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   Chapter 19 No.19

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 9435

Updated: 2017-12-04 00:03


Joaquim de Araujo entrára na vida por má porta. Oito annos de caserna bastariam a degenerar-lhe as boas qualidades: mas, com certeza, o Faisca já tinha ganho esta alcunha á custa de turbulencias, quando assentou pra?a, e n?o se regenerára, como é de supp?r, no officio de soldado.

A sua nova posi??o de lavrador n?o lhe quadrava; a pesada rabi?a do arado dava-lhe engulhos ao estomago, quando a sacudia do rêgo aberto para romper outro; o cabo da enxada empolava-lhe as m?os; de ?afaras n?o sabia nada; ignorava todo o trafego da lavoira; e, em vez de aprender, como queriam a mulher e o sogro, ia bandarrear por feiras, quatro vezes por semana, na sua egua rabona, de pau de choupa debaixo da perna, m?o direita á cinta, chapeu braguez na nuca, e besta travada que n?o havia outra d'aquella andadura.

ás impertinencias do sogro respondia que n?o precisava labutar sujamente na terra, porque seu pai tinha o melhor de cincoenta mil crusados em pe?as; e aos queixumes da mulher amante e ciosa voltava as costas enfastiado. O lavrador de S. Martinho, a fim de se desfaser do genro, repartiu a casa por tres filhos, resalvou uma pequena reserva, deu em terras o dote estipulado a Rosa, e mandou-os viver onde quizessem.

A libertinagem do Faisca foi até onde os dois mil e tantos crusados da mulher chegaram; e, n'aquelle tempo, quem os desbaratasse em seis annos alcan?ava a reputa??o dos que em nossos dias derivam á miseria sobre ondas do ouro. Antes de conhecer as primeiras necessidades, Rosa morreu na flor da idade, deixando um filho de seis annos entregue ao av?, porque o marido havia muitos mezes que demorava pela Galliza, amaltado com jogadores de esquineta, seus antigos camaradas, uns com baixa, outros desertores.

O filho de Rosa breve tempo viveu da caridade do av?, que falleceu pouco depois. Quando Joaquim de Araujo voltou a S. Martinho por saber que estava viuvo, encontrou o menino de sete annos esfarrapado, sem amparo de parentes, a esmolar o p?o e o gasalhado dos visinhos, por que seu pai n?o tinha casa propria, e todo o patrimonio de sua m?e estava vendido. Quem recolhera o rapazinho era um fogueteiro, o mais remoto e desprezado parente de sua m?e. O pequeno ajudava-o a afei?oar as canas e encher os canudos para os foguetes com bastante geito e disposi??o para o officio. Perguntara-lhe o pai porque n?o f?ra procurar o av? a Famalic?o. O fogueteiro respondeu que lá f?ra com elle quando a m?e morreu; mas que o av? dissera que estava tambem muito pobre, e apenas lhe déra estopa para umas cal?as, e um chapeu de Braga mais rapado que a escudela d'um c?o. Lembrou-se Joaquim do padrinho; mas a morte cortara-lhe esse recurso. Foi ter-se com o filho successor na casa, a vêr se quereria protegel-o como seu pai. O fidalgo da Igreja recebeu-o com furiosas declama??es contra o Bento pedreiro, a quem chamava ladr?o, por que lhe pedia dois mil crusados e juros que o pai lhe ficara devendo.

N'este tempo, o irm?o do honrado Joia já n?o podia trabalhar. Passava os dias sentado ao sol no degrau da porta, e dava alguns chorados vintens por semana a uma visinha que lhe levava as couves e a broa. N'esta situa??o o achou o filho, quando voltou da Corunha, trajando á castelhana, mas delatando na jaqueta safada e suja a miseria que o trazia á porta do pai. Pediu-lhe dinheiro com supplicante brandura, com muitos actos de arrependimento e promessas de reforma??o de costumes.

-Se poderes reformar os teus costumes, fazes bem; eu é que n?o posso desfazer-me em dinheiro-dizia o velho.-Tudo o que eu tinha estava na m?o de teu padrinho: elle morreu, e o ladr?o do filho n?o me paga.

-O que o padrinho lhe devia-disse Joaquim-s?o dois mil crusados; mas vossemecê herdou cincoenta e tantos…

-N?o sei o que herdei-replicou o pedreiro-tudo o que eu tinha dei-o a guardar ao coronel, Deus lhe falle n'alma, e tudo lá ficou.

-O meu padrinho n?o era capaz de o roubar, senhor pai! Vossemecê está mettendo a sua alma nas m?os do diabo! Ha de morrer para ahi como um mendigo, e o seu dinheiro ha de ajudal-o a cahir nas profundas do inferno!…

No calor da discuss?o figurou-se ao velho que o filho seria capaz de praticar alguma violencia. Teve medo-o medo que devia ser-lhe uma agonia fulminante, se o goso de sentir-se rico n?o prevalecesse ás angustias de recear-se em perigo na presen?a do filho. Abriu com as m?os tremulas a arca, tirou um pé de meia, atado pelo calcanhar com uma guita, deu-o ao filho, e disse-lhe com voz cortada de solu?os:

-é tudo quanto tenho. Recebi hontem esses vinte crusados novos dos esteios que vendi. Se queres dar-me metade, dá; se n?o queres, leva tudo.

