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   Chapter 22 No.22

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 8211

Updated: 2017-12-04 00:03


H?o de lebrar-se que Joaquim de Araujo tinha um filho, que aprendera em

S. Martinho do Valle o officio de fogueteiro com o parente de sua m?e.

Aos vinte e seis annos, quando seu pae acabou, estava elle ainda na

companhia do velho bemfeitor e mestre, ganhando alegremente o seu p?o.

Fallecido o parente, alguem lhe disse que elle tinha em Villa Nova de

Famalic?o a casa, boa ou má, de seu av?, que ninguem lhe podia disputar.

Facilmente se habilitou herdeiro de Bento de Araujo e tomou posse do casebre, deshabitado desde 1790. ás vezes os mendigos, nas noites quentes, levantavam a aldraba, que era um cavaco de castanho, e albergavam-se no sobrado podre, contando casos horrendos que ali passaram-o parricidio e o roubo. As covas estavam ainda abertas, e o desentulho em monticulos de redor.

Silvestre de S. Martinho, o filho do Faisca, n?o usava dos paternos appellidos: do pai aproveitára sómente a casa, transigindo com a honra o necessario sem prejuizo seu.

Apossado da casa, deu-lhe um geito para poder habital-a, e pendurou meia duzia de foguetes e bombas reaes á porta. Era habilidoso, principalmente para as bonecas de polvora. Gabava-se de haver inventado o barbeiro a amolar navalhas na roda, e levára á perfei??o da indecencia a velha que despedia contra a cara combustivel do barbeiro um repucho de chispas pela parte posterior, tudo com uma gra?a portugueza que era um estoirar de riso o arraial!

Corria-lhe bem a vida, e já tinha casado com uma rapariga dura e trabalhadeira, quando o descuido de um aprendiz, na ausencia dos patr?es, deixou pegar o lume em um feixe de bombas. Houve explos?o que sacudiu em estilhas o tecto da casa, e abrasou todas as madeiras. Quando Silvestre voltou com a mulher da romagem da Santa Eufemia, nas terras da Maya, encontrou quatro paredes denegridas, e o interior da casa a fumegar, cheio da brilhante claridade da lua. O aprendiz, carbonizado, estava já na cova.

Tiveram compaix?o do pobre fogueteiro os villanovenses. Diziam-lhe que contruisse uma cabana com as esmolas que lhe iam tirar pela freguezia; mas que a fizesse n'outra parte, por que n'aquella casa, onde um filho matára seu pai para o roubar, pezava a maldi??o de Deus. Um visinho comprava-lhe o terreno da casa amaldi?oada para accrescentar á sua; mas deixava-lhe a pedra que era boa para o fogueteiro edificar n'outra parte. Silvestre acceitou, convencido de que o sangue de seu av? funestára para sempre aquelle theatro do grande crime.

Recebido o terreno de esmola, principiou Silvestre a demolir as paredes da casa queimada. Fazia elle este servi?o, com ajuda da mulher, em quanto o carreteiro ia carreando a pedra.

ás tres da tarde de um sabbado, o carreteiro, consoante o costume, despegara do servi?o; mas Silvestre e a mulher continuaram a desfazer o ultimo lance de parede que lhe restava, com o fim de na proxima segunda feira acabarem o trabalho da demoli??o. Observára o fogueteiro que este lado da parede quadrilatera era mais grossa um palmo que os outros que formavam o recinto, reintrando para o interior o excedente da grossura. Estava coberta de pasta de barro e caleada como as outras. Divisava-se ainda no barro gretado o risco tra?ado pelo atrito de qualquer corpo que se encostára á cal ainda fresca.

Por esta raspadura, conjecturou Silvestre que ali devia estar o banco da cama do av?, até porque ouvira dizer que parte do thesouro estivera enterrado debaixo da cama; e elle, quando tomara posse da casa, ainda vira a cova aberta, dois palmos distante d'aquella parede.

-A pedra aqui é mais larga-disse o fogueteiro á mulher.

-Agora é!-emendou ella-o que a faz parecer mais larga é a camada de barro; se n?o, olha.

E come?ou a picar ao longo da parede com a extremidade aguda da alavanca, e o barro, esboroando-se e desacamando a peda?os, deixava descobrir a superficie da pedra que n?o era mais grossa que a outra.

-Dizes bem, é isso-approvou o marido.-Vamos apeando a parede por esse lado, que o barro elle se despegará.

E, dizendo, pegou d'outra alavanca e come?ou a derribar as capas da parede, em quanto a mul

her, para n?o estar com as m?os debaixo dos bra?os, ia descali?ar a camada barrenta. Quando atirava rijamente com a ponta da alavanca á parede, notou que o ferro batera e se cravara em páo.

