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   Chapter 5 No.5

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 10275

Updated: 2017-12-04 00:03


Reagiu ao desastre com peito de ferro. Menos rija alma ingolphara-se na espessura da sua treva. Elle n?o. Pediu ao inferno luz emprestada para entrar na vareda das suas victimas. Accendeu interiormente, no carcere do seu espirito, a lampada do odio. A vingan?a leval-o-hia pela m?o, como Malvina ao cego de Macpherson. Perdoa-me a compara??o, ó bardo caledonio!-que eu já vi Marat comparado a Jesus Christo.

Quando lhe deram alta na barra da enfermaria, pediu o seu viol?o, sahiu ás pra?as, preludiou e cantou umas trovas com arpejo triste, ás portas dos argentarios e dos taverneiros. As trovas faziam saudades da patria, e a musica gemia as toadas dos lunduns do Minho. Os ouvintes contemplavam-no com dó e davam-lhe esmolas avultadas para regressar a Portugal, ao ninho seu. Tinha elle um mo?o: era portuguez ilheu, alguns annos mais novo. Levara-o a doen?a, a podrid?o do vicio á mesma enfermaria; e a penuria e o instincto vincularam-no ao cego. Chamava-se Amaro Fayal; mas os que lhe conheciam as prendas corrompiam-lhe o appellido, e chamavam-lhe o Amaro Faiante. Pessoas escassas de caridade indulgente diziam que a maldade do cego e os olhos do mo?o completavam dois refinados maraus.

Pinto Monteiro trajava limpamente, banqueteava-se á propor??o, e dulcificava os confortos cazeiros com o amor de uma aventureira mal prosperada como tantas que o archipelago a?oriano exportava consignadas aos Cressos da rua do Ouvidor, que pachalisavam nas chacaras da Tejuca. Creara uma sociedade nova. Acercara de si toda a vadiagem suspeita, os ratoneiros já marcados com o stigma da senten?a, os mysteriosos, famintos sem occupa??o, negros e brancos, n?o topados ao acaso, mas inscriptos nos registros da policia, e afuroados pela sagacidade de Amaro Fayal. Tinha lido as Memorias de Vidocq,-o celebrado chefe de policia de Paris. Encantara-o a equidade do governo que elevara Vidocq, o ladr?o famoso, áquella magistratura: por que elle, por espa?o de vinte annos, exercitara o latrocinio e grangeara nas galés os amigos que depois entregava á grilheta.

Pinto Monteiro organisou a bohemia que, até áquelle anno, roubando sem methodo nem estatutos, exercitara a ladroeira d'um modo indigno de paiz em via de civilisa??o. Fez-se eleger presidente por unanimidade e nomeou seu secretario Amaro Fayal. Havia um proposito quasi heroico n'este feito, como logo veremos. Investido d'esta presidencia incompativel com as artes lyricas, depoz o viol?o, e, á semelhan?a do poeta latino, immudeceu os cantares, tacuit musa. Sentia-se no congresso uma alma nova, cheia de fomentos e apontada a rasgar horisontes dilatados.

Quem ouvisse discursar o presidente sociologicamente, ficaria em duvida se furtar era sciencia ou arte. Pinto Monteiro enxertava nas suas prelec??es sobre a propriedade umas vergonteas que depois enverdeceram com estylo melhor nas theorias de Cabet. Os malandrins mais intelligentes, depois que o ouviram, desfizeram-se de escrupulos incommodos, e entre si assentiram que n?o eram ladr?es, mas simplesmente desherdados pela sociedade madrasta, e victimas d'uma qualifica??o já obsoleta. A terminologia do livro 5.^o das Ordena??es em um paiz joven, exhuberante, e que tem o sabiá e o c?co, era uma anomalia.

D'esta arte organisada a quadrilha, sob a influencia auspiciosa de um cerebro pensante, os cidad?os eram roubados mais artisticamente; na empalma??o dos relogios conhecia-se que havia ideas de physica, de mechanica, de equilibrio, de dynamica e sciencias correlativas. Os alumnos da reforma parecia collaborarem no Manual do prestidigitador de Roret, e abandonavam como archaismo aos poderes publicos a Arte de furtar de quem quer que seja.

A sociedade prosperava a olhos vistos, posto que o prezidente n?o tivesse olho nenhum:-N'esta independencia dos org?os de rela??o prova a alma a sua immortalidade. Foi ent?o que Pinto Monteiro e o secretario, munidos dos livros de registo e de toda a escriptura??o, se apresentaram ao chefe da policia Fortunato de Brito.

Eis aqui a reputa??o de um homem sacrificada á extirpa??o do crime. Os

Codros e os Curcios, na restaura??o da moral publica, fazem isto.

O chefe da policia conveio nas propostas de Pinto Monteiro, que estatuira conservar-se na confidencia dos ladr?es e delatar a paragem dos roubos quando no descobril-os redundassem á policia creditos e interesses. O cego esclarecera Fortunato sobre a organisa??o do funccionalismo policial em Paris, ensinara-lhe alvitres ignorados, e promettia auxilial-o n'um ramo ainda mal cultivado no Brazil-a espionagem politica.

Surtiu os previstos resultados a perfidia. Os larapios mais soezes eram arrebanhados para a casa da correc??o; mas os ladravazes mais ladinos poupava-os o presidente para n?o perturbar de improviso o equililibrio do cosmos. é necessario que haja escandalos, diz o Evangelho.

Como agente secreto de policia recebia do cofre do estado; como chefe da ?Associa??o dos desherdados?, auferia o seu quinh?o do peculio commum, afora as forragens da presidencia, etc.

