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   Chapter 8 No.8

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 7006

Updated: 2017-12-04 00:03


Os meus informadores, que mais privaram na intimidade de Pinto Monteiro, dizem que elle, no segundo regresso a Portugal, trouxera, além de secretario, dois filhos, que deixára no Porto a educar no collegio da Lapa, e uma filha ainda muito na fl?r da mocidade. Da m?e d'estes meninos, que pouco ha vivia ainda nos arrabaldes do Rio de Janeiro, n?o ha nada romanesco; mas bem póde ser que houvesse da parte d'ella um profundo sentimento de dó com muitissima abnega??o de si mesma; e no cora??o do cego com certeza houve extremoso amor de pai. Os tigres sempre tem, e os homens costumam ter ás vezes este sancto instincto de amarem os filhos.

Vinte e tantos contos prefaziam os haveres de Pinto Monteiro. Concluiu as obras principiadas, comprou terras, e dirigiu pelo tacto as bemfeitorias que fez no predio que habitava. Ha duas horas que eu estive a reparar, por cima do muro do jardim, na graciosa vivenda que elle enchera de luz como se um beijo do sol de agosto podesse descondensar a algida escurid?o de seus olhos. Ali passaram alegres dias os seus convivas sob os caramancheis das parreiras. O grande prazer de Monteiro era dar banquetes opiparos.

Ouvia lêr as Artes de cosinha, conhecia Brillat-Savarin, enchia-se do fino sentimento dos guisados; e, apontando a petuitaria aos vapores das cassarolas, marcava quando era sobejo o cravo ou escasso o colorau. Fazia pensar se a vista, voltando-se para o interior, penetrava nos refêgos membranaceos o ideal do estomago! Se um cego illustre deplorava o perdido paraiso, outro cego parecia tel-o encontrado na cosinha.

Elle, que na America posera o cauterio á ladroagem, á falsifica??o das notas e ao adulterio aggravado pelo homicidio, n?o sabia como amorda?ar a maledicencia dos seus conterraneos, se n?o occupando-lhes as linguas no trabalho da degluti??o. A cada injuria que lhe chegava aos ouvidos, mandava comprar dois leit?es.

-Mano Antonio, dizem que tu entregaste os ladr?es ao chefe da policia-dizia a menina Neves.

-Dizem? pois, visto que n?o os posso entregar a elles, compra um peru e dá-lh'o ámanh? com recheio.

-Mano Antonio, agora dizem que denunciaste os da moeda falsa.

-Compra anhos e cap?es; attasca essas linguas em podim de batata, embola-m'os com almondegas, deita-lhes aziar de ovos em fio, afoga-lhes os escrupulos em vinho de 1815, menina.

E, depois, tinha outra paix?o que o deliciava: arranjar casamentos.

Florecem hoje em Landim alguns cazaes de pessoas ditosas que elle ajoujou, vencendo estorvos á custa de engenhosas intrigas, e até de liberalidades de suas abatidas posses.

A filha de um cabaneiro, que se creava por sua casa, era o passa-tempo do cego. Chamava-se a Narciza do ?Bravo?,-alcunha paterna. Até aos treze annos andava vestida de rapaz, e media-se com os mais gaiatos a trepar á grimpa de um pinheiro, no assalto nocturno ás cerejeiras, em duellos á pedrada, no jogo do pao e no murro. Era virilmente bella, e bem feita; mas os meneios adquiridos nos trajos de rapaz desengra?avam-na vestida de mulher. Ella mesmo olhava para si com zanga e puxava a repell?es as saias esfrangalhando-se. Pinto Monteiro dava tento destes phrenesis, ria-se muito, e contava-lhe casos de mulheres portuguezas que batalharam incognitas, cobrindo os seios com arnez de ferro.

Estava no plano do cego cazal-a. Narciza dizia-lhe que n?o pensasse em tal, porque a primeira pirra?a que o marido lhe fizesse, favas contadas, esmurrava-lhe os focinhos. Este programma n?o assustou Pinto Monteiro, vist

o que os focinhos amea?ados eram os do marido.

