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   Chapter 20 No.20

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 6726

Updated: 2017-12-04 00:03


N'aquelle tempo, Famalic?o, ás nove horas de uma noite de novembro, negrejava silenciosa e rodeada de pinheiraes e carvalheiras. Aquelles palacetes brazonados com seus titulares campeam hoje onde ent?o rebalsavam extensos nateiros de lama, a espa?os habitados por cabaneiros. A quadrilha de Luiz Meirinho podia manobrar sem temor e desassombradamente no centro da villa como nas Rodas do Mar?o.

Em uma d'essas noites, o chefe, com uma duzia de escolhidos, entrou na Congosta de Enxiras, onde morava Bento de Araujo. Elle, com mais dois, acercaram-se da porta; os outros, postaram se de atalaias nas extremidades da viella.

O pedreiro estava ainda sentado á lareira. Desde que lhe disseram que o filho pernoitava ás vezes em casa do Meirinho, velava até ser dia claro. O receio de ser assaltado era tamanho que já tres vezes, em noites tempestuosas, gritára á d'el-rei. Os visinhos, á primeira, acudiram vozeando das janellas com invulneravel intrepidez, e viram d'essa feita que um porco vadio, attrahido talvez pelo cheiro de possilga, fo?ava contra a porta de Bento. Depois, ainda que elle gritasse, ninguem se mexia, attribuindo a porco as aggress?es incommodas ao avarento.

Foi o que aconteceu n'aquella noite de novembro. O pedreiro sentiu o abeirar-se gente da sua porta, e deu tento do raspar de ferro entre a hombreira e o batente. Gritou; mas parecia já gritar com os colmilhos apertados. A lingua da fechadura estalou, e a porta foi diante de dois possantes hombros t?o rapidamente que os homens, como duas catapultas, entraram de rold?o, e só pararam filando-se á garganta do velho empedrado. Por entre elles, e á luz do canhoto que flammejava, o pedreiro viu lampejar o a?o de uma navalha, e ouviu, atravez dos len?os com que os hospedes cobriam as caras, uma voz disfar?ada:

-Se grita, vossê morre aqui já. Se quer viver, entregue as tres mil pe?as que herdou, e ande depressa. N?o nos conte lerias, nem fa?a lamurias. é decidir: o dinheiro ou a vida.

Bento erguera as m?os supplicantes, e pedira solu?ante que o n?o matassem.

-Onde est?o as tres mil pe?as?-perguntou o Meirinho.

-As tres mil pe?as?!-gaguejou o velho como tolamente espantado de que lhe perguntassem por tres mil pe?as n?o tendo elle de seu tres moedas de seis vintens.

-Mate-se este diabo!-accrescentou o Meirinho-e vamos levantar o soalho.

-Eu n?o tenho aqui o dinheiro, meus senhores…-acudiu o pedreiro desfeito em lagrimas.

-Ent?o, onde o tem vossê?

-Enterrei-o debaixo de uma fraga…

-Perto d'aqui? Avie-se.

-N?o, senhor, muito perto n?o é. S?o tres quartos de legua… em

Vermuim.

-Bem-concluiu o capit?o.-Salte para diante de nós, e venha desenterrar o dinheiro. Mexa-se!

O homem sentiu certos alivios n'esta mudan?a de situa??o como se expor a vida, salvando o dinheiro, lhe fosse uma consideravel melhoría de fortuna.

A malta, precedida do velho, embrenhou-se nos matos, atravessou o outeiro que toca nas faldas da serra de Vermuim, e por S. Cosme do Valle trepou ao espinha?o de penhascos que lá chamam o castello.

-Vossê n?o vá afflicto-dizia-lhe o Meirinho-por que hade ter o seu quinh?o com que pode viver regaladamente. O necessario n?o se lhe tira; nós o que queremos é o que lhe sobeja. Somos honrados ou n?o, seu velhote?

E dava-lhe palmadas nos hombros.

