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   Chapter 16 No.16

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 11497

Updated: 2017-12-04 00:03


Quando Villa Nova de Famalic?o era um burgo de cem visinhos com um juiz pedaneo, sahiu d'ali para a c?rte, em 1744, um rapaz de quinze annos, que principiára com seu pai officio de pedreiro. Assignava-se Antonio da Costa Araujo, escrevia limpamente e era esperto. Chamara-o a Lisboa um tio, mercador de pannos, estabelecido na Rua dos Escudeiros, que até ao terremoto de 1755 occupava parte do terreno hoje comprehendido na rua Augusta. Mathias da Costa Araujo, irm?o do pedreiro, engra?ou tanto com o sobrinho que, apezar dos poucos meios, mandou-o ás aulas dos jesuitas no pateo de Santo Ant?o, afim de o habilitar para clerigo, contra a propens?o mercantil do mo?o. Mathias havia sido infeliz no commercio, e dizia que era máo modo de vida aquelle em que a prosperidade se desavinha da honra.

No 1.^o de novembro de 1755, o constrangido destino do estudante transtornou-lh'o a catastrophe em que seu tio pereceu debaixo da abobada da egreja de S. Juli?o, onde assistia ás missas dos fieis defuntos. Os seus medianos haveres armazenados devorou-lh'os todos o incendio. Ficou portanto em desamparo grande o estudante, e cuidou de amanhar sua vida, deixando arder sem saudade a grammatica latina do padre Alvares com os cartapacios correlativos.

Nicolau Jorge, mercador abastado, visinho e amigo do defuncto Mathias, condoido do sobrinho, chamou-o, ouviu-o discorrer a respeito da especie de mercadoria em que mais seguro negocio deveria tentar-se na crise do terremoto, e, applaudindo o, emprestou-lhe duzentas moedas de ouro. Leiloavam-se ent?o, nas ruas e pra?as, fazendas avariadas por agua e fogo. Antonio da Costa Araujo arrematou por pre?o infimo fardos equivalentes ao seu avultado capital, pagando-os no mesmo acto com grande espanto do desembargador Torcilles, presidente das arremata??es. Estabeleceu-se Costa Araujo no Campo de Santa Anna, e ganhou, no primeiro anno, com estas fazendas avariadas, doze mil crusados.[6] Volvidos seis annos, era um dos mercadores mais opulentos da c?rte; morava no primeiro quarteir?o da rua Augusta, á esquerda, indo do Rocio, e era geralmente conhecido pela alcunha de Joia. Tinha camarote effectivo na opera, banqueteava personagens de alta condi??o, recebia nos seus armazens a mais luzida sociedade de Lisboa com fidalga cortezia: chamava ?joias? ás damas, e d'ahi lhe pegou a elle a alcunha desmaliciosa. Confluia ao seu balc?o a fl?r da cidade, por que ninguem o excedia na fina escolha dos atavios, no primor do gosto e em probidade de contractos. ?Ali vinham-diz o coronel Francisco de Figueiredo-comprar-se os enxovaes para os grandes casamentos, o vestuario para todas as grandes func??es, de que houve muitas, entrando n'este numero os casamentos dos nossos soberanos, nascimentos de principes, os dias de annos de toda a real familia, e os trez dias das func??es da inaugura??o da estatua equestre do sr. rei D. José, o 1.^o de t?o gloriosa memoria.?

Costa Araujo n?o compellia os devedores a pagarem-lhe judicialmente; que o infortunio dos que n?o podiam gosar a honra e o prazer da pontualidade fazia-lhe dó. Quiz o marquez de Pombal nobilital-o como fizera a outros commerciantes, mais para abater a fidalguia historica do que para levantar a burguezia industriosa. O Joia nunca pediu nem acceitou distinc??es. Foi toda a vida mercador, sempre ao balc?o, ou encostado á hombreira da porta como hoje o n?o faria um caixeiro com a cabe?a cheia de socialismo e oleo de amendoas d?ces.

á volta dos sessenta annos, Antonio da Costa Araujo enfermou de paralysia. Era solteiro. Chamou para sua companhia um irm?o que tinha na terra natal, pedreiro como seu pae, e que nunca deixara de trabalhar, posto que o irm?o rico lhe désse boa mezada, sem todavia lhe aconselhar officio menos grosseiro, por intender que s?o muitos os pedreiros felizes e pouquissimos os grandes do mundo que a inveja dos pequenos n?o perturbe.

