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   Chapter 14 No.14

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 2872

Updated: 2017-12-04 00:03


Vi esta morgada, ha tres annos, em Braga, no theatro de S. Geraldo.

Estava em scena Santo Antonio, o thaumaturgo. A commo??o era geral.

Tanto a morgada, como seu marido, o commendador Francisco José Alvar?es,

choravam, ás vezes; e, outras vezes, riam se.

Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras unctuosas e joviaes dos quarenta annos sadíos, seios altos e aflantes, pulsos roli?os e averdugados pela compress?o das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.

Riu-se a morgada quando aquelle Santo Antonio do seculo XIII recitou ás raparigas uma poesia madrigalêsca de Braz Martins,-bom homem que esteve quasi a regenerar o theatro nacional como elle deve ser. A poesia resava assim n'esta prosa innocente:

Mimosa nasce a flor e vive ainda,

Se arrancada n?o foi logo ao nascer;

Assim a virgem nasce e vive pura,

Se o vicio n?o trabalha p'ra perder.

Et coetera, com a mesma unc??o e musica.

A morgada sorrira-se para o marido; e elle, para mostrar que tambem percebera o chiste, formou um tubo com os bei?os carregados de chala?as mudas, e disse com atticismo velhaco:

-Versalhada…

Ora, a morgada de Romariz, lagrimando com intelligencia na proza da oratoria, assim que algum personagem pegava de rimar, ria-se. Persuadira-se de que a miss?o dos versos era como a das cocegas. A natureza dera-lhe ao espirito aquelle feitio.

Remirei-a de esconso por sobre a espadua do esposo.

Ella bocejava nos entre-actos, até mostrar as campainhas; elle tosquenejava, e ás vezes, esprigui?ando-se, grunhia:

-Estou massado.

-Podera…-obtemperava a esposa-a comedia bonita é… mas n?o ha nada como estar a gente na sua cama, Zézinho!

E dava tons lubricos ao diminutivo.

-Quem me lá dera…-volvia Alvar?es deslocando as botas e dando folga e fresc?r aos pés no aprazivel tunel dos canos.-O polimento estorcéga-me os calos…-queixava-se com azedume.-Comedias… Ora adeus! Patranhas…

-Modos de vida, homem…

E abriram juntos as boccas spasmodicas.

-Ao menos se eu viesse ceado…-dizia elle.

-Fizesses como eu…

-N?o me cabia cá…-e batia com os dedos dobrados no alto ventre como se faz ás melancias suspeitas.

-Já agora hemos de vêr a scena da gloria que é o mais bonito…-opinava a esposa.

N'este comenos, visitou-os um meu conhecido de Famalic?o. Ao erguer o panno, sahiu de lá, e entrou no meu camarote. Foi elle quem me disse o nome das duas pessoas, accrescentando:

-Ali, onde a vê, tem romance; dá materia para dois tomos…

-Picarescos? N?o me servem… Eu quero philosophia: os meus leitores querem philosophia, percebe o senhor?

-é o que ella tem mais que dar.

-Ora essa!… O senhor sabe que ella tem isso? Queira apresentar-me…

-Deus me defenda… Eu disse á morgada que vossê era romancista…

-E ella que disse?

-Riu-se.

-Riu-se!? é boa… E o marido…

-O marido disse: Arreda!

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