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   Chapter 12 No.12

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 4510

Updated: 2017-12-04 00:03


Aquillo foi depressa. O fervor reciproco dos noivos, e o preceito do poeta pag?o que manda n?o adiar os prazeres, abreviaram quanto possivel a identifica??o das duas almas. O reitor, que os recebeu, era um padre bom e jovial que até a estes noivos disse o que dizia a todos: ?Eu espero o vosso primeiro filho d'aqui a nove mezes.? A noiva entreabriu á flor dos bei?os um hypothetico sorriso de pudor; o cego, porém, ferido na infecundidade da esposa, disse, carregando o semblante:

-N'este acto, sr. reitor, s?o improprias as chala?as.

O padre, querendo emendar eruditamente a inadvertencia, respondeu:

-As santas escripturas fallam de Sára…

-Eu n?o sou Abrah?o-replicou o cego, voltando-lhe as costas.

Reverdeceram os contentamentos da meza lauta e das intimas palestras ao fog?o. D. Tecla Monteiro confessava que nunca t?o felizes lhe derivaram os dias da existencia. O cego sentia se docemente ameigado e bem, com o rosto no rega?o da esposa. Saboreava os santos aconchêgos da companheira canonica. Recendia-lhe o ninho dos seus amores licitos um patriarchismo anterior ao sacramento do matrimonio, é verdade, mas puro como os conubios de Jacob e Lia, de Ruth e Booz. Ella n?o o idolatrava com o maior phrenesi, mas aquecia-lhe no inverno os len?oes com botijas, e de manh? levava-lhe uma chavena de sagú, que pessoalmente cosinhava com todos os primores d'uma voca??o especial para os mingáos.

Na venda das propriedades liquidára Monteiro menos do seu valor; mas ainda assim n?o desceu de vinte contos de réis o dote da esposa. Parte d'este capital empregou-o em uma quinta no Alto-Douro, outra parte na reincidencia de pleitos que havia perdido, e o restante nas opulencias da meza, e nas liberalidades com os renovados amigos. Do mesmo passo que a opini?o publica encarecia a velhacaria do cego, formava-se uma confedera??o de sujeitos que lhe exploravam a perdularia generosidade. Emprestava facilmente dinheiro, e n?o negava esmola, nem se desculpava com a falta de cobres. ?Tal desculpa seria boa,-dizia elle-se os mendigos se offendessem com as pratas.? E tambem dizia: ?Ninguem dá esmolas mais ás escondidas do que eu, porque nem vejo as pessoas a quem as dou!? Triste gracejo proferido por um cego.

Pinto Monteiro, que tan

to refinára em astucias, no ultimo quartel da vida, deixava-se enganar por qualquer velhaco montezinho. A quinta do Alto Douro, comprada por seis contos de réis, foi uma venda fraudulenta: a propriedade estava hypothecada á fazenda nacional, e o vendedor, apresentando titulos falsos, recebeu o dinheiro no Porto, e fugiu. Os convivas do cego rejubilavam a cada arremesso novo que a desfortuna lhe dava para a pobreza, e as pessoas contemplativas observavam ás incredulas que o enorme delinquente estava soffrendo retalia??es providenciaes. é de crer que sim.

Lance admiravel! Pinto Monteiro mantinha serenidade socratica e imperterrita a cada lan?ada que lhe resvalava na rodella da philosophia. Se a irm? ou a esposa choravam, e elle dava tento d'isso, dizia-lhes: ?é uma vergonha chorar quando a vida é t?o curta! As dores s?o um sonho mau de que se acorda na sepultura.?

Ao sentir desfibrar-se-lhe a corda tenaz da paciencia, digna de um christ?o, emborcava garrafas de genebra, e fumava sempre até cair marasmado pelo alcool e pela nicotina; mas, se antes da prostra??o, se exaltava em desvarios de ebrio, as phrases refloreciam os raptos de eloquencia que aos vinte e cinco annos o arrebatavam nos clubs fluminenses. N'estas occasi?es, projectava ir ao parlamento, e ensaiava discursos t?o bonitos que pareciam ser decorados no ?Diario das Camaras.? ás vezes pedia á mulher e á irm? que lhe fizessem ?ápartes? para o picarem. A boa de D. Tecla dava-lhe para se rir, ou pedia-lhe amorosamente que se deitasse-pedido que a gente n?o pode fazer a todos os oradores parlamentares.

N'estas intermittencias, quasi sempre risonhas, se passavam os dias e boa parte das noites n'aquella murmurosa casa de Landim. D. Tecla desmentira os viticinios que a deploravam, esbulhada do dote e abandonada á piedade do Azylo das velhas do Camar?o. N?o teve uma hora de tristeza esta senhora; nem se quer ligeira borrasca de ciume, em sete annos de casada, lhe nublou as suas alegrias de esposa leal. ás setenta e seis primaveras seguiu-se um inverno rigoroso de catarraes e gota, com perturba??es no apparelho digestivo, tympanites e colicas flatulentas. A morte arrebatou-a em dezembro de 1861 dos bra?os do marido que, pela primeira vez na sua vida, chorou.

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