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   Chapter 10 No.10

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 4575

Updated: 2017-12-04 00:03


Em 1858 o cego, escasso de posses, escorregava na ladeira da pobreza. Havia vendido ou hypothecado as terras. Perdera demandas valiosas: parece que em quasi todas influiu a sua má nota a desculpar a injusti?a. Duas quintas lhe foram extorquidas com t?o estranho desaf?ro, que é mister acceitar-se interven??o de jurisprudencia divina para que o homem as perdesse, pois é de crêr que as adquirisse com dinheiro deshonrado. Dizia elle que viera encontrar em Portugal especies de ladr?es fleugmaticos e frios, que n?o topara nos climas quentes; e que o larapio luso-brasileiro era francamente analphabeto e lerdo, ao passo que o ladr?o, extreme e puramente luso, era, por via de regra, além perverso, bacharel formado. Alludia a dois adversarios jurisconsultos que eu escondo á curiosidade do leitor, por que me sustém o pulso um quasi religioso respeito á memoria honesta de Paiva e Pona, e tambem de Pêgas.

Com as ultimas moedas, abriu Pinto Monteiro um botequim em Famalic?o, faz hoje dezesete annos. A villa, n'esse tempo, estava na apojadura das suas prosperidades. Choviam ali brazileiros que nem maná nos areaes da Mesopotamia. Dos paúes alagadi?os irrompiam casas de azulejos variegados. Villa Nova era o centro da locomo??o do Minho, da mercancia agricola, da villegiatura dos portuenses; mas n?o tinha o ?café?-a prova real da civilisa??o.

Pinto Monteiro contava com as leis do progresso; porém, Villa Nova que hoje, na extrema decadencia, tem tres ?cafés? com dois lim?es sorvados e tres garrafas de licor de canella, em tempos florentissimos n?o sustentou o botequim do cego em que havia cognac, cora?áo, chartreuse, kermann e absintho. é porque, ha dezesete annos, o progresso material desconhecia a precis?o dos ?cafés?, paragens d'uns ociosos que se putrificam, ra?a amollentada no sybaritismo da cerveja de quartola, com grandes orgias de cigarros de Xabregas.

O cego apenas vendia algum capilé aos vigarios encatarroados e orchatas aos adiposos. A ruina ia consummar-se e o botiquim fechar-se, quando chegou á villa, e se hospedou no hotel um brazileiro doente vindo do Rio com sua esposa. Pinto Monteiro conhecia de nome o enfermo.

Visitou-o e acompanhou-o nos desalentos da cachexia, animando-o ou distrahindo-o com a sua variada e jovial conversa??o. Alvino A

zevedo affei?oou-se-lhe a ponto de, chegado ao termo dos soffrimentos, lhe confiar sua mulher, pedindo-lhe que a protegesse e guiasse na administra??o dos seus haveres. A esposa do enfermo estava um pouco longe da idade em que as viuvas correm perigo, se as n?o vigiam: tinha setenta annos feitos, e já n?o conservava toda a frescura das suas dezoito primaveras nem os dentes completos. Os dons do espirito n?o eram transcendentes nem talvez bastantes para seduzirem outro marido: D. Joanna Tecla era idiota.

O cachetico expirou nos bra?os do cego, despedindo-se da esposa com uma olhadella cheia de saudades, e talvez de esperan?as no paraizo de Mafoma; em que as mulheres velhas remo?am. Ella chorou copiosamente, e declarou que aquelle morto era o terceiro marido que lhe fugia para o ceo. Elles tinham tido raz?o em fugir todos.

D. Tecla passou para casa do cego com todo o resguardo da sua pudicicia, acompanhada pela mana Neves.

Passados os tres dias de n?jo, perguntou-lhe Pinto Monteiro se queria voltar ao Brazil, sua patria, ou ficar em Portugal, recebendo os rendimentos dos seus predios no Rio. A viuva respondeu que a sua posi??o era muito melindrosa; que uma senhora n?o podia ir sósinha para t?o longe; que o mundo estava cheio de homens mal creados que mediam tudo pela mesma raza; que n?o queria sujeitar-se a algum desaguisado por essas terras de Christo; que em fim, n?o ia para o Brazil sem ter familia muito honesta com quem fosse.

-Mas ent?o, minha senhora;-redarguiu o cego-quer, entretanto que n?o vai, viver sósinha em Villa Nova, ou dá nos o prazer da sua companhia? Seu defunto esposo encarregou-me de a dirigir; eu, porém, o que farei é conformar-me com a vontade da senhora, que já tem sufficiente idade para saber o que lhe convem.

-N?o sei nada do mundo-acudiu Tecla-Estou muito verde. O senhor é que ha de guiar-me.

-Deus lhe dê melhor guia do que um cego, minha senhora;… mas ahi tem a minha mana que lhe será companheira e irm?.

No dia seguinte, Monteiro fechou o botiquim com um sorriso sarcastico, e o ar solemne e vingativo de quem fechava a porta que franqueára á civilisa??o de Villa Nova. Elle vociferou que os habitantes de Famalic?o eram indignos do ?Café?, deu volta á chave, e foi caminho de Landim com a hospeda e a irm?.

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