O paralytico fez testamento em que repartiu o seu capital por diversos amigos, e deixou a seu irm?o Bento da Costa tres mil pe?as de 7$500 réis.

Fallecido o Joia, appareceu em Famalic?o Bento pedreiro, envergando um tabardo velho de briche, que exhibia com visagens consternadas, dizendo que n?o herdára outra cousa do irm?o, o qual, tudo gastára e morrera pobre. O pedreiro, suppondo que o acreditavam, era bo?al á propor??o de avarento; faltava-lhe a velhaca finura que hoje em dia illustra os minhotos. Verdade é que n?o havia ainda gazetas que assoalhassem as verbas testamentarias; mas a noticia da heran?a de Bento chegára a Famalic?o primeiro do que elle. Cincoenta e seis mil crusados e tanto! Quem poderia herdar secretamente riqueza tamanha n'um tempo em que bazofeava por Lisboa um argentario a quem chamavam O tresentos mil crusados, por que elle, vindo do Brazil, manifestára aquella colossal e quasi fabulosa quantia! Cem contos de réis, hoje em dia, é quasi uma vergonha possuil-os; e quem n?o fingir que tem essa somma quadruplicada, é um homem que, se souber governar-se com muito prumo, poderá talvez dispensar se de ser recolhido a um asylo de mendicidade.

O pedreiro era viuvo, vivia só, e tinha um filho soldado de artilheria do regimento do Porto, aquartelado em Valen?a. Quando a noticia chegou ao quartel, o rapaz, insano de alegria, desertou, confiado na heran?a. Entupiram-n'o, porém, o espanto e a consterna??o, quando encontrou o pai á orla da estrada a brocar uma penedia por conta de um lavrador. Recobrado do assombro, perguntou-lhe se n?o herdára tres mil pe?as de ouro. O velho poz os olhos espavoridos no céo, abanou a cabe?a como os personagens da Iliada, desfechou contra o filho um esgar desabrido, e bradou:

-Tres mil pe?as!? tres mil diabos que te levem a ti e mais a quem levantou essa aleivosia! O que eu herdei

foi um reguingote de sarago?a já no fio. Se o queres, vai buscal-o, que elle lá está pendurado n'um gancho… Com que ent?o, Joaquim, vinhas ao cheiro das pe?as?

-Vinha pedir-lhe, senhor pai-respondeu o mo?o com tristeza e respeito-que me livre de soldado, porque já n?o posso com o servi?o. Estou doente, e preciso mudar de vida.

-Trabalha, faze como eu, que tambem n?o posso, e estou aqui a furar este calhau. Quizeste ser soldado… lá t'avém.

-Senhor pai, olhe que eu sahi da pra?a sem licen?a… sou desertor…

-N?o me digas isso segunda vez, que te regeito esta broca á cabe?a![7]

-Faz-me vossemecê uma esmola-replicou serenamente Joaquim-que eu antes quero a morte que as chibatadas… Sabe que mais, senhor pai?-proseguiu o desertor limpando o suor e as lagrimas-ou vossemecê me livra, ou eu vou juntar-me á quadrilha que anda na Terra Negra.

-Capaz d'isso és tu, alma do diabo! Sai-me da vista dos olhos que eu já te n?o enxergo, ladr?o!

E, arrojando a broca e o ma?o pelo respaldo do penedo, sentou-se com os cotovellos fincados nas pernas, e scismou alguns segundos com a cara tapada pelas m?os esfoliadas e negras de terra.

O filho esperava, indeciso entre o odio e a compaix?o. Se cogitava que o pai herdára as tres mil pe?as, e o deixava optar ente a chibata e a malta de ladr?es, Joaquim sentia-se tremer de raiva; se, porém, a heran?a era uma inven??o, o ar afflicto do velho sujo, roto e quebrado de trabalho, compungia-o.

