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   Chapter 23 No.23

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 9650

Updated: 2017-12-04 00:03


Por esse tempo, um fidalgo da c?rte de D. Jo?o VI mandou vender as suas vastas propriedades na provincia do Minho. Nos arrabaldes de Barcellos demorava a principal das quintas, que havia sido pa?o senhorial. Chamava-se a Honra de Romariz, e já f?ra dote de D. Genébra Trocozende, no seculo XII, casada com D. Fafes Romarigues, filho de D. Egas, que gerara D. Fuas, e t?o copiosa e compridamente se geraram uns dos outros que a final degeneraram na pessoa do fidalgo que mandou vender a casa solarenga, para cruzar ricamente uma dan?arina sobre os le?es rompantes do seu escudo.

Chamava-se Silvestre de S. Martinho o comprador, que contara na mesa do tabelli?o de Barcellos vinte e cinco mil cruzados em pe?as de 7$500 réis. Quantos casaes e leiras o filho de Joaquim Faisca poude comprar á volta da Honra de Romariz incorporou-as no cinto de muralha que foi alargando a termos de arredondar a mais vasta e formosa vivenda do cora??o do Minho.

Em 1826, quando Silvestre já desesperava da fecundidade da esposa, em annos bastante serodios, deu-lhe ella uma menina que se chamou Felizarda. Aos oito annos, a mo?a, filha unica, e conhecida pela morgadinha de Romariz, já bastante espigada e gorda, levava folgada infancia. Aos dezoito annos, compozeram-se-lhe as fei??es com proeminencias grandes, mas esbeltas. A fertilidade do peito dizia com a curva tumescente das espaduas. Felizarda tinha uns archejos de cansa?o que lhe alindavam o carmim do bom sangue.

Um bacharel formado, que aspirava de longe os olores d'esta fl?r de gira-sol, queixando-se da demora que ella posera em chegar a uma festividade de igreja, fez-lhe o seguinte improviso, depois de trabalhar tres dias a rima:

Eu, que sou fogo, n?o tardo, ella, que é gelo, é que tarda, Se eu, que amo, feliz ardo, Felizarda feliz arda.

Ella deu pulos a rir como se tivesse a critica de mad. Girardin.

Por esse tempo, 1846, Silvestre de S. Martinho estava muito rico, mas muitissimo aborrecido na diluente ociosidade de tantos annos. ás vezes, mandava comprar polvora bombardeira, furava canudos, apertava-os com guita alcatroada, e fazia foguetes para se distrahir. Felizarda, bastante entretida com a arte, pedia á m?e que lhe ensinasse a fazer valverdes e bichinhas de rabear.

A sr.^a D. Maria, excellente matrona e m?e, n?o se enfastiava, como o esposo, por que moirejava sempre na casa e na quinta, fiava ou dobava nas noites grandes com as creadas á lareira, e envergonhava os servos calaceiros batendo as meadas no lavadouro, ou padejando as broas na cosinha.

Mas o marido que, tirante as divers?es pyrotechnicas, n?o fazia nada, andava dispeptico e clorotico, quando teve de optar entre fogueteiro e politico.

Era no tempo da patulea. Silvestre manifestara-se progressista nas bellicosas elei??es de 1845 em Barcellos, e sentiu-se invadido pela paix?o sociologica por causa do canibalismo dos fuzilamentos de Alvar?es. No anno seguinte, influiu no movimento de maio, e manteve-se nas idéas avan?adas até outubro em que os agentes da junta do Porto lhe embargaram no Largo da Aguardente, duas cavalgaduras que iam á praia da Foz buscar a mulher e a filha. N'este conflicto, oscillou politicamente entre os irm?os Passos que amamentavam a republica nos seios dessorados da liberdade cachetica, e o padre Casimiro José Vieira, o Defensor das Cinco Chagas, que proclamava D. Miguel I no Bom Jesus do Monte.

Alliciaram-no ao seu partido alguns sectarios da realeza absoluta, que viam desde a ponte de Barcellos a politica europea, e tra?avam com as bengallas no Campo das Cruzes as evolu??es militares e triumphaes dos exercitos russos. Silvestre n?o subia n'estas comprehens?es t?o alto como os seus foguetes de tres respostas, mas intendia que, tendo as coisas de dar volta, n?o lhe seria máu adoptar o partido vencedor. Offereceu dinheiro ao doutor Candido de Anêlhe e ao advogado Francisco Jeronimo para se enviar á Lua.[9]

á sua generosidade respondeu magnanimamente a assembléa realista, condecorando o com a commenda de S. Miguel da Ala. Elle já era Rosa cruz, graduado na hoje extincta viella da Neta, por José Passos. Abriu-se um pleito de liberalidades entre Silvestre e a cabe?a visivel de el-rei absoluto. Boa por??o das pe?as intactas do defunctissimo Joia passaram para o cintur?o do aventureiro escocez Macdonnell, e depois para os burnaes dos soldados de ca?adores que o espingardearam em Sabroso. ó fados do dinheiro! Que estreme??es n?o daria na cova o cadaver do Bento pedreiro, se os corvos e os lobos o n?o tivessem comido na serra!

Extinctas as fac??es politicas, Silvestre, por insinua??es da mulher, entrou a desconfiar que era tolo, e que o sr. D. Miguel n?o o conhecia. Retirou-se da politica, cheio de desenganos, e ridiculo. Os funccionarios administrativos e judiciaes de Barcellos zombavam d'elle, e no

Pereodico dos Pobres, um Amigo da verdade escreveu que o Silvestre de Romariz, no auge da sua dor, fabricava foguetes de lagrimas. Allus?o perfurante que elle soletrou na folha.