-Sim, senhor-dizia o Bento, e recolhia-se a scismar na

situa??o perigosa em que se via, e no modo de a esconjurar.

-Ande depressinha-tornava o chefe empurrando-o brandamente.

-Será bom ajudal-o com alguns pontapés-alvitrava outro, receando que a manh? lhes viesse tolher a empreza.

Chegados ao cabe?o da serra, espigado de rochas, disse o Meirinho:

-Cá estamos. Onde é a fraga?

-N?o enxergo bem… Só quando f?r dia é que eu conhe?o o sitio-respondeu Bento.

-Temol-as arranjadas…-tornou o Meirinho com um sorriso agoureiro de más coisas.-ó Freiamunde, petisca lume, e faze ahi um archote de codê?os para este tio ver onde está o arame.

-Parece-me que o melhor seria alumial-o com a luz da polvora…-observou Freiamunde, bebendo alguns tragos de aguardente de uma caba?a que trazia a tiracollo.-Quer lá, capit?o? Se lhe parece, dou dois goles ao velho como se faz aos perús…

-Tio Bento-insistiu Luiz Meirinho-vossê acha a pedra ou n?o acha? O dinheiro ficará enterrado; mas vossê tambem fica de papo ao ar á espera que o enterrem. Veja lá no que ficamos; lembre-se que está tratando com homens de palavra.

No entretanto, um da companhia petiscara fogo, e communicara o lume da mecha á manada de fetos sêccos apanhados de baixo de uma rocha que figurava um dolmen.

-Ali tem luz que farte-disse Luiz.-Veja lá agora qual é a pedra, tio

Bento.

-Parece-me que é aquella…-respondeu elle a tiritar, já convencido de que estava chegado ás ultimas.

-Parece-lhe ou é?-insistiu raivoso o Meirinho.-Ande. Mostre lá o sitio. ó Zé Landim, se f?r preciso desenterrar o morto serve-te da tua faca. Patr?o, estamos ás suas ordens, diga onde quer que se cave; a cova ha de fazer-se ou para sahir o dinheiro ou para entrar vossê.

Bento cahira sobre os joelhos como ferido de subita apoplexia, e come?ou a gaguejar uns sons inintelligiveis.

-Este alma de dez diabos que está a mastigar?-disse Freiamunde.

N'este momento, o pai de Joaquim cahiu de borco, batendo com a face na pedra; e, quando dois homens o levantaram de repell?o e o viram á luz dos fetos, estava morto.

Este incidente nem levemente impressionou aquelles homens fortes. Ninguem fez a minima reflex?o ácerca do lance em theatro t?o lugubre. Os mais preoccupados bebiam aguardente a froixo, dizendo que o homem morrera de frio. Nem uma ideia philosophica, nem sequer um dito elegiaco! Luiz Meirinho discorreu brevemente sobre a certeza de que o morto os tirára de casa para os desviar do logar onde tinha o dinheiro. Decidiu que se aproveitasse o restante da noite, indo a casa revolver a terra quanto se podesse; e, no caso de lá n?o apparecer o dinheiro, viriam na seguinte noite escavar debaixo da rocha, no castello.

Assim se fez. Bento de Araujo ficou deitado de costas sobre uma moita de code?os, com os bra?os hirtos e abertos em cruz, os punhos cerrados, e os olhos envidra?ados de lagrimas. Ao alvorecer do dia, uma nuvem pardacenta, que ondolava pela crista da serra, rasgou-se em saraivada glacial, que lhe batia no rosto e saltava pelo peito nú e descarnado. Chovera e nevara depois, durante muitos dias. Nenhum pastor subira com o rebanho áquellas cumiadas, sempre escondidas na negrid?o da nevoa, e perigosas se o lobo uiva faminto.

Quando o tempo estiou, quem denunciára o cadaver já disforme no rosto f?ra uma revoada de corvos que crucitavam pairando sobre os restos do seu banquete disputado ás feras.

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