N'esta vacilla??o, ergueu o pedreiro o rosto menos descomposto, e disse:

-Vai para casa que eu vou d'aqui fallar com teu padrinho… Ahi tens a chave; procura as pe?as e leva-as, que eu dou-t'as…

Esta zombeteira liberalidade incutiu logo em Francisco duvidas da heran?a. Entrou em casa e examinou toda aquella antiga e conhecida pobreza. Na lareira, entre cinzas, a panella de barro desbei?ada, e duas tijellas na trempe; o escabello corroido de caruncho, e a espa?os espumado de gorduras lustrosas: o catre de bancos, e a enxerga rota e arripiada de palhi?o: a candeia de ferro inganchada na parede; por baixo, pingada de sail, uma banca de pau santo com pés torneados, mas com as roscas esborcinadas, e gavetas de pinho em bruto com puxadores de corda. Sobre a miseria dos trastes, o lixo, a sordicia que o filho do pedreiro nunca assim vira, por que sua m?e ainda vivia, quando elle assentara pra?a. Aos pés da cama havia uma rima de cascabulho, grabatos de lenha, ferramentas quebradas, rodilhas e cacos. Em uma furquilha de quatro esgalhos pregada na trave mestra, pendia, coberto da fuligem da lareira, o albornoz poído que o irm?o do Joia dizia ter herdado.

O desertor sentou-se na arca de pinho, contemplou aquella indigencia, e pensou comsigo:

-Acho que me mentiram… Meu pae n?o herdou nada… D'antes ainda n'esta casa havia uns len?oes lavados e p?o á farta, quando recebiamos todos os mezes a moeda que o tio nos dava… E agora que ha de ser de mim?… Estou perdido!…

N'este comenos, assomou ao limiar da porta um visinho, que vira entrar o soldado.

-Estás por aqui, Joaquim Faisca?!-perguntou o Luiz Meirinho.

Convém saber que o filho de Bento ganhára alcunha de Faisca, desde que mostrou aos dezoito annos extraordinaria destreza em ferir lume no phosphoro dos ossos dos adversarios. O outro chamava-se o Meirinho, porque o havia sido do corregedor de Barcellos, e na opini?o publica passára de quadrilheiro da justi?a a capit?o da quadrilha que infestava a Terra Negra. Continuava o officio, diziam alguns, ganhando na carreira dois postos de accesso.

-Vieste com licen?a?-perguntou o Luiz Meirinho.

-N?o, senhor. Pedi-a, e n?o m'a deram-respondeu Joaquim, com o proposito de se acolher ao valimento do visinho, se o pai lhe n?o acudisse.-Eu estou doente do peito, e n?o posso com esta vida de soldado. Ouvi lá dizer que meu pae estava muito rico com a heran?a de meu tio. Desertei, cuidando que elle me livraria com dinheiro; mas agora mesmo o topei no Vinhal a quebrar pedra, e elle me disse que herdára um albornoz velho que ali está.

-E tu acreditaste?-atalhou o outro velhacamente.

-á vista da miseria em que eu encontro esta casa…

-Pois fica sabendo que teu pae herdou tres mil pe?as. Sabes quanto fazem tres mil pe?as?… Cincoenta e seis mil e tantos crusados. Sabe toda a gente da villa que teu pae está riquissimo. Posso mostrar-te a copia do testamento. Teu pai é um miseravel, é a vergonha dos homens! Mata-se á fome, come duas tigellas de caldo por dia, e diz mal do irm?o, porque lhe deixou um albornoz cossado, quando toda a gente sabe que o deixou rico…

-E o dinheiro?-acudiu Joaquim circumvagando os olhos pelos cantos da casa e da lareira.

-Dizem uns que o deixára em Lisboa a render, e outros querem que elle o tenha enterrado ahi n'esse chiqueiro; mas a minha opini?o é que teu pae, se trouxe o dinheiro, n?o o tem em casa. Metteu-o debaixo d'alguma fraga ahi da serra por onde elle anda sempre a quebrar pedra.

-E que heide eu fazer, se elle me n?o livrar?-perguntou Joaquim.

-Eu sei lá, rapaz! Se o teu livramento depende do dinheiro de teu pai, n?o quizera eu estar-te na pelle! Levas as chibatadas da lei t?o certo como eu quizera valer-te e n?o posso. Conhe?o-te desde rapazito, e nunca me hade esquecer que vai agora em dez annos, na romaria das Cruzes de Barcellos, me acudiste n'um aperto, e quebraste tres cabe?as em quanto eu quebrei duas. Olha, Faisca, se te vires em apuros, procura-me; livrar-te de desertor, isso n?o posso eu; mas das chibatadas e da farda eu te livrarei…

-Como?

-Isso s?o contos largos… Ahi vem teu pai ao fundo da rua. Vou-me embora, que n?o posso encarar aquelle sordido avarento! Se eu soubesse que elle tinha o dinheiro no bucho, tirava-lh'o pelas guelas, e dava-t'o, rapaz!

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