A respeito de soletrar, a morgada recebia cartas de um amanuense da camara de Barcellos; mas só abriu sete que ajuntára quando uma costureira lh'as leu. Felizarda creara-se sem lettras, e vivia, a respeito de litteratura, como as raparigas gregas antes de Cadmo, filho de Agenor, introduzir na Grecia o alphabeto phenicio; mas, em compensa??o, tinha muita fl?r nativa e fresca de acres aromas n'aquelle afflante seio, e folgava de ouvir trovas de chula e desafios de cantares em que ás vezes a phrase estava pedindo a interven??o da policia.

Direi do amanuense da camara municipal de Barcellos.

Era um sugeito que perlustrara as regi?es da sciencia por toda a extens?o do Manual Encyclopedico do sr. Emilio Achylles de Monteverde. Era author de charadas impressas. Só a Felizarda 6. Tinha este mo?o, José Hypolito de nome, immensa fé na briza, no paul, na jun?a, e no archanjo da poesia de 1840. Os duendes das suas vis?es nocturnas nas margens do Cavado sangravam-no. Era melancolico e magro como um galgo doente. A sua paix?o grande, n?o fallando na falta de dinheiro, era Felizarda. Ganhava tres tost?es na escrivaninha da camara, e devoravam-no aspira??es a ter cavallo e carrinho. Entretanto, andava pelas casas a recitar a poesia de Palmeirim:

Que poeta que n?o era Da linda Ignez o cantor;

ou da Lua de Londres, o

é noite; o astro saudoso Rompe a custo o plumbeo ceo, etc.

E chorava quando os versos toavam funebres.

Felizarda n?o parecia talhada (sem calemburgo) para este homem; elle, porém, talhara-se para ella. Far-se-hia boi, como Jupiter, para arrebatal-a, bem que os seus instinctos volateis o levassem para cysne, se Felisarda tivesse, além dos proprios, os instinctos um tanto bestiaes de Leda.

Escreveu-lhe sete missivas profuzas e tristes como os sete peccados mortaes. A costureira que as leu debulhava-se em lagrimas, e decorava periodos para responder ás cartas de um furriel do 13 de infanteria. Felisarda ouvia aquellas coisas com a atten??o de uma r? que imerge á fl?r do lago os olhos espantadi?os e escuta um rouxinol. Como as prosas levavam recheio de quadras, assim que a morgada dava tento da rima, espirrava um froixo de riso, tal qual como no lyrismo de Santo Antonio, no theatro de S. Geraldo. Tinha aquelle aleij?o! Era-quem sabe?-a preexistencia d'esta enorme gargalhada que hoje atabafa os golphos da poesia subjectiva.

A costureira interpretou a, e respondeu, vestindo a ideia de Felizarda, com palavras innocentes, mas facinorosas em orthographia. O amanuense amava-a deveras: leu a carta, em que era chamado Bem da menina com V; e, dando os pezames ao seu Monteverde, fez votos de educar Felizarda nas quatro partes da grammatica, se um dia conjugassem o verbo amar, que só é verdadeiramente regular quando o matrimonio o defeca.

Trocaram-se cartas assiduas. Felizarda come?ava a ser um pouco séria, pouzeira e semsaborona. Amava. Entre a psyche e a outra abriram-se as valvulas de communica??o. Tinha morbidezas de Ophelia e indigest?es por falta de exercicio. N?o sahia do mirante que olhava para o caminho do carro. José Hypolito passava por ali aos sabbados de tarde; e, se a solid?o era absoluta, perguntava-lhe como passou. E Julieta, debru?ada sobre o barandim do miradouro, com a face rubra e o seio ondulante, dizia-lhe que passou bem.

Nas cartas, fallou lhe em matrimonio, o amanuense. Ella respondeu que sim. José Hipolito, esporeado pelo amor, abalan?ou-se á interpreza de que os amigos o dissuadiam. Pediu-a ao pai, e arrependeu-se. Silvestre perguntou-lhe quem era e quanto tinha. Ouvida a resposta, disse gesticulando um esgar de desprezo:

-Ora adeus… O senhor, se n?o é tolo, parece-o.

Despediu-o apontando-lhe para a porta. Depois, chamou a filha e perguntou:

-Que diabo é isto? onde conheceste o pelintra que te veio pedir para mulher?

Ella contou ingenuamente o caso, mostrou as cartas, confessou quem lh'as lia, quem lhes respondia, e concluiu:

-Assim como assim, já agora quero casar com elle.

O pai expediu berros cortados de interjei??es brutas. A filha fugiu, a solu?ar, e n?o appareceu ao jantar nem á ceia.

E a m?e, a mulher laboriosa que nunca pensára nas soberbías implacaveis da riqueza, dizia ao marido:

-Se ella gosta do rapaz, deixa-a casar… Bem me prégava meu pai que n?o casasse comtigo porque tu eras filho de quem eras. E d'ahi? Casei e nunca me arrependi.

-Queres dizer na tua que dê a minha filha com oitenta mil cruzados a um troca-tintas que n?o tem casa nem leira nem…

-Tem-no ella, homem. A riqueza chega para os dois. Trata de saber se elle é bom rapaz; e, se f?r, deixa-a cazar que tem vinte annos.

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