A rapariga foi pretendida extra-matrimonialmente por varios devassos de Landim, S. Thryso, e terras circumjacentes. A virago tinha perrixil do que morde nas linguas já embotadas; mas tambem tinha m?os nervudas e uns dedos nodosos que se fechavam em forma de box, assim que os pimp?es lhe cantavam desafinados.

Um d'estes era um forte lavrador de Sequeir?, o Custodio da Carvalha. Apaixonou-se com a resistencia, e fallou-lhe serio em casamento. Narciza contou a passagem ao cego, que batia as palmas com vehemente jubilo, exclamando:

-ó mo?a, aproveita antes que o rapaz se arrependa! Olha que elle colhe trinta carros, e é um bonacheir?o… E que tal o achas de figura?

-Eu sei cá!…

-Tu gostas d'elle ou n?o gostas?

-Como se nunca nos vissemos.

-Ent?o, n?o o conhecias ha muito tempo já?

-Nunca o vi mais gordo.

-Mas queres cazar com elle ou n?o?

-Tanto se me dá como se me deu; mas o padrinho diga-lhe que, se se faz fino commigo, eu pinto ahi a manta, que elle n?o sabe de que freguezia é. Eu n?o ponho unhas em foicinha nem sachola, ouviu? N?o fui creada na lavoira. Se elle pega a mandar-me sachar milho ou cegar herva, temo'las armadas.

-Caza, que tu amansarás…-dizia o cego.

E cazou.

Monteiro deu-lhe magnifico enxoval, cord?o, caba?as, anneis, broche; vestiu-se de fino panno; foi padrinho do casamento, banqueteou os noivos com muitos convidados, chamou a musica de Paiva de Ruiv?es, e queimou dez duzias de bombas reaes.

O marido sentiu as fascina??es que enchem de delicias o inferno dos cora??es escravos. Ella manietou-o sem violencia de mau genio, com as suas caricias de gata que desembainha as unhas brincando. Folia rija! Romagens, quantas havia no Minho; festan?as com tres clarinetes e requinta todos os domingos na eira; a Cana verde e o Regadinho saltado pelas maiatas mais frandunas; brodios e vinho, fasta fora. Comprou egua de marca, vestiu-se de amazona, e ella ahi ia com o marido corcovado, somnambulo, a chotar na mula esparavonada atraz d'ella por essas feiras e romarias. ás vezes, se os moleiros n?o despejavam depressa os caminhos atravancados com os seus jumentos carregados de foles, verberava-os com o chicotinho, e chamava-lhes canalhas. Em quest?es com os visinhos, por causa de regas ou invas?es de gado, fazia amea?as sanguinarias. Carregava as espingardas do marido e atirava aos gaios com pontaria infallivel. Quando soube que as senhoras do Porto usavam collete e gravata á laia de homens, exultou, como quem vê triumphar a sua idéa, e quiz vestir cal??es e botas á Frederica.

O lavrador, já no cairel do abysmo, vendidas as melhores propriedades, quiz reagir. Viu que tinha pela frente um virago de fibras. Afroixou por medo e por amor. O pusillanime vergava ao prestigio da for?a. Narcisa offuscava-o com a rutilante belleza do demonio, disfar?ado na lendaria Dama Pé de Cabra, e n'outras damas que o leitor conhece com pés chinezes.

Dobados dez annos de vertiginosa dissipa??o, o lavrador resvalou do idiotismo á sepultura, amando ainda a mulher que vendera um len?ol para lhe comprar a ultima gallinha. E Narcisa, viuva aos vinte e oito annos, e ainda formosa, atirou com a honra ás goelas do drag?o da miseria, e n?o chorou uma lagrima.

Havia uma amiga que lhe dizia palavras dolorosas, com sincero dó: era a irm? do cego. Pobre Neves! quem te predisséra o supplicio dos teus derradeiros annos, ligada ao destino da mulher que tu crearas com maternal ternura!…

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