MoboReader> Literature > Novelas do Minho

   Chapter 17 No.17

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 4907

Updated: 2017-12-04 00:03


O pedreiro ainda vira o visinho a safar-se da sua testada.

-Que fazia aqui o Luiz Meirinho?-perguntou elle carranqueando.

-Nada: conversavamos…

-Eu cá á minha porta n?o quero coversas com ladr?es, ouviste?

-Ladr?es!… O Luiz n?o me consta… que…

-Passa tu na Terra Negra com dinheiro de modo que elle t'o bispe, e lá verás quem é o Meirinho. Hade haver tres annos que deixou o officio que rendia pouco; e, desde que n?o tem officio, comprou casa, tem cavalgadura, trata-se á regalona, come carne do a?ougue, e bebe do da companhia. E eu, que trabalho ha bons quarenta annos, custa-me a amanhar para uns feij?es, e bebo agua da fonte.

-O sr. pai assim o quer…-atalhou Joaquim entre receoso e risonho-Perca o amor ás pe?as…

-E tu a dar-lhe!…-volveu iracundo o pedreiro-Já te disse que as procures!… N?o herdei nada! n?o herdei nada!-e berrava convulsionado freneticamente, sacudindo os bra?os.

-N?o grite assim que n?o faz mingua barregar!-atalhou o filho-A gente está conversando… ás boas… ein?

No aspecto do Faisca resumbravam sentimentos pouco filiaes. A ironia franzia-lhe os cantos dos bei?os, ao mesmo tempo que a ira lhe avincava a testa. No ar com que se sentara na arca, dobrando o corpo e bamboando as pernas em ginga??es de tarimba, denotava quebra de respeito, e disposi??o a questionar faceiramente com o velho.

-Com que ent?o…-proseguiu Joaquim-Vossemecê n?o herdou tres mil pe?as?

-N?o!-bradou o pai-N?o! com mil diabos (Deus me perd?e), n?o!

-E se eu lhe mostrar a copia do testamento…-volveu Joaquim esbolhando os olhos, abrindo a bocca, e pondo fóra a lingua em todo o seu comprimento-Que me diz vossemecê, sr. pai? se eu lhe mostrasse a copia do…

-Tu acho que vieste cá para dar cabo de mim!-interrompeu Bento, desentalando-se da sua afflic??o por aquella estupida replica-Amaldi?oado sejas tu!…-E, com os dentes cerrados, e as m?os na cabe?a, ia e vinha da lareira para a porta, considerando-se o mais desgra?ado homem que Deus criara.

-Sr. pai!-continuou mansamente o filho-isto n?o vai a matar. Tome f?lego, e escute o seu Joaquim. Lembre-se que n?o tem outro filho a quem deixar os seus cincoenta e seis mil cruzados…

-Olha o diabo!-regougava o velho.

-O que eu lhe pe?o pouco monta. Livre-me de soldado, e dê-me alguma coisa para eu casar com a Rosa de S. Martinho. O pai d'ella decerto m'a dá, se eu levar mil crusados. Vou ser lavrador, terei saude e alegria, e nunca mais lhe pe?o na

da, sr. pai.

Joaquim, desde que proferira o nome de Rosa de S. Martinho, mudára de tom e gestos. Os olhos imploravam, e a voz tinha as modula??es do respeito. O seu amor de dez annos, golpeado de saudades, quebrara-lhe os pulsos. Se o pai n'aquelle instante abrisse no rosto uma tenue claridade de esperan?a, Joaquim acabaria a supplica de joelhos.

-Mil cruzados!-resmuneava o pedreiro-onde queres tu que eu os vá roubar?

Esta interroga??o varreu do semblante do Faisca os signaes da boa reac??o.

-Eu n?o quero que os vá roubar, valha-me Deus!-respondeu Joaquim-Mas, a fallar verdade, quem tem tres mil pe?as de seu tambem pode ser ladr?o da felicidade de um filho que ainda lhe n?o custou seis vintens desde que pode trabalhar… Olhe, sr. pai, repare bem no que vou dizer-lhe… Eu para a Pra?a n?o torno. Sou desertor.

-Venho de casa de teu padrinho-acudiu o pai menos t?rvo-o sr. coronel Lobo da Igreja dá-te uma carta para o commandante, e diz que tudo se hade arranjar.

-N?o torno para o quartel, já lhe disse. Estou doente, preciso mudar de vida.

-Que te leve a breca… N?o quero saber de contos. Lá t'avem. Dinheiro n?o tenho; só se queres que eu venda a casa, e me vá depois pedir um eido nos palheiros dos lavradores á beira dos c?es.

-Está bom-concluiu Joaquim erguendo-se e espregui?ando-se-vou ouvir a opini?o do Luiz Meirinho, que d'um modo ou d'outro prometteu livrar-me da farda e da chibata…

-Vaes fallar com o Meirinho para isso, ó alma perdida?

-Pois ent?o? Aquelle é amigo do seu amigo, e, se me f?r necessario dinheiro…

-Ensina-te a roubal-o…

-E elle que sabe onde o ha…-respondeu Joaquim bocejando, e fazendo tres signaes da cruz na bocca escancarada.

-Eu te deito a minha maldi??o!-bradou o velho com solemnidade bastante para a scena final d'um acto; porém insufficiente para abalar o 32 da 7.^a companhia do regimento de artilheria do Porto.

O Faisca sorriu, e murmurou:

-Vossemecê parece que tem mais maldi??es que pintos… Pois eu cá vou com a sua maldi??o, e depois… veremos se ella nos impece a ambos.

Bento, ao pular-lhe o cora??o em saltos de ruim presagio, ainda deu tres passos para chamar o filho, e aven?ar-se com elle mediante a quantia necessaria ao livramento; mas a imagem de um pote de ferro cheio de pe?as bateu-lhe rija no peito. Quedou-se como empedrado a olhar para a soleira da janella de peitoril, cujas portadas quatro travessas de castanho esfumado immobilisavam.

Free to Download MoboReader
(← Keyboard shortcut) Previous Contents (Keyboard shortcut →)
 Novels To Read Online Free

Scan the QR code to download MoboReader app.

Back to Top

shares