Joaquim quedou-se alguns minutos a olhar para o pai com piedoso aspecto; e, depois

de pensar na reparti??o dos pintos, ouvindo filialmente a consciencia e a raz?o, deliberou… n?o repartir nada. Sahiu com mais duas maldi??es tacitas, e foi relatar o caso ao Luiz Meirinho.

N'este tempo, o antigo aguazil do corregedor de Barcellos andava muito acautellado das justi?as da comarca. A sua reputa??o de salteador de estradas estava feita; mas as provas que legalisassem a captura eram insufficientes. Os latrocinios de encruzilhada amiudavam-se na Terra-Negra, na Lagoncinha, e nas serras distantes do Ladario e Labruja. Algumas casas afamadas de dinheirosas eram assaltadas por quadrilhas que venciam pelo numero a resistencia; e, quando esses roubos estrondeavam, Luiz Meirinho e outros sujeitos da sua familiaridade nunca estavam em Famalic?o ou nas aldeias circumvisinhas. Era sabido que as maltas se reuniam em um grupo de cabanas n'uma cafurna de pinheiros chamados os Ribeiraes, n?o longe da vetusta egreja dos templarios de S. Thiago de Antas. Ainda hoje est?o em pé, mas ninguem as habita, essas choupanas execradas pela tradi??o de serem ahi enterrados os ladr?es que voltavam mortalmente feridos dos seus assaltos.

Como quer que fosse, a maledicencia n?o calumniava Luiz Meirinho, nem elle por modestia escondeu do Faisca a superior cathegoria de capit?o de ladr?es a que o promovêra a voz publica.

Joaquim ouviu estas confidencias intimas sem pavor nem se quer estranheza. A esquineta era-lhe bastante inicia??o para ser admittido aos mysterios da Terra-Negra. O Meirinho encareceu-lhe as vantagens, e desfez nos perigos do officio. Principiando pelo argumento mais insinuante a favor dos ladr?es, offereceu-lhe de uma grande sacca dinheiro que elle affian?ava ter adquirido sem escandalo nem effus?o de sangue. Uma das suas regras de bem-viver era (dizia elle ao Faisca) matar sómente em ultima necessidade: talvez a ?justa defeza? que a lei indulta. Romulo, o salteador que fundou Roma, n?o exhibia idéas mais benignas.

A grangearia de um bravo para a jolda foi facil. O Faisca, em uma das proximas noutes, foi apresentado na estalagem da Lagoncinha aos seus irm?os d'armas, e achou-se em melhor sociedade do que elle previra. Condecoravam a cáfila alguns sujeitos que pareciam andar n'aquella vida aventurosa por amor das impress?es rijas: eram artistas, como hoje diriamos. Filhos segundos de casas honradas e coutadas desde os reis da primeira dynastia, recrutas foragidos, desertores, jornaleiros, individuos barba?udos vindos de longes terras, facinorosos escapulidos das cadeias ou dos degredos, gentes varias, como se vê mas todos alegres, chalaceadores, bem-quistos nas aldeias por onde residiam temporariamente, liberaes nas tavernas com conhecidos e desconhecidos, armados até aos dentes, e, segundo a excellente maxima do capit?o, matando sómente em ultima necessidade. A malta, por espirito de imita??o, chamava-se Companhia do olho vivo. Florecera outra, com egual denomina??o, na c?rte, capitaneada por José Nicós Lisboa Corte Real. Quarenta annos antes haviam sido inforcados os mais graduados da companhia, salvante o capit?o, por que era protegido pelo infante D. Antonio, tio de el-rei D. José I. Um dos mais novos d'essa horda de ladr?es, que teve um periodo de esplendor, fugindo á persegui??o, ainda funccionou na malta do Minho, á qual legou o saudoso nome da outra.

A ?Companhia do olho vivo? n?o prosperou no anno em que o filho de Bento de Araujo se alistou. O terror afastára os passageiros dinheirosos do transito por serras infamadas, e os proprietarios das povoa??es sertanejas mudaram para as villas e cidades as suas residencias.

No programma de Luiz Meirinho estava desde muito inscripto Bento de Araujo; mas, como ainda ha pessoas de bem, ao capit?o repugnava-lhe propor em conselho que se planeasse o expediente maís plausivel na exhuma??o das tres mil pe?as do pai do Faisca. Os socios mantinham entre si estes decoros, o que n?o succede em todas as companhias com estatutos legalisados.

Entretanto, como a necessidade apertava, e á noticia do Faisca chegara a má nova de que seu pai, acariciado por uns sobrinhos de Gondifellos, tratava de se passar para a companhia d'elles, o capit?o, forte de ras?es aconselhadas pela prudencia e applaudidas por Joaquim, poz em discuss?o a materia, quando ao modo de obrigar o pedreiro a confessar a lura do thesouro. O Faisca tirou a salvo, porém, que o haviam de dispensar de assistir ao assalto, por que, em fim, o homem… sempre era seu pai, e o sangue gritava. Ninguem se riu na assembléa da sentimentalidade d'aquelle filho: é que as ideias grandes e fundas abalam toda a casta de alma. Foi apoiado calorosamente Joaquim, e até abra?ado por um socio de Felgueiras, processado por parricida.

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