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   Chapter 3 No.3

Novelas do Minho By Camilo Castelo Branco Characters: 4692

Updated: 2017-12-04 00:03


Foi ha treze annos, em uma tarde calmosa de agosto, neste mesmo escriptorio, e n'aquelle canapé, que o cego de Landim esteve sentado. S?o inolvidaveis as fei??es do homem. Tinha cincoenta e cinco annos, rijos como raros homens de vida contrariada se gabam aos quarenta. Resumbrava-lhe no semblante anafado a paz e a saude da consciencia. Tinha as espaduas largas: cabia-lhe muito ar no peito; cora??o e pulm?es aviventavam-se na amplid?o da pleura elastica. Envidra?ava as pupilas alvacentas com vidros esfumados, postos em grandes aros de ouro. Trajava de preto, a sobrecasaca abotoada, a cal?a justa, e a bota lustrosa; apertava na m?o esquerda as luvas amarrotadas e apoiava a direita no cast?o de prata de uma bengala.

Eu n?o o conhecia quando me deram um bilhete de visita com este nome-ANTONIO JOSé PINTO MONTEIRO.

Em S. Miguel de Seide, uma visita, que se fizesse preceder do seu cart?o, era a primeira.

-Quem é?-perguntei ao creado.

-é o cego de Landim.

-E esse cego quem é?

O interrogado, para me esclarecer superabundantemente, respondeu que era o CEGO, como se se tratasse de um cego por excellencia e de historica publicidade: Tobias, Homero, Milton, etc.

Mandei que o conduzissem ao meu escriptorio. Ouvi passos que subiam rapidos e seguros uns doze degráos: e, no patamar da escada, esta pergunta muito sacudida:

-á esquerda ou á direita?

-á esquerda-respondi, e fui recebel-o á entrada.

Estendeu-me firme dois dedos, e desfechou-me logo em estylo de presidente de camara municipal sertaneja ás pessoas reaes, uma allocu??o á minha immortalidade de romancista, lamentando que eu ainda n?o tivesse em Portugal uma estatua… equestre; parece-me que elle n?o disse estatua equestre. Achei-lhe ras?o. Eu tambem já tinha lamentado aquillo mesmo; porém, cumpria-me regeitar modestamente a estatua, como o duque de Coimbra, agradecendo a virginal lembran?a do sr. Pinto Monteiro.

-Tenho ouvido ler os seus livros immortaes-disse elle-N?o os leio porque sou cego.

-Completamente?-perguntei, parecendo-me incompossivel a cegueira absoluta com a seguran?a da sua agilidade nos movimentos.

-Completamente cego, ha trinta e trez annos. Na fl?r da idade, quando saudava as fl?res da minha vigesima segunda primavera, ceguei.

-E resignou-se…

-Se me resignei!… Morri de d?r, e resuscitei em trevas etern

as… O sol, nunca mais!

Pungia-me a compaix?o. Disse-lhe consola??es banaes; citei os mais luminosos cegos antigos e recentes. Nomeei-lhe o principe da lyra peninsular, Castilho, e elle atalhou:

-Castilho tem o genio que vê as coisas da terra e do ceu. Eu tenho as duas cegueiras do corpo e da alma.

Achei-o eloquentemente sobrio e áttico; figurou-se-me até litterato dos bons. Lembrei-me se elle vinha convidar-me para fundarmos um jornal em Landim, ou se viria pedir-me para o prop?r socio correspondente da academia real das sciencias.

Discretiamos de parte a parte em variados assumptos, até que elle explicou as suas preten??es. Tinha um litigio pendente sobre a posse disputada de umas azenhas que lhe haviam custado tres contos de réis, e pedia a minha valiosa preponderancia afim de que os juizes de segunda instancia lhe fizessem justi?a inteira.

Observei-lhe que a minha influencia poderia ser-lhe necessaria, se a justi?a estivesse da parte do seu contendor; por quanto, quem n?o tem justi?a é que pede.

-Apoiado!-interrompeu elle-A raz?o diz isso; mas acontece que o meu contendor pede porque n?o tem justi?a; ora n?o v?o os juizes cuidar que eu tenho mais confian?a na lei do que n'elles…

Pareceu me sagaz, argucioso e um pouco germanico o cego.

Deu-me quatro memoriaes, accendeu o terceiro charuto, e ergueu-se. Acompanhei-o até ao port?o, e vi-o cavalgar com garbo quasi marialva uma vistosa egua, passar as redeas falsas pelas outras com destreza, esporear e partir sósinho.

* * * * *

Ora, o cego perdeu a demanda das asenhas por que as asenhas n?o eram perfeitamente d'elle, e eu n?o podia pedir aos desembargadores que as tirassem ao dono e m'as dessem a mim para eu as dar ao cego.

Nunca mais o vi. Retirou-me a admira??o e mais a estatua. E, cinco annos depois, morreu.

A historia dos homens descommunaes deve come?ar a escrever-se á lampada do seu tumulo. á luz da vida tudo s?o miragens nas ac??es dos heroes e estrabismos na contempla??o dos panegyristas. é tempo de bosquejar o perfil d'este homem esquecido, e quem quizer que o tire a vulto em marmore mais presistente. Pretendo desmentir os aleivosos que reputam Portugal um alf?bre de lyricos, romancistas salobros de amoríos de aldeia, porque n?o temos personagens bastantemente succulentos de quem se espremam romances em 4 volumes.

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