Este periodo da vida do cego durou cinco annos; as duas rendas sobejavam-lhe á fartura do passadio; principi

ou Monteiro a engrossar o peculio, quando a delator e agente ajuntou o estipendio de espi?o.

Voltando ás antigas camaradagens politicas, fallou nas sociedades secretas com exacerbada virulencia; e, victima do dispotismo militar, mostrava os olhos estoirados e ba?os com a dolente magestade do general Belizario, vencedor dos hunos.

Constou ao governo que Pinto Monteiro ousára pedir um Cromwell de quem elle cego fosse o Milton. A compara??o seria modesta, se n?o fosse sanguinaria. O governo brazileiro, com a subtileza propria dos cerebros formados com tapioca e ananaz, intendeu que o pesco?o do sr. D. Pedro II era amea?ado pelo cego com a tragedia de Carlos Stuart.

A Fortunato de Brito foi ordenado que vigiasse e processasse o sedicioso cego. Intala??o! O chefe de policia foi explicar ao seu ministro que os discursos de Pinto Monteiro eram boízes armadas a passaros bisnáos de mais alta volateria. O conflicto remediou-se prescindindo o espi?o da oratoria, e attendendo sómente a seguir o rastilho das revolu??es urdidas no Rio, para rebentarem nas provincias.

Como em meio de tanta lida ainda lhe sobrava tempo, Monteiro ensaiou por sua conta, e sem auxilio da malta, uma revers?o de propriedade, termos adquados á sua qualidade de desherdado.

Havia morrido um carroceiro quando, aven?ado com o cego, experimentava a sua fortuna em aventuras de moeda falsa, mandando abrir os cunhos no Porto.

A cidade da Virgem tem tido filhos de raro engenho na gravura; mas os seus concidad?os, desamoraveis com as gra?as do buril, crearam á volta d'elles uma atmosphera fria de desalento, e no pedestal em que os sonhadores, como Morghen e Bartolozzi, entreviram a gloria a offerecer-lhes umas sopas de vaca, o menospre?o publico poz-lhes a fome. Seria bonito para o martyrologio da arte que os honrados alumnos da Academia das bellas-artes se deixassem perecer de anemia; porém, as poderosas reac??es do estomago impulsaram-nos a acceitar o unico lavor que se lhes offerecia: abrir cunhos de moeda. Este ramo das artes imitativas floriu no Porto como planta indigena, a termos de haver ali trabalhos excellentes e muito em conta. Já se conheciam os gravadores portuenses como hoje se conhecem os capellistas da rua de Cedofeita:-o primeiro barateiro, o rei dos barateiros, o barateiro sem competidor. Faziam-se notas a 5% quando a arte estava no ber?o, ainda timorata; depois, á medida que a prosperidade das emprezas internacionaes augmentava o pedido, os bons artistas davam de m?o aos braz?es dos sinetes, ás chapas dos port?es e ás firmas dus anneis; e, rivalisando-se no primor e na barateza da obra, já davam um conto de notas falsas por dez mil reis sinceros.

Era este o pre?o da dezena de contos que o carroceiro mandara comprar por intermedio de Pinto Monteiro, e n?o chegara a receber, atalhado pela morte. Deixára, porém, segredado á viuva que se entendesse com o seu amigo Monteiro, quando lhe entregassem a encommenda.

N?o sei se estas notas eram parte de uns tresentos contos que por esse tempo sahiram do Porto para o Brazil dentro da imagem do Senhor dos Passos. N?o averiguei as profana??es que se deram n'essa remessa; o que sei é que a viuva avisou o cego; e que, no mesmo dia do aviso, o chefe da policia colhia de sobresalto a viuva, escondendo o rolo das notas entre o guarda-infante e a parte subjacente que ella julgava intangivel aos contactos brutos dos esbirros.

Levada a interrogatorios, foi pronunciada; mas, desde que ella entrou no carcere, Pinto Monteiro, consternado até ás lagrimas, assistiu-lhe com a mais desvelada bemqueren?a, constituindo-se seu procurador.

Esta mulher herdara a independencia. Gemeu em ferros seis annos cumprindo a cummuta??o d'uma senten?a que a condemnava a degredo para a Ilha de Fernando. Essa commuta??o custara-lhe o restante dos seus haveres, absorvidos pelo cego de Landim. Quando sahiu do carcere, e se viu roubada pelo amigo de seu marido, e reduzida a mendigar, denunciou ao chefe da policia a cumplicidade de Monteiro no negocio das notas. Fortunato de Brito conveio que o seu agente era infame maior da marca: mas fazia se mister que tivesse aquelle tamanho para dar pela barba á corpolencia da corrup??o. O cego de Landim gosava a inviolabilidade de mal necessario.

A extors?o feita á viuva divulgou-se e acerbou os antigos odios contra Pinto Monteiro. De mais a mais, elle tinha offendido o espirito dos estatutos, que eram obra sua. Os consocios acharam irregular e menos honesto que o seu presidente levasse o egoismo á extremidade de reivindicar só para si direitos de propriedade commum. Toda a propriedade alheia era d'elles todos, pelos modos. Alguns d'estes, mais penetrantes, incutiram no phalansterio a suspeita de que o chefe tivesse intelligencias com a policia. Um mulato de grandes brios, notavel capoeira, e muito summario nos processos d'aquella especie, fez lampejar o a?o da sua faca e declarou que ia anavalhar o redenho do cego.

Quando esta scena tumultuaria se passava na taverna do Jo?o Valverde, na rua do Catête, Pinto Monteiro e Amaro Fayal já estavam a bordo da galera Tentadora, que velejava para o Porto.

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