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   Chapter 4 No.4

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 2931

Updated: 2017-12-04 00:03


Nascera em Landim em 11 de dezembro de 1808.

1808! Os biographos portuguezes, se escrevem de pessoa nascida n'aquella data ou por perto, relatam-nos derramadamente a revolu??o franceza a come?ar em Luiz XVI, exhibem a guerra peninsular, e concluem o curso de historia moderna ligando fatidicamente á evolu??o social o nascimento d'aquelle sujeito.

No anno 1808, uma das muitas pessoas que nasceram sem pesarem um escropulo, pelo pezo velho, na balan?a dos lusos destinos, foi aquelle Antonio José Pinto Monteiro.

Seu pai barbeava em Landim com ferocidade impune. A espada de Affonso Henriques e as navalhas d'elle tem tradi??es sanguinarias. Ainda hoje, transcorridos setenta annos, os netos dos seus freguezes parece que herdaram a sensa??o dos gilvazes dos avós. Em Landim falla-se d'elle como de Torrequemada em Valhadolid. Aquelle barbeiro é uma lenda como a de Geri?o, assassinado por Hercules, e a do monstro de Rhodes cantado por Schiller.

Antonio, o primogenito d'este esfolador, estudou primeiras lettras com rara esperteza. Aos onze annos, era prodigio em taboada e bastardinho. Aos doze, imitava firmas com perfei??o despremiada, e vingava-se do menospre?o em que o estado o esquecia, estabelecendo correspondencias entre pessoas que n?o se correspondiam, mediante as quaes, uma vez por outra, agenciava alguns pintos.

Como talentos taes n?o se atabafam muito tempo debaixo do alqueire, o rapaz soffreu algumas contuz?es. Um monge benedicti

no de S. Tyrso compadeceu-se do mo?o, em t?o verdes annos perdido, á conta da sua habilidade funesta: pagou-lhe passagem para o Brazil, porque sabia que os ares de Sancta Cruz s?o como os do Eden para refazer innocentes.

Empregou-se como caixeiro no Rio. Foi estimado nos primeiros trez annos. Estremava-se dos seus broncos patricios no dom da palavra, nas lerias aos freguezes, nos ardis licitos do balc?o, nas ladroices consuetudinarias que affirmam a voca??o pronunciada, as quaes, no cal?o da optica mercantil, se chamam: ?lume no olho.? Nas horas feriadas, lia applicadamente e tangia viol?o. A sua especialidade litteraria era a eloquencia tribunicia. Estudara francez para ler Mirabeau e Danton. Enchera-se d'elles, e ensaiava republicas federalistas com os caixeiros, pedindo cabe?as de reis a uns pobres parvajolas que suspiravam apenas por cabe?as de gorazes.

Os patr?es n?o farejaram um acabado Robespierre no caixeiro; mas, como desconhecessem a vantagem da apotheose dos girondinos em uma loja de molhados, expulsaram-no como republicano.

Pinto Monteiro intrommetteu-se na politica brazileira, iniciou-se na ma?onaria em 1830, fez discursos vermelhos contra o imperador e escreveu clandestinamente. Esteve assim na fronteira do paiz promettido aos eternos Paturots. é indeterminavel o estad?o que elle ganharia, se um militar imperialista lhe n?o cortasse o rosto com um latego. Uma das tagantadas contundiu-lhe os olhos. Pinto Monteiro cegou.

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