-Aqui ha madeira-disse ella.

-é alguma cascaria que tinha m?o no barro-explicou Silvestre.

A mulher repetiu os golpes em diversos pontos na circumferencia de dois palmos, e tirou sempre o mesmo som.

-Parece que bate em v?o…-notou ella.

-O quê?!-acudiu o marido, descendo do andaime em que trabalhava.-Bate em v?o! que dizes tu?!

-é o que te eu digo… Olha… Ouves?

-ó mulher!-exclamou elle, cravando-lhe os olhos cheios de palpites que a lingua n?o ousava formular.

E como n'esse comenos passasse gente, e parasse a olhar para as ruinas, o fogueteiro fez um tregeito á mulher, que ella intendeu, calando-se.

-Ajunta a ferramenta, Maria, e vamos embora que já mal se enxerga-disse elle.

-Lá vai a casa do Bento pedreiro, Deus lhe falle n'alma!-disse o mais anci?o dos curiosos.-Que dinheir?o aqui esteve n'este pardieiro! Cincoenta e seis mil cruzados! Era o homem mais rico da villa e seu termo, e tanta necessidade passava aquelle alma do diabo, Deus lhe perd?e, para a final o dinheiro ser repartido pela quadrilha do Luiz Meirinho, que tambem o levou berzabum com duas balas que lhe metteram na barriga ali á ponte de S. Thiago!

-S?o fadarios, tio Sime?o!…-disse Silvestre.

-Vossê podia a esta hora estar rico como um porco, se tivesse outra casta de pai…-tornou o velho.

-Assim é; mas n?o o quiz Deus. Desgra?as…

-Ora fa?a vossê de conta que tinha achado ahi o dinheirame do seu av?!

-Ainda venho a tempo!…

-Pois sim; mas fa?a de conta que o topava! Vossê que fazia, ó s?r

Silvestre?

-Eu sei cá, tio Sime?o!

-Foguetes é que vossê n?o fazia mais! aposto dobrado contra singelo!

-N?o fallemos n'isso… Foguetes é que eu heide fazer toda a minha vida, e Deus me dê saude para os fazer.

-Amen; mas vossê, se se pilhava com as tres mil pe?as, mettia a villa toda n'um chinello, e pintava ahi o diabo a quatro!

-Está enganado! n?o pintava nada… Comprava uns bemzinhos, e havia de trabalhar n'elles, como trabalho nos foguetes.

-Vem d'ahi, homem-disse Maria já aborrecida das impertinentes perguntas do Sime?o que, encostado á sachola, parecia jubilar nas pachorrentas hypotheses, e nas delicias de cossar uma perna com a outra alternadamente.

Sime?o foi seu caminho com os outros; e o fogueteiro e a mulher seguiram para casa; mas, assim que as portas e janellas se fecharam na rua, ahi estavam elles outra vez sobre o cascalho, raspando com ferramentas pouco ruidosas a parede no espa?o em que o som do vacuo respondia ao toque do ferro.

No termo de curta fadiga, tinham descoberto uma superficie liza de madeira, invasada na parede como a portada de um postigo. Facilmente desencaixilharam a tabua do invasamento de pedra, por que n?o tinha dobradi?as nem outra firmeza além da que lhe dava a espessa camada de barro. Silvestre introduziu a m?o, e topou um corpo frio.

-Que achas?-perguntou Maria offegante com as m?os postas.

-é uma panella de ferro…-balbuciou elle.-ó mulher!… tem m?o em mim, que n?o sei o que me dá pela cabe?a!…

-Nossa Senhora!-exclamou ella-Nossa Senhora!…

E, em vez de ter m?o no homem, metteu ambos os bra?os até achar a panella, em quanto Silvestre abria e fechava a bocca em tregeitos de t?o estupida felicidade, que só a suprema desgra?a os poderá fazer iguaes.

N'isto, a rija mocetona arrancava da lura o peso enorme de ouro; e, cahindo de cocoras com o pote no rega?o, exclamou suffocada:

-Ai Jesus! que eu morro de alegria!…

Sivestre apertava o ventre com as m?os. Esta postura n?o é ridicula nem inverosimil para os que sabem que os intestinos quasi nunca s?o estranhos ás commo??es grandes.

Aos primeiros assomos da seguinte aurora, a parede estava arrazada. Os visinhos ouviram o ruido da assola??o, e cuidaram que a derribára um peg?o de vento.

Mas, na proxima semana, a obra da casa nova parára. O fogueteiro dizia aos seus bemfeitores que ia mudar de terra, e talvez mudar de vida

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