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   Chapter 11 No.11

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 4621

Updated: 2017-12-04 00:03


Os dois predios que a viuva possuia na rua da Quitanda valiam quarenta contos de réis fracos; as suas joias, dádivas de tres maridos, eram muitas e nem todas de pedras falsas. A idade da viuva animava um quarto marido, na hypothese de caber a esse quarto a vez de a ver fugir para o céo a ella. O certo é que andavam já dois empregados da fazenda e outros tantos da administra??o a expiarem o ensejo de lhe seduzirem a inexperiencia, quando a viram ir impertigada n'umas andilhas, caminho de Landim, a chotar, e a rir-se dos solavancos do macho.

Os pretendentes pegaram de gritar contra o cego, assacando-lhe o rapto e a coac??o da viuva. O juiz de direito viu-se for?ado a deferir ao requerimento de um curioso que pedia uma visita domiciliaria ao carcere privado de D. Joanna Tecla Alves. Effectivamente a hospeda de Pinto Monteiro foi interrogada em presen?a de testemuhas, se estava n'aquella casa por sua livre vontade, n?o coagida nem seduzida.

Respondeu que estava muito contente, e que podia estar onde quizesse.

O juiz concordou.

Algumas cartas amorosas em papel perfumado lhe enviou o mais galan dos funccionarios de Famalic?o. Joanna Tecla relia as cartas com secretas delicias; mas, no exterior, fingia-se de uma isen??o que faria envergonhar Arthemisa, viuva de Mausólo e as combustiveis viuvas do Malabar. Perguntava á sua amiga Neves quem era o tolo que lhe escrevia; e, rindo com a garridice arisca dos dezeseis annos, dizia que seria grande pagode mangar com elle, respondendo-lhe ás cartas.

A mana do cego segredava ao irm?o:

-Olha que a velha é tola, mano Antonio; trata de cortar os voadouros á cegonha: sen?o, hasde vêl-a voar aos bra?os do quarto marido.

-O quarto marido heide ser eu!-disse o cego com uma visagem de martyr voluntario-Heide ser eu o quarto marido-repetiu elle, tragando um copo de rhum para ganhar alma-porque a ter de entrar n'esta casa o espectro da miseria, é melhor que entre Joanna Tecla. N?o me lembra como se chamava um cego que dava gra?as a Deus porque n?o podia vêr um certo tyranno; eu tambem as dou, porque n?o posso vêr a minha noiva.-E enchia o copo esvasiado, mascava o charuto, e fazia com as duas pernas um curso de geometria-Sacrifico-me a ti e a meus filhos. Vou ser o bode expiatorio das minhas e vossas prodigalidades; mas levo

a certeza de que ella ao menos me será esposa fiel-o que é raro antes dos setenta annos. O seu terceiro defuncto disse-me que Tecla era uma paz d'alma, bruta sim, mas boa. Emfim, mana, sonda-m'a; vê se lhe achas vontade de casar quarta vez.

-Tomára ella!-acudiu a irm?-Está sempre a dizer: ?Isto de mulher sem homem é como peixe fóra de agua.? P?e papelotes todas as noites, e faz caracoes quando se ergue. Que quer isto dizer? Queres que eu lhe toque no casamento comtigo?

-Toca; que eu come?o hoje a fazer-lhe a c?rte.

Na tarde d'esse dia, passeava Monteiro, debaixo da parreira do seu quintal, pelo bra?o da viuva. As calhandras e os pintasilgos trilavam os seus requebros ás margens do rio Pele. As r?s coaxavam nas p??as, e as auras ciciavam na ramaria dos álamos. Era uma tarde de tirar amores do olho de uma couve lombarda.

Passeavam silenciosos, quando ao longe, no pinhal do mosteiro, cantou um cuco.

-Olhe o cuquinho a cantar!-disse ella com meiguice.

-Gosta de ouvir o cuco, sr.^a D. Tecla?-perguntou o cego.

-Eu gosto de toda a passarinhada-respondeu ella com as denguices infantis da Lili de Goethe.

-O cuco é passaro de máo agoiro!-tornou elle-Eu, com medo de tal ave, n?o quiz casar.

Tecla riu-se descompassadamente, provando que conhecia a línguagem symbolica da ave agoureira. E o cego, n'esta entreaberta de galhofa, beliscou-lhe a polpa do bra?o esquerdo.

-Ai!-exclamou ella-Isto que foi?!

-N?o se ria assim das fraquezas do proximo, Joanninha!-respondeu o cego, dando ao belisc?o o ar innocente de um gracejo familiar-Eu n?o quiz casar nunca porque o meu cora??o nunca sentíu ao perto nem ao longe a mulher digna d'elle. Cheguei aos cincoenta e dois annos, pode-se dizer, sem ouvir a este cora??o as palpita??es que estou agora ouvindo. é a primeira vez…-e estreitava-lhe o bra?o contra o lado esquerdo com umas press?es trémulas-é a primeira vez que amo; porque é esta a primeira vez que encontro a mulher, a esposa digna da minha ternura. Que me responde, Tecla? n?o me responde, prenda adorada?-instava elle sacudindo-lhe a m?o com transporte.

A viuva inclinou a face para o seio, deixou-se apertar com o indolente abandono de suas faculdades sensitivas, esteve impando como quem suspira a custo, e murmurou:

-De vagar se vai ao longe, sr. Monteiro.

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