. Arma que fere de arremesso, em bom portuguez, chamou-se antigamente regeito. O povo usa o verbo que é excellente e onomathopaico. Os minhotos, que fizeram exame de bachareis, e de instruc??o primaria (o que é mais difficil), riem-se quando o gentio analphabeto diz: ?regeitou-lhe uma pedra.?

[8] O Demonio do ouro.

[9] Os realistas usavam nas suas correspondencias termos convencionaes. Lua era o general em chefe Macdonnell. Este general, quando foi batido pelo conde de Casal em Braga, deixou ali um volumoso diccionario manuscripto, curiosamente elaborado pelos realistas de algum vulto lexicologico, com bastantes documentos que hoje est?o esquecidos, e mais tarde a historia n?o saberá onde procural-os. N'este diccionario cryptographico os vocabulos mais engenhosamente disfar?ados s?o estes:

Inimigos-BESTAS.

Inimigos em movimento-BESTAS DESINQUIETAS.

Inimigos em marcha contra nós-BESTAS DE JORNADA.

Os liberaes, se interceptassem a correspondencia, n?o suspeitariam decerto que os miguelistas chamassem aos seus adversarios-bestas.

Leia-se a carta dirigida ao cavalheiro José Hume, membro do parlamento sobre o ultimo debate havido na camara dos communs a respeito dos negocios de Portugal etc. Lisboa, 1847.

O traductor e annotador anonymo d'esta obra, a mais noticiosa que temos da revolu??o chamada da Maria da Fonte, foi Antonio Pereira dos Reis, notavel escriptor politico, fallecido em 1850.

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