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   Chapter 13 No.13

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 6021

Updated: 2017-12-04 00:03


Sete annos de glacial solid?o giaram sobre a alma de Pinto Monteiro. As portas da sua casa raro se abriam. Concordemente se disse que o cego estava pobre pela terceira vez. Era verdade: estava pobre-vendia o restante das joias da mulher.

ás vezes entrava n'aquella casa a Narcisa do Bravo, sentava-se á mesa ainda abundante do padrinho, e matava a fome. A irm? do cego debulhava-se em pranto a confrontar aquella desgra?ada de rosto empolado com esfolia??es rubras á formosa noiva de Custodio da Carvalha, á gentil amazona por amor de quem alguns fidalgos de Guimar?es ter?aram as suas badines de caoutchouc na romaria de S. Torquato.

Sobre todas as famas repellentes, ganhara Narcisa, com legitimo direito, a de ladra, e ladra á m?o armada. Os mais queixosos eram os que lhe colheram as fl?res já outoni?as da belleza, e a regeitaram com a brutalidade do tedio. Narcisa sahia-lhes de rosto nas concavidades das congostas escuras, e abocava-lhes á cara uma pistola de dois canos; e elles, com um fingido sorriso de piedade despresadora, atiravam-lhe a for?ada esmola. Outras vezes, escalava as janellas das alc?vas conhecidas, e entroixava os bragaes como se inventariasse o espolio de um esposo fallecido. E temiam-na como a um scelerado disposto a vender cara a vida, por que ella deixava entrever a coronha da pistola entre os atacadores do collete escarlate, e, se sofraldava as saias, quando saltava as poldras dos ribeiros, mostrava a faca de ponta atravessada na liga. Os regedores das freguezias que ella frequentava tinham ordem de a capturarem; mas o mêdo, predicado pacifico d'estes magistrados, era a resalva de Narcisa.

O cego de Landim n?o ignorava a desastrosa sahida de sua afilhada; conselhos, n'aquella extremidade, eram perdidos; censuras, a si proprio as fazia o cego por que encetára a perdi??o d'aquella mo?a, tirando-a da arribana de seu pae, para a crear nas regalias da abundancia, sem vislumbres de religi?o, em plena liberdade de se viciar com as travessuras e gaiatices que lhe festejavam. Narciza era talvez uma das polés que torturaram o cego nas impenetraveis agonias dos seus ultimos seis annos.

Contava um rapazinho, creado de Pinto Monteiro, que ouvira, uma vez, sua ama dizer a Narciza que ia mandar vender dois cobertores porque n?o havia dinheiro em casa; e que Narciza lhe dissera que n?o vendesse os cobertores, por que ella ia vender a sua pistola por meia moeda. N?o tenho outro lance generoso que possa referir de Narciza do Bravo.

Quando este caso passou, entrava Antonio José Pinto Monteiro nos paroxismos da morte. A 28 de novembro de 1868, pelas dez horas da manh?, disse á irm? que lhe accendesse um cigarro, e abrisse as janellas, que sentia grande calor e ancia. Sentou se no leito, e inspirou consoladoramente a columna de ar frigidissimo que lhe bateu no rosto, ao abrir da janella. Pediu uma chavena de café, e, emquanto a irm? o fazia, Narcisa veiu para a beira do padrinho.

-Quem é?-perguntou o cego.

-Sou eu, padrinho. Está melhor?

-Vou estar melhor, filha. Isto vai acabar. Quando eu morrer, faze companhia á minha pobre irm?…

Narcisa chorava, beijando a m?o do cego, que se estorcia nas d?res da cystite. Ao cahir da noite, a prostra??o, a febre, os solu?os, e o frio das extremidades diagnosticavam a gangrena. No 1.^o de dezembro, o cego de Landim expirou reclinado ao seio de Narciza, que se sentara no leito para o amparar nos derradeiros arrancos.

As suas ultimas palavras, no delirio que precedeu a morte, encerram toda a moralidade d'esta biographia:

-Eu tinha tres filhos que criei com tanto amor… Que é d'elles?…

E mais nada.

Os tres filhos do cego de Landim affrontar-se-hiam com o nome de seu pai? Para ter um peito amigo que o amparasse na agonia, foi mister que a sociedade remessasse para dentro da alcova do moribundo uma mulher perdida. Mas, lá ao longe, no Brazil, houve lagrimas saudosas no cora??o de uma filha. Pois quando é que Deus consentiu que uma filha as n?o chorasse… n'um epitaphio?

CONCLUS?O

No cemiterio de Landim está uma sepultura com este letreiro:

AQUI JAZ ANTONIO JOSé PINTO MONTEIRO NASCEU A 11 DE DEZEMBRO DE 1808 FALLECEU A 1 DE DEZEMBRO DE 1868

TRIBUTO DE GRATID?O DE ETERNA SAUDADE QUE LHE DEDICA SUA INCONSOLAVEL FILHA GUILHERMINA

Anna das Neves ideara uma perspectiva de felicidades: viver os restantes annos em recatada pobreza, morrer mais desamparada que o irm?o, e ser levada como quem remove um entulho ali para aquella sepultura onde se pulverisavam os ossos execrados do cego.

Estas felicidades n?o as gosa quem quer.

Um dia, a justi?a, perseguindo Narcisa pelo roubo de uma coberta de fêlpo, soube que a Neves a mandara vender. A ordem de captura involveu-a como receptadora de roubos. Invadiram-lhe judicialmente a casa, e encontraram, para maior prova do crime, um a?afate de ma??s camoezas, dois calondros e algumas batatas que Narcisa recolhera, de colheita aliás suspeitosa, nas lojas da casa da sua protectora. A irm? do cego foi capturada, e, sem fian?a, encarcerada na lobrega enchovia de Famalic?o. Dias depois davam-lhe a companhia de Narciza, que se entregara á pris?o, arrojando a pistola, quando lhe disseram que a Neves estava preza. O juiz misericordioso condemnou-as a oito mezes de pris?o, dado que os jurados as sobrecarregassem de crimes benemeritos de degredo perpetuo.

Cumprida a senten?a, D. Anna das Neves Miquelina Monteiro vendeu a casa que o irm?o comprára em nome d'ella. Com o producto d'essa venda transferiu-se, em 1872, ao Brazil, e levou comsigo Narcisa do Bravo. Parece que n?o tinha outros amores n'este mundo, e desejava expirar, como o irm?o, nos bra?os d'ella.

E visto que n?o estamos dispostos a deixal-a morrer nos nossos bra?os, ó leitor, parece-me caridosa coisa que a n?o fulminemos com a nossa honrada raiva. Sou de opini?o que sejamos inexoravelmente severos com os desgra?ados e com as desgra?adas, quando elles e ellas repellirem a felicidade que lhes offerecermos.

S. Miguel de Seide-Julho